Nuno de Figueiredo – do outro lado do espelho – Outubro de 1997

Texto de catálogo da exposição “regresso aos Açores” que teve lugar em Coimbra na Casa Municipal da Cultura, em Outubro de 1997, da autoria de Nuno de Figueiredo

Do outro lado de espelho

Costa Brites − o Pintor − fez a travessia. Como se houvesse uma ponte e do lado de lá a Cidade − também ela enigmática, despida, rectilínea, mas de praças e ruas, de telhados, varandas e frontões: de elementos concretos e palpáveis próprios de uma arte ingénita de construir. Agora, porém, estamos na outra margem.

Mas que sítio é este?

A verdade é que o Poeta – perdoem, eu disse poeta? – o Pintor com suas asas abertas ignorou a ponte, se metamorfoseou, se volatilizou quase, perdeu peso e gravidade, subiu: afinal, nem sequer optou pela outra margem, escolheu a via da pura ascensão. Sublimou as ideias e os conceitos, desvaneceu-se, tornou-se etéreo, perdeu tudo na rnassa corpórea para tudo ganhar em densidade interior — assim se afirmando, paradoxalmente, com força nunca antes alcançada, ao nosso olhar caviloso, sôfrego, mortal. Costa Brites agora vive do outro lado de espelhos, espreita-nos por janelas entreabertas, observa as nossas reacções no meio de figuras enigmáticas urdidas numa invenção quase delirante. O Artista afastou-se de nós, entregue ao vício da perfeição que só a solidão engendra e fortalece. Urna nesga, um furto num céu de cinza, um sopro de luz, uma superfície prateada (ou chumbo cego?), uma vela impossível, uma ave sem voo: que são esses percalços, esses tão reduzidos vestígios, esses restos de mitos que ele espalha como a lembrar-nos tempos de outrora, idos, perdidos?  Porém, freme de esperança o poeta/pintor: talvez nos convertamos através destes quadros febris em que tudo acontece se o soubermos ver — mas onde nada se nos sugere melhor que a depuração do homem, o despojamento do Artista pela busca de formas e sinais de uma simplicidade desarmante.

121 Tales de Mileto

Tales de Mileto embarcado na nave Soyuz, acrílico s/ tela s/ platex, Costa Brites, 1996

Costa Brites passou para o lado de lá?

Não. Costa Brites subiu, elevou-se. Uma fuga, quem sabe? Refugiou-se, isso é patente: paira agora num labiríntico céu de mil figuras hipotéticas, à mercê da nossa imaginação, busca o traço único, o rigor de uma essência, o vigor de uma evidência, uma palavra curta, só, certeira que transmita às mãos, às cores do pincel, à raiz dos olhos – capaz de significar o mundo e o fantástico/real dele. Sabe-se que não há. Mas Costa Brites ignora a razão, os limites, a fronteira entre o todo e o nada. .E prossegue lucidamente, alucinadamente, intransigentemente numa recusa de vias que não as suas — inconfundível, inqualificável. Que esperamos ao ver emergir estes quadros de Costa Brites? O milagre. A revelação. A concreção dos contrários, das lembranças e das sensações. E tudo o mais que o tempo nos permita — são quadros que dependem do tempo: é preciso anular a pressa para olhá-los. E florir sossego. É preciso içarmo-nos, as obras de Costa Brites não flutuam ao rés do solo, ocultam nas suas dobras de estrénuo e obstinado fascínio múltiplas leituras: em cinco minutos vê-se uma névoa, algum esboço de espaço, distingue-se as cores e as formas; em dez, atinge-se a dúvida sobre outra vida provável que tudo oculta; em meia hora surgem as ilhas encantadas; e, com mais vagar, aí estão os paraísos de Costa Brites, os belos prados verdejantes, os claros sinais do mar azul, os silêncios calmosos da noite, os brilhos dourados do Outono. Detrás de uma linha desenha-se um, mundo novo, detrás de um nódulo, de uma mancha, de uma insistência está um coelho com sua cartola, seu relógio mágico, e passamos, como Alice, para um reino de fantasia. Mas não infantil: há em Costa Brites fortes indícios de pavores liminares e escatológicos, de incertezas súbitas, de expectativas sem resposta, de convocações ao desastre iminente, à premunição de catástrofes sem nome.

Os quadros de Costa Brites são finalmente refúgio: abeiramo-nos, e este severo quotidiano apaga-se, esboroa-se, deixa de importunar-nos. Constituem-se, pois, veículo de redenção, também – como toda a verdadeira obra de arte. Freneticamente, sem sequer um sono continuado e pacífico (íamos jurar!), Costa Brites desenha e desenha, pinta e repinta — mas sobretudo sonha e reflecte, medita sobre a vida que vive e as outras d’aquém e d’além pintar. Entrega-se à obra sem que a obra se lhe entregue. Luta com ela e não sabe se a vence. E retoma-a, febril, num acto de verdadeira ascese afasta-se, isola-se – quem poderá segui-lo para além daquela janela (é janela?)? por detrás daquele espelho (é espelho?)? nas asas daqueles pássaros (são pássaros?)? viajando naquele barco (serão barcos?)?

163 p

E, depois, a estética. As formas, as cores. O recurso aos cinzentos, aos amarelos, aos pretos – são fontes de tristeza e desânimo? E as linhas direitas, que consolo nos transmitem? Que paz geram em nós? Tem de analisar-se. Tem de olhar-se o quadro numa parede isolado, em silêncio, sem a promiscuidade dos afazeres, sem o ritmo dos valores mercantis, sem os miasmas do consumo apressado. Tem de se deixá-lo falar com sua voz interior de metáfora. Que toda esta exposição de Costa Brites é uma metáfora alada. Ou, se preferirmos, uma alegoria: para nosso contentamento e definitiva motivação – nem ele saberá de quê.

Nuno de Figueiredo

Coimbra, quinta-feira, 24 de Julho de 1997

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