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"...navegar é solitário e cansa-se o navegante à medida do silêncio da esperança do mar do ardor da viagem não se cansa não" CB

Acerca da nobreza de antiguidade da louça de Coimbra, na perspectiva dos artistas

NOTA:
Este texto aparece aqui muito depois de ter sido escrito, e deveria ser revisto agora, à luz de uma visão das realidades talvez ainda menos animadora.
Neste Verão de 2016, passeando casualmente pela Baixa de Coimbra, por onde passo agora muito mais raramente, vi que numa série de montras de produtos para-turista-levar-de-lembrança, sem ter tido coragem de entrar para ver “melhor”, exibiam-se alguns exemplares obtusos de “uma coisa” vagamente alusiva à tradicional loiça de Coimbra.
Eram pequenos abortos de cor e feitio muito menos que exótico, revelando a um olhar perplexo as citações minimamente caracterizadoras dessa dita “loiça de Coimbra”.
Não sei se o conteúdo do texto que vem a seguir pode aplicar-se a esse fenómeno degenerativo que faz mal à vista e… arrefece a alma!…

Este texto mereceria, evidentemente, ilustrações condignas. Mas o autor, que na altura em que escreveu este texto, não alcançou a oportunidade mais favorável de ter podido publicá-lo com a devida dignidade, não tem agora o tempo livre para inserir tais ilustrações, que fazem imensa falta. As minhas desculpas. JCB

Este breve conjunto de impressões feito muito assumidamente “na perspectiva dos artistas”, é para chamar a atenção para um desses repositórios de interessante valia sentimental e não menor préstimo para o deleite dos sentidos que é a faiança artística de Coimbra, criada não se sabe bem há quantos anos.
A sua antiguidade e nobreza são plenamente referíveis à herança de séculos de uma mescla de culturas e da sensibilidade colectiva, pano de fundo do nosso carácter de nação ligada ao mundo e às suas sete partidas.

Presente há algum tempo num encontro de ceramistas activos na área de Condeixa, dizia-me um deles:

– Se não se faz qualquer coisa pela louça decorativa de Coimbra, já poucos anos faltam para que se perca – uma vez por todas – o vasto património da arte de pintar vasos, pratos, travessas, potes e canecas como nós fazemos. Agora as crianças estudam até mais tarde e os pais já não as mandam para a fábrica aprender a ser pintores de cerâmica, tarefa secular alimentada por salários de miséria que já ninguém deseja para os seus filhos. Quando esta geração de artífices morrer, não vai ficar ninguém capaz de manter viva ou sequer recordar esta arte do tempo dos avós dos nossos avós!…

Falando-se de louça de Coimbra, toda a gente parece saber exactamente do que se trata, embora seja um tema muito escassamente analisado naquilo que diz respeito à sua categoria de actividade produtiva, às suas determinantes histórico-simbólicas e a outras inerências de ordem objectiva e subjectiva.
Desfrutando de bastante simpatia, evidencia uma apreciável tenacidade produtiva, representando o país e os seus imaginários no contexto altamente concorrencial do mercado externo de produtos de artesanato decorativo.
A louça de Coimbra tem sido uma actividade generosa – quase na sua totalidade dirigida para a exportação – e talvez fosse possível demonstrar que, “per capita”, é um sector de rendimento bastante interessante por comparação com outras actividades económicas produtoras de riqueza.
O que se poderia obter com uma melhoria da atenção prestada a este fenómeno não interessa apenas a um reduzido núcleo de profissionais abnegados que têm conseguido produzir um trabalho útil, apesar de não disporem de apoios significativos: interessaria a toda a sociedade culta e poderia reforçar as qualidades de um sector que tem subsistido com bravura onde outros falham e fecham portas, apesar das vicissitudes de que só têm conhecimento os verdadeiros interessados…

A louça de Coimbra não é mais insigne, mais elegante ou refinadamente “pura” no elenco dos seus modelos e técnicas de construção porque tem sido deixada evoluir de forma desacompanhada, sem apoios culturais, classificação tipológica e horizontes de certificação ou evolução estética.

Os grandes centros das artes decorativas que viveram e prosperaram no mundo e que produziram matéria de admiração e prazer nunca dispensaram o desenvolvimento de centros de estudo, de coleccionadores especializados e de mecenas ilustrados que – na maioria das vezes – aproveitaram o esplendor dessas mesmas obras para ver acrescentado o seu próprio prestígio.
À louça de Coimbra, se ela não dispuser de nenhum desses elementos de estudo e valorização, poderá acontecer o mesmo que a tantas outras modalidades artísticas que passaram a ocupar a galeria das memórias perdidas, das quais pouco ou nada se sabe.
Ao procurar concretizar alguns dos propósitos acima enumerados, não deverá obviamente legislar-se a vontade da arte nem constranger-se a liberdade criativa de quem trabalha e sonha. O que pode – e deve – é criar-se cultura, elucidar os percursos trilhados desde o passado, das origens até aos melhores exemplos do trabalho entretanto conseguido.

Na prática deveria ser possível poder concretizar:

  • centros qualificados de venda onde, para além da coleção de peças que representem de forma genuína os melhores valores e qualidades plásticas da louça de Coimbra – com referentes históricos identificados – seja igualmente possível encontrar:
  • documentos informativos de diversas categorias, de acordo com os níveis de curiosidade intelectual de cada interessado, que esclareçam o fenómeno de forma adequada, conferindo-lhe prestígio e dignidade.

Tal propósito dificilmente se concretizará sem algum apoio oficial e terá que configurar a instalação de um Centro de Desenvolvimento da Cultura da Cerâmica Decorativa de Coimbra, vocacionado para o estudo e desenvolvimento deste sector em particular. Tal instituição deveria cobrir uma determinada área, um determinado conjunto de profissionais e de empresas e tudo o que pudesse ordenar e valorizar a memória cultural que define a natureza profunda e as remotas origens desse fenómeno. Numa palavra, instituir e defender isso que chamo no título deste trabalho “a nobreza de antiguidade da louça de Coimbra”.

Esse trabalho nunca foi feito e faz imensa falta.

A Louça de Coimbra:

Uma sensibilidade espartilhada entre a indiferença da “sociedade culta” e a ditadura do intermediário…

A abordagem produtiva tem sido voluntarista e desconexa, com diversidade de resultados, essencialmente sujeita às condições de interpretação do artífice e, em última análise, à lógica do intermediário, geralmente um comerciante que tem ao seu alcance uma clientela estrangeira e que avalia os objectos no imediatismo da sua vendibilidade.

As peças preferidas são as que sabem captar o primeiro golpe do olhar, a adesão simpática do comprador, referindo ainda quem sabe que, nos anos mais recentes, é também motivo de preferência a apresentação de obra com aparência de certa “perfeição” técnica, o que afasta de consideração os argumentos inicialmente mais coerentes com a “popularidade” artesanal e respectivos acidentes.
Os artífices produtores, cada um com a respectiva dose de capacidade de leitura dos modelos a que tem acesso e com um sentimento particular do que “deve ser” a sua interpretação dos mesmos,  têm a percepção dessas contradições e insistem no facto de que não estamos perante uma produção de peças destinadas a igualar ou a concorrer com o requinte da porcelana.
Do que se trata aqui é do objecto decorativo de faiança, de cujas origens tradicionais fazem parte recursos modestos marcados pela intuição, ostentando como principal factor de comunicabilidade a sua singela espontaneidade, que tem servido para legitimar outras modalidades de criação artística como é, por exemplo, o azulejo pintado à mão.
A “louça de Coimbra”, no domínio de tais argumentos, foi sendo capaz de captar as atenções ao primeiro golpe de vista do viajante interessado e é por isso que se mantém viva, à tona de um processo concorrencial que nada deve a esforços de organização artística e cultural, infelizmente.
A esse fenómeno criativo conviria a cumplicidade do comprador culto, informado, capaz de escolher em termos de uma certa autenticidade e gosto, dando prioridade à naturalidade espontânea, à singeleza de processos, à antiguidade de certas referências históricas, ao acidente artesanal, etc.
A louça de Coimbra, porém, não tem conseguido ganhar espaço na consideração dos apreciadores mais cultos, receosos de consagrarem algo menos legitimamente histórico ou menos legitimamente estético.

A louça de Coimbra não beneficiou dos favores dos coleccionadores mais credenciados, porventura por ser uma produção quase industrial dirigida ao negócio turístico, incompatível com a noção da raridade, do selecto e dos exóticos requintes que favorecem as altas cotações.
Está por isso escassamente presente nos lotes de leilões de produtos artísticos, e raramente ilustrada em obras gráficas de papel de luxo, etc.

Até em Coimbra, numa recente realização com categorização museológica e contributo de altas individualidades académicas a louça que dessa cidade se chama não conquistou no decurso de tempo a que a própria realização contempla (de século XVI ao século XX) a menção de uma única linha, de uma única palavra dita, de nenhuma imagem publicada!

Eu sei que a arte de ver as coisas depende da capacidade (e naturalmente da vontade) de as entender. Já tenho mais dificuldade em compreender o desígnio de ocultar deliberadamente algo que, se existe no campo das realidades palpáveis, mereceria – no caso de ser despiciendo ou medíocre – a correspondente apreciação crítica reprobatória. O silêncio puro e simples corresponde, como atitude intelectual, à incapacidade de ver ou à comodidade displicente de não tomar posição.
Suponho que se a cerâmica decorativa de Coimbra tivesse nascido em Itália ou em Espanha já teria tido a atenção e a procura que aqui lhe falta e que poderia ter entretanto atingido resultados e um nível de dignificação compatível com as qualidades que – apesar da adversidade – tem conseguido manter vivas.
Não posso deixar de mencionar neste ponto das minhas impressões um facto verdadeiramente lamentável de todo o processo em questão, que é aquele que deriva do espartilho de exploração oportunista a que são sujeitos os artífices.
Tirando partido de uma posição estratégia que neste caso é todo-poderosa, os intermediários compram o que melhor entendem, quando e como entendem e pagam… quando melhor lhes convém!
Os efeitos perversos desta situação estendem-se, naturalmente, a questões de concepção e de gosto, estando os trabalhadores da faiança na mão dos intermediários em mais do que um sentido, que é a posição mais desconfortável que é possível.

A louça de Coimbra, no domínio de tais argumentos, foi sendo capaz de travar com êxito a batalha que acima se descreve e é por isso que se mantém viva, à tona de um processo concorrencial que nada deve a esforços de organização artística e cultural, infelizmente.

Seria desejável mediante a valorização cultural do produto artístico alargar  o mercado em direcção ao comprador culto, informado, capaz de escolher em termos de uma certa autenticidade e gosto.

Era neste aspecto da questão que o estabelecimento de centros qualificados de venda, sob os auspícios de entidades responsáveis – libertos do oportunismo sem critérios dos intermediários – poderia desempenhar uma função da maior importância, conferindo à louça o sentido de cotação que lhe tem faltado, num contexto de dignificação cultural indispensável.

No contexto português, apetece a este respeito citar o caso exemplar da louça da Vista Alegre, de há longos anos rodeada de um clima de dignidade cultural excelente, que lhe tem conferido todo o prestígio de que desfruta. Com todas as diferenças inerentes aos universos respectivos, deveria ser possível desenvolver em torno da Louça de Coimbra um trabalho que lhe desse o mesmo tipo de apoio.

 O caso exemplar das altas cotações da pesada louça dos ceifeiros pobres

A atitude industrial dos leilões de antiguidades é compreensível. As peças que transaccionam têm de estar sujeitas a uma forte pressão especulativa para que dêem lucro. Nessas circunstâncias o melhor artista é o artista anónimo ou morto.
O número de peças que o mercado pode transaccionar está definitivamente encerrado e o seu valor trepa subitamente para níveis que teriam sido impensáveis antes, enquanto o criador estava vivo.
Há um caso enquadrável neste esquema, que considero exemplar:

Refiro-me à questão da “louça ratinha”, produto que foi inventado em tempos não muito remotos para satisfazer necessidades elementares de trabalhadores do mais humilde e do mais desprovido que havia no seio da sociedade portuguesa: aqueles que emigravam de vários lugares do país para as campinas alentejanas, onde os esperava um trabalho doloroso em condições de dureza incompreensíveis para a generalidade dos privilegiados coleccionadores das pesadas e toscas palanganas, que por acaso – ou sem ser por acaso – eram fabricadas em Coimbra.

Ninguém ligava muita importância a tais pratalhões, tendo o escritor José Régio e seu irmão Júlio Reis Pereira (o pintor Júlio), com invulgar “capacidade de ver” reunido uma colecção, colocando-os em exposição na notabilíssima Casa-Museu que foi residência do poeta[1].

De notar que entretanto se extinguiu o sistema de trabalho semiescravo a que estavam sujeitos os utilizadores de tal louça, a qual era transportada debaixo do braço em número de uma unidade por cada grupo, da qual se serviam ao fim do dia em cima de uma trempe, as costas doridas e dobradas sobre um prato só, do qual todos tomavam o modesto sustento.
Mortos os utilizadores e os clientes de tal produto, fechadas as portas das oficinas produtoras da “louça ratinha” (porque inteiramente indesejável no actual estado do mercado consumista), mágico se tornou o pitoresco encanto da mesma, ganhando espaço de negócio pela espiral de preços envolvidos.
Uma breve pesquisa na internet deu-me a conhecer que, já há tempos, um desses pratos – que no seu tempo deve ter custado alguns tostões – terá sido transaccionado por mil e quinhentos euros, o que fatalmente foi considerado um belíssimo negócio.
Não tenho grandes dúvidas de que – mortos todos os atuais produtores de louça de Coimbra – irá surgir “espontaneamente” um surto de “interesse” pela mesma, fazendo com que velhos exemplares restantes de um elenco de raridades esquecidas venha a granjear considerandos, análises monográficas e eventuais teses de doutoramento editadas em papel “couché”, com boas reproduções fotográficas.

[1] «Os Ratinhos. Faiança Popular de Coimbra», Museu do Azulejo – in EXPRESSO Cartaz de 31-1-98 (ref.Alexandre Pomar).

Carlos Faria e eu

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A publicação desta texto na altura em que foi concebido foi acicatada pela tremenda ansiedade, mais do que de dá-lo à leitura, de escrevê-lo. O meu amigo Carlos Faria havia falecido há pouco e os sentimentos de amizade e admiração que me haviam aproximado dele no fim dos anos sessenta fizeram que, com a cumplicidade de seu filho Carlos Nuno Faria, num ápice, tenha confeccionado uma autêntica plataforma de evocação e de reencontro com o nosso grande amigo, com várias páginas. Fujo aqui, como é evidente, às palavras pesadas da consagração sacramental que o próprio Carlos Faria evidentemente dispensaria.
Escrevi tudo de um folgo e publiquei logo em Janeiro de 2010.

Costa Brites

A passagem do tempo foi solicitando uma revisão do que foi inicialmente escrito, valorizando o conteúdo na medida do possível com o recurso a documentos vários que fui pesquisando e lendo. Não vou tirar a este trabalho o carácter de uma abordagem subjectiva e, como não estou matriculado em mestrado nem tenho tese para defender, irei fazendo as referências que me forem vindo à memória e melhor se enquadrem na minha sensibilidade, dando um depoimento animado pelo profunda consideração e amizade que me ligou ao Carlos Faria, ao Rogério Silva e ainda a outras figuras muitíssimo valiosas para a cultura dos Açores que tive o elevadíssimo privilégio de conhecer.
Carlos Faria, terei que dizê-lo em primeiro lugar, foi uma pessoa muito importante para mim pelo impulso inicial em direcção ao exercício das artes e da intervenção crítica, sobretudo pelo jornalismo cultural, que configuraram minha maneira de me relacionar com o mundo e ilustrar a vida. Já antes de ir para os Açores e desde a adolescência que escrevera para jornais. Noa Açores colaborei com vários periódicos, incluindo “A União” e no próprio suplemento Glacial de que aqui irei falar também, por ter sido uma das mais fortes áreas de actividade artística e cultural de Carlos Faria no arquipélago.

Nota: estes textos de memórias já foram publicado há muito. A data que está referida por WordPress foi colocada por mim, só para ordenar os dois artigos em sequência; este – o mais antigo e O GLACIAL TODO, logo depois, publicado muito recentemente.

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As fantasmagorias da guerra, desenhados a nanquim, aguarelas e marcadores; desenho de 1971, plenamente integrado no espírito Gávea, pelo menos no que me tocou a mim. Observo paralelamente que a temática aqui abordada mantém a sua actualidade, milhares de anos e milhões de vítimas depois!…

Leiria, o começo

(em casa de Augusto Mota)

Não estou bem certo de qual foi a data em que primeiro conheci e conversei com Carlos Patrício Barata Faria (um nome que dizia detestar, acrescentando muitas vezes, com a sua imensa graça que tinha um nome no condicional!…). Mas foi certamente entre 1967 e 1968.
O nosso encontro deu-se em casa dos meus amigos Margarida e Augusto Mota e o Carlos tinha ido a Leiria (qualquer coisa de camaradagens de teatro que além da peça que fomos ver envolvia um convívio que se relacionava com o actor e encenador Quiné, das Caldas da Rainha, que residia em Leiria).
O convívio com o Carlos teve aquele carácter das coisas que se deixam para contar mais tarde e que transportam consigo odor de entusiasmo, filho legítimo do gosto de viver. O episódio deu para saborear a alegria vital que marcava a fundo o carácter do convidado dos meus amigos na sua casa da Avenida dos Combatentes, em Leiria.

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Eu e Maria da Conceição, a noiva que cá deixei na condição de vir ter comigo aos Açores, em Agosto de 1968. Só esperou um mês, se bem me lembro. Cinquenta anos depois e muitos trabalhos passados, ainda namoramos…

Partida para os Açores

Tendo eu os meus vinte e seis anos já há muito tempo que trabalhava e, por voltas que a vida dá, vi-me um dia a embarcar para os Açores num vapor daqueles a sério, para ir começar uma coisa que não me entusiasmava nada: ser funcionário do Banco de Portugal em Ponta Delgada. Quando subia as escadas do portaló – oh! deuses da casualidade – lá estava o Carlos Faria também a embarcar no mesmo navio (o Angra, ou “João dos ovos”, como era alcunhado pela gente das Ilhas!…)
Com passagem pelo Funchal a viagem penso ter durado entre três e quatro dias e, nas primeiras horas de navegação não me atrevi a ir ter com aquele precário conhecido de um serão de entusiasmos e surpresas inauditas.
Quando por fim me decidi a falar-lhe quase me ralhou por ter hesitado, ele, que nem sequer me reconhecera. Estava, sem saber, a traçar directivas de vida que iriam durar muito, pela força de coisas inexplicáveis.
Permaneci quase três anos em Ponta Delgada, para onde casara de fresco com a minha companheira de todo o sempre, Maria da Conceição.
As visitas de Carlos Faria passaram a ser durante a nossa estadia ali um hábito normal, cheio dos entusiasmos que fazem da amizade o que ela é, ou seja, um combustível que ajuda a manter vivas as pessoas no verdadeiro sentido do termo.
Posso afirmar que sempre gostou de nós – e não era parco em dizê-lo. Obsequivamo-lo o melhor que podíamos e de forma tão íntima que se movimentava na nossa cozinha com o mesmo à-vontade com que noutras situações do convívio e da amizade, colaborando activa e alegremente na culinária, comendo à mesa mesmo ali, sem termos de pôr a mesa com cerimónia, na sala. O apetite de Carlos era esplêndido e correspondia ao perfil de um levantador de pesos e halteres. Dos belíssimos lacticínios açorianos, comprávamos directamente da fábrica um queijo delicioso. À sobremesa eu olhava e o Carlos comia… um queijo Serrano inteiro!…
Não houve vez nenhuma que nos visitasse que não trouxesse consigo uma qualquer lembrança, por mais simples, para oferecer à São, minha mulher. A convivência comigo jogava noutra divisão e incluía uma série indescritível de novidades no meu viver que me talharam naquilo que eu passei a ser desde esse momento.

Um desenho meu originalmente a nanquim e Flo-Master, feito no regresso dos Açores e datado mais tarde só para figurar numa exposição em Leiria

Um desenho meu originalmente a nanquim e Flo-Master, feito no regresso dos Açores e datado mais tarde só para figurar numa exposição em Leiria

Em termos de trabalho eu vinha do Continente cansado de uma vida tremendamente trabalhosa e cheia de sensações fortes; depois de um Curso Geral de Comércio e de um sétimo ano tirado a trabalhar em Leiria e de um tremendo serviço militar que durou trinta e seis meses, tive talentos que me guindaram à categoria profissional de guia-intérprete de turismo, tradutor e correspondente em línguas estrangeiras.
Entrar para o Banco, com horário fixo das 10 horas (em que nesse tempo abriam os bancos!…) e saída às seis da tarde, senti-me como se estivesse em verdadeiro gozo de férias. Umas extravagantes duas horas para almoço davam para tudo, até para ir à “piscina do calhau”, um lugar onde me encontrei muitas vezes e tomei banho no mar com o Carlos Faria, Tomaz Vieira e outros amigos a que o Carlos lestamente me ia apresentando.

Carlos Faria, um caso de vitalidade desbordante

A minha ida para os Açores trouxe-me um seriíssimo problema de saúde pelo estímulo excessivo do clima do alto mar. Durante o meu tempo de Açores dispus, por isso, de uma espécie de “alter ego” com características diferentes das que me são próprias e muito mais energia disponível. O pior foram as consequências que disso retirei depois de ter regressado ao continente.
Julgo que com Carlos Faria isso também acontecia, embora nunca chegasse, com o organismo que possuía, a experimentar o desgaste subsequente. Muitos foram os comentário feitos à imensa disponibilidade energética que lhe transmitiam as suas idas aos Açores. Desde logo, como todas as pessoas muito fortes, não compreendia o queixume dos mais débeis, que era o meu caso.
– Eh pá, para queimar o meu excesso de energias era capaz de andar aí a subir e a descer escadas com um saco de cinquenta Kg em cada mão!…
Carlos Faria andava perto dos 100 Kg quando o conheci e eu nunca chegava aos 60.
Essa vitalidade conferia-lhe, além de disponibilidade para as mais diversas actividades, uma atitude energética que transbordava vigor, alegria e entusiasmo. O Carlos Faria era dos que “levava tudo à frente”, tinha sempre ideias, estava sempre alegremente disposto e os tempos de estadia nos Açores, que tinham a duração de poucos dias, davam-lhe tempo de sobra para fazer tudo o que mais lhe agradava.
Julgo que a brevidade das suas estadias também ajudavam a entender isso que chamo “alter-ego” prodigioso e entusiástico.
Se o Carlos Faria tivesse que viver continuamente nos Açores tudo iria ser diferente, porque ficava a faltar-lhe o estímulo da viagem, das chegadas e partidas e esse sentimento prodigioso de alguém que está sempre em movimento, em devir mágico, em carga máxima de novidade e sensação, que não se cansa porque goza do reforço da rapidez e do inesperado.
Ir à piscina, serões prolongados, concertos no Teatro Micaelense, passeios a pé por Ponta Delgada chovesse ou fizesse sol, enfim.

Banco de jardim no campo de São Francisco onde se suicidou Antero de Quental e túmulo no cemitério de Ponta Delgada (Imagens vistas em http://asilhasencantadas.blogspot.pt/ )

Banco de jardim no campo de São Francisco onde se suicidou Antero de Quental e túmulo no cemitério de Ponta Delgada ( mosaico composto de imagens vistas em http://asilhasencantadas.blogspot.pt/ )

Numa tarde de chuva lembro-me de ter andado por Ponta Delgada, com ele e o Dias de Melo, a toque de caixa, em romagem de saudade pelos lugares registados da memória de Antero. O local onde se suicidou, no campo de São Francisco, num banco assinalado por cima com uma âncora, e o túmulo no cemitério, um pouco mais acima seguindo pela Rua Coronel Silva Leal. Não, não me recordava nada deste nome e não seria capaz de fazer esta menção se não fossem os novos recursos da internet.
Carlos Faria dinamizava sempre vivências, procurando geralmente o contacto com pessoas ligadas à cultura e às artes. Passávamos por casa do escritor Armando Cortes-Rodrigues, visitávamos o poeta Jacinto Soares de Albergaria e outras notabilidades culturais de Ponta Delgada entre as quais a mais destacada era sempre o escultor Canto da Maia. Sempre que passávamos pelo Museu Soares Machado era obrigatório entrar e falar com alguém.
Como detestava andar sozinho e apreciava a minha disponibilidade, quando estava em Ponta Delgada encontrávamo-nos sempre.
Como eu não era pessoa de destaque e os meus curricula estavam todos na hora zero, umas vezes apresentava-me como pintor, outras vezes como jornalista. Dependia do interlocutor ou da inspiração momentânea…
Com o Carlos Faria, aliás, aconteciam sempre coisas… Um serão depois de jantar num restaurante da cidade iniciámos conversa com o próprio cônsul do Canadá, que devia estar temporariamente só na sua belíssima casa perto da Praça de Ponta Delgada e nos obsequiou com bebidas, conversas sobre o largo mundo e viagens. Quando detalhou as nossas ocupações O Carlos disparou muito prontamente “…my friend writes novels…”, tendo eu que fazer certo esforço para manter a naturalidade.

Os pseudónimos qualitativos de Carlos Faria

Nesse tempo o Carlos reservava para si uma série de qualificativos que chegava para uma tribo completa de intelectuais alucinados. Poeta pânico e vendedor de drogas, marinheiro bêbado e anarquista, agitador pânico-cultural, décimo primeiro secretário do PPM, por exemplo, entre variedade de outras que agora não me vêm à memória.
Esse pânico derivava de uma paixão poético-política pela obra de Fernando Arrabal, cujas frases repetia por aqui e por ali, usando da fresca memória de que se valia o seu enorme gosto por intervir publicamente em eventos culturais. A certa altura do discurso lá saltava uma citação ao vivo, uma poesia decorada e entoada a preceito, algo que geralmente coroava de vibração as palavras sentidas.

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Usava papel de carta especificamente preparado numa tipografia em papel de cor pânica, magenta carregado, com a palavra “pânico” repetida de cima abaixo do lado esquerdo da folha, nas quais inscreveu alguns poemas que me dedicou, tendo assinado com mais um dos seus “pseudónimos qualificativos” que não deixa margem para dúvidas: “Karlos Faria, cabrão de fogo”, assinado de S. Jorge, mas oferecido num fim de tarde emocionante de deambulações por Ponta Delgada. Já na residencial onde pernoitava, em voz audível, invectivava a mediocridade reinante repetindo que “isto só vai à bomba” e “Portugal é uma nódoa que só sai com ácido”!…
Recém chegado de um país onde estas coisas só se diziam aos amigos bem conhecidos e em voz baixa, podia ter tido receio e desconfiar até daquilo que costumava ser uma prática de provocadores e gentalha que tentava “fazer a folha” a novatos ou incautos.
Mas não, cedo me certifiquei que estas frases tonitruantes, no Carlos Faria, nunca passavam de uma retórica e impossível violência. Era muito cuidadoso, propagandista e praticante da “condução defensiva” e as suas provocações não passavam de alegres bandeirolas festivas suspensas na praça do entendimento crítico.
A propósito de se intitular o 11º secretário do PPM, ocorre-me citar o seu percurso de ideologia política, aparentemente contraditório mas perfeitamente compatível com a imaginação poética que levava sempre a melhor sobre todas as suas coisas.
Numa das suas visitas a Coimbra, muito mais tarde, contou-nos no seu tom habitual que fora participar num congresso do PPM. Um dos pontos altos da sua presença tinha sido o momento em que inscrevera em letras garrafais no placard onde as pessoas registavam as suas impressões: ABAIXO O PPM!..
O seu entusiasmo por certas ideias ficava-se sempre pela leitura mesclada de sentimento poético, nada mais. A opção pela monarquia passava por uma defesa da “nobreza do sangue”, da dignidade cultural e da tradição de altas virtudes, apenas tolerável para ele se lhe fosse possível ir a um Congresso mandar abaixo o partido propriamente dito!..

Lorca e outras Espanhas

Federico Garcia Lorca era um de muitos poetas e artistas que pertenciam à colecção de textos decorados de Carlos Faria.
Não vou conseguir referir por palavras ditas o manancial de marcos que estão colocados no meu caminho e que passei a passo lesto, lado a lado com Carlos Faria. A minha memória está para a de Carlos Faria na proporção directa das nossas estaturas físicas: ele um Hércules Viking nascido na Golegã e filho de um campino e eu um trinca-espinhas que demorei sessenta anos para passar dos sessenta quilos. Uma outra insignificância que nos diferenciava era de eu ser menino de copo de leite e ele campeão nacional de pesos e halteres (ignoro completamente em que categoria). Mas, à fé de quem sou, marcava-me tão a fogo aquela agilidade de citar de memória certos escritos e fraseados, que coloquei na mesinha de cabeceira das minhas mais ansiadas pretensões saber também coisas de cor para dizer se fosse preciso.
Comprei o “Romancero gitano” de Lorca, coisas de Natália Correia, Camões, além de outras…Roubei algum tempo à pintura na (tentativa de) emulação dessa risonha mas compenetrada vaidade poética de Carlos de coroar de flores os momentos solenes de discurso público ou privado, fosse à mesa ou numa sala de exposições!…
Não posso dizer que tenha sido em vão, mas para lá caminha. A minha retentiva é curta como a espessura dos meus bíceps envergonhadamente esquálidos.

Martin Vincente Lezaola

Don Martin foi outra das muitas pessoas que me apresentou Carlos Faria e, invariavelmente, sempre se juntava a nós no convívio saborosamente urbano dessa terra de sol e chuva que é Ponta Delgada.
Trabalhei no Banco de Portugal em várias coisas de que não vale a pena falar. Nas Informações de clientes havia um caso que tenho pena não ter fotocopiado (nesse tempo, algo da ficção científica) a ficha de um residente em Ponta Delgada que era cidadão Basco, com marca registada e coração escaldante.
Tinha sido capitão no exército vermelho da República, fugira exilado para o México e, sei lá bem como, desembarcou um dia em São Miguel, Açores, onde vivia à espera dos seus últimos dias.
Voltando à célebre ficha de informação de cliente rezava assim: Martin Vincente Lezaola, cidadão tal assim assim; classificação estatística: “proprietário e capitalista”.
Na primeira linha da primeira informação (um autêntico segredo de Polichinelo) estava escrito, a vermelho: “É comunista”!…
Usava boina Basca como manda a tradição e trazia de baixo do braço, como uma bíblia, um exemplar de “El Ingenioso Hidalgo Don Quijote de La Mancha”.
Em menino, quando dormia a sesta infantil, usava minha extremosa Mãe ler-me capítulo após capítulo uma versão de que me não recordo da obra de Cervantes, do que ela chamava com certo orgulho e sentido de tutela pedagógica: “O Dom Quixote”!… Eu tinha medo, condoía-me com os desastres do fidalgo desastrado e… ria-me imenso com as passagens “alegres”, até que o anjo do sono cerrava as minhas pálpebras cansadas de sonhar!…
O Dom Quixote do Señor Don Martin e do Carlos Faria não era o mesmo que me tinha visitado em criança…
Talvez porque eu entretanto já fora inoculado com uma série de imaginários que coleccionara pelo caminho, entre a edição em Francês com ilustrações de Gustave Doré e a sumptuosa solenidade cinematográfica de um dos raros, senão o único filme feito na Rússia soviética que furou os bloqueios da censura fascistóide do regime, o Dom Quixote de Gregori Kosintsev, de 1957.
Um belo Domingo de manhã abençoado pelo caprichoso sol da Macaronésia cruzei-me com o Señor Don Martin, que trazia debaixo do braço o seu indispensável livro de capa negra: “El Ingenioso Hidalgo Don Quijote de La Mancha”. Para espanto e orgulho da minha alma ofereceu-mo por empréstimo, para que o lesse.
Tive medo, condoí-me com os desastres do fidalgo desastrado e… ri-me imenso com as passagens “alegres”, tal como numa cama de sesta infantil de que bem me recordo, ao calor estival de Leiria, na “Rua do Largo de Camões”, mesmo ao lado do Liceu.

Rogério Silva

A figura de Rogério Silva não podia faltar a esta série de narrativas entrelaçadas. Carlos Faria também era “contrabandista” de obras de arte entre o continente e as Ilhas de Baixo, principalmente.
O Rogério Silva era um compenetrado maníaco da expansão do encantado mundo das artes. Juntos formavam uma dupla sem igual que, sem subsídios de ninguém, pouquíssimos apoios jornalísticos e não poucas invejas paroquial-insulares, conseguiram por esses anos transformar a cidade de Angra do Heroísmo numa coisa fora de todas as congeminações possíveis do nosso pequeno mundo: Angra do Heroísmo, a segunda cidade no país na promoção das artes plásticas!…
Ninguém vai tirar a limpo esta asserção, que era feita à boca cheia pelo Carlos Faria, mas também a convicção entusiástica de ser verdade autêntica não é menor por isso.

1998 Velas – Encontro de Escritores – adro da igreja. Artur Goulart, Carlos Faria, Eduardo Bettencourt Pinto, Vamberto Freitas e Maria Aurora Homem

A”Gávea” – galeria açoriana de arte não comercial, função didática e cultural

Esse “célebre contrabando” processava-se mais ou menos assim: Carlos Faria, frequentador de tudo quanto era convívio e acontecimento artístico cultural no Continente, falava com as pessoas e dispensava-lhe aquela desvelada atenção de que carece todo e qualquer artista. Fazia depois um amável cerco de entusiasmo a cada um desses mesmos artistas e, na própria sala da galeria ou na confidencialidade do atelier “apropriava-se” por empréstimo magnânimo, de uma pastola de trabalhos, estudos, projectos ou telas engradadas.
Passadas essas coisas à tolerância dos frequentes “check-ins” e entradas e saídas em vapores ) era simples: lá estava o Rogério Silva à espera para fazer o resto de tudo o que era principal no trabalho de expor, divulgar e mostrar a toda a gente, com orgulho de galerista e promotor cultural imbuído de espírito de missão e destino avesso a todo e qualquer mercantilismo. A propósito de direitos alfandegários: nessa época, os cidadãos “nacionais” do continente tinham que passar por uma alfandega para entrar nos Açores e pagar – como foi o meu caso – pesadíssima alcavala pelas próprias roupas usadas!…
O Carlos Faria era o agitador impante de entusiasmo que contava os episódios, dava eco às opiniões, pormenorizava os talentos, elogiavo os dons, vaticinava sucessos! O Rogério Silva era o obreiro diligente, o espírito silencioso, pertinaz e cheio de convicções.
Ambos, eram uma dupla imbatível!…
Rogério Silva era um cidadão devotado em extremo às artes que “não sabia” fazer a barba (eu sou testemunha porque ainda lha fiz algumas vezes) que acreditava em tudo o que lhe segredava a alma em cumplicidades de natureza sócio-pedagógico-artístico-cultural!…
Li há tempos (ou sonhei) que se ia formar (ou já existe) nos Açores uma obra qualquer que lhe fora dedicada, estilo museu. Se assim não é, devia sê-lo. Para que conste, tenho em meu poder uma coisa tremendamente rara que é uma colecção praticamente completa das realizações da Galeria de Arte Gávea que me foi dada pelo próprio Rogério Silva na minha casa de Coimbra, lá pelos idos de 1978!…
Tenho a honra inapagável de ter sido colaborador da mesma, mentor e apoiante da Galeria de Arte Gávea em Ponta Delgada (Oh pardo anjo da vaidade!…), tendo sido a Gávea de Angra a primeira galeria do mundo a mostrar trabalhos meus.

Obras aqui reproduzidas:

Uma das marcas indeléveis da influência artística e magnânima que sofri da parte de Carlos Faria e do nosso comum amigo e grande dinamizador cultural, o pintor Rogério Silva, era de que a Arte é uma coisa para dar!…
Os trabalhos que fiz nos Açores ao longo de uma cavalgada de entusiasmos sem nome foram todos deixados por lá, oferecidos, eu sei lá!… Poucos trabalhos devem ter escapado, alguns foram destruídas por motivos íntimos, em momentos de certo desânimo. Alguns dos que publico e que foram produzidos ainda nos Açores ou pouco depois, foram assinados mais tarde de forma ainda vacilante por alguém que achava as assinaturas coisa de somenos, essencialmente egocêntrica.
Isso traduz bem o espírito que vibrava em mim na produção feita durante o começo “acidental” de vida artística, na Ilha de São Miguel, algures no tempo que medeia entre 1968 e 1971!…

“Sísifo” – Homenagem a António Sérgio, nanquim e acrílicas s/ papel, Costa Brites – Ponta Delgada 1969; pequena foto a preto e branco com ligeito reforço cromático a “photoshop”

O Carlos Faria, num encontro que tivemos já em Lisboa logo depois do meu regresso ao continente, entregou-me um envelope com pequenas fotografias a preto e branco de trabalhos meus da época dos Açores. Tinham sido feitas com muito afecto mas com escassíssima técnica. Passo por elas sempre com um certo desconforto, dado que – a serem utilizadas agora – teriam de passar por um tratamento muito especial, ou na falta dele, pela reexecução pura e simples, o que está perfeitamente ao meu alcance. A foto acima é uma dessas relíquias (não assinada, como era timbre…), com uma ajudinha de “photoshop” para facilitar a sua leitura e representa a obra nº 2 da exposição de Ponta Delgada (“Sísifo” – Homenagem a António Sérgio). De facto, admirador muito empenhado de António Sérgio, depois de ver o trabalho, achei bem pensada a figura mitológica para evocar os seus esforços de autêntico Sísifo. Educar e ajudar os portugueses a “cooperarem” uns com os outros, foi, é e será trabalho para muitos Sísifos e sei lá por quantos séculos!… .

O artista Tomaz Vieira

Um notabilíssimo retrato de José Dias de Melo, assinado por Tomaz Vieira em 1974 (1000 x 810 mm)

Entre muitas outras pessoas presentes no acto de inauguração da minha exposição em Ponta Delgada esteve uma, enorme artista que mereceria um capítulo inteiro deste pequeno registo de recordações, e que foi até mim, da altitude da sua condição artístico-académica, levar-me o apoio de uma presença larga como a baía que se estende frente daquela cidade.
Tomaz Vieira foi um dos numerosos amigos que o Carlos Faria fizera o favor de me apresentar, obediente ao impulso de construir pontes entre as pessoas.
O artista ofereceu-me, enquanto tive o privilégio de desfrutar em Ponta Delgada do seu convívio, uma valiosa e rara atenção. Recebia-me no seu atelier, descrevia-me conceitos de construção estética, mostrava-me soluções práticas, técnicas e materiais de execução e exercitava a maturidade dos seus conceitos de apreciação crítica, numa demonstração daquela generosidade comunicatica que é exclusivo das almas muito raras, nobres e especialmente dotadas.
Quando as determinações da vida me fizeram sair de São Miguel, tive a noção clara de que, para além da grande qualidade do seu convívio pessoal perdia também a generosidade raríssima da disponibilidade de um mestre no verdadeiro sentido da palavra.
Esta obra de Tomaz Vieira foi-me dada a conhecer no magnífico catálogo da sua grande exposição de 1996, que teve a grande amabilidade de me oferecer:

Agora entra de novo o Karlos Faria

Carlos Faria também tinha a paixão (inevitável…) do Teatro!…
Como tinha projectos para peças de teatro leu-me um dia num restaurante tardio em Ponta Delgada um largo pedaço dum desses projectos que era, já não me lembro o nome, pânico-anarquista!…
Fui para casa a flutuar sobre brasas e, no Sábado seguinte, entre mimos de recentes esponsais, sentei-me à secretária do espaçoso quarto em casa da Dona Béquinha na Rua da Boa Vista (onde estivémos hospedados nos primeiros meses de Ponta Delgada) com um maço de papéis e esferográficas de várias cores. Dediquei-me a fazer várias ilustrações para a sobredita peça de teatro pânico-anarquista do Karlos Faria, e outra não podia ser a assinatura do dramaturgo assim auto-designado .
Uma das tais pequenas fotografias a preto e branco que Carlos Faria me ofereceu e de que já falei acima revela, de forma pouco demonstrativa, o real aspecto do original a cores de esferográfica de um dos tais desenhos ilustrativos da peça anarquista de sua autoria:

O tempo passou entre idas e vindas de Carlos Faria às Ilhas de Baixo e ao Cont’nente e na próxima chegada lá estava eu de plantão com um envergonhado molho de papéis debaixo do braço, que passei para as mãos dele sem ter tido a atrevida pretensão de auscultar a opinião ou pedir críticas detalhadas.
Certo é que… passados uns tempos, estava eu a fazer a barba naquela “alegre casinha” que tínhamos alugado como noivos recém-casados e ia-me cortando ao ouvir as notícias da rádio do habitual “boletim noticioso” da manhã: “…em exposição de artes plásticas… não sei quê; Teatro de Angra… não sei quê; desenhos de Costa Brites…! Deve ser um primo meu desconhecido ou homónimo que tenho na Ilha Terceira, pensei.
Ponta Delgada naquele tempo era uma terra giríssima crivada daqueles rituais das cidades pequenas que julgam que são grandes, ou que são grandes a sério sem suspeitar que o são. Havia duas coisas que eram inevitáveis: ouvir a rádio de Santa Maria (O “Asas do Atlântico”, por causa do aeroporto) e assinar um dos prestigiados diários locais.
Naquele dia limitei-me a ouvir o noticiário e dei o último dos beijos de pequeno-almoço sem ter ido à caixa ver o infalível periódico de assinatura.
O Senhor Guilherme da Silveira Lemos, chefe de escritório no Banco de Portugal, às tantas, teve o seguinte desabafo com o rosto meio torcido de que não gostei lá grande coisa: “eles” bem andam por aí mas “a gente” não sabe de nada!…
Foi desse modo que fiquei conhecedor de que o tal Costa Brites era eu e os desenhos tal e tal eram as mesmíssimas ilustrações para a peça pânico-anarquista!…
Naquele tempo o Banco de Portugal tinha uma regra absolutamente inquebrantável: os funcionários de qualquer nível não podiam exercer cargos ou tomar atitudes públicas (ou privadas) que não fossem de conhecimento e autorização da Senhora Administração. Acabei por ser abordado pelo Senhor Agente Manuel Covas que era meu amigo devoto por interposta pessoa, com um sorriso amarelado, a chamar-me à pedra de modo muito delicado.
Como ainda vinha com odor de continental, como fora guia-intérprete em Lisboa (trabalho em que ganhava mais que no Banco) encolhi os ombros ao meu amigo Senhor Covas e lancei-lhe, sem qualquer bravata, de que não tinha a mínima intenção de respeitar essa bendita determinação.
(O nosso “fascismo” era pérfido como qualquer outro mas os Açores eram os Açores e a malta dos guardiões do regime, ao pé dos actuais Big Brothers, não passava de um bando de mandongos!…)
Eu continuei a ser falado nos noticiários da Rádio Asas do Atlântico” (por acaso até dei uma entrevista que irá ser referida neste e no site de Rogério Silva, por lhe dizer especialmente respeito) e o assunto do regulamento bancário ficou por aqui… até hoje!

Ivone Chinita e J. H. Santos Barros

Digo Fome, poemas de Ivone Chinita; primeiro número da colecção Gávea/Glacial, Angra do Heroísmo, 1970

Digo Fome, poemas de Ivone Chinita; primeiro número da colecção Gávea/Glacial, Angra do Heroísmo, 1970

A Ivone Chinita foi uma poetisa que surgiu do nada entre ventos suões da terra de Catarina Eufémia e neblinas açorianas. Por magias de camaradagem oceânica inventada e esporeada pelo Carlos Faria, filho de campino do Ribatejo, acabou por vir passar uns dias em nossa casa.
Trazia debaixo do braço o seu livro “Digo Fome”, uma obra que impressionou naqueles pedaços de terras entre mares, editado pela Galeria Gávea e apresentada aqui e ali, pelo Rogério e pelo Carlos (além de outros numerosos amigos, claro).

20 Anos de Literatura e Arte nos Açores, J.H. dos Santos Barros

Já depois do 25 de Abril, já casada com J. H. Santos Barros veio também de longada até nossa casa em Coimbra, em comunhão de esperanças e relatórios de confidências.
Nunca mais a vimos de perto, nós todos que a amamos de longe, por tragédia de viageiros ingénuos surpreendidos pela decisão apressada do destino.

restauro fotográfico feito por mim de uma fotografia estropeada do escritor e amigo José Henrique Santos Barros

Dias de Melo

Cabe aqui referir com destaque ter sido José Dias de Melo uma das pessoas que Carlos Faria me apresentou e uma das quais com quem mais assiduamente convivi em Ponta Delgada. Guardo da sua pessoa como artista, como cidadão e como homem, e de sua esposa e família, uma recordação valiosíssima e imorredoira.

1998 Velas – Encontro de Escritores. À frente da esq. para a dir.: Dias de Melo, Carlos Faria, Madalena Ferin, Artur Goulart e Ermelindo Ávila

Dias de Melo, o imortal escritor da Calheta de Nesquim foi daqueles amigos que tive de começar a tratar por tu por influência do Carlos Faria. O Carlos era um sonhador de amizades francas que achava caricato tratar um amigo que não fosse por tu.
“Faças o que fizeres não é possível seres verdadeiramente amigo de alguém se não o tratares por tu”. O cerimonioso formalismo da nossa adorada língua de Camões tem esta diferença abissal que me faz invejar os espanhóis: onde eles vêm a franqueza do tu, nós retorcemo-nos na cortesia sem sentido duma equívoca terceira pessoa. (Agora, pior a emenda que o soneto, impera o “Vócês”). Obrigou-me, se assim se pode dizer, a tratá-lo a ele por tu, eu rapazi emigrado de Lisboas cheias de salamaleques e de alguma província recatada. Custou-me durante um quarto de hora e agora sou eu apóstolo dessa anónima religião de tratar toda a gente por tu.

À esquerda o pintor Rogério Silva, o escultor Ernesto do Canto da Maia, um senhor também amigo de Carlos Faria que era farmacêutico em Ponta Delgada, e eu mesmo que estou ao lado direito da imagem

Armando Côrtes-Rodrigues

Armando César Côrtes-Rodrigues

Armando César Côrtes-Rodrigues

Entre Carlos Faria, Dias de Melo, Ernesto do Canto da Maia, Tomaz Borba Vieira e tantas outras pessoas que não alcanço agora, começou quando cheguei a Ponta Delgada, no breve passar de trinta ou quarenta meses, a mais atraente cavalgada de relacionamentos humanos e culturais de que há em mim memória.
Há, entre todas as pessoas com quem mantive contactos pela mão de Carlos Faria, uma que quase menciono com o pudor sensato de alguém que nem Carlos Faria tratava por tu.
Vivi na mesma rua onde morava Armando Côrtes-Rodrigues nos seus últimos tempos, e tive o luxo sentimental e literário de ter estado com ele um número de vezes que não deve chegar ao dos dedos de uma mão. Lembro-me do inconfundível odor da casa, do metal com patine da voz, do cansaço, da tez do rosto e da serenidade das mãos do amigo dilecto de Fernando Pessoa (Alberto Caeiro), do “Grupo do Orpheu”, de “Quando o Mar galgou a terra”, mas não ouso dizer que fui mais do que um conhecido que morou a dois passos dessa referência açoriana endeusada por todos os seus alunos e citada com respeito em todos os livros.

301 trat p

Carlos Faria na glória da poderosa juventude, aquela que passa depressa…

Carlos Faria, provocador, impetuoso, galanteador…

A propósito de um dos seus mais notáveis resultados desportivos que está documentado na fotografia acima, mediante o qual se consagrou campeão nacional de pesos e halteres, numa acalorada troca de impressões em Ponta Delgada (fim dos anos sessenta), ouvi afirmar a Carlos Faria que o dopping que recomendava a todos os atletas era o da solidariedade fraterna:
No próprio dia em que batera este record havia doado sangue gratuitamente a uma senhora idosa que disso carecia!…
Dotado de uma força física fora do comum, Carlos Faria era por vezes um riacho de águas mansas, outras vezes uma torrente sem margens que causava embaraços à tibieza dos meus verdes anos.
Uma das pessoas cuja identidade a minha memória não alcança e cuja personalidade Carlos Faria abordava com o habitual e caloroso entusiasmo era uma Senhora que fora de dúvida pertencia à aristocracia da Ilha de São Miguel.
A notoriedade da Senhora em causa metia mestrados em Nova York a respeito de pedagogia de arte infantil e coisas do género.
Numa recepção que deu a várias pessoas no seu palacete “en las afueras” de Ponta Delgada – lembro-me como se fosse hoje – apresentou a Senhora um conjunto de trabalhos de pintura que iriam fazer parte (ou tinham feito parte) de uma certa exposição individual de sua autoria. Lembro-me de ínfimos detalhes do que disse e dos trabalhos apresentados, mas uma das coisas que me atravanca a memória é o tratamento “cavalheiresco” que lhe dispensou o Carlos.
Foi coisa rara a corte que o Carlos Faria fez à Senhora.
Passados dias reencontrámos a Senhora no Museu… e lá vem a mesma cena, comigo de espectador tranquilo, na pele de quem fora mancebo algo tímido, mas já barbado e a quem o “belo sexo” nunca meteu o mínimo asco. O Carlos exercitava o ego viril a torto e a direito e a Senhora, muito arranjada mas já longe da meninice encaixava com donaire.

Dos atrevimentos graciosos lembro-me também de ir com ele a casa de outra notabilidade de Ponta Delgada, neste caso um poeta com as veias quentes de sangue azulado daqueles com o cabelo branco, farto e muito bem cuidado como eu gostava de ter agora,
Foi-nos dada entrada em casa tendo sido amavelmente conduzidos ao “parlour” decorado como estava toda a casa com peças antigas em amabilidades de simetria, em tudo primorosas.
Enquanto esperávamos a vinda do Senhor Poeta o Carlos Faria deu-se tempo para retirar da propositada simetria uma dúzia de jarras e objectos decorativos que por aqui e por ali semeavam requinte em peanhas e prateleiras, tudo com o ar de galhofa que nos tirou a compostura para enfrentar friamente o poeta entre requintadamente parisiense e tardiamente parnasiano.

Esm

“Esmeralda é a pele da Ilha…” Carlos Faria (primeiro verso do livro).

A rápida intuição crítica e a coragem pública de Carlos Faria

Várias vezes visitámos artistas perante as suas respectivas obras. Ao fim de alguns instantes, enquanto eu ainda passeava os olhos por sobre detalhes deste ou daquele trabalho o juízo crítico de Carlos soltava-se como uma corrente de ar entre duas portas abertas de surpresa.
Certa vez veio ao conhecimento de Carlos o caso de um homem que exercia a profissão de pedreiro mas que era possuidor de uma natural propensão para o exercício da pintura.
Fomos visitá-lo na sua residência e os quadros alinhavam-se semeados de encontro às paredes numa desordem sem nexo.
Fiquei perplexo ao ver a rapidez com Carlos Faria principiou a ordenar os quadros, uns para um lado, outros para outro, dando início a uma instantânea viagem pelo interior das obras e do seu relativo interesse, tendo estabelecido uma hierarquia que, se não me pareceu condizente com uma visão que também havia proposto em reserva a mim mesmo, se me afigurou tão estética quanto era possível.
Independentemente das dúzias de coisas que eu próprio fiz nos inícios da aventura no domínio das artes visuais com o caloroso apoio de Carlos Faria, tenho que dizer que a amizade não lhe cerceava a franqueza e que – nos meus “passos incertos” dessa data – nada o inibia na sinceridade, que lhe era peculiar.
No sector que inseri há muito poucos anos na minha página Web que contém o conjunto de depoimentos que considero mais fortes e valiosos sobre a minha obra, aparece em primeiro lugar um texto de Carlos Faria, datado de 1969.

Sem qualquer desprimor para outros documentos ali presentes assinados por amigos com a mais elevada qualificação estético-crítica é aquele o texto que revela a mais denodada coragem cívica.
Cabe aqui lembrar que vivíamos em pleno fascismo, a guerra colonial estava no seu auge e qualquer texto que falasse de paz era à partida mal visto e pessimamente aceite por qualquer entidade pública ou particular.
Sem estar a referir a minha própria situação frente a uma entidade profissional do mais forte teor de conservadorismo, Carlos Faria fez um texto de catálogo que foi reproduzido na imprensa que era um desafio do mais explosivo que é possível admitir naquele período histórico, e que me permito reproduzir aqui na sua íntegra, sem pedir desculpa a ninguém pelo narcisismo assim evidenciado:

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O GLACIAL – Maio a Agosto de 1969

Fonte: O GLACIAL – Maio a Agosto de 1969

O GLACIAL – Janeiro a Abril de 1969

Fonte: O GLACIAL – Janeiro a Abril de 1969

O GLACIAL – Setembro a Dezembro de 1968

Fonte: O GLACIAL – Setembro a Dezembro de 1968

O GLACIAL – Maio a Julho de 1968

Fonte: O GLACIAL – Maio a Julho de 1968

O GLACIAL TODO

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O GLACIAL TODO, apresentação do trabalho

 

Aqui se apresenta uma digitalização de toda a colecção do suplemento “Glacial – a união das letras e das artes”, publicado pelo jornal “A União” de Angra do Heroísmo, de 15 de Julho de 1967 a 23 de Junho de 1973.

O suplemento em causa, trabalho exemplar ainda agora como no tempo em que surgiu, foi uma obra maior de Carlos Faria que envolveu e mobilizou grande número de amigos seus, galeria de valores e figuras marcantes da cultura de todas as latitudes e exemplo nobre de uma visão entusiástica e emancipadora do homem.

O conjunto das digitalizações aqui apresentadas são valiosa propriedade da Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Angra do Heroísmo, a quem é dirigido daqui o nosso mais profundo reconhecimento pela sua cedência, e foram colocados à disposição do autor destas páginas pelo seu Director Dr. Marcolino Candeias, a quem igualmente manifestamos a maior gratidão e estima artística e pessoal.

Devido à sua significativa participação no próprio movimento “Gávea/Glacial”, é designado em vários pontos deste trabalho como “jovem poeta Marcolino Candeias”, em honra dessa valiosa colaboração e em consonância com a época em que teve lugar, sem desprimor pelas suas relevantes funções culturais ao serviço da referida Instituição, da Cultura dos Açores e do país a que pertence.


GLAC peq

Uma das mensagens fundadoras de “GLACIAL – a união das letras e das artes”, publicada por Carlos Faria no 4º número do suplemento de 23 de Dezembro de 1967


Depois de uma longa tarefa de tratamento gráfico, aqui se oferece a publicação completa de um monumento de intervenção cultural, universalista e pleno de generosidade: o suplemento “GLACIAL – a união das letras e das artes”, criado por Carlos Faria, publicado pelo jornal “A União” de Angra do Heroísmo.
Uso a palavra monumento porque um trabalho destes equivale a um templo, uma estátua, um vasto baixo-relevo ou colorido mural de uma cidade orgulhosa não de si, como concentração de poder, mas daqueles que nela vivem e se projectam no mundo como entidades capazes de sonho e de vida, de dádiva e de exemplo.


O Carlos Faria fica a dever esta graça a um amigo, ao poeta Marcolino Candeias, cujas palavras iremos ter também a ocasião de encontrar nestas páginas, como protagonista activo do “Movimento Gávea Glacial”.
Foi ele que nos enviou uma colecção de quase duzentos ficheiros com as digitalizações de todos os exemplares de “GLACIAL”, incluindo esse número as páginas complementares de fecho dos artigos maiores da página principal.

Esse conjunto já chegou à minha mão há certo tempo, mas não me foi possível de imediato tratar graficamente todo o conjunto que, embora sendo um notável trabalho de paciência de quem o fez, não se encontrava graficamente de modo muito sugestivo.
Outros afazeres pessoais impediram-me de efectuar este trabalho que é publicado agora, e que tanto prazer e proveito me deu visitar, ainda que de modo não absolutamente exaustivo, para tirar dele a totalidades dos valores em presença, que são imensos.

Passar por este mural olhando, ainda que brevemente, muitas das eloquentes cenografias de vida e variantes activas duma perspicaz concepção do Mundo que ali se desenvolvem, é um privilégio que fica ao alcance de todos: Um extraordinário elenco de nomes da cultura, independentemente da língua que falavam ou de qual o canto do mundo de onde vinham, posto que valesse a pena ouvir o que desejavam comunicar e quisessem dar as mãos a todos os que os acolhessem.
Esta era a “concepção Universal” que interessava ao espírito GÁVEA-GLACIAL, tão grande como o mar, o “mundo mais vasto deste mundo”.

QUALIDADE DO TRATAMENTO GRÁFICO:


Como explico noutro local, um trabalho destes deveria ser feito por um profissional em condições técnicas mais avançadas que aquelas de que disponho. Vem aí uma mesa digitalizadora com “creative pen and touch display” já “orçamentada”, coisitas dessas, enfim.
Por impossível que pareça tudo isto tem sido feito até aqui apenas à base do velho ratito!…
Fui melhorando entretanto ao longo da tarefa, à base de querer e de dedicação, e as últimas imagens que tratei estão bastante melhor que as primeiras.
Haveria que recomeçar tudo de novo, mas… não me é possível por ter outros compromissos. Ficará para uma segunda ronda, que muito gostaria de levar a cabo, de modo a salientar as imensas potencialidades artísticas e culturais deste ENORME GLACIAL!… Grande abraço, CARLOS FARIA!…

OS ATREVIMENTOS E IRREVERÊNCIAS SÃO TODAS POR CONTA DO CARLOS FARIA!…


Todos os exemplares do “GLACIAL” se encontram aqui e são perfeitamente legíveis, talvez melhor até que no suporte inicial em papel. É uma honra para o Carlos Faria, para o Rogério Silva e… para mim. Sempre por essa ordem, evidentemente.
Pessoalmente, como entendo esta tarefa, trata-se de um trabalho de efectiva cumplicidade, dado que vou “conversando” com esses dois amigos o tempo todo, avaliando soluções e empreendendo algumas originalidades.
Certos “atrevimentos” atribuo-os sempre à atitude irreverente e criativa das “sugestões” que recebo, principalmente, do Carlos Faria…

MODO DE PUBLICAÇÃO:


A volumetria dos ficheiros originais que compõem este trabalho e que me foram enviados de Angra do Heroísmo por Marcolino Candeias é enorme.
É inútil estar a explicar todas as manobras que tive de levar a cabo, bastando dizer que do primeiro ao último, os suplementos vão surgindo em notícias separadas, cujo título refere as datas de publicação. Nas “galerias” também é visível o número de ordem, sendo possível ao leitor chegar a um formato que possibilita a leitura em condições óptimas.
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GUIA DE VISITA:


Entrando nas galerias, basta clicar na primeira imagem em cima à esquerda, para poder fazer desfilar num ecrã próprio, cada um dos suplementos. Em baixo à direita, há uma indicação “view full size” mediante a qual pode ter-se acesso, primeiro a uma visão única do documento e depois, com novo clique, ao formato mais pormenorizado que permite a leitura de todos os conteúdos com a máxima clareza.

IMPORTANTE: uma lista de todas publicações para se poder navegar entre elas

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GLACIAL- 1967, os primeiros quatro númerosnúmeros 1 a 4

O GLACIAL – Janeiro a Abril de 1968 – números 5 a 10

O GLACIAL – Maio a Julho de 1968 – números 11 a 15

O GLACIAL – Setembro a Dezembro de 1968 – números 16 a 22

O GLACIAL – Janeiro a Abril de 1969 – números 23 a 28

O GLACIAL – Maio a Agosto de 1969 – números 29 a 34

O GLACIAL – Setembro a Dezembro de 1969 – números 35 a 42

O GLACIAL – Janeiro a Abril de 1970 – números 43 a 49

O GLACIAL – Maio a Dezembro de 1970 – números 50 a 59

O Glacial – Janeiro a Junho de 1971 – números 60 a 65

O Glacial – Junho a Novembro de 1971 – números 66 a 71

O Glacial – Janeiro a Maio de 1972 – números 72 a 76

O Glacial – Junho a Dezembro de 1972 – números 77 a 86

O Glacial – Janeiro a Março1973 – números 86 a 94

O Glacial – Março e Abril 1973 – números 95 a 99

O Glacial – Abril Maio 1973 – nº 100 a 108


 

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O GLACIAL – Janeiro a Abril de 1968

Fonte: O GLACIAL – Janeiro a Abril de 1968

Glacial – 1967, os primeiros quatro números

Fonte: Glacial – 1967, os primeiros quatro números

Visualidades

 

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A edição de “Visualidades”, abaixo disponível em ficheiro pdf, fez-se no mês de Outubro de 1993, quando teve lugar – na Casa Museu da Fundação Bissaya Barreto – a exposição de pintura e desenhos com a qual encerrei o ciclo de pintura urbana que vinha seguindo de há vários anos. Do texto do livro, que de certa forma procura fundamentar o essencial desse mesmo ciclo de trabalho, colhi este breve texto de abertura:

falas do pintor/ 1
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O pintor inventa em serenidade laboratorial a cidade mágica que é a projecção do seu espírito, a memória da sua sensibilidade, a materialização das suas carências.
Mas o pintor é também um cidadão. Alguém que vive a realidade factual, e dela procura dar um testemunho eficaz e produtivo.
Quando a evidência insuportável dos absurdos consegue passar por “normalidade tolerável”, o exercício da razão torna-se um esforço penoso. Depois de duas ou três gerações de “anestesia” perante os desastres flagrantes das nossas explosões urbanísticas, a Cidade arrisca o pior dos males: que os seus novos habitantes aceitem como “normalidade tolerável” serem emparedados em cimento, vendo seus filhos fugir de medo pelas veredas de betuminoso – percurso escasso para os horse power,símbolos obsessivos da vitalidade restante.
O pintor não sorri. A Cidade, irrecuperável em seu labirinto, entrega-se aos vorazes activos e aos cúmplices passivos que odeiam sua paz e seu futuro. O pintor não retrata uma cidade. Crucifica-se na memória dum espaço interior – “Ersatz” de vivências apetecidas, num mundo tão necessitado como distante. Para o pintor a Cidade mantém o fascínio de que dá testemunho em sua urgência e seu apelo. “De facto” é apenas o cenário no qual se desenha, enorme, o temor pela “sobrevivência” dos seus filhos.

A obra dum artista é indesculpável, seja qual for a roupagem de que se cinja.
O pintor sofre permanentemente em louvor e lamento da cidade deserta.

 

Coimbra, Maio de l993

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A seguir a transcrição de uma entrevista que ainda hei-de referenciar melhor quanto à data e à entrevistadora, que foi uma Senhora, e que foi publicada para o diário “As Beiras”. O tema da entrevista é o da abertura de novos ciclos de pintura, na sequência do referido ciclo da paisagem urbana.

Com esta exposição abre-se uma nova etapa no seu percurso artístico. Que motivos operaram esta mutação e quando teve o seu início?

A sua pergunta tem interesse para esclarecer as pessoas que apenas me conhecem superficial ou recentemente, através das inúmeras estampas que têm circulado por Coimbra (entre elas alguns milhares em edições pirata e copianços diversos…) e duma ou outra passagem acidental por exposições do ciclo chamado “da cidade de Coimbra”.
Quanto às pessoas que me conhecem melhor, que convivem comigo e partilham – já não digo os meus segredos – mas todas aquelas outras partes de mim (ia a dizer dos meus heterónimos…) esses acharão a coisa mais natural deste mundo, e não vão ficar nada surpreendidos. Com efeito, este “imaginário” vive comigo desde que me conheço e em fases anteriores já foi bastante dado a conhecer. Tem estado unicamente à espera de novos momentos de revelação sob a forma de obra estruturada e consequente, o que exige pesquisa e desenvolvimento, muito trabalho e dedicação.

 Fale-nos das figuras que povoam as suas últimas telas.

Essa questão daria para uma conversa que quase não tem fim… Um pouco como essas próprias figuras, saídas não sei bem donde, duma forma quase sempre inesperada e muitas vezes, por assim dizer, torrencial!… Eu não sei se posso qualificar-me, com propriedade, um surrealista. Aliás, se não assumo inteiramente essa filiação, é apenas pelo facto de me sentir também ligado a outras formas de ver o mundo e as coisas, e de não querer ficar apegado a nenhum “ismo” em particular, o que neste momento não faria nenhum sentido. Os surrealistas, no entanto, trataram muito dos fenómenos da imaginação, exploraram o subconsciente, o sonho, o fantástico, e os mecanismos da sua revelação, através da associação das ideias, da “escrita automática” etc., a par do enorme desejo de mudar o mundo, o que sempre foram coisas que muito me fascinaram. Por ter tido acesso a esse tipo de cultura, reconheço existir em mim uma espécie de disponibilidade ou abertura do espírito a vozes estranhas, a visões instantâneas quase automáticas, que qualquer pessoa que desenha espontânea e livremente bem conhece.

 Há dois termos que surgem com uma certa frequência no seu discurso. Um, mais entendível, o termo “desenho”. Outro, aparentemente mais deslocado, o dos “heterónimos”. Qual a importância dum, e qual a justificação do outro?

Sem ter a pretensão de lhe “passar um sermão” sobre o chamado “acto criador”, o que é facto é que ele existe, e depende duma “forma”, de “meios de expressão”, duma certa técnica, em suma. Há pessoas que se exprimem através de gestos largos, de técnicas elaboradas que exigem escola. Outras são mais simples, ou intuitivas, porque não tiveram acesso a formas adequadas de ensino artístico. Na minha qualidade de português não privilegiado, não comecei por ter acesso às formas mais sofisticadas de técnica artística. Um lápis, um pedaço de papel, dois dos “media” mais simples deste mundo, e pronto, tanto basta para dar início a tanta coisa magnífica e fantástica!
Resumindo portanto, e sem ter de passar por razões transcendentes e pretensiosas, foi essa uma das primeiras formas de me conhecer e de me descobrir. Passadas não sei quantos milhares de horas, desenhar, para mim, é a coisa mais natural que pode haver. E, certamente, uma das que mais prazer me dá.
Quanto aos heterónimos, adoptei esse expediente com certa moderação. Não queria que fosse julgado oportunismo “colar-me” à grande figura de Pessoa, para justificar uma vocação (e uma enorme necessidade) de encetar permanentes metamorfoses na minha linguagem. Daí, como já leio Pessoa praticamente há quarenta anos (nessa altura não era ainda grande moda…) e dado que comecei a falar dos “meus heterónimos” aos meus amigos, acabei por me habituar, o que “veste” magnificamente quer o meu gosto por Pessoa (que nem sequer é incondicional…) quer uma tendência, que não reprimo, de renovação incessante…

 Como é que pode explicar, nesse contexto, a firmeza de atitude que manteve durante todo o seu ciclo anterior, que dedicou à paisagem urbana?

 

Essa questão está muito bem posta e é-me difícil responder por poucas palavras. Repare que no momento exacto em que encerrei o chamado “ciclo da cidade de Coimbra” (que passou por muitas cidades portuguesas, e por várias cidades estrangeiras…), confrontado com a necessidade de conferir coerência a toda essa questão, tive o cuidado de publicar um livro de dimensões diminutas, mas bastante significativo para mim (chamado “Visualidades”).
O livro valia tanto mais pelo próprio prefácio, de autoria do meu Amigo António Pedro Pita, uma pessoa que segue o meu trabalho praticamente há trinta anos. Tanto nessa análise, como noutros textos de sua autoria (especialmente o que escreveu para o catálogo desta minha exposição na Casa Municipal da Cultura) o assunto se encontra visto duma forma muito difícil de sintetizar, mas de um modo que acho exemplar.
Lateralmente, e friso: lateralmente, posso apenas dizer que esse ciclo envolveu de facto uma atitude de imensa disciplina intelectual, e uma dose enorme de dedicação e investigação em diversas áreas, essencialmente as que dizem respeito às paisagens que se observam de olhos fechados, aquelas que mobilam um mundo construído na mente, e que também serve para questionar o real!
Não sei se o ciclo foi devidamente compreendido, o futuro o dirá. Mas de qualquer forma penso ter sido uma fase de criatividade muito intensa, que teve o seu encerramento, mas de que não abjuro, nem repudio de forma alguma, por maior que seja a mudança aparentemente, e friso: aparentemente efectuada.

 Adiante-nos então as suas expectativas quanto a esta exposição.

 

Uma coisa muitíssimo difícil de delinear, como sabe, a expectativa dos artistas. Penso que, no sentido mais adequado, os artistas pretendem apenas prosseguir o seu trabalho de forma eficaz. E coloco o centro de gravidade do termo no íntimo essencial da obra, como coisa revelada/reveladora.
Sobretudo quando se atinge a minha idade, ou antes disso se o juízo ajuda, começa a poder ver-se o mundo um pouco distante de nós, e nós nele como uma imagem transcendente de nós próprios.
Tenho às vezes imensas faltas de paciência com a insensibilidade dos aparelhos sociais, políticos e outros. Encho-me de raiva, o que me desconcerta. Sinto-me como um cachopo a quem roubaram todos os brinquedos. Com o tempo desenvolvi, no entanto, uma certa impassibilidade feita, senão de conformação, de distanciamento, iria dizer: filosófico. E regresso sempre aos meus amigos, à minha família, aos meus desenhos, à cultura, às artes, a todas as coisas que irão de facto ficar para sempre, como os melhores sinais da passagem dos homens por esta vida.

ficheiro pdf, clicar para ter acesso:

COSTA BRITES, Visualidades

 

Rogério Silva – “Freeing the Whales” – New Bedford, Outubro de 1987

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Como prenda de Verão para os interessados pela arte e pela cultura das gentes dos Açores para todo o Universo, é publicado aqui o documento mais recente que o autor destas páginas conseguiu descobrir nos seus arquivos das realizações de Rogério Silva nos Estados Unidos da América.
Trata-se do catálogo integral publicado em ficheiro PDF (ao fundo link para descarregar) da exposição “Freeing the Whales” – Rogério Silva 1787 – 1987”, realizada em New Bedford em Outubro de 1987.
Insere, além de um texto de João-Luís de Medeiros e outro de David de Almeida, uma das suas últimas resenhas curriculares. As obras que expôs nessa altura foram essencialmente gravuras (trinta e duas), três pinturas a acrílico, um óleo e dois desenhos.
A exposição resultou de uma colaboração entre a “Prince Henry Society of Massachussetts, Inc” e do “The Rotch Jones Duff House & Garden Museum” de New Bedford.

O catálogo evidencia não obstante a marca inapagável da matriz organizativa coerentemente impulsionada pelo grande artista e promotor de cultura que foi Rogério Silva, isto é, o logotipo das realizações da “Gávea – Galeria Açoriana de Arte não comercial, Função Didática e Cultural”.
No caso vertente o “Grupo Gávea de New Bedford” constituído pelas Senhoras, Dª Maria Tomásia, Dª Susan L. Claine e Dª Maria Lusa Silva (esposa do artista) e pelos Senhores José A. Canha, Miguel de F. Corte-Real e Heldo Braga.

Depois de algumas aquisições técnicas é-me agora possível fazer uma publicação integral “fac-símile” do catálogo no formato referido.
Os meus leitores são todos muito elucidados a este respeito e será escusado dizer que, depois de descarregado, o ficheiro pode ser usado para ler no formato mais desejado, como se um pequeno livro fosse.
Oportunamente irei fazer o mesmo trabalho relativamente a todos os catálogos de exposições que possuo de realizações artísticas de Rogério Silva.
Vai levar algum tempo e desde já faço, mais uma vez, o apelo a todos os açorianos de boa vontade que queiram enviar-me catálogos ou outros materiais sobre ou de Rogério Silva, para aqui poder publicá-los. A proveniência dessas contribuições, além de agradecida, será devidamente mencionada.

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Do teor do catálogo aqui fica um destaque que me parece adequado, de um texto de 1987 assinado por David de Almeida:

“…porque há homens que fazem uma época…”

Cf. Santos Barros, “A Chama” n° 95, 23/3/72

Terminava assim o poeta Santos Barros um artigo em que historiava o movimento literário- artístico “Gávea”.
O Homem é Rogério Silva que, sozinho, criou um movimento que dominaria então o panorama artístico-cultural dos Açores. Estávamos em 1958.
Ainda sem apoios oficiais, fundaria dez anos mais tarde a “Gávea-Galeria de Arte”, cujas funções eram essencialmente didácticas. Ali se realizavam exposições de novos e de consagrados, e se promoviam colóquios e recitais de música e de poesia.
A “Gávea” estendeu-se depois ao Faial, onde abriu uma delegação. Mais tarde, chegou a Santa Maria e, “porque não teme o mar e é capaz de transpor o Atlântico para amar os homens da planície” deu um salto a Grândola. (Cf. Raquel Costa e Silva, “A Chama” n° 95, 23/3/72)
Com esta força toda, acabaria por realizar, em 1969, quinze exposições, de escultura, de gravura e de pintura. Em 1970, as estatísticas davam à “Gávea” o primeiro lugar no campo das exposições de artes plásticas, e a cidade de Angra do Heroísmo era, imediatamente a seguir a Lisboa, a cidade do País que maior número de actividades culturais registava.
Rogério Silva é esse Homem, o precursor da descentralização cultural a um nível e a um ritmo ainda hoje não ultrapassados em Portugal, o Homem que volta as costas aos caminhos fáceis, e se empenha em fazer bem feito aquilo que faz; o Homem que os fados — e a “Gávea” é o fado mais sentido — acabaram por obrigar a emigrar. Mas que aqui continua a sua vida de Pintor e de divulgador da Arte.
Veja-se esta exposição, onde o Homem que é o Artista Rogério Silva conta uma história longa começada há cinquenta e oito anos na Ilha do Faial, numa casa que o mar já levou, e que nos dá a vista da janela da casa que é já oceano, sobre o caprichoso Pico onde as baleias bailam por sobre as nuvens.
E parta-se (embarque-se) com o Rogério — à descoberta do seu Mundo.

New Bedford, 24 de Julho de 1987

David de Almeida

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ficheiro PDF para descarregar:

Rogério Silva – “Freeing the Whales” – New Bedford, Outubro de 1987

 

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Rogério Silva

Convido todos os visitantes a uma visita demorada e atenta à página que dedico à memória do pintor Rogério Silva, grande amigo e homem de valiosa actividade cultural e artística. Conheci-o no fim dos anos sessenta em Ponta Delgada, nos Açores, onde tive o prazer de colaborar com as valiosas iniciativas que promoveu através da bem conhecida “Galeria de Arte Gávea” que fundou na cidade de Angra do Heroísmo, na ilha Terceira do mesmo arquipélago.

Página pessoal dedicada à pessoa e à obra de Rogério Silva

garça voando em agonia, Rogério Silva

garça voando em agonia, Rogério Silva

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Biografia de Rogério Silva, textos, apreciações críticas, depoimentos

Tríptico, (xilogravura), reproduzido na capa do diário "A União" de Angra do Heroísmo de 14 de Junho de 1969, Rogério Silva

Tríptico, (xilogravura), reproduzido na capa do diário “A União” de Angra do Heroísmo de 14 de Junho de 1969, Rogério Silva

Não existe disponível na net nenhuma biografia alargada e sensibilizada de Rogério Silva, cuja vinda a Coimbra em 1978, muito tempo depois de ter emigrado para a América, me forneceu a sugestão muito subtil de fazer o que pudesse para divulgar o “espírito da Gávea”. O Rogério Silva era, além de tímido, delicadíssimo e não ousava fazer pedidos impositivos. Entregou-me nesse momento dois conjuntos de catálogos de exposições da Gávea, cuidadosamente reunidos para esse efeito, além de seis catálogos das principais exposições que havia realizado, entretanto, nos Estados Unidos. A subtileza da sugestão não sonhava com a fulgurante eclosão da internet.
Tinha reunido entretanto outros documentos que divulgo neste momento, os jornais que adquiri, os que me foram oferecidos pelo Carlos Faria e algumas coisas – para mim raras – como os livros de Ivone Chinita e Santos Barros, com os quais me encontrei em Coimbra depois de vir dos Açores. Os vestígios da Gávea foram-se esfumando, as visitas de Carlos Faria estavam sujeitas ao seu calendário de viagens para o que os lisboetas chamam “o Norte”, e a internet foi-se desenvolvendo e afirmando cada vez mais notoriamente.
Quando Carlos Faria nos deixou construí a primeira dose de lugares da net que consagravam a minha memória dos Açores. Sonhava com uma ampla adesão de outras memórias que pudessem manifestar-se. Fechado esse ciclo, e feitas as necessárias aprendizagens digitais e internáuticas, começaram a surgir, daqui e dali, provas de um interesse específico na herança da Gávea. Rogério Silva era finalmente tema de curiosidades, daquelas que costumam bafezar as cinzas dispersas dos mortos confortavelmente ausentes. Resolvi por isso publicar o essencial de tudo o que possuia há longo tempo guardado. Agora já não sonho com a adesão de ninguém. Procuro apenas deixar um testemunho tão vivo e autêntico como aquele que ficou em mim. E recordar a face muito branca, a voz comedida, e o sorriso tímido de Rogério Silva que – aqui e ali – projectava entre as almas afins um clarão de esperanças pueris.
Ao fundo são publicadas, “ipsis verbis”, duas notícias biográficas suas que consegui reunir, em épocas diferentes, mediante pesquisas na net. São ambas do domínio de publicações do governo da Região Autónoma dos Açores; a primeira, algo mais circunstanciada não sei bem de que departamento dado que foi descontinuada e a última, ainda actual, do Arquivo e Biblioteca Pública de Angra do Heroísmo, cujo endereço vai indicado.

NOTA: o trabalho de esclarecimento e informação que levo a cabo nestas páginas e que, com muita honra publico – por serem parte integrante da minha própria experiência e excelente referência de afeto e admiração – podem conter imprecisões. Solicito por isso a compreensão de todos os leitores, estando aberto e agradecendo antecipadamente os reparos e contributos esclarecedores.

O resumo biográfico a seguir foi lido num dos catálogos das exposições de Rogério Silva e estende-se pelo artigo, com textos e ilustrações:

Rogério Silva nasceu na Feteira, Faial em 1929. Viveu em Angra do Heroísmo de 1947 a 1971, altura em que emigrou para os Estados Unidos, tendo fixado residência em New Bedford, Massachusetts.
Foi instrutor de Trabalhos Manuais na Escola Técnica de Angra e desde muito cedo estabeleceu relações com o mundo artístico português. Chegou mesmo a manter um contacto intenso com artistas em Lisboa. Colaborou com o Instituto Açoriano de Cultura, o Núcleo Cultural da Horta e a Direcção Escolar de Angra. Para além de tudo isto, porém, Rogério foi um infatigável impulsionador da arte nos Açores.
A sua carreira de pintor, desenhador e gravador incluiu uma vasta rede de atividades. Em 1954 teve lugar na Horta a sua primeira exposição individual. No ano seguinte reproduziu o acontecimento, agora em Lisboa. Também em Lisboa, e ainda nesse ano, participou numa exposição coletiva na S.N.B.A. e, em 1956, participa noutra, ainda em Lisboa, “Primeiro Jardim de Belas Artes”.
No período de 1956 a 1972 realizou várias exposições individuais e coletivas nos Açores;
Em 1958 lançou, com Emanuel Félix e Almeida Firmino, uma revista de letras e artes – Gávea − de que foi diretor artístico.
Durante a década de sessenta, colaborou na página “Letras e Artes” do Diário Insular, foi diretor artístico da página literária “Glacial”, de A União., e ilustrou doze livros sobretudo de poesia.

Gávea - Galeria açoriana de arte não comercial, função didática e cultural

Gávea – Galeria açoriana de arte não comercial, função didática e cultural

Em 1967 inaugurou a Galeria “Gávea” − Galeria Açoriana de Arte não comercial e com função didática e cultural − através da qual desenvolve uma diversíssima variedade de iniciativas de entre as quais se destaca a promoção da vinda aos Açores de numerosas exposições de artistas portugueses e estrangeiros.

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Em 1969 expôs no Teatro Angrense (Arte/Música/Poesia). Até 1971 foi várias vezes membro dos júris artísticos em concursos promovidos por diversas organizações e coordenou uma exposição de arte infantil de intercâmbio, Angra/Paris, Paris/Angra.
Em 1971, já com residência em New Bedford, voltou a promover exposições infantis em idênticos moldes, agora entre New Bedford/Angra—Angra/New Bedford.
Em 1976 expõs individualmente no Festival Português da Primavera, no “Bristol Community Colletge”, Fall River, Mass.:

catálogo Festival da Primavera, Gristol Community College, 1976

catálogo Festival Português da Primavera, Bristol Community College, 1976

Baptista de Lima, texto inserido neste catálogo, de apresentação de uma exposição feita por Rogério Silva no Museu de Angra do Heroísmo, em 1972:

O Pintor Rogério Silva credita-se entre os artistas açorianos não apenas por uma capacidade criadora e um talento tantas vezes exuberantemente mostrado, em realizações de elevado nível plástico, no vasto domínio do figurativo. Recordamos com prazer essas belíssimas marinhas que têm figurado em muitas das suas exposições e ainda os trabalhos de índole expressionista, diríamos até surrealista, que em determinada época brotaram com frequência da sua paleta, valorizando e enriquecendo a sua produção. Desejamos, contudo, assinalar neste momento em que o artista continua o seu diálogo com o público através da apresentação das suas mais recentes produções plásticas, a notável contribuição que tem dado aos Açores em geral com a ação que, benemérita e incansavelmente, tem vindo a desenvolver, através da Galeria “Gávea”. Não foi ainda prestada a Rogério Silva a homenagem que lhe é devida por este seu abnegado trabalho, graças ao qual alguns dos mais notáveis artistas portugueses das novas gerações têm sido conhecidos e apreciados nos Açores. As exposições da Galeria “Gávea”, apresentadas por Rogério Silva, em catálogos primorosamente elaborados, constituíram valiosa fonte de intercâmbio e promoção artístico-social no meio açoriano e muito desejaríamos que essa Galeria, após a sua partida para terras americanas, pudesse continuar a viver com a mesma atividade e a desempenhar entre nós a tão nobre e importante missão que Rogério Silva sonhou e soube porfiadamente levar a cabo, sem olhar a sacrifícios sem conta, durante tantos anos. É com saudade que agora o vemos partir, mas consola-nos a ideia de que os Açores vão ganhar mais um artista nos Estados Unidos e que do intercâmbio que deseja promover entre artistas e serviços de Belas-Artes portugueses e americanos resultará mais uma importantíssima obra digna do nosso reconhecimento e que, por todos, merece ser apoiada.

Baptista de Lima, Diretor do Museu de Angra do Heroísmo, Açores

Ainda em 1976 realizou outra exposição na “Câmara Municipal de Boston”, Mass.:

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Onésimo Teotónio de Almeida, texto de apresentação

O imigrante açoriano que tem demandado os Estados Unidos é habitualmente tradicional nas suas formas de expressão sociais. As suas manifestações artísticas são uma revives­cência da arte folclórica da Europa Ocidental preservada desde o século XV nas ilhas que o Atlântico isola do resto do mundo. Rogério Silva surge agora no meio dessa comunidade como prenúncio duma nova geração que encara o mundo de modo bem diferente. A maioria dos seus quadros são ainda açorianos de tema. Mas os Açores de R. S. não estão estagnados no bucolismo tradicional em que a história os deixou. Eles estão penetrados de dinamismo. A realidade não é um mundo de objetos no espaço separados do sujeito, mas uma complexa interpenetração de um e outro. O exterior e o interior misturam-se num movimento rítmico multidimensional de ângulos dinâmicos em que as cores participam de modo fundamental como parte integrante da vida que anima o quadro. Jean Bazaine afirmou algures que “a pintura dos nossos dias é uma espécie de existência, uma tentativa de respirar num mundo onde respirar já não é possível”. E possível respirar nos Açores o ar puro do espaço; mas a pintura de R. S. manifesta essa ânsia de respirar um tempo novo. Nos seus trabalhos feitos nos Estados Unidos, é o espaço-tempo totalmente novo que o artista procura respirar na sua obra. A arte foi sempre â frente. A distância entre ela e a vida foi sempre uma constante. Mas a existência dos artistas desvendando os caminhos do futuro é um sinal de esperança de que a vida não parará por falta de horizontes.

É bom que a arte de Rogério Silva esteja entre nós. Se multiplique e ajude a multipli­car os artistas. E que se divulgue.

Onésimo Teotónio Almeida

duas páginas do catálogo da Celebração Portuguesa do Festival Bostonian, 1976

duas páginas do catálogo da Celebração Portuguesa do Festival Bostonian, 1976, e lista de trabalhos expostos

Manuel Calado, comentário lido na Estação de Rádio WJFD, de New Bedford, Maio de 1976

“… justo é que se fale hoje aqui, de um homem, que é um valor no panorama artístico luso-americano. Referimo-nos a Rogério Silva, gravador, desenhador e pintor de incontestáveis méritos. E vem a propósito falar deste patrício faialense, devido à exposição de trabalhos que vai realizar no “Bristol Community College”, por ocasião do Festival Português da Primavera. Rogério Silva é, no seu género, um valor que importa destacar. As suas pinturas, gravuras e desenhos, denotam uma sensibilidade, uma minúcia, um gosto extraordinário pelo detalhe. Profundamente influenciado pelo meio onde nasceu e formou a sua personalidade, os seus desenhos e gravuras, refletem uma tonalidade marítima que não podia deixar de vincar os seus trabalhos. São o mar, a baleia, a gaivota, a imigração e a tempestade, elementos que nenhum homem das ilhas, e especialmente com a sensibilidade artística de Rogério Silva, pode deixar de sentir. A realidade de Rogério Silva, è uma realidade esquematizada, plasmada numa visão geométrica dos elementos, tendo mérito as suas criações, especialmente nos domínios do figurativo e do simbólico. Para Rogério Silva, vão pois os nossos parabéns, pela oportunidade de expor os seus trabalhos, de indiscutível mérito artístico.

Na mesma exposição do Festival Português da Primavera, estarão também patente, uma coleção de trabalhos da Cooperativa de Gravadores Portugueses. Deu-se portanto, mais uma dimensão ao Festival do “Bristol Community College”, com esta exposição de Rogério Silva, da qual acaba de ser publicado um excelente catálogo, com alguns trabalhos mais expressivos do artista. O catálogo em si, é já uma excelente obra de arte, produzida nas oficinas da “Chama Incorporated”, de New Bedford. E para terminar, duas palavras sobre o Festival Português da Primavera. Duas palavras de encómio para os seus organizadores, e para todos aqueles que colaboram na sua realização. Trata-se de uma iniciativa louvável, que muito contribui para o prestígio da nossa Comunidade, e para a consciencialização dos elementos do nosso grupo étnico, acerca das realidades culturais, artísticas, etnográficas, tradicionais, folclóricas, e até culinárias, daquilo a que chamamos, a Colónia Portuguesa da América.

Manuel Calado

Em 1977 foi escolhido para expôr de novo na Câmara Municipal de Boston, juntamente com representantes de mais dezasseis grupos étnicos:

catálogo exposição Casa da Saudade, New Bedford, Free Public Library, 1977

catálogo exposição Casa da Saudade, New Bedford, Free Public Library, 1977img291 a

João Afonso, texto de catálogo da exposição na New Bedford Free Public Library, 1977

ARTE DE ROGÉRIO

É bem possível e facilmente provável que possa vir a falar-se de uma arte de Rogério, isto é aquela arte que lhe dá a presença distintiva entre os seus pares. Com um sentido muito agudo de comunicar pela Arte as suas próprias mensagens de ordem puramente estética ou, então, de índole social e religiosa, Rogério Silva sabe, entretanto, entornar na expressão artística que cultiva laboriosamente não apenas processos técnicos clássicos mas também processos de criativa expressão. Jovem a caminho dos 50, Rogério está sempre a realizar-se. Na sua década dos vinte anos, explorou em tentativa de ”self made artist” as linhas paralelas do artífice habilidoso e de vários talentos e do pintor que, querendo, se interroga a si mesmo sem ajudas, angustiosamente confiante. Aplicado ao trabalho, ia observando a beleza natural das ilhas atlânticas, nascendo-lhe belos quadrinhos a óleo e a aguarelas, alguns hesitantes mas todos demonstrando uma segurança progressivamente conquistada. Depois, procurou em Lisboa o contacto com o meio artístico evoluído e o segredo das técnicas mais recentes. Entretanto, as suas lutas pela interpretação subjetiva dos fenómenos anímicos depararam-lhe perplexidades na vida e na saúde e desencontros estéticos que viria a vencer. Infletindo por necessidade profissional para o desenho geométrico e para as cores puras, logo descobriu notas individuais em que as linhas retas e o cromatismo elementar o podiam levar a expressões fantásticas de desenho arquitetónico capazes de invadir com virtude (valor) os campos artísticos. Aqui, a imaginação e o poder criativo firmaram a tal presença distintiva do artista entre os demais artistas. É o seu modo maior. Dos caminhos açorianos, de ilha para ilha e de cidade para cidade (com forte e amada presença na Terceira e em Angra), Rogério passou à Nova Inglaterra. Nos Estados Unidos desde há anos instalou-se sem pressas e sem ambições desmedidas mas com imensa vontade de seguir caminhos seguros. Preferindo as possíveis realizações cuidadamente exemplares que estariam em breve ao seu alcance, não forçou a sua presença. Tudo aconteceria a seu tempo. E aconteceu mesmo…

De onde: a série de exposições em que é convidado a participar. Dai: o apreço que cresce pelas qualidades pedagógicas e didáticas evidenciadas nos seus trabalhos e nas suas irrepreensíveis presenças, artisticamente valorizadas nos belíssimos catálogos que se esgotam com rapidez. A pintura em diversos processos, o desenho especializado, o de construtivismo geométrico, a colagem, a gravura com as expressões permitidas pelos métodos reprográficos diversos, as artes gráficas propriamente ditas, tudo isso e um imenso senso das perfeições de execução é quanto está ao alcance de Rogério e de nós outros que tanto aproveitamos do seu labor. Querido nos meios culturais pela certeza que põe nas suas relações corretas e plenas de carácter, esta boa pessoa que é Rogério Silva corresponde exatamente a um artista capaz, a um professor de ensino útil e oportuno. Dá gosto ter Rogério por amigo. Apetece acompanhá-lo em tudo quanto realiza aqui, na Nova Inglaterra, ou nos Açores, onde nasceu.

João Afonso – Boston, Outono de 1976

Rogério Silva, exposição Casa da Saudade, New Bedford Public Library, 1977

Rogério Silva, exposição Casa da Saudade, New Bedford Public Library, 1977, trabalhos expostos e referências de organização

Em Abril de 1977 Rogério Silva realizou ainda uma exposição individual a convite do Governo Português na “Biblioteca Pública da cidade de New Bedford” (Casa da Saudade), New Bedford, Mass.:

Exposição de Rogério Silva na Biblioteca Pública de New Bedford, a convite do Governo Portugês, 1977

Exposição de Rogério Silva na Biblioteca Pública de New Bedford, Abril de 1977.

João Afonso, texto do catálogo , Abril de 1977

A 26 de Maio de 1971 chegava aos Estados Unidos um artista português bem conhecido nos Açores. Cinco anos depois, em 1976 (dia e mês, por coincidência, 26 de Maio), esse artista expunha pela primeira vez neste país. A partir da Primavera do ano passado, Rogério Silva apresenta-se sucessivamente em:

  • Fall River (Portuguese Spring Festival);
  • Boston (Festival Bostonian-Portuguese Celebration);
  • novamente Boston e também no City Hall, já em 1977 (Festival Bostonian Retrospective, como artista português selecionado no contexto de 17 grupos étnicos presentes);
  • Nova Bedford (por ocasião da visita oficial de um membro do Governo português e a convite do mesmo Governo;
  • agora, pela quinta vez e igualmente em Nova Bedford, quando da festiva inauguração da “Casa da Saudade”, departamento oficial da “Free Public Library” desta cidade.

Quer isto dizer que, durante os últimos dez meses e a convite, Rogério Silva expõe cinco vezes, o que é facto muito significativo. Entretanto, é Rogério convidado a estar presente em:

  • National Print Competition and Exhibition (Michael C. Rockfeller Arts Center Gallery, Fredonia, N.Y.);
  • The Boston Printmakers 29th National Exhibition (deCordova Museum, Lincoln, Mass.);
  • Footprint (Davidson Galleries, Seattle, Washington);
  • National Print, Drawing and Photography Exhibition (Charlottesville, Va);
  • 111h National Print Exhibition (Silvermine Guild of Artists, New Canaan, Conn.)

Entre o dia da chegada aos Estados Unidos e a presente ocasião não faltaram os convites. Mas o artista é exigente para consigo próprio, tem profundo respeito para com o público, não se deixa tentar pelos fáceis interesses comerciais, entende que os seus trabalhos devem ser acompanhados por uma função didática e quer que nada seja em vão. Foi por isso que nos quatro primeiros anos de América arrumou a sua vida, trabalhando no desenho de construção civil, em que é mestre, e mesmo como operário de obras. O seu êxito artístico quanto àquelas exposições está provado pelo público que acorreu aos milhares designadamente em Boston; e está comprovado nos admiráveis catálogos que evidenciam a perfeição de artista também no campo das artes gráficas.

Entretanto, Rogério vai montar em Nova Bedford a sua galeria-oficina e pensa desenvolver nos Açores a missão da galeria Gávea que funcionou em Angra, Horta e Ponta Delgada. A cidade de Nova Bedford tal como os temas baleeiros, a história marítima portuguesa, a vida dos imigrantes na sua problemática social, psicológica e económica, assim também a paisagem física e etnográfica dos Açores: estes são os temas preferidos de Rogério. E tudo isso com arte própria, de características pessoais, a que o artista empresta uma assinatura bem conhecida e reconhecível sem dificuldade. Por isso falámos no catálogo da última exposição inaugurada pelo Dr. João Lima, Secretário de Estado da Emigração do Governo português, da Arte de Rogério. Essa exposição, a que assistimos, constituiu um êxito comprovado e damos disso testemunho.

João Afonso, Bibliotecário na Biblioteca Pública e Arquivo Distrital de Angra do Heroísmo, Açores, Nova Bedford, Abril de 1977

Exposição Rogério Silva, Biblioteca Pública da cidade de New Bedford, Abril 1977

Exposição Rogério Silva, Biblioteca Pública da cidade de New Bedford, Abril 1977, trabalhos expostos e referências da organização

Em 15 de Abril de 1978 Rogério Silva realizou a sua exposição de maiores repercussões nos Estados Unidos da América, levada a cabo na “Brown University” (Providence, R.I.), integrada na série artística “Musas de Portugal e Brasil”, promovida pelo “Centro de Estudos Portugueses e Brasileiros” daquela universidade.

Rogério Silva, exposição na Brown University, Providence, RI, 1978

Rogério Silva, exposição na Brown University, Providence, RI, 1978

George Monteiro Diretor do Centro de Estudos Portugueses e Brasileiros da Universidade de Brown

0 Centro de Estudos Portugueses e Brasileiros está altamente interessado na promoção e divulgação da cultura portuguesa e é particularmente importante que os luso-americanos reconheçam que a cultura e a arte de alto nível existem entre nós como forças vitais. Um caso específico é o da arte de Rogério Silva. Em luta contra limitações e adversidades do meio, ele dedicou a sua vida à arte em vários dos seus géneros. Pintor, desenhador, gravador, Rogério Silva merece a atenção de quem quer que esteja interessado nas artes. O Centro tem o maior prazer em apresentar a obra de Rogério ao público de Rhode Island através desta exposição individual na Biblioteca Annmary Brown Memorial, da Universidade de Brown. A existência da arte de Rogério e, em particular, o considerável conjunto de trabalhos que ele tem realizado como imigrante nos Estados Unidos, é um sintoma significativo da evolução operada e em operação na arte no mundo português e luso-americano.

Norbert J. Yasharoff – texto do catálogo publicado em “Horizontes USA”, (Janº/Fevº, 1978)

…A atitude positiva /de Rogério Silva/ explica a ausência de ambiguidade e imprecisão da sua obra, a firmeza e vigor do seu traço e a claridade dos temas apresentados. Também explica a sua adoção, nos últimos anos, de formas geométricas e cores puras, como principais meios de expressão. E reflete-se no fascinante acrílico “Futuro”, em que uma estrutura geometricamente complexa se transforma magicamente em alinhamentos cada vez mais claros e brilhantes, que conduzem a uma transfiguração invisível mas prometedora. Com todos estes atributos e realizações, por que motivo é ainda Rogério Silva virtualmente desconhecido fora do estado de Massachusetts? Há várias razões, tanto objetivas como subjetivas. (…)

New Bedford, lugar onde dificilmente um artista de talento como Rogério Silva pode esperar adquirir projeção nacional é, contudo, o único lugar em que, apesar de todas as dificuldades, problemas e divisões, ele sente que pode lançar novas raízes, longe da sua terra natal — entre velhos amigos e gente que se lhe assemelha. (…)

Inteiramente à parte dessas dificuldades práticas, Rogério Silva tem feito muito pouco por atrair a atenção do resto do país. Nada querendo vender à exceção de provas das ilustrações de livros, tem desprezado completamente o aspecto comercial da sua vida de artista. Não tentou entrar em contacto com agentes ou negociantes. Não contactou nenhum museu ou galeria, com ofertas de exposição das suas obras. Pouco faltou para não convidar críticos de arte de outras cidades a pronunciarem-se sobre as suas exposições.

Richard Pacheco, texto inserido no catálogo do critico de arte do “New Bedford Standard Times”, publicado a 30 de AbriI de 1978

ROGÉRIO SILVA – ALTERANDO PLANOS

Formas claras e precisas, espaços complexos e cores vibrantes caracterizam a obra de Rogério Silva. Os trabalhos revelam a influência do cubismo nas alterações de planos e na complexa definição do espaço, mas as cores são mais claras, brilhantes e de uma mais vasta gama do que as cores cubistas. Mesmo as cores mais escuras como o castanho-tabaco e o verde-azeitona possuem animação e vivacidade. São, além disso, complicados e dinâmicos no desenho e na cor. Frequentemente emerge das composições um motivo de mosaico, sugerindo por vezes edifícios. As pinturas oferecem muito movimento, levando-nos o olhar atrás e adiante, à volta e através das formas e das cores. A escolha de cores de R. Silva, a precisão e cuidado com que ele as seleciona, reforçam este sentido de movimento e de alterações de planos.

Em “Escola Hayden-McFadden — New Bedford”, a paisagem mais ou menos reproduzida é confrontada abruptamente por grandes letras e formas flutuantes que comprimem e nivelam o espaço natural com um quase-pesadelo, comum ao surrealismo. Em “Fábrica — New Bedford”, as formas rígidas do edifício criam um espaço profundo que é contradito pelo uso da cor. Os objetos ao fundo recebem cores brilhantes, como o vermelho, o que os transporta para diante do observador. Aquilo que parece meramente uma sugerência da atmosfera de sonhos do surrealismo recebe maior importância nas gravuras do que nas pinturas. Aqui, os objetos, figuras e motivos misturam-se e esvaem-se uns nos outros permanecendo, todavia, precisos e bem definidos.

Em “Choro de baleias e homens” surgem em todo o trabalho figuras e silhuetas de baleias como jogos de paciência de crianças em que se pede para se encontrar os objetos escondidos, por vezes disfarçados de outra coisa qualquer. Um trabalho como “Fragmentos num todo” leva mais além esta magia de objetos em metamorfose. 0 trabalho é uma junção de vários pormenores de outras gravuras patentes na exposição. A asa de um pássaro transforma-se, mais para o centro do quadro, na mão de um jogador de cartas. Apesar da mistura de formas colidindo umas nas outras e do por vezes intrincado espaço, os trabalhos nunca são confusos, mas antes sempre bem estruturados e claros. Possuem uma totalidade que brota de uma combinação magistral de cor e desenho.

Apesar do controle extremo tido na criação destes trabalhos, eles nunca são rígidos nem afetados; pelo contrário são entusiasmantes e plenos de energia. Com tudo o que tem lugar nestes quadros, não há nunca um sentido de confusão nem de pormenor desnecessário. Os trabalhos possuem uma forte carga de um fluxo suave que movimenta a vista através do quadro, captando aqui e ali pormenores deliciosos e ritmos “stacatto” de forma e cor. R. Silva é um excelente talento que desenvolveu uma mistura pessoal de cubismo e surrealismo, de lógica e sonhos loucos que tornam os seus trabalhos sobrepujantes e enternecedores.

Rogério Silva

Rogério Silva

O último catálogo que possuo das realizações artísticas de Rogério Silva nos Estados Unidos é este. Não nos informa nem onde nem quando teve lugar a exposição a que diz respeito, qual o motivo, tema ou título da mesma. Uma das entidades que está listada como apoiante da exposição é o Congresso das Comunidades Açorianas de 1978. O tema gráfico da capa e da contra-capa, que quase totalmente as ocupa, é uma serigrafia de 76 cm x 129 cm, com a legenda seguinte: “História de um livro – Pedra de Dighton”.
É um trabalho com um impressionante dinamismo descritivo, onde uma multidão de elementos alojados num vórtice de planos diferenciados, sob o efeito de impulsos tornados visíveis, linhas de força ou vetores que trespassam, projetam e interligam a miríade de tais elementos. Alguns deles têm uma gravidade espessa que é fácil equiparar à solenidade histórico-ideológica dos símbolos figurados. É pena que a tecnologia de reprodução seja rudimentar, agravado pela forte compressão das dimensões do original. O plano reticulado de suporte que se estende até ao horizonte fornece condições essenciais para uma colocação em perspetiva dos inúmeros elementos cuja leitura é tão enigmática como sugestiva, na proposta que o artista nos apresenta de os classificarmos e ordenarmos criticamente.
Está publicado no catálogo um artigo de um jornal de Providence com data de 12 de Maio, pelo que a exposição ocorreu naturalmente depois dessa data. Estou portanto perante a última realização nos Estados Unidos de que tive conhecimento e em que esteve envolvido Rogério Silva. Procuro cuidadosamente na internet os vestígios de outras exposições ou atividades artísticas, e encontro pouquíssimo. Há um site do governo doa Açores em que um senhor Luís M. Arruda (ver ao fundo), acrescentando pouquíssimo ao que eu sei e tenho aqui publicado, conclui de forma triste um resumo da vida de Rogério Silva:

“…Rogério Silva está representado em diversos museus e instituições dos Açores e da Costa Leste dos Estados Unidos (A. O., 2006). Na Horta deixou, pelo menos, o «Painel alegórico Faial-Pico» que, segundo Almeida Firmino «oferece uma síntese do esforço comum do povo que, neste lado do Atlântico, vive mais próximo e se confunde na faina do mar e labuta em terra. Uma visão exata do afã nesses dois aconchegados mundos.» (Firmino, 1973). Rogério Silva regressou à Terceira na década de 1990. Depois dedicou-se a ministrar cursos de gravura junto das escolas de várias ilhas. A sua morte ficou marcada por um profundo silêncio!…”

Onésimo Teotónio de Almeida, abertura do catálogo

Aí vai o Rogério a dar novas do velho Novo Mundo que lhe renasce na sua arte. Mensageiro— go-between— entre o cá e o lá desta fronteira larga que se dá pelo nome de Atlântico, Rogério faz-se ponte na arte.

Empenhado aqui com a mesma intensidade com que nos Açores se entregou à arte, ele segue projetando na forma e na cor dos seus trabalhos o idealismo quase visionário, utópico e otimista que anima o seu cometimento.

A New Bedford dos quadros da fase imigrante de Rogério é simultaneamente uma esperança de melhor e sinal de mudança já real no mundo imigrante que ele habita, em que se integra, e donde começa agora a dialogar com esse mundo maior da arte que, por não ter barreira de língua, não deixa de sofrer com as barreiras culturais e humanas. Desse diálogo já iniciado falam alguns textos inseridos neste catálogo. Aí vai o Rogério. Com dois VV, por favor.

Além de dois textos já antes divulgados de Norbert J. Yasharoff e de Richard Pacheco, surge um artigo de:

Edward J. Sozanski, crítico de arte do Providence Journal – Bulletin, 12 de Maio de 1978

O mundo de um excelente artista já não está escondido

Ao contemplar-se os quadros recentes de Rogério Silva, é difícil imaginar-se que foram criados por um artista que viveu nos Açores até 1971, e que agora mora em New Bedford e que não pretende salientar-se nem a si nem o seu trabalho.
Os quadros deslumbram em técnica e tema; apesar disso Silva não procura vendê-los através de revendedores ou galerias, nem tem sequer convidado museus ou galerias a apresentarem o seu trabalho.
0 seu constante esforço para se manter anónimo foi perturbado quando o Centro de Estudos Portugueses e Brasileiros da Brown University proporcionou uma exposição de 14 pinturas a óleo, todas feitas em 1974, e algumas serigrafias de data anterior, integrada numa série de sessões de arte.
R. Silva nasceu na ilha do Faial, nos Açores em 1929 e, de 1947 até vir para os Estados Unidos em 1971, viveu na ilha Terceira. A sua primeira exibição teve lugar na ilha do Faial, em 1955, e desde a chegada a este país tem exposto os seus trabalhos em New Bedford, Fall River e Boston.
A exibição na Annmary Brown revela não só desenvolvimento artístico mas também ajustamento cultural, os grafismos, na sua maior parte feitos nos Açores, põem em evidência um artista, tentando expressar um profundo compromisso com a sua ascendência e a sua cultura através de um estilo que mistura elementos do cubismo, do surrealismo e do futurismo com temas açorianos—baleias, barcos à vela e aves marinhas, por exemplo.
Há outros motivos comuns —tabuleiros de damas e dados, alusão talvez ao papel atribuído à sorte nas vidas e destinos das empresas marítimas açorianas.
A serigrafia “História de um Livro—a Pedra de Dighton”, feito em 1974, é ao mesmo tempo um catálogo e a culminação deste dualismo. Os artefactos culturais incluem agora o globo Gama e Magalhães , a cruz e o escudo lado a lado, com satélites e segmentos de fábricas.
Nos óleos o simbolismo cultural desaparece. Rogério Silva concentra-se na pura composição, usando elementos angulares e cores brilhantes. Alguns trabalhos são uma derivação clara de modelos arquitetónicos — escolas fábricas — se bem que altamente abstratos. Outros contêm espécies de vigamentos, ângulos e planos que sugerem elementos arquitetónicos e construções.
A influência que mais claramente domina é o futurismo, com uma presença menor do surrealismo, cubismo e mesmo uns laivos de “precisionismo”. As pinturas evocam um forte sentido de movimento, por vezes para dentro e para fora, outras vezes ciclónico. A geometria é áspera, de arestas precisas e linear—há algumas curvas, mas nada de formas suaves, nada que seja sequer remotamente biomórfico.
Enquanto o estilo varia de trabalho para trabalho, o sentimento absoluto de cor e balanço mantém-se consistente Excepto no que respeita à angularidade, algumas pinturas surgerem bastante o estilo pessoal cubista de Stuart Davis, particularmente no equilíbrio miríade de formas e o contraponto intuitivo de cores. Um deles incorpora até na composição números e letras, outra dominante do estilo de Davis.
0 trabalho de Rogério Silva deveria receber uma maior publicidade e embora ele não a procure, não parece provável que ele consiga continuar a guardá-lo doravante só para si.

Rogério Silva, desenho "Imigrantes divididos", desenho, 61 x 51 cm, Rogério Silva

Rogério Silva, desenho “Imigrantes divididos”, desenho, 61 x 51 cm, Rogério Silva

Heldo Braga, poema para os “Imigrantes divididos”

poema Heldo Braga

Biografias de Rogério Silva:

Publico abaixo duas biografias de Rogério Silva que consegui reunir, em épocas diferentes, mediante pesquisas na net, ambas do domínio de publicações do Governo dos Açores. São ambas publicadas integralmente, tal qual.

― Notícia biográfica de Rogério Silva de autoria de Luís M. Arruda, publicada num Portal do Governo dos Açores, que tenho nos meus arquivos e que foi descontinuado, dado que não aparece.

Silva, Rogério [R. Isauro da S.]

[N. Feteira, Horta, 22.2.1929 – m. Angra do Heroísmo, 12.6.2006] Pintor, desenhador e gravador. Com 18 anos de idade fixou-se na ilha Terceira onde foi professor de trabalhos manuais na Escola Comercial de Angra do Heroísmo (Telégrafo (O), 1953a) e havia de nascer para a pintura o artista que depois havia de ser (Firmino, 1973). Foi naquela ilha que contactou Martinho da Fonseca, mestre da pintura, a quem ficou ligado por laços da mais sólida amizade e compreensão.

Ainda em Angra do Heroísmo, em 1958, foi um dos fundadores, com Emanuel Félix e Almeida Firmino, da revista Gávea; esteve associado a Carlos Faria na editora Gávea/Glacial; e, em 1967, foi o grande impulsionador da Galeria «Gávea» – Galeria Açoriana de Arte, que funcionou no piso principal da sua residência, na rua Pêro Anes do Canto, com filial na rua D. Vasco da Gama, Horta, que realizou mais de 15 exposições, algumas delas nesta cidade. Foi com a Galeria «Gávea», não comercial e com funções didácticas, que promoveu diversas iniciativas, entre elas a vinda aos Açores de numerosas exposições de artistas portugueses e estrangeiros.

Depois de ter feito na Horta, em 1953, a sua primeira exposição individual de pintura (Telégrafo (O), 1953b; c), expôs em Lisboa, em 1954 e 1956 quando havia de ser descoberto por Artur Portela que lhe atribuiu uma posição honrosa entre outros artistas presentes numa exposição coletiva. Entre 1967 e 1972 realizou várias exposições individuais e coletivas.
Em 1971 fixou-se em New Bedford, Estados Unidos da América, onde promoveu a exposição infantil New Bedford/Angra – Angra/New Bedford, semelhante a outra promovida ainda na Terceira, naquele ano, Angra/Paris – Paris/Angra.
Expôs, em 1976, no Festival da Primavera, no Bristol Community College, Fall River, e na Câmara Municipal de Boston, e, em 1977 voltou a expor nesta Câmara, com mais dezasseis grupos étnicos e na Biblioteca Pública da cidade de New Bedford, a convite do Governo português. Em 1978, na Brown University (Providence, R. I.), integrada na série artística «Musas de Portugal e do Brasil» realizou a sua exposição de maiores repercussões.
Para Richard Pacheco, crítico de arte, «Rogério Silva é um excelente talento que desenvolveu uma mistura pessoal de cubismo e surrealismo, de lógica e sonhos loucos que tornam os seus trabalhos sobrepujantes e enternecedores.» (Pacheco, 1978).
Outro crítico de arte, Edward J. Sozanski, registou que «[…] os gráficos, na sua maior parte feitos nos Açores, põem em evidência um artista, tentando expressar um profundo compromisso com a sua ascendência e a sua cultura através de um estilo que mistura elementos do cubismo, do surrealismo e do futurismo com temas açorianos – baleias, barcos à vela e aves marinhas, por exemplo.» (Sozanski, 1978).
Segundo João Afonso «Não estará ainda produzido um estudo aprofundado da obra de Rogério Silva em suas fases sucessivas, frente às faces transmitidas aos quadros de cada época.
«Desde os Açores e, depois, por estes vinte anos de estada dele na Nova Inglaterra (povoada ou … desértica!), tem-se escrito em vários tons sobre o artista com traços do seu perfil humano, menos porém quanto às linhas do realizador de Artes visuais» (Afonso, 1989).
Rogério Silva nunca quis comercializar a sua arte. A propósito escreveu Norbert J. Yasharoff: «Nada querendo vender à exceção de provas das ilustrações de livros, tem desprezado completamente o aspeto comercial da sua vida de artista. Não tentou entrar em contacto com agentes ou negociantes. Não contactou nenhum museu ou galeria, com ofertas de exposição das suas obras. Pouco faltou para não convidar críticos de arte de outras cidades a pronunciarem-se sobre as suas exposições.» (Yasharoff, 1978).
Sobre a maneira de Rogério Silva entender a comercialização da Arte, Onésimo T. Almeida esclarece: «O Rogério chocava-se porque “a arte é arte e não se sujar”. Pelo menos a arte do Rogério, ou tal como o Rogério a concebia.» (Almeida, 2006).
Sobre Rogério Silva escreveu Firmino (1973) «[…] não pertenceu, como pintor, a esta ou àquela ilha: é sim, e por natureza, o pintor suis generis dos Açores […]».

Rogério Silva está representado em diversos museus e instituições dos Açores e da Costa Leste dos Estados Unidos (A. O., 2006).

Na Horta deixou, pelo menos, o «Painel alegórico Faial-Pico» que, segundo Almeida Firmino «oferece uma síntese do esforço comum do povo que, neste lado do Atlântico, vive mais próximo e se confunde na faina do mar e labuta em terra. Uma visão exacta do afã nesses dois aconchegados mundos.» (Firmino, 1973).
Rogério Silva regressou à Terceira na década de 1990. Depois dedicou-se a ministrar cursos de gravura junto das escolas de várias ilhas.

A sua morte ficou marcada por um profundo silêncio!

LUÍS M. ARRUDA

Fonte: Conservatória do Registo Civil de Horta, assento de nascimento n.º 84 do ano de 1929.

Bibliografia

A. O. [Álamo Oliveira] (2006), In memoriam. Rogério Silva (1929-2006). Diário Insular – vento norte, Angra do Heroísmo, 20 de Julho. Afonso, J. (1989), Pintor nosso lá fora. Rogério Silva – açoriano na Nova Inglaterra. Atlântida, 34, 1: 5-12. Almeida, O. T. (2006), Rogério Silva – a arte de um outro mundo. Tribuna das Ilhas, Horta, n.º 217, 7 de Julho: 7. Firmino, A. (1973), Rogério Silva, pintor dos Açores. O Telégrafo, Horta, n.º 22003, 21 de Fevereiro. Pacheco, R. (1978), Rogério Silva – shifting planes. New Bedford Standard Times, New Bedford, 30 de Abril: 16. Sozanski, E. J. (1978), A fine artist’s work is hidden no more. Providence Journal-Bulletin, Providence, 12 de Maio: 6. Telégrafo (O), (1953a), Horta, 21 de Agosto, [Rogério Silva]. Ibid., (1953b), Horta, 1 de Setembro [Rogério Silva]. Ibid., (1953c), Horta, 16 de Setembro [Rogério Silva]. Yasharoff, N. J. (1978), [notícia sem título]. Horizontes USA, Jan./Fev. Fragmentos.

A seguir publico também uma nota biográfica de Rogério Silva, que se encontra presente no site:
http://www.bparah.azores.gov.pt/html/bparah-historia+fundos02.html

Rogério Silva [1929-2006] – Pintor e ativista cultural

Rogério Isauro da Silva. Nasceu no Faial (Feteira) e faleceu em Angra do Heroísmo. Foi pintor, desenhador e gravador. Fixou-se aos 18 anos na Terceira, como professor de trabalhos manuais na Escola Comercial de Angra do Heroísmo.
Juntamente com Emanuel Félix e Almeida Firmino, viria a ter um papel central na atividade cultural angrense, quando os três fundaram em 1958 a revista Gávea e, mais tarde, extinta esta, com a criação, em 1967, da Galeria de Arte Gávea, que funcionou na sua residência, na rua Pêro Anes do Canto e teve filial na Horta. Nesta fase colaborou intensamente com Carlos Faria, coordenador da página literária «Glacial» do diário angrense A União, realizando numerosas exposições de jovens artistas portugueses e estrangeiros e criando a editora Gávea / Glacial.
Fez a sua primeira exposição individual de pintura em 1953, na galeria do jornal O Telégrafo; expôs em Lisboa, em 1954 e 1956, tendo sido notado por Artur Portela, figura destacada da época, que o levou ao convívio com outros artistas, numa exposição colectiva. Entre 1967 e 1972 realizou várias exposições individuais e colectivas.
Em 1971 emigrou para os Estados Unidos da América e fixou-se em New Bedford, onde viria a desenvolver vasta atividade cultural, semelhante àquela já desenvolvida nos Açores. Está representado em diversos museus e instituições dos Açores e da Costa Leste dos Estados Unidos.
Rogério Silva regressou à Terceira na década de 1990, tendo o seu regresso sido ignorado pelas novas gerações de artistas. O seu falecimento passou quase completamente desapercebido da imprensa.
Do espólio entregue à Biblioteca Pública e Arquivo Regional de Angra do Heroísmo em 2012, por seu sobrinho, Nelson Cardoso, constam documentos pessoais, livros da sua biblioteca pessoal, catálogos de exposições, alguma correspondência pessoal entre amigos e parentes e muitas fotografias pessoais, de família e de viagens, assim como de quadros seus.

Regresso aos Açores, na iminência do caos… 1997

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Texto de catálogo da exposição “regresso aos Açores” que teve lugar em Coimbra na Casa Municipal da Cultura, em Outubro de 1997, da autoria de António Pedro Pita

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“Oh show us the way to the next Whisky bar” (B. Brecht), acrílico s/ tela s/ platex, Costa Brites 96-98

Na iminência do caos

Costa Brites iniciou o seu percurso de pintor em Ponta Delgada, corria o ano de 1968. Colhemos a informação nas sucintas referências biográficas publicadas nos catálogos de algumas exposições. O perfil do pintor, nessas linhas, para além de breve, é de uma secura assinalável. E a sua repetição, de catálogo em catálogo, praticamente sem alterações, é um modo de se tornar expressiva. Como se o pintor Costa Brites não tivesse, como biografia, senão a que fosse constituída pelo que (de desenho para desenho, de quadro para quadro) caótica, sucessiva e/ou simultaneamente se vai exprimindo.

A biografia possível de Costa Brites reduz-se, pois, a muito pouco. Sabe-se que o pintor não frequenta o social nem é profissional de opiniões, protestos, abaixo-assinados e outros folclores. Raramente se inscreve – em todo o caso raramente como pintor – em acontecimentos exteriores aos que ele mesmo desencadeia e que o levam, cruelmente, aos limites de que os seus quadros são, não propriamente a notícia, mas o sinal.

Todavia a referência ao lugar e ao tempo das suas primícias é a citação, pelo exterior, do tempo e do lugar de um processo interior em direção às artes ou, para sermos mais rigorosos, à convicção das possibilidades redentoras da arte. Em nenhuma das várias “Notas biográficas” que conheço é omitida a condição de discípulo (ou aluno de desenho) de Jorge Valadas e do Prof. Narciso Costa ou é apagado o autoctonismo, compensado, como também se refere, pelos estudos de história de Arte e visitas sistemáticas a monumentos, galerias, museus, etc.

Ah, não ter sido Madame de harem!.../grafite e acrílico s/ tela/ Costa Brites 1996

Ah, não ter sido Madame de harém!… (Bernardo Soares) /grafite e acrílico s/ tela/ Costa Brites 1996

Por conseguinte, quem inicia o percurso de pintor é um jovem, mas não muito (confiram-se as datas), que na situação político-cultural de Ponta Delgada em 1968 quis dirigir o gosto e o talento, de que porventura já dera provas e fora reconhecido, para uma construção artística a inscrever voluntariamente num horizonte de emancipação individual e social.

Seria deslocado analisar agora com pormenor as especificidades desse momento riquíssimo. Limito-me a um aspecto. Em Dezembro de 1970, Costa Brites apresenta-se em exposição individual, sob o título Formotemas. Nos títulos dos quadros e nos trechos selecionados para o catálogo Herberto Hélder e António Sérgio, Bertrand Russel e Ray Bradbury, Aldous Huxley e Antero., Hiroshima, Carlos Faria, Lima de Feitas e Nagasaqui são convocados como pontos de referência de uma atitude estética e existencial. Mas um breve texto do pintor define os termos da sua vontade de expressividade pictórica.

Dois anos depois de 1968. 1968 foi, não o esqueçamos, o ano das revoltas estudantis (Paris, Berkeley) e o ano da invasão da Checoslováquia pelo exército soviético. O desejo de revolta ganha contornos inéditos: ilimita-se nos gestos radicais dos estudantes tornados intérpretes da Insatisfação e sofre o duro revez da prova da prática. Ao concreto tornado cena de uma tragédia de que se não antevia desenlace só o poder da imaginação parecia poder contrapor-se. Por isso, a intervenção política da arte implicava também uma rutura com as várias soluções realistas que durante trinta anos quase hegemonizaram a identidade.de uma arte combativa.

Para Brites, tudo gira em torno da polaridade guerra/conformismo. E as artes são a “única eventualidade regeneradora do carácter dos homens, caso as sociedades lhes permitam — nas vésperas muito iminentes do último grande delírio — uma parceria franca com a generosidade, a mansidão e a inteligência”.

As obras desse período testemunham a conquista do espaço do quadro por uma fabulação onírica a que não são alheios o cinema, o surrealismo e a pop-arte. Fixada residência em Coimbra (1971), Brites consagra-se, ao longo da década de setenta, ao apuro das soluções técnicas (= estéticas) para a expressão do seu imaginário próprio.

Habemus PDM!... /acrílico s/ tela/ Costa Brites, 1997

Habemus PDM!… /acrílico s/ tela/ Costa Brites, 1997

É o momento de dizer que a pintura de Costa Brites:

a) toma forma no interior de um imaginário complexo: riquíssimo pela variedade de formas que assume; assombroso, para não dizer monstruoso, pelas figuras que regista.

b) em nenhum momento cedeu à tentação do realismo.

É uma pintura da transfiguração ou, para sermos mais rigorosos, de alguns modos possíveis de transfigurar e, por isso mesmo, uma pintura desinteressada da realidade por compromisso com o real. À distância de quase trinta anos interessa-me anotar a coerência deste percurso, uma coerência que se não desenvolve sob o modo da repetição de problemas e soluções mas sob o modo do incessante desenvolvimento de um núcleo imagético fundamental. Disto mesmo nos apercebemos se tentarmos captar os regimes de transfiguração que operaram, mais ou menos ciclicamente, no devir da sua obra.

Georges Bataille: “Pode definir-se a obsessão da metamorfose como uma necessidade violenta, confundindo-se por outro lado com cada uma das nossas necessidade animais, que leva o homem a separar-se de imediato das atitude exigidas pela natureza humana “.

103 Diogenes

Diógenes e os pássaros de pedra / óleo s/ tela s/ platex/ Costa Brites, 1995

No primeiro período do trabalho de Costa Brites o sonho é o modelo da transfiguração e a chave do processo de metamorfose. As suas figuras, que estão próximo da melhor banda desenhada (falo de Burne Hogarth ou de Guido Crepax, por exemplo), definem um universo surreal. O animal da noite que percorre o corpo dos homens vem à luz do dia na superfície da tela ou da folha. As obras de Brites, ao longo dos anos setenta, percorrem territórios alheios aos da chamada pintura retiniana. É, como queria Breton, uma pintura da concretização das imagens presentes ao espírito. As fulgurações que ocupam a tela ou a superfície do desenho nascem de um trabalho de visionário e não do esforço do observador mesmo, e principalmente, se os objetos do olhar visionário são mais reais do que os objetos observados. São eles e não estes que tudo decidem da própria conformação do real. Os rostos de cujos olhos nascem outros rostos e mãos libertas ou prisioneiras ou as espingardas em flor que irrompem da terra (um desenho de 1972} poderão constituir a suma de uma estética que se concretiza em muitas obras de diferente dimensão e alcance mas que constitui um primeiro nível de maturação desta pintura transfiguradora. Costa Brites transfigura a realidade pelo sonho e é para a maior expressividade possível desta transfiguração que faz apelo a sua transcrição de estados oníricos. O sonho é o real da realidade.

Em 1980, Costa Brites “abre um ciclo de novas exposições tendo como motivo centra! o estudo da paisagem urbana de Coimbra”. (Socorro-me, ainda, das “Notas biográficas” publicadas nos catálogos). Trata-se de um parêntesis figurativo? Se é pertinente a nossa afirmação anterior de que Brites jamais cedeu ao realismo, como compreender este longo período de atividade do pintor, para mais intensa e produtiva? A questão não é fácil. Como já tive oportunidade de escrever, este ciclo da obra de Costa Brites tornou-se responsável por múltiplos equívocos que, a um tempo, fizeram lavrar o seu sucesso num regozijo minado e constituíram um obstáculo à inteligibilidade da obra toda de Costa Brites. É contudo um ciclo essencial.

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lugar longe preparado para um sonho / acrílico s/ tela s/ platex / Costa Brites, 1993

É uma outra referência central do surrealismo — o belga René Magritte — que me parece pertinente evocar, pela exemplar radicalidade do seu alcance, para esclarecer o afloramento deste ciclo na obra de Costa Brites bem como as relações desse ciclo com a obra antecedente e consequente do pintor. Não quero reproduzir o que já escrevi a propósito, em l988 e em l991. Para esses textos remeto o leitor eventualmente interessado. Mais me interessa agora aferir uma outra pertinência, a das palavras de Georges Bataille que escolhi para percorrerem, como fio de aclaramento, todo este texto. O ciclo que Brites consagra — como se diz — ao estudo da paisagem urbana constitui, do meu ponto de vista, ainda uma transfiguração. O que a decide não é a identidade da figura transfigurada. Neste ciclo, Brites não toma um caminho diverso do ciclo anterior do seu trabalho. Pelo contrário: aprofunda os meios e a lógica da transfiguração.

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Quanto aos meios: toda a obra de Brites, mesmo a pintura que dela mais longe parece estar, assenta no domínio prodigioso da técnica de desenho. O ciclo em referência é o do desenvolvimento sistemático, poderíamos dizer: exaustivo, das imensas possibilidades expressivas da grafite e do nanquim. Com este exercício paciente, Brites não se afasta, senão aparentemente (e para além da consciência que o artista possa ter de todo o processo), do ciclo anterior, no qual o desenho já ocupara um lugar de grande importância. O período do estudo da paisagem urbana é, antes de mais, o estudo dos meios adequados à transposição pictórica da cidade.

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Quanto à lógica: artisticamente, é secundário o motivo transfigurado. A figura, como se sabe, não é unicamente o corpo humano. Ora, o corpo transfigurado não é, agora, o humano ou o animal. É a cidade, a rua, a casa, a pedra, a cal. Brites investe o apuro das formas do fantasma da fotografia. Neste ponto, que é indiferente saber se correspondeu ou não a um programa consciente do pintor, é que a breve citação do projeto de Magritte se me afigura de alguma utilidade. Como já foi escrito, “tornando-se surrealista, um ano após o Manifesto de Breton, Magritte escolheu ser um pintor realista para quem o real — o que toda a gente vê facilmente — é o meio privilegiado de fazer oscilar o convencional para o enigma e, assim, revelar tanto quanto possível o mistério que aí se encontra”. Ora, se no primeiro ciclo do seu trabalho a lógica da transfiguração consistiu em projetar a verdade do sonho sobre a aparência da realidade para que o real se fizesse aparecer e sentir, agora Costa Brites toma uma das vias desde o início possíveis para permanecer no exterior da tradição realista: levar a realidade até ao enigma para gerar, no espaço da projeção do enigma sobre a realidade, uma interrogação sobre o real.

O que nos leva ao reencontro de Bataille. A cidade de Costa Brites foi sempre uma cidade deserta. Mas se, num primeiro momento, era uma cidade pujante de cor (é provável que Brites tenha apurado aqui o enorme domínio do trabalho com a cor que se revelará da maior importância no ciclo posterior do seu trabalho), torna-se depois uma cidade em lenta mas inexorável descoloração, até atingir em obras mais recentes, pelo aprofundamento do recurso à grafite, a figuração da pedra corroída e da decadência da cal. Esta cidade não é habitada porque não é habitável. As cidades habitadas, mas igualmente inabitáveis, são as cidades do conformismo (tópico de 68) em que os homens só têm espaço para o pior de si mesmos – o pior, isto é: o tão conforme a todos os outros que nem sequer é visível. Por isso, talvez, a cidade é deserta. A cidade ocupa (também em sentido militar) todo o espaço do quadro. A cidade não tem espaço para a irrupção da força animal que transfigura.

A reinvenção do azul, acrílico s/ tele s/ platex, Costa Brites 1997

A reinvenção do azul, acrílico s/ tele s/ platex, Costa Brites 1997

As obras mais recentes de Costa Brites constituem o fulcro de esta exposição. Não será exagero afirmar que entre elas encontramos algumas das obras mais belas de todo o percurso do artista. Mas dizê-lo é incaracterístico e insignificante embora a complexidade de estas obras não facilite nem o trabalho da análise nem a proximidade do sentimento.

Brites condensa por vezes em cada uma delas várias coordenadas anteriores. Do seu passado remoto ou próximo conserva a paixão pelo rigor do desenho. Agora, todavia, é o trabalho da cor que ocupa a primeira linha do nosso olhar. Para a meticulosa organização do diálogo, por vezes tornado conflito, entre cores e matizes é indispensável volver a mais intensa disponibilidade de que formos capazes.

Mas é insuficiente. Se, em obras anteriores, principalmente do ciclo urbano, Costa Brites já conseguira, na mesma superfície, uma pluralidade de problemas e soluções — o que rapidamente se sintetiza na fórmula: vários quadros num só quadro — agora radicaliza de dois modos o procedimento.

A) Acentua a dimensão narrativa de algumas obras: o quadro deixa de centrar-se unicamente numa figura; em vários quadros, mais do que o devir temporal, é verdadeiramente de uma narrativa, ou fragmentos dela, que se trata.

B) Violenta a superfície da tela e opera ruturas de nível, desnivelamentos, descontinuidades de esquadria.

o oiro e o vento, grafite e acrílico s/ tela s/ platex, Costa Brites 1996

o oiro e o vento, grafite e acrílico s/ tela s/ platex, Costa Brites 1996

Em algumas obras recentes, desdobra os planos de representação e deixa à expressividade da cor o lugar central, como que a emergência na tela de um para-além-dela. Nessas obras do que se trata é verdadeiramente de um conflito, não de um diálogo nem de uma tensão, entre o espaço superficial e o espaço interior da tela. Não se trata de reativar o recurso estilístico da ilusão visual. Trata-se de reconsiderar a problemática da representação não nos terrenos da metalinguagem mas como adequada solução estilística para a expressão do monstruoso imaginário de Costa Brites.

Agora, o pintor subordina a representação deste imaginário às determinações de uma vontade imperativa. O que se perde em espontaneidade ganha-se em rigor e clareza. Brites faz de cada quadro uma síntese de todo o seu percurso. Recupera motivos e inspirações. A superfície da tela é o espaço da metamorfose integral dos corpos, Os membros e os órgãos reorganizam-se em múltiplas figuras, múltiplos corpos, monstros, levados com frequência ao limite de puras formas, irreconhecíveis, ameaçadoras, que vêm ao nosso encontro sopradas por um vento que não sabemos de onde vem.

Aves de fogo a

“somos as aves de fogo por sobre o campos celestes” (H.Helder) – acrílico s/ tela s/ platex, Costa Brites, 2000

As figuras da produção mais recente de Costa Brites já não são identificáveis com nada anterior ou exterior às telas em que ocorrem. Mas a superfície da tela é a pele de um espaço de acolhimento: “acolhemos em nós não só Deus mas todos os seres que reconhecemos, incluindo os que não nomeamos: somos o cosmos na medida em que o conhecemos e sonhámos” (Nietzsche}. Mas a superfície da tela é o lugar de um florescimento: “do animal e da planta devemos aprender o que é florescer : e depois aprender de novo tudo o que se refere ao homem” (Nietzsche).

As figuras da produção mais recente de Costa Brites são formas em processo de metamorfose, corpos que mudam por exigência da sua própria força, num devir que transforma a superfície da tela no lugar convulso onde o inesperado pode irromper e o caos está iminente.

António Pedro Pita

O que aqui vos mostro

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Para abrir a galeria, é favor carregar no primeiro desenho e depois mandar avançar clicando na seta do lado direito para fazer avançar as imagens.

o que aqui vos mostro…

o que aqui vos mostro não é uma paisagem, nem uma visão traçada a olho de pássaro de um ponto no mapa, com nome, história e coordenadas geográficas. O que aqui se vê é o cenário pressentido de mil encontros ou dez mil desencontros, pressupondo naturalmente que uma coisa seja mais abundante que a outra, porque mais rara de alcançar por quem recebe e mais difícil de construir por quem oferece. Os detalhes, os objectos simbólicos, o lugar donde se espreita a fuga, o achado, a cobiça despropositada e o desejo triste são impossíveis de ver à lupa do sentimento claro, estando quem vê repousando somente no parapeito rápido e indiscreto da casa que não é sua. Ninguém vive ali. Ninguém está ali com vagar de ver, mesmo que tenha o tempo de olhar. Olhar tão lentamente, olhar tão devagar por um espaço tão enorme de tempo que permita colecionar na lembrança tanta ingenuidade pitoresca, tanto defeito de obra, tanta carne saturada do verde musgo das paredes velhas. Ver é sempre depois. Ver é a pequena parte que sobrevive das imagens inventadas. Eco. Reflexo. Achado precioso da lembrança.

Costa Brites, Março 2013

219-Sofia-grafite

Alta-Rua da Sofia, desenho a grafite, 1994 Costa Brites

Rogério Silva – entre os Açores e a Nova Inglaterra

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Artur Goulart e Onésimo Teotónio de Almeida – memória e partilha

Artur Goulart, Rogério Silva, Onésimo Teotónio de AlmeidaArtur Goulart, Rogério Silva e Onésimo Teotónio de Almeida

Não necessito (nem me seria possível) descrever as proximidades culturais e de amizade pessoal que se desenrolaram entre Artur Goulart, Onésimo Teotónio de Almeida e Rogério Silva, recorrendo aqui ao preciosismo da ordenação alfabética dos seus nomes. Outras referências mais qualificadas e – na minha opinião – interessantemente necessárias, terão de esperar pela generosidade dos dois primeiros, porque ainda e sempre especialmente activos criativa e intelectualmente. É desses dois amigos que me têm chegado elementos informativos, imagens, etc., que nos concedem – a mim e ao meu sempre presente cúmplice Rogério Silva – efectuar um salto qualitativo no material apresentado nestas páginas.

Falando a respeito do artista e da pessoa de Rogério Silva na consideração dos trabalhos seus que tenho podido conhecer, trago aqui apenas uma leitura para uso próprio de uma totalidade truncada por muitas lacunas, percepção de certos fragmentos do caminho andado na irremediável ausência do caminhante. Não tenciono exercitar conjecturas sobre os elos que faltam ou configurar justificações para tudo o que terão decidido os acasos da inspiração, as carências do tempo, do espaço e do suporte material de que os sonhos necessitam para se tornarem ato. O intuito é encantar-me com o espólio disponível, fazer a viagem paciente de quem ama o que vê, que não é tudo o que deveria ser possível contemplar, fosse outra a realidade envolvente e fosse outro o impulso de auto-afirmação do protagonista. Em cada objecto procurarei irmanar-me com o criador deixando passar por mim o sentido da busca e, sem poder chamar-lhe meu, pressenti-lo ou adivinhá-lo como se o fosse. O impulso que o artista provoca no observador é também obra sua: mistura de ilusão e de conquista, de realidade e utopia – palavra feliz esta última por ser tão coincidente com os apaixonados projetos de Rogério Silva. A arte que ele procurou idealmente colocar ao alcance de um largo número de pessoas foi como os países que não sabemos se existem, capítulo de um livro muito bem sonhado, incompletamente escrito e só vivido pelos prendados por casualidades felizes, que entre eles me conto.
Reparando ao fim em tudo o que vi e escrevi, tenho a sensação de que fica muito por revelar e outro tanto por dizer…


Costa Brites
Lousã, Novembro de 2013
costabrit@gmail.com

Da colecção de Artur Goulart, os trabalhos mais antigos

Pela mão amiga de Artur Goulart chegou-me um conjunto de elementos, sempre raros e preciosos, a respeito de Rogério Silva, e é por eles que começo dado que documentam memórias mais antigas. “Aeroporto” oferece-nos aquele que, para mim, é o mais antigo acto de pintura de Rogério Silva que conheço. Uma aguarela (ou aguada de acrílico?…) de 1960, datada de Lisboa. Pode pensar-se que por ter sido datada, não na Ilha, mas fora dela, o pintor estaria interessado em mostrar-se tal e qual, fora da sua “circunstância”.

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Aeroporto; Aguarela (?) sobre papel 50x 60 cm; 54 x 64 cm com moldura (original); assin.: R. Silva /Lisboa 1960; Exposições: “Pintura e Desenho – Rogério Silva e A. Lombega”, Museu de Angra, Março 1963 (cat. 16); “Pintura e Desenho de Rogério Silva”, Escola Comercial e Industrial de Angra do Heroísmo, por ocasião da II Semana de Estudos do IAC , Abril 1963 (cat. 8); Comprado (2.100 esc.) em Abril 1963. (Notas de Artur Goulart).

“Aeroporto” possui grande leveza poética e lógica paisagística com uma vasta área de céu assinalada por leves camadas ondulantes de cor e luz e um horizonte de alinhamentos que definem planos, profundidades, perspectivas e multiplicidade de elementos significativos impossíveis de nomear, mas à sua maneira – bastante eloquentes.
A compartimentação entre céu e horizonte, de acordo com o sentimento poético, não afirma com rigor o referencial tectónico, que é suficientemente oscilante e descontínuo para se limitar a uma função metafórica. A “cidade” é preenchida por “acontecimentos arquitectónicos” pouco afirmados, com transparências, manchas e liberdade de gestos, sem o rigor das configurações mais tardias e atreve-se, para o lado direito (o da progressão instintiva do olhar…) à congeminação de uma nave monumental com velas aparelhadas que, aparentemente, levanta voo no meio de uma grande cidade (esta foi a primeira leitura intuitiva que fiz do objecto, antes de reparar que o trabalho fora designado “Aeroporto” pelo autor, o que dá algum sentido à visão colhida).
Grande cidade, pergunte-se: À beira-mar? À beira-rio?
Não interessa, posto que a sugestão da complexidade espacial, a abundância de acentuações rítmicas e de “acidentes expressivos” estão lá, da mesma forma que iriam aparecer nas “composições” dos anos setenta, executadas na América por Rogério Silva.

Para que fique dito desde início, por ser observação confirmável através de toda a sua obra, é evidente no artista a recusa da revisitação dos temas, pelo menos em citações de índole literal. Em Rogério, independentemente do estilo e da personalidade, tudo se renova de desenho para desenho e de pintura para pintura. E até mesmo num só quadro a nota da estabilidade, da repetição e da simetria são natural e imediatamente rejeitadas, como se fosse pecado dizer a mesma coisa duas vezes, da mesma maneira.

Xilogravuras de 1963

“Leiteiro” – “Pastor” – “Nabiça” (Tipos Terceirenses)  três Xilogravuras de Rogério Silva
clicar para ver maior

Começo por mostrar três obras da colecção de Artur Goulart : “Leiteiro” – “Pastor” – “Nabiça” (Tipos Terceirenses) três Xilogravuras de 54,5 x 31,5 cm c/ molduras originais Exemplares: 027/100.
Têm como característica terem sido assinadas por Rogério Silva sob o pseudónimo de Duarte Rocha (D.R.), e ainda: R. Silva 963. São marcadas por fina elegância e bom gosto e mostram três longilíneos trabalhadores da Ilha Terceira sem os estigmas frequentemente usados para caricaturar “tipos” de origem popular. Deste modo, muito embora ostentando alguns apetrechos que personificam as tarefas que exercem, mais parecem figurinos para um espectáculo de ballet ou estilizações para uma récita de teatro musicado.

De 1969 posso mostrar mais três xilogravuras que Rogério me ofereceu, edição de 50 exemplares feita pela Tipografia de “O Telégrafo” em 4 de Março de 1970.

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Estão tituladas e assinadas pelo próprio punho de Rogério Silva, duas têm o mesmo título “Espera de gado, Ilha Terceira, Açores”, e a terceira chamou-lhe “”Espera de gado, embebedando o toiro, Ilha Terceira Açores”, tendo sido todas designadas como “Xilografia nº 14”. Cada uma delas, como parte da composição, integra um título que esclarece o tipismo da cena: “Ele vai aos degraus”, “Adega Lusitânia, São Pedro” e “Olha as calças”.

Galeria de imagens: se não tiver acesso peço o favor de fazer “refresh” ou “reload page” (Ctrl+R ou tecla F5) clicando depois sobre uma das imagens.
NOTA: as galerias têm a vantagem de permitir o visionamento das imagens na sua dimensão original. Aberta a galeria, junto de cada uma, à direita, em baixo clicar em “view full size”.

Rogério Silva, expressão e movimento

Nestas esperas de gado, de concepção muito diferentes das três primeiras gravuras da colecção de Artur Goulart, está presente a paixão pelo movimento e pelo dinamismo, independentemente de uma sagaz economia de meios narrativos correspondente ao monocromatismo compacto e ao tipo de técnica utilizada à base de rasgos enérgicos de goiva executados com fluência curvilínea.
As figuras e situações estão caracterizadas esquemáticamente quer se trate de pessoas, de anotações arquitectónicas muito simplificadas, os degraus em perspectiva dinâmica e os pavimentos adequadamente ilustrados com sinuosidades de óptimo efeito.
Em todo o trabalho de Rogério Silva é muito fácil encontrar testemunhos desta capacidade estético-narrativa, que, com base num certo dramatismo pessoal, revela o gosto pela expressividade, tanto nos recursos desenhísticos como na utilização da cor e nas formas de aplicá-la.
Como extensão ou consequência das xilogravuras das “esperas de gado” – momento alto da caracterização anímica dos povos da Ilha Terceira – Rogério Silva regressou a esta temática já nos Estados Unidos, ainda que episodicamente, usando a técnica da pintura.
Na galeria a seguir, passamos primeiro por “Embebedando o toiro”, uma álacre revisitação das festas populares herdadas pelos Açores da ancestralidade Ibérico-Mediterrânica. Os “pastores”, aqui, apesar de ainda terem cabeça, tronco e membros no seu lugar, aparecem já animados por estilizações gráficas e cores lisas, num cenário totalmente despido de referências.
A segunda imagem, “O pastor e o toiro”, mostra animada brincadeira na qual, se não me engano, é visto o mesmo rapaz que perdeu as calças na xilogravura de 1969.
As figuras de ambos vão-se rapidamente desconstruindo, sob a interferência de geometrismos que roubam protagonismo à naturalidade orgânica do homem e do animal, prenúncio de outras temáticas que viriam a tornar-se definitivamente mais importantes na obra do artista. Trabalhos a óleo e acrílicas, expostos no Portuguese Spring Festival do Bristol Community College de 1976.
(A reprodução de fraca qualidade gráfica destes trabalhos, vistos no catálogo da exposição indicada, é feita apenas como referência aos mesmos).

No catálogo da exposição do Festival Bostonian/Portuguese Celebration de 1976, vemos ainda na galeria duas pequenas ilustrações em que um homem denodado, perseguido pelos enleios do seu próprio conflito, se defronta em desespero com seres inquietos e ameaçadores. Esta inclusão justifica-se porque é exemplo eloquente da tendência aludida em sub-título.

Reforçando o que disse quanto à tendência de desconstrução figurativa e liberdade compositiva aparecem ainda na galeria anterior reproduções de trabalhos a óleo e acrílicas: “Moinho de Vento” e “Baleias”.
Nestes observamos com evidência o estudo do movimento – efeito de “turbilhão” – atitude muito ligada à necessidade de RS de acentuação dinâmica, transversal a várias das suas “fases”, dos desenhos iniciais até um bom número de exemplos patentes nas suas pinturas abstractas, por assim dizer, mais “avançadas”.
Essa acentuação vai conquistando sempre novas modalidades até chegar às esplêndidas composições de maior captação espacial a que a seguir faço alusão e comentário.

Exposto mais do que uma vez, nomeadamente na exposição feita na Brown University em 1978, mostra-se a seguir um trabalho dessa fase, onde é muito clara a presença de outro “turbilhão”.
Estando completamente ausentes seres ou objectos nomeáveis, destaca-se por cima de uma cor lisa de fundo, distante e impassível, o vórtice de fragmentos muito elegantes que se expandem a grande velocidade, para cima e para diante, em obediência a uma irresistível diagonal ascendente – simbolismo apetecível de um sentido de evolução universalista e sem limites. Observemos que o pintor, não obstante o sentido aparentemente anárquico da composição – tomou precauções muito sérias da “ordenação” dos fragmentos em aceleração evidente.
Em torno de um “centro”, eixo aparente de neutra solidez, organizam-se em baixo os elementos de mais robusta estatura e cores mais densas, cujo velocidade inicial se concentra animada por vectores explicitamente coerentes. O balanço da força rotativa não tarda porém a lançá-los – cada vez mais luminosos e imponderáveis – para a órbita sem fim à vista.
Não admira que Rogério Silva, no rol dos seus títulos intencionalmente pouco descritivos, tenha reservado para esta pintura o designativo de “Futuro”. Ora vejamos:

“Futuro”, acrílico Rogério Silva, reproduzido no catálogo da exposição de 1976, Festival Bostonian, Portuguese Celebration.

Regressando aos títulos “comedidos” observamos um outro exemplo da intensidade das percepções de RS e da força expansiva (movimento…) de que estava animado o seu olhar. Vejamos a “composição” de 1974 várias vezes exposta em Bristol e na Brown, pelo menos:

"composição", acrílica de Rogério Silva, 1974, colecção de Onésimo Teotónio de Almeida

“composição”, acrílica de Rogério Silva, 1974, colecção de Onésimo Teotónio de Almeida

A obra acima vem juntar-se às outras que vinha comentando em torno da ideia do “movimento”. Dirão os meus leitores que esta composição, ao contrário, torna visíveis uma boa porção de elementos de estabilidade, isto é, linhas verticais e horizontais com suporte visual numa zona inferior mais pesada e deliberadamente circunscrita, de ambos os lados, por alicerces que se aproximam do negro.

Para os observadores experimentados que são os visitantes leitores atentos destas páginas não é necessário explicar que as diagonais do plano que unem os vértices configuram a sua estrutura dinâmica e as medianas que unem os pontos intermédios dos lados opostos do mesmo configuram a sua estrutura estável. Em suma, todas as linhas horizontais ou verticais conferem estabilidade à imagem obtida; logo que uma dessas linhas se inclina para um ou outro lado, passa a criar-se tensão dinâmica, mediante as linhas ou configurações inscritas no plano, transformadas em superfícies motoras pelo operador plástico.

A mente arquitectónica de Rogério sente-se bem na configuração de espaços com lógica habitável, com hierarquia de valores, com parte de cima e parte de baixo. O artista contudo nunca elabora esses cenários sem lhes acrescentar elevado potencial energético.
Neste “futuro” encontramos abundante quantidade de vectores de dinamização dentro, fora, em cima, dos lados e através; inúmeras extremidades por onde se liberta energia acumulada na palpitação da grande torre e dos edifícios em volta.
A partir do centro e envolvendo o observador por todos os lados, há uma grande quantidade de linhas orientadas em todas as direcções, com pontos de fuga diversificados, para não dar impressão de monotonia ou unanimidade vectorial.
No último plano, do qual será obviamente possível contemplar horizontes distantes, foi construída uma formidável estrutura horizontal herculeamente sustentada por um corpo central, alto como uma torre, bem individualizado todo o conjunto na sua densidade azulada.
Os roxos, azuis e rosas desse edifício principal atribuem-lhe a serenidade do que é inamovível, fazem pensar na seriedade do saber que se casa com o sentido inovador.
O que o quadro nos mostra não é da solidez conservada, é do dinamismo prometido, do sentido da força interior.
Falta, enfim, mencionar as duas barras castanhas que, desde a parte de cima da “porta” azul que se abre no centro-direita-inferior, se estendem velozmente até bem acima do observador, de ambos os lados da parte superior do quadro.
São dois elementos que acentuam a profundidade da cena, abrindo um autêntico túnel que se projecta para o azul central. Este, por seu turno, dialoga com mais quatro janelas azuis distribuídas próximo do observador nos quatro cantos da obra, duas em cima, duas em baixo – num plano já muito próximo dele.
Não sei quantos serão os leitores deste comentário que terão a placidez observativa para acompanhá-lo, conferindo o que está à vista com a respectiva descrição.
Eu não invento nada, está tudo à vista e tudo foi pensado e reflectido por Rogério Silva.
Podia entregar-me ao prazer de continuar elaborando ideias, experimentando a solidez da modernidade aqui ousadamente liberta de mediocridade e de tédio. Mas não é necessário, basta olhar.

Nota importante:

Esta pintura, como muitas outras de Rogério Silva, tem genuína vocação monumental. De dimensões muito reduzidas para a sugestões que consigo transporta, tem condições para ser encarada como um projecto para obra de grandes dimensões, a ser instalada num grande espaço público. O seu visionamento em monitor digital permite imaginá-la não na modéstia dos seus 72,5 cm de altura, mas nos metros de altura que merecia. É essa tal obra que se encontra aqui comentada, mais do que o invejável quadro que se encontra em casa de Onésimo Teotónio de Almeida.

Diz-me Onésimo que a comprou a Rogério por ser da sua especial preferência. Julgo que nenhum observador atento deixará de lhe dar toda a razão. Quanto a mim, já que não posso acompanhá-lo na preferência, sigo-o integralmente no gosto!…
Fica já agora a assinatura do quadro e uma frase interessante do e.mail em que me mandou uma foto do mesmo:
“…É um quadro do mesmo género dos outros: acrílico. E também de 1974, o annus mirabilis do Rogério, pelo menos da sua fase americana…”

Assinatura Rogério Silva, 1974

Assinatura Rogério Silva, 1974

Ano de 1974, annus mirabilis?…

Não duvido nem um pouco do que Onésimo Teotónio de Almeida afirma reiteradamente quanto à riqueza produtiva de Rogério Silva naquele ano (das grandes mudanças…) de 1974.
Os historiadores e críticos de arte dizem estas coisas na melhor das intenções, desejosos de revelar o segredo da acumulação de forças que se desenrola na mente, na alma, dessas criaturas frágeis a que chamamos artistas.
Por muito que nos demoremos buscando a raiz essencial dessa energia, por muito desejosos que sejamos de explicar tudo (e ás vezes o olhar que se concede ao trabalho artístico é tão rápido que nem dá para uma ínfima parte da sua natureza material, quanto mais para o seu conteúdo realmente profundo…) sempre fica lá muito longe a circunstância do artista, a sua paixão e as suas urgências.
De facto, a consideração que é possível dar ao volume e, atenção, à qualidade do trabalho de Rogério Silva durante esse curto período da sua existência, oferece ao rigor do critério pessoal e humano que se reveste, uma conclusão indispensável:

– O artista, repartido de forma desordenada na busca de uma consolidação mínima de vida e fatigado (exausto?…) pela invenção de um destino messiânico, detém-se numa pequena clareira da jornada, concentra todas as forças que pode reunir e… o mundo aguarda impaciente que ele dê provas categóricas e imediatas do seu génio, da sua magnânima e heróica paixão.

Pergunto: se este é o evidente testemunho dos valores que Rogério pode ter alcançado, no breve intervalo que, talvez precariamente, a vida lhe concedeu, o que não poderia ter dado se a continuidade da sua atenção fosse garantida, em clima propício e num período de tempo mais dilatado. Já não digo toda uma vida de felicidade e fortuna, que não era certamente o seu primordial objectivo, mas ao menos o suficiente para ele próprio ficar com a consciência plena e a satisfação de ter deixado aos outros o que podia e desejava ter dado.
Não estou a falar dele, que não DEU mais porque não pôde; estou a falar em todos aqueles que gostariam e mereciam ter recebido, E NÃO RECEBERAM!…

Certos artistas, distraídos impenitentes…

Do do meu relacionamento inicial com a pintura de Rogério Silva lembro três óleos – que ele mesmo me disse serem testemunho da renovação do seu gesto criativo – que, nas idas e vindas de Carlos Faria, residiram por um breve período na minha casa de memórias felizes em Ponta Delgada (“modesto segundo andar, primeiro vindo do céu…”), na Rua do Foral da Misericórdia, nesse tempo à beira de estufas de ananases e à vista da grande Serra da Água de Pau.
A passagem desses três quadros deu-se já perto do meu regresso ao continente, ficaram nos Açores e não tive infelizmente a iniciativa (o que muito lamento) de tê-los fotografado.
Quanto a fotos, estava muito longe o aparecimento das máquinas digitais do disparo fácil e da imagem instantânea e, além de dominar incompletamente a técnica fotográfica analógica, era quase avesso a acumular recordações e outros vestígios do passado.
Coisas de quem tem fome de acontecimentos principais e se julga ainda muito longe da morte…
O leitor amigo de Rogério escusa, por favor, de me increpar moralmente por não ter fotografado esses trabalhos (lá ficaram também sem terem sido fotografados – escassa perda – alguns trabalhos meus da época dos Açores…
De fotos familiares consigo repescar fragmentos dessas pinturas que, mesmo assim, servem para evocar algumas das suas qualidades plásticas fundamentais, reminiscentes de um tempo conturbado para o seu autor ou memórias oníricas de paisagens do fundo do mar. O mais pequeno teria cerca de 70 x 50 cm e os outros dois, um pouco maiores 60 x 75, mais ou menos.
As tintas eram de óleo sobre aglomerado e a técnica de execução impulsiva, quase nervosa. A sucessão de camadas era evidente, efectuando ocultações dramáticas e deixando em aberto sectores poligonais – “janelas” – de cores subjacentes, de efeito contrastante. A excessiva espessura das coberturas de maior densidade era assinalada por enérgicas acções de “frottage”, que rasgavam o corpo da tinta, tornando mais palpitante o dramatismo acima referido.

pintura RS foto p/b

No quadro observa-se uma sombra fantasmática com um olho gigantesco atravessado por algas de ramificações cortantes e, sobrepondo os fundos convulsivos, uma estrutura de toscos elementos retilíneos − legítimos percursores das muito mais rigorosas elaborações arquitetónicas típicas do Rogério de Nova Bedford. As raspagens acima aludidas são visíveis bem como as “janelas” rectilíneas sobre fundos densos e muito agitados. (No lado esquerdo, em baixo, uma cabeça muito querida cá de casa…)

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Neste outro “vestígio” do fragmento inferior de um dos quadros maiores deixa entrever-se, no canto inferior esquerdo, a assinatura de Rogério com data (talvez 69 ou 70). Lá estão também as compartimentações rectilíneas orientadas de modo perspético, cujo delineado coloca em confronto paisagens confusas.
Felizmente ficou-me desse período uma pintura que Rogério me ofereceu, executada a acrílicas e nanquim sobre papel negro. O clima apresentado, coerente com algumas das já referidas “paisagens do fundo do mar” da mesma época, regista no entanto uma vibração muito diferente das que nos dá a conhecer pela técnica a óleo.

pintura a acrílico e nanquim sobre papel negro, 49 x 27 cm, Rogério Silva , 1969 pintura a acrílico e nanquim sobre papel negro, 49 x 27 cm, Rogério Silva , 1969

A sensação de mergulho no desenho – reforçado pela verticalidade do suporte – oferece grande variedade de argumentos descritivos, entre meios tons, tracejados e acentuações a negro de nanquim. Perante o observador desfila a irradiação dos maciços de corais, o caracolear da serpente e as crinas velozmente ondulantes do dragão…

Os títulos

Rogério fugia muito à tendência “literária” de titular descritivamente os seus trabalhos de forma a não ocupar espaço nas opções de quem olhasse e como forma de colocar acima de tudo a consideração específica do objecto estético. Por isso, bom número deles apresentava títulos completamente “neutros”, sendo o termo “composição” frequentemente adoptado. Se acima menciono as “paisagens do fundo do mar” é referência de minha iniciativa.

Elucidando o vigor narrativo das pinturas de Rogério temos a considerar o trabalho seguinte da colecção de Artur Goulart. Por comparação com os três trabalhos “não fotografados” que acima referi, da mesma época, evidencia uma execução muito mais cuidada, sem o recurso às “janelas” abertas sobre o fundo, o que afirma a auto-suficiência da visão que nos oferece:

1969 Rogério Silva_0

Composição; Óleo sobre platex 70 x 120 cm; 81 x 129 cm c/ moldura (original); assin.: Rogério Silva 969. Exposições: “Temática Variada” (colectiva), Sociedade Amor da Pátria, Horta, Dezembro 1969 (cat.10); “Temas Variados” (colectiva), Clube Asas do Atlântico, Santa Maria, Janeiro 1970 (cat. 7); “Rogério Silva – Exposição de Desenhos e Pinturas”, Museu de Angra, Jan.1972 (cat. 4); Oferecido pelo autor em 1969. (Notas de Artur Goulart).

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Composição; Óleo sobre platex 69 x 75 cm; 75,5 x 81,5 cm c/ moldura (original); assin.: R. Silva 74;Oferecido pelo autor em 28 Abril 1994, em Évora.

Esta “composição”, de data muito posterior às pinturas de que venho falando, representa uma mescla dos grafismos rigorosos típicos do maior número de obras “americanas” e das espontâneas vibrações tonais levadas dos Açores ainda dos Anos 60/70. Prova de que, em Rogério Silva, é evidente uma continuidade de valores estéticos e de capacidades de organização expressiva desde os seus começos em solo português, até ao trabalho desenvolvido nos USA.
O que mudou principalmente foi a atenção que pôde dedicar ao exercício das artes (sem ser em regime de exclusividade, posto que tinha que trabalhar para poder viver, ele e a esposa) e talvez a percepção de que o meio era mais propício para a exteriorização do seu próprio potencial.
(Não tenho uma ideia precisa do volume de trabalho feito por RS nos Estados Unidos mas só o número de peças que posso identificar nos catálogos, a variedade de técnicas e de tecnologias usadas, revelam um labor muitíssimo intenso, sobretudo em 1974, conforme nos diz Onésimo Almeida).
Para mim é novidade nesta “composição” o uso de cores muito variadas, a sua acentuada alacridade e os extremados jogos de contrastes.
Os diversos ambientes que se desenvolvem “em fundo” são compartimentados por elementos estruturantes mecanicamente rectilíneos. Nessas zonas as cores demonstram rapidez de execução inspirada, à trincha e à espátula, numa aproximação ao modelo expressionista abstrato que já se tornara evidente noutros trabalhos de fins dos anos 60.
A marca dominante na pintura de RS da sobreposição de estímulos expressivos, está reforçada neste caso com o contraste imposto pelos alinhamentos estruturantes que não dispensam a sua própria personalidade cromática, sendo igualmente testemunhas vivas do que disse de início quanto à recusa de repetir modelos ou de copiar-se a si próprio. Reparem que os alinhamentos estruturantes, sendo irmãos entre si, cada um ostenta um padrão e uma sinalização cromática diferente dos outros, sendo para mais – constante já apreciada e comentada antes – caracterizados por um posicionamento dinâmico, produtor de “movimento”.

As assinaturas de Rogério

No email que recebi de Onésimo Teotónio de Almeida no dia 13 de Setembro de 2013, às 17:18 h, pode ler-se:

“…Creio que não enviei a assinatura de um dos quadros.
Aqui vai. … 1974 foi um ano de grande criatividade para o Rogério…”

Abraço amigo do Onésimo

As assinaturas de Rogério Silva nos seus trabalhos parecem o fruto descuidado de um momento artificialmente acessório do trabalho criativo. São coisa enfadonha, gesto pertinaz do vício de modéstia ou clara indicação de que o que lhe interessa é a arte e não o artista – mesmo que em causa própria.
Não usa para assinar, aliás, nenhuma das técnicas de registo que a execução da obra cuidadosamente lhe merece. Adivinhamos o gesto expeditivo, o estilete improvisado a ferir a carne da pintura deixando um sinal deliberadamente baço e “nonchalant”, contraditório com o esmero da construção plástica.
Em muitos casos, no tratamento gráfico das fotografias das obras, gastei tempo e paciência para “ir buscar” a assinatura do trabalho onde se encontrava escondida, insignificante e quase deliberadamente ausente.

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No plano de consideração esplêndida que Rogério Silva tinha pelas atitudes da arte, o ego era coisa de somenos – atitude que a sociedade tem dificuldade em compreender e muito raramente leva em consideração.

Assinaturas Rogério Silva

Assinaturas Rogério Silva

O material que Artut Goulart me enviou não se esgota com o que fui publicando aqui, havendo catálogos de exposições com textos interessantes (nove catálogos de exposições com textos e algumas reproduções que exigem tratamento gráfico), ficando aqui uma mensagem que me enviou e que me autorizou a publicar:

Meu caro Antes de mais os meus parabéns pelas belas páginas na net dedicadas ao Rogério Silva. Ele merece.
Grande amigo com todo aquele grupo da Gávea com quem muito colaborei, sobretudo quando era chefe de redacção do jornal “A União” e se publicava o suplemento Glacial.
Tenho pensado há muito tempo enviar-lhe fotos e os dados referentes aos quadros que tenho do Rogério, mas foi passando entre tanta coisa e esquecendo. Agora, finalmente, vai em anexo uma tabela com os quadros e os dados técnicos mais importantes. O último quadro foi-me oferecido já em Évora, em 1994. Era eu então director do Museu de Évora.
O Rogério apareceu-me com o David Almeida e no âmbito da geminação Évora-Angra do Heroísmo, propunha-se fazer uma exposição de gravuras de Angra com a mostra das matrizes originais em madeira. Fomos falar com o responsável da Câmara de Évora e foi tudo acertado, faltaria apenas formalizar oficialmente o pedido entre a Câmara de Angra e a de Évora. Fomos inclusivamente ver o espaço a isso destinado. Nessa altura, antes de partirem para Lisboa, o Rogério ofereceu-me o seu quadro.
Envio-lhe fotos melhores dos quadros e assinaturas, e uma série de catálogos em que o Rogério aparece mencionado. Talvez tenha outros, mas inda não os encontrei no meio de tanto livro e recordações.

Grande abraço

América, América!…

No dia 17 de Julho deste ano de 2013 comecei a receber de Onésimo Teotónio de Almeida mensagens com imagens de trabalhos de Rogério Silva. Entre mensagens trocadas se passaram as férias (quais férias?…) e muitas figuras de quadros andaram a passear à velocidade da luz de um lado para o outro do Atlântico (quer dizer, do mar dos Açores) à procura da melhor versão, do melhor vento, da mais carregada dose de iodo. As duas primeiras chegadas foram alcançadas pela diligência de Onésimo em casa do seu amigo e professor José Enes, que Deus tenha em bem.

“…Não tinha condições para fazer fotos dos quadros do Rogério que ele tem, mas ainda assim apanhei estas imagens provisórias. Seguem três fotos: um tríptico angrense do Rogério Silva; um dos quadros do tríptico – a “Rua das Minhas Terras”; uma pintura abstracta do mesmo Rogério. Tirei-as sem condições de luz e disse à Fernanda Enes que um dia terei de fazer umas decentes. Mas assim ao menos posso ficar com imagens dos quadros até surgirem fotos melhores…”
Um abraço do Onésimo

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Este trabalho entrou de rompante pela porta da minha surpresa por ser uma primeira incursão nocturna das visões de Rogério.
Serigrafia, desenho ou “pintura abstracta” como lhe chama Onésimo, não sei ao certo, mas tanto monta. Sonhos inquietos, fundões pelágicos, o olho lunar de certas aparições, espaços de uma lisura harmónica elegantemente harmonizados, já tinha visto de tudo. Mas uma noite assim, noite em metamorfose invadida pela alma perpendicular da luz é uma inaugural de um de muitos Rogérios que não conheci e que poderia certamente ter viajado mais caminhos e ter feito outras revelações.
Vejamos: a noite oculta de sombra espessa vai sendo empurrada para a frente pela luz perpendicular, que avança decididamente. Atrás afirma-se a noite multicolor com as cúpulas vibrando mais nitidamente pelo ganho de claridade e no encontro sempre estimulante entre linhas rectas e ondulantes. Nos negros interiores que se espreitam longe, fragmentos estelares; a bolinha azul alegre é prenúncio de dia claro e o sol negro é o vestígio das dúvidas ainda não completamente esclarecidas, mas já animado de cintilações promissoras.
A noite oculta de sombra espessa fica cada vez mais escondida, avança cada vez mais para fora do quadro onde o tímido vidente/artista arruma o sinal da sua identidade e o ano da visão: Rogério Silva 1971. O vidente/artista é tímido, sim, mas não se esqueceu de animar o lado da noite soturna com um pequeno frontão cinzento claro, onde registou seu nome com data. Cuidado: o cinzento já fora colocado antes como elemento imprescindível de um equilíbrio plástico indispensável. A assinatura veio depois; veja quem tiver olhos para ver. A pequena luz azul é da mesma cor que as outras manchas azuis que se exibem nos compartimentos da noite incluindo as do bosque frio de criptomérias que desfila em baixo. Mas parece mais soturna; travestida pela ilusão de óptica, não foi libertada ainda do peso das sombras.
(Visita assídua de medos de todos os tamanhos e feitios, nunca tive medo das coisas que assustam as outras pessoas, a escuridão da noite, a morte e outras coisas assim do medo mais básico, mais antigo. Só o medo das ruas, das muitas gentes vociferantes, da inveja e da pressa me metem medo de verdade. Mas adiante.)
Uma noite como esta de Rogério Silva vem dar-me razão: não é a noite que mete medo se a luz desfilar por ela dentro, transfigurando o negrume frio em azul profundo, multicolor.
A noite é o berço, o infinito dos seres seguramente existentes e de tudo o que não viajámos ainda e pacientemente nos espera.
Olhem por tempo suficiente a gravura, pintura ou desenho de Rogério. Olhem, olhem com serena atenção e sentirão pelas arcadas, pelas cúpulas de cristal e pelos bosques gelados de azul aproximar-se a música cada vez mais intensa da metamorfose das sombras frias; quem tiver ouvidos para ouvir, que oiça.

Os prodigiosos desenhos de Rogério Silva

Galeria de imagens: se não tiver acesso peço o favor de fazer “refresh” ou “reload page” (Ctrl+R ou tecla F5) clicando depois sobre uma das imagens.

Já há muito que faço experiências de observação analítica de alguns desenhos de RS. Para dar uma ideia mais aproximada, são autênticos mergulhos. Aproximo-me, avalio o conjunto e, a certa altura, começo a ser arrastado para dentro do desenho. A utilização das novas tecnologias permite isso, e leva observador – longe do objecto – para mais mais perto da sua vocação descritiva.
Alguns desenhos de Rogério (e o não serem numerosos é culpa da sociedade distraída e desastrada onde cresceu) têm um potencial esclarecedor dos dramas dos homens dos Açores, quer seja dos que vão para o mar com bravura, quer seja dos que ficam em terra dispensados do medo das ondas.
O que encontro nesses mergulhos é a explosão teatral de simbologias em variedade de soluções estéticas. Também a divisão, a cobiça, a embriaguez sonolenta das tardes dos Domingos vazios, o poder da indústria, o pio das aves, a luta dos peixes de todos os tamanhos e a distância do mar.
Um mergulho nesse tecido complexo fez nascer em mim o desejo de neles entrar desmontando os órgãos componentes, diferençando planos e perfis à procura de energias ocultas.
Os receios que tive de ultrajar originais duraram pouco. A tentação foi mais forte e agora não posso parar.
Porquê? Se tivesse poder e mais vida, iria para os Açores, procurava paredes altas e cansadas de monotonia húmida e começava a transformar em murais desenhos de Rogério.
Uns que fossem a tradução literal de trabalhos feito por ele e outros citações e combinações dinâmicas de ideias por ele abordadas. Usando as técnicas e as tecnologias que melhor me apetecessem.
Um sonho desses tem legitimidade artística e cultural, daria vida a paredes vazias, animava os adultos e ilustrava a alma da juventude.

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Sonhar é fácil, por isso me animam ás vezes sonhos ingénuos. Como vejo impossível que alguém faça coisas assim em paredes açorianas; faço-as eu aqui no computador.
Para outros – ainda que por breves instantes – poderem sonhar o mesmo sonho que eu e – já agora – verem Rogério pelos meus olhos. Para esse efeito abri logo de início destas páginas um sector do menu com esse título: O Rogério Silva visto pelos meus olhos. É lá que explico melhor a atitude,

… e Rogério pede que me despache

O trabalho muito empenhado e feito com muito gosto que aqui estou a apresentar-vos já vai longo. Estes últimos meses têm sido um pouco conturbados por razões de saúde de minha mulher e outras responsabilidades familiares e pessoais me têm mobilizado noutras direcções.
Se tivesse outras condições subia um destes dias as escadas de uma aeronave dessas que passa aqui por cima deixando um longuíssimo rasto de luz pesadamente poluidora (milhares e milhares de toneladas de oxigénio consumidas por dia… – desculpem lá o aparte) e ia passar uns dias aos Açores e outros tantos à terra dos grandes amores do meu querido avô (Providence RI), Nova Bedford, etc. em busca dos vestígios de Rogério Silva.
Sonhos pouco práticos e quase impossíveis são o meu forte, como estão a ver.

Começar a acabar este capítulo destas páginas, contudo, não é um sonho impossível e, como não estou a coroar nenhum mestrado nem a defender tese, estou só a falar com amigos a respeito de outro grande amigo, vou tentar ser lesto e reunir da forma mais simpática possível o resto do bastante que tenho aqui ainda guardado para isso.

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Galeria de imagens: se não tiver acesso peço o favor de fazer “refresh” ou “reload page” (Ctrl+R ou tecla F5) clicando depois sobre uma das imagens.
NOTA: as galerias têm a vantagem de permitir o visionamento das imagens na sua dimensão original. Aberta a galeria, junto de cada uma, à direita, em baixo clicar em “view full size”.

Correspondências entre dois amigos a respeito de outro, sempre presente!…

e.mail para Onésimo Almeida 13 Setembro 2013, 11:23
Caro Onésimo,
Muitíssimo grato pelo entusiasmo e pela preciosa assistência a esta tarefa.

A respeito do QUADRO AZUL:
Ontem ao serão, depois de deitadas as crianças (isto inclui a minha mulher) estive aqui com o Rogério a repintar o quadro azul. Gozámos que nem uns perdidos. Se as almas tristes que andam por aí esgotadas em paraísos fatigados sem destino nem norte soubessem do prazer sem limites duma camaradagem destas e da substância de horizontes interiores das vespertinas cidades azuis… era tudo muito melhor.
Isto é passear, mesmo!… lá por dentro dessa cidade, cruzar as praças, escalar os arranha-céus, avaliar os esconderijos, mergulhar nas fontes e ouvir música nos auditórios. Ninguém calcula.
Acordei de manhã vendo a face branca do Rogério, o seu gesto de dedos redondos, escutando a voz suave segredando-me estratégias de arte num discurso sereno de suportes fabricados à mão (os nossos suportes, outra coisa em que tanto também nos igualámos!…).

a noite mais difícil de sonhar, aquela em que Scherazade poderia ter adormecido sem dar conta…

Uma das capacidades mais genuínas do artista é de entrever mundos utópicos onde reina não a perfeição sem custos nem a serenidade preguiçosa, mas onde se desenha um cenário no qual a felicidade inesperada se torna plausível, porta aberta para verdades libertas de vulgaridade. Hoje vou sentar-me ali, entre ritmos de cristal e frágeis molduras descontínuas de cores quentes. Amanhã vou refugiar-me no quarteto de jazz do bar violeta. No outro dia atravesso a alameda silenciosa, o seu sólido corpo cinzento-saudades-de-lilás. Na praça dos triângulos negros descolam a pique as flechas destinadas ao infinito azul.

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Uma resposta de Onésimo Almeida:

(…) Por aqui tenho feito outras diligências para ver se consigo tudo o que há do e sobre o Rogério.
(…) Indaguei junto do Portuguese Times, em New Bedford. Dizem-me que talvez haja alguma coisa. Terei de passar por lá. Mas sei que lá há umas gravuras a preto e branco que me parece não estão ainda fotografadas. E lembrei-me de escrever ao João Afonso, que ainda vive em Angra. Era grande amigo do Rogério e, quando vinha a New Bedford, ficava em casa dele. Vamos a ver o que ele lá possa ter.
A memória do Rogério vai ficar bem servida (…) Um abraço do
Onésimo

Outro fragmento:

“…E agora confirmo eu que de facto o Rogério preparava os suportes. Quanto mais me embrenho nisso mais reentro no atelier dele onde ele tinha tudo isso e me falava. Mas quando trabalhava, fazia-o sozinho, completamente concentrado…”
“…Hei-de então agora tratar de lhe enviar imagens das outras três serigrafias a preto e branco e o meu amigo José Costa também tem uma que eu não tenho.
Vou ainda procurar saber se por aqui haverá mais gente com quadros do Rogério…”

e.mail de Onésimo Almeida de 13 de Setembro de 2013; 17:50
Caro Costa Brites,
Tenho aqui em casa mais um do conjunto de quatro gravuras que se destinavam a ilustrar o livro do Heldo Braga e para o qual eu cheguei a escrever o prefácio mas nunca se publicou.
(…) O título deste é “Choro de baleias e homens” e é do mesmo tamanho de “Imigrantes divididos”, que sei que tem pois está no website. O número do meu é 6/200.
Logo que possa vou tirar as medidas de outros dois que enviei por estes dias. Abraço.

e. mail de Onésimo Almeida 13 de Setembro, 17:43
Caro amigo,
O quadro “O Castelinho” (hoje uma pousada em Angra) que tenho aqui na sala, também é desse grande ano de 1974. Mando aqui o pormenor da assinatura e segue também o quadro para mais fácil referência.
Parece-me também acrílico sobre platex.As medidas são: 74cm X 44,2cm.
Outro abraço.

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A respeito da gravura logo abaixo reproduzida, e.mail de Onésimo de Almeida:

Meu caro JCB,
“…Em tempos enviei-te a foto de uma serigrafia que tenho aqui em casa intitulada “Angra, Açores”. O número dela é 4/24. As medidas são 68,5cm X 48,25 cm. A mancha da gravura: 49,5 cm X 31,75 cm…” Abraço. Onésimo

resposta ao e.mail anterior que cheguei a redigir (mas não enviei, porque era demasiado comprido e complicado…):

“…Junto envio a primeira “aproximação” da peça fotografada por ti segundo as instruções prévias (lindamente executadas) e, conforme prova anexa, logo me dirás….
Só tenho uma dúvida. O trabalho do nosso querido amigo (de uma sumptuosa atmosfera carregada de mar e mistério à hora em que as nuvens cumprem a sua promessa de ocultação…) …é de grande subtileza de tonalidades. O que te mando pode parecer “duro” em relação aos contrastes abatidos que oferece o original. Diz-me por favor se devo abater o efeito de contrastes. Vão duas versões – qual a que melhor serve o objectivo?…
A margem inferior com a assinatura, por efeitos do processo gráfico, não aparece nesta fase, mas não foi esquecida…”

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Das remessas de Artur Goulart
catálogo da exposição de Rogério Silva no Museu de Angra do Heroísmo em Janeiro de 1972

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Complementando o que disse acima vem a talhe de foice colocar aqui também imagens de desenhos admiráveis incluídos num catálogo de uma exposição de Rogério Silva no Museu de Angra do Heroísmo em Janeiro de 1972. Como é (já justificado) hábito, para conferir à modéstia de suporte do catálogo a preto e branco a enorme emoção que cada uma destas obras desperta em mim, junto resultados da “observação em profundidade” com variados realces cromáticos, como os que tenho “perpetrado” noutras obras, com o que sinto ser a risonha “anuência” de Rogério. Quem quiser leia com aspas, quem quiser pode tirá-las…

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Mos 01
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RS Museu 72_3 SB
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Mos 05
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RS Museu 72_5 EF
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RS Museu 72 3 a 3

Nota relativa às fotos de abertura:

Artur Goulart, Rogério Silva e Onésimo Teotónio de Almeida

A de Artur Goulart foi vista na internet, a cores. Depois de a ter colocado como está, ocorreu-me a ideia de fazer o mosaico. A de Rogério é um fragmento de uma fotografia tirada por um amigo à entrada da sala do Ateneu Comercial de Ponta Delgada quando Rogério estava a trabalhar ali na instalação da minha exposição. A foto não era utilizável porque o flash estava reflectido nas lentes dos óculos. Quando das primeiras publicações nesta página, reconstruí os dois olhos do Pintor, o que não é nada fácil, mas menos mal porque utilizei olhos dele mesmo pescados noutra fotografia. A foto de Onésimo Teotónio de Almeida, que tive de reduzir algo, foi feita por Miguel Lopes para o Expresso e publicado numa entrevista por Carlos Leone em 17 de Janeiro de 1998.

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Comentário de Onésimo Teotónio de Almeida:

onésimo 24/11/2013 às 19:29

Caríssimo,

Deixa-me dar-te um bem grande abraço por esse magnífico trabalho. Estou no Porto e daqui a pouco saio para o aeroporto a caminho de Lisboa, mas aproveitei este espaço de tempo para ler tudo com calma.
Extraordinário trabalho de paciência, minúcia, dedicação e respeito pela memória do nosso querido amigo Rogério.
Bem hajas! O Rogério ficaria comovido e, na sua imensa modéstia, diria: o que conta é a arte!
Não é – feliz ou infelizmente. Mas ele era de um outro mundo.
Muito e muito obrigado por toda esta recomposição. Não sei mais que te dizer a não ser multiplicar os adjectivos encomiásticos.

O abraço do

onésimo

Mensagem de Artur Goulart

19:30:

Meu caro amigo

Obrigado por mais este esforço e boa realização pela divulgação e homenagem ao Rogério Silva e à sua obra. Creio que está excelente e que o Rogério ia gostar, apesar de ele não se preocupar com os encómios. Mas merecia-os e continua a merecer que esteja presente e seja conhecido.Vou divulgar.Grande abraço

Artur Goulart

a surpresa para quem procurar o contacto…

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…é meia dúzia de desenhos e pinturas feitas com e para o meu Querido neto Flávio!…

Para qualquer contacto pessoal é favor utilizar o seguinte endereço eléctrónico:
costabrit@gmail.com

00105Nota importante: para perceber melhor estes desenhos e estas pinturas deve valer a pena visitar esta página: FLÁVIO ARTISTA E AMIGO MEU

A importância do jornalismo cultural

Um acontecimento cultural ou artístico sem eco ou resposta inteligente é um não-acontecimento. Sempre tive o interesse e o gosto de olhar e considerar o trabalho dos outros. Primeiro para meu uso, seguidamente para dar testemunho de opinião e sensibilidade. Julgo que uma sociedade que não responde de forma critico-apreciativa às manifestações culturais e artísticas é uma sociedade pobre, no sentido mais cortante e inconveniente do termo. A inteligência crítica é uma energia produtora de evolução em todos os sentidos. A cultura que não estimula essa atitude, se não está morta, está entregue ao calculismo e à falta de generosidade.

Costa Brites

Alemanha, imagens de sítios no Breisgau, ou terra dos Margraves de Baden

Para entrar na galeria sobre fundo negro é favor clicar sobre a primeira imagem, e depois na seta que se apresenta ao lado direito para fazer avançar.

Texto do artigo publicado pelo diário “Badische Zeitung” de 14 de Outubro de 1992, da autoria de Patricia Günther, com tradução feita por Renato Correia

Cada janela, um palco

José da Costa Brites expõe na Volksbank de Staufen

Uma atmosfera irreal paira sobre as ruínas do castelo; as cenas em redor da Porta dos Suábios, em Freiburg, tão vazias de pessoas que se tornam inquietantes, ou as cenas das ruelas de Staufen, perdidas em românticos devaneios, mais fazem lembrar cidades-fantasma. As obras do pintor português José da Costa Brites parecem frias, quase assépticas, tal é o rigor do desenho. Sejam traços ou formas geométricas, cada elemento surge aqui – como num esboço de arquitecto – calculado e inserido com absoluta precisão, nada é deixado ao acaso.

À primeira vista, estas minuciosas representações pictóricas, que podem ainda ser visitadas até ao dia 23 de Outubro na Volksbank de Staufen, afiguram-se plenamente naturalistas. Ao contemplá-las, involuntariamente as associamos com uma fotografia, a não ser pelas cores às vezes um tudo nada gritantes…

E no entanto salta, por assim dizer, aos olhos do observador, com igual veemência e acuidade, que o artista recusa essa interpretação; o que ele pretende reproduzir nas suas obras não é, de modo algum, a realidade sensorial, são antes processos psíquicos – a cidade enquanto imagem complexa da sua cosmovisão, uma paisagem anímica em que o ex-bolseiro do Goethe-Institut funde experiências pessoais com o “clima cultural” local.

É de variadas maneiras que o artista cifra as suas mensagens, em acrílico sobre tela. Os motivos realistas são tornados estranhos pelo uso de tons berrantes, como pela adição ou omissão de pormenores. Com subtileza, por vezes com uma ironia subterrânea, o pintor português cria contrastes estruturais e temáticos prenhes de simbolismo. Uma ponte ferroviária representa a tensão conflituosa entre o progresso técnico e a natureza intocada.

Desde logo na tradução pictórica se manifesta um vivo interesse pela arquitectura e pela cultura. Além disso, os contactos de Costa Brites com o Goethe-lnstitut, bem como a sua anterior actividade de intérprete diplomado, explicam a relação intensa que mantém com um pais estrangeiro e a respectiva mentalidade dominante.

Apesar da atmosfera de soturnidade envolvente, a sua obra é marcada pelo optimismo e por uma filosofia muito pessoal; para o artista, a cidade configura um “lugar de paz, de encontro connosco próprios”. Assumindo quase o papel de embaixador, é seu desejo fornecer, não impressões turísticas, mas “um testemunho intercultural”.

Por isso se torna perfeitamente com­preensível o modo como Costa Brites desenvolve esta ideia: “Cada janela representa para mim um pequeno palco, que permite a cada um de nós abrir-se a outros locais, e a uma nova e fecunda visão do mundo.”

Tradução: Renato Correia

Texto original:

 Jedes Fenster ein Bühne

José da Costa Brites stellt in der Volksbank Staufen aus

Eine gespenstische Atmosphäre lastet auf der Burgruine, unheimlich menschenleer erinnern Szenerien um das Freiburger Schwabentor oder in den romantisch-verträumten Seitengassen Staufens vielmehr an Geisterstädte: Kühl, fast schon steril wirken die Bilder und Gemãlde des Portugiesen José da Costa Brites durch ihre zeichnerische Exaktheit. Ob Striche oder geormetrische Formen – der Skizze eines Architekten gleich, scheint hier jedes Element akribisch genau berechnet und plaziert, nichts ist dem Zufall überlassen.

Auf den ersten Blick muten die detailgetreuen Darstellungen, die derzeit noch bis zum 23. Oktober in der Staufener Volksbank zu sehen sind, geradezu naturalistisch an: Unwillkürlich entsteht beim Betrachter die Assoziation einer Fotografie, wenn da nicht die teilweise etwas zu schrill gewahlten Farben wären …

Dabei springt dem Au8enstehenden mit ebenso vehementer Aufdringlichkeit die Ablehnung des Künstlers gegenüber einer solchen Interpretation sprichwörtlich ins Au­ge; will dieser in seimen Werken doch nicht die sinnlich wahrnehmbare Wirklichkeit, sondem vielmehr psychische Abläufe wiedergeben: Die Stadt als komplexes Bild seiner Weltsicht, eine Seelenlandschaft, in der der ehemalige Goethe-Student persönliche Erfahrungen mit dem hiesigen “kulturellen Klima” verarbeitet.

Seine in Acryl auf Leinwand gebannten Aussagen verschlüsselt der Maler auf vielfãltige Weise. So verfremdet er die reatistischen Motive durch die Verwendung greller Farbtöne sowie das bewu8te Hinzufügen oder Weglassen von Einzelheiten. Feinsinnig, zuweilen mit ironischen Untertönen, schafft der Portugiese symbolträchtig strukturelle und thematische Kontraste. Eine Eisenbahnbrücke versinnbildlicht die Spannung zwischen fortschreitender Technisierung im Widerstreit mit unberührter Natur. Schon in der bildlischen Umsetzung spiegelt sich ein lebhaftes Interesse an Architektur und Kultur wider. Darüber hinaus erklären da Costa Brites Kontakte zum Goethe-Institut sowie dessen frühere berufliche Tatigkeit als Diplom-Dolmetscher die rege Auseinandersetzung mit einern fremden Land sowie der dort vorherrschenden Mentalität.

Trotz düsterer Stimmungen sind seine Darstellungen von Optimismus und einer ganz eigenen Philosophie geprägt; steht die Stadt für ihn als ,,Ort des Friedens und des Zusammentreffens mit sich selbst”. Statt touristischen Eindrücken möchte er quasi in der Funktion eines Botschafters ein “interkulturelles Zeugnis” ablegen. So klingt es denn durchaus nachvollziehbar, wenn da Costa Bri­tes den Faden gedanklich weiterspinnt: ,,Jedes Fenster bedeutet für mich eine kleine Bühne, die es dem einzelnen ermõglicht, sich für andere Ortschaften und damit auch neue fruchtbare Weltsichten zu õffnen.”

Rogério Silva visto pelos meus olhos

Uma colaboração entre mim e Rogério Silva

Os desenhos à pena com tinta negra que Rogério executou têm uma riqueza muito abundante, são elaborações plásticas de grande complexidade narrativa; estabelecem relações perspéticas de orientação diferenciada; combinam seres ou entidades de natureza muito diferente no jogo de confrontações entre o rectilínio e o coleante, o compacto e o descontínuo, o claro e o escuro, etc. A ideia do movimento é constante e a velocidade que a conceção desenhística imprime a quase todos os elementos é generalizada.

um desenho original, a negro, de Rogério Silva (“esquecendo tempestades”), resultante de uma colaboração entre nós ambos (ver, por favor, Rogério Silva visto pelos meus olhos).

um desenho original, a negro, de Rogério Silva (“esquecendo tempestades”), resultante de uma colaboração entre nós ambos (ler, por favor, Rogério Silva visto pelos meus olhos).

As visões de Rogério Silva demonstram o optimismo de uma concepção cósmica da existência, com ordenações tectónicas que obedecem à tradição hierarquizada da grande pintura da era moderna, mas que não temem universos mais especializados e receptivos de ordenações interiores.

Na transição dos grandes espaços oceânicos para o questionamento íntimo da surrealidade não se perdem referências, não se degrada a estrutura mental e o caos não leva a melhor sobre a lucidez.

“composição”, desenho / Rogério Silva

“composição”, desenho / Rogério Silva

Esta observação é tanto mais pertinente, ao que julgo, por ter visto trabalhos seus de certa indeterminação e muito menor capacidade analítica do que a que caracteriza as suas mais avançadas produções.

Outra tarefa sugestiva para o observador atento é a multiplicidade dos planos activados, elemento que se encontra aqui demonstrado pelas inserções de cor que são possíveis e se tornam para o amigo desejoso – mais que de efeitos a revelar – de argumentos a esclarecer para si próprio!…

As simbologias ou cenografias alegóricas utilizadas foram-se singularizando ao longo do tempo, foram ultrapassando sujeições de conteúdo descritivo demasiado específico e – tanto quanto me é dado observar – o artista não percorreu todo o caminho que poderia ter andado, tendo-nos deixado em herança a enorme curiosidade de sabermos o que poderia ter feito na concretização de tais percursos.

Estes trabalhos não são designados por títulos que os diferenciem, aparecendo englobados como “composições”, nem sequer numerados. Esse facto, que revela a escassez do seu quantitativo, não lhe reduz a importância nem o significado.

Partindo da observação muito detalhada destas reproduções tenho feito descobertas muito interessantes. No caso deste desenho – uma entre muitas outras surpresas – surge, como a uma janela (de modo quase imperceptível), uma rapariga nua de seios firmes:

Rogério Silva, "composição", desenho

Da análise destes desenhos de Rogério nasceu a certa altura o desejo irreprimível de fazer inserções de cor, o que é possibilitado pelas ferramentas digitais de tratamento de imagens. Essa diligência resultou inicialmente de uma sensação de desamparo do preto e branco, em reproduções desprovidas do mínimo requinte visual, nomeadamente da confinação limítrofe, ou “passe-partout”.

Esta exploração torna-se produtiva, a meu entender, por oferecer leituras mais completas dos elementos contidos na obra original, cuja apreensão pode estar dissimulada pela excessiva austeridade da tecnologia utilizada (o uso do negro sobre branco numa escala muito concentrada) e pela complexidade que a técnica de execução pretende transmitir.

Ao entrarem no capítulo destas minhas “colaboração entre mim e o Rogério Silva”, servem as mesmas para demonstrar (a meu modo) a versatilidade e a eloquência dessas obras de Rogério. Sonho (ou pressinto?…) que ele acompanha de perto estas minhas explorações, exprimindo as suas dúvidas quando me engano ou sou mal sucedido, e encorajando-me a prosseguir quando as coisas me saem bem. A aventura está apenas a começar…

Ora vejamos uma composição que pretende reforçar o que se diz acima, pela repetição de um só elemento, maximizando o seu potencial plástico, usando habilidades a que o meu amigo não teve acesso:

exploração cromática de desenho original de Rogério Silva, com enquadramento

exploração cromática de desenho original de Rogério Silva, com enquadramento

Muito eu gostava de ter ido um tempo viver com o Rogério em Nova Bedford!…

O aproveitamento por artistas das obras de terceiros tem acontecido muito frequentemente ao longo da história das artes plásticas e, dos inúmeros casos muito conhecidos cito o do meu muito admirado Fernand Léger (com uma Mona Lisa), as inúmeras apropriações de pinturas, fotografias e ilustrações feitas por Valerio Adami, as imensas citações da banda desenhada de Roy Lichtenstein, as infindáveis citações de Erró, as ilimitadas e industrializadas adaptações gráficas Andy Warhol e tantos outros; Além daquelas que já vinham da grande tradição da pintura clássica e têm apenas um simples exemplo no “Déjeuner sur l’Herbe” de Edouard Manet inspirado em Ticiano e Rafael e que por sua vez Picasso aproveitou num quadro seu. Estes factos são mencionáveis em todos os formatos e feitios, e o número de casos – só na pintura clássica – deve andar mais nos milhares que nas muitas centenas.

Como sucedâneo desta experiência já estou a fazer o mesmo tipo de exercício com antigos desenhos meus!… Como prova disso (e tenho a complacência amiga de Rogério…) aqui fica um desenho feito logo após o regresso dos Açores, algo estridente (et pour cause…), onde estão presentes as “perspectivas inventadas” tão habituais em vários trabalhos feitos em Ponta Delgada:

despertar inquieto, Costa Brites, 1972

despertar inquieto, Costa Brites, 1972

Como já digo noutro sítio, a aventura apenas começou. Aos amigos, o meu abraço e… voltem sempre!…

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Onésimo Teotónio de Almeida / 2006 – sobre Rogério Silva no Jornal de Letras

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foto Sara Augusto

Ao Rogério Silva encontrei-o eu pela primeira vez na Horta num mural. Já ouvira falar, mas o conhecimento não dava ainda para descobri-lo ali naquela parede da Insulana numa estilização de baleias, baleeiros e Pico. Quedei-me na contemplação dos traços dinâmicos fora do tradicional e não sei já o que lá fora fazer. Depois, percebi as semelhanças entre aquelas cores e motivos e as capas da revista Gávea que pela mão do Rogério, Almeida Firmino e Emanuel Félix, nos anos cinquenta (criança nessa altura, eu só a conheci passados anos) tentou acordar Angra de uma letargia antiga. Mas quem sobre o pintor mais me badalou ao ouvido em letra de forma foi o Carlos Faria, que nos porões dos navios trazia de Lisboa medicamentos de mistura com telas e poemas. Dos medicamentos, as farmácias saberão. Os poemas, esses via-os plantados no suplemento “Glacial”, de A União, onde o Karlos Faria com K fazia leitores jovens como era eu vibrar de espanto. Volta e meia, o Karlos clamava no deserto anunciando o Rogério e a nova arte que ele desbravava no arquipélago.O Karlos trazia quadros e mais quadros. Ele e o Rogério não se cansavam de organizar exposições em Angra e ilhas adjacentes. O Rogério, pedagogo pacientemente didáctico, acompanhava visitas guiadas para adultos, jovens e crianças de escola. Foi assim que em Angra tivemos acesso a trabalhos do António Palolo, Bartolomeu Cid, Artur Bual, Nadir Afonso, Costa Brites, e do próprio Rogério Silva, que beneditino se fizera apóstolo das novas formas estéticas pintando quadros com os Açores em movimento a procurar vencer o marasmo secular ilhéu – moinhos de vento de velas enfunadas, baleias astutas domadas por ainda mais astutos baleeiros, nuvens agitadas descobrindo céus e anunciando azul para um futuro breve. Entretanto, perdi-me uns anos por Lisboa e noutros livros.

Nos alvores da década de setenta, já com os costados na Nova Inglaterra, descobri-me de súbito novamente vizinho do Rogério. Aconteceu numa festa num parque em New Bedford onde os também hoje saudosos Manuel Bettencourt Silveira e Heldo Braga reataram entre nós o laço que os mares haviam desatado.O Rogério fervilhava de ideias. Fui a sua casa onde pintava uma New Bedford que, insistia o Heldo em livro de poemas (nunca publicado), um dia veria crescer rosas em Novembro.

O Rogério acreditava e pintava. A escola do seu bairro, ali à Coggeshall St, os arranha-céus de azul límpido por detrás da wasteland de ferro-velho, imigrantes divididos e distraídos no jogo em tardes de tasca-sem-fim. Mas sempre as cores luminosas e os traços firmes apontando para futuros optimistas a emergirem do caos, ordem e tranquilidade a renascer de caixotes opressivos evocando fábricas escuras e tristes – onde ele aliás suou copiosamente. Vieram planos. A editora Gávea-Chama, lugar da primeira edição do meu Ah! Mònim dum Corisco!, depois a ideia da revista Gávea-Brown que ele quis muito fosse continuação do antigo projecto Gávea.

Integradas em eventos gerados pelo entusiasmo dos meus verdes anos, surgiram exposições da sua obra por aqui e por ali, causando admiração porque um greenhorn supostamente não pintaria assim – Brown, Cambridge, Boston e outros lugares que não recordo com exactidão porque escrevo de cor, em férias, surpreendido pela notícia da morte do Rogério e sem poder recorrer a nada a não ser o que a memória guarda na caixa do pronto-a-lembrar.

Espantoso de ver era a minúcia com que o Rogério preparava cada exposição até ao pormenor da maquete com reproduções em miniatura dos quadros, a caixa que ele construia para cada pintura que ele próprio emoldurava, tudo num primor de perfeição chinesa.

Entretanto, os anos foram passando. Era preciso que o Rogério deixasse de ser de um mundo que já não existia – o dos Açores que o moldaram – e palmilhasse Américas despudoradas para se fazer presente, convencer galerias a exporem os seus quadros, conhecer os meandros das bolsas ou investir dinheiro que não tinha para que a sua arte fosse (re)conhecida. O Rogério chocava-se porque “a arte é arte e não se suja”. Pelo menos a arte do Rogério, ou tal como ele a concebia. Esquecia-se de que mesmo Miguel Ângelo, Rafael e Leonardo nada teriam feito se não fossem os mecenas – papas, cardeias e duques com a grana que paga as tintas e mata a fome ao artista. O Rogério não acreditava. Nos Açores do seu tempo, tudo fluía sem massa, embora não se esquecesse nunca do facto crucial de ter sido por um mal-entendido nessa matéria que fora ele próprio bater com os ossos nos States, quando um Instituto lhe pediu um trabalho como devia ser e ele despendeu a soma que achava necessária por exigências da arte em si. Chegada, porém, a conta, minguou o dinheiro porque ninguém alguma vez supusera que as coisas da arte custassem assim tanto, e o Rogério deu de repente consigo numa fábrica de New Bedford para poder pagar a prestações. E, todavia, ele sonhou sempre com o regresso porque, nos seus idílicos Açores, a Cultura, e sobretudo a Arte, escreviam-se com maiúscula, em letra pura, quase sobrenatural. Se nos Açores o asceta Rogério vivia nas nuvens, em New Bedford viveu das nuvens.

A última vez que me cruzei com ele aconteceu em Vila do Porto, Santa Maria. Tinha realizado o sonho do regresso a casa (nascido no Faial – em 1929, creio eu – , era à sua adoptiva Angra que chamava pátria) e viajava de ilha em ilha, de novo apóstolo da arte ensinando nas escolas o que ela é e como se faz. Mas a desilusão estava-lhe plantada nos olhos.

Os tempos haviam mudado e também ele não reencontrara a ilha de onde em tempos partira. A seu ver, a arte estava bastante conspurcada, vendia-se e comprava-se por alto preço. Por todo o lado encontrava banha de cobra a valer fortunas, e as gentes estonteadas com a pimenta das Índias europeias, chegada de Bruxelas em chorudos pacotes, construiam casas de paredes amplas a exigirem pinturas a metro. Qualquer Chico Esperto agarrava de um pincel e, logo ali, com a mão direita rabiscava umas patranhas, enquanto contava cifrões na algibeira com a esquerda.

Para culminar o desaire, a sua ideia de arte como missão esvaíra-se com os tempos, a linguagem artística era outra, os rostos idem, e o Rogério sentiu-se peixe fora das suas águas familiares. O Rogério também não se sentia mais da sua terra. New Bedford estava definitivamente longe, e a Lusa, seu arrimo sólido, incondicional apoiante e dedicadíssima companheira, escondia uma doença que a levou.

Nos anos que se seguiram, o Rogério deixou de existir para o exterior, e porventura para si próprio. Enconchou e fez-se lapa na pedra da sua memória, sem nunca mais abrir para ninguém. Agora chegou de Angra, via João Afonso – talvez o seu mais perene amigo – a notícia de que partiu para um outro mundo.

Partiu nada! O Rogério nunca viveu neste. Se partiu, foi para onde sempre esteve. Quem, como eu, teve a sorte de o ver, foi apenas contemplado pelas suas aparições. Que ficaram indeléveis. Ajudadas, naturalmente pelos seus quadros, memória viva dele a lembrá-lo diariamente lá em casa. Ou em qualquer lugar. Como aqui mesmo, neste mar algarvio, sem baleias.

Onésimo Teotónio Almeida – Alvor, 27 de Junho de 2006

J. H. Santos Barros / 1977 – Rogério Silva como-se-tudo-fosse…

Santos-Barros

O saudoso amigo, poeta e escritor J. H. Santos Barros que ficará jovem para sempre nas memórias de todos nós.

Santos Barros

20 Anos de Literatura e Arte nos Açores, J.H. dos Santos Barros

20 Anos de Literatura e Arte nos Açores, J.H. dos Santos Barros

O texto abaixo encontra-se publicado na obra de J. H. Santos Barros cuja capa está reproduzida, a páginas 43 – 47, conforme pode ver-se no Índice.

Notícias da “América”, notícias de arte e emigração, chegam em recorte de jornal português editado nos U.S.A. É Onésimo Teotónio quem as dá, outra jovem da geração “Glacial”, outro valor açoriano noutras paragens empregando a sua capacidade intelectual, que a tanto tem obrigado os condicionalismos, direi: certa fatalidade de política velha. De muitas coisas dá noticia Onésimo em brevíssimo apontamento, nessa arte de comunicação de que ele é exímio cultor – o jornalismo, aqui elevado à categoria de género literário (que o é, e não menor, mais o apontamento de Onésimo “Rogério Silva, como-se-nada-fosse…”o prova).

Das virtudes literárias do texto não darei conta. Grato estou pelo refrescamento da memória que ele traz, como pelo pretexto dado. Transcrevo: “Rogério Silva (…) traz os Açores nos seus quadros. Pensa-os e repensa-os. Vive-os e, nos ângulos onde a vida parece ser uma memória, ele revivifica-os (…) por aqui anda um homem cuja arte ensinou tantos a descobrirem uns Açores diferentes; um homem que, ao mesmo tempo, porque sempre dominado por preocupações didáticas, ensinou tantos a descobrirem a arte”.

0 Pintor açoriano Rogério Silva “ reporto-me agora à leitura dos convites para o “Festival Bostonian Retrospective/Our Multicultural Heritage”, 10 a 28 de Janeiro de 1977 – foi escolhido para representar Portugal nesta exposição com quatro trabalhos, exposição onde se apresentam catorze grupos étnicos. Duas exposições, portanto, simultâneas: esta, coletiva, e a individual, na Câmara Municipal da Boston, a que também Onésimo se refere.

Escrevendo de Lisboa, distante do lugar que nos uniu, os Açores, por aqui perpassa aquele sopro intrínseco à arte, um dos seus sinais mais sensíveis a intemporalidade, e uma certa esperança que advém de saber uma atividade que continua. Nenhum saudosismo no mau sentido há nesta atitude.0 leitor constata os pontos cardeais, os portos geográficos e aproxima-os sem dificuldade.

Rogério Silva está em movimento. Como sempre. Este homem, que faz parte da história cultural dos Açores, aí está, atento à realidade açoriana e a sua dimensão universal, e agindo. Ele, profissional de carpintaria, continua pintando, longe da terra, em lugar de lonjura para muitos portugueses como ele, fora do país a lutar por vida digna. Atesta o catálogo da exposição individual que os seus quadros continuam a expressar “uns Açores diferentes”, o arquipélago do futuro, terra de harmonia donde ninguém tenha de sair à falta do essencial. Os muitos açorianos que conhecem os trabalhos do pintor Rogério sabem que esta pintura, não sendo do social, pelo menos mais imediato, é veículo dos mais profundos anseios do povo açoriano, é desses anseios que se alimenta a arte do pintor e lhe vem a força estética duma aposta no futuro, comum aos habitantes do mar que somos. Essencialmente, é dito que falam os quadros deste geómetra da luz, da cor, dos seus contornos açóricos. Empenho na arte que é paralelo ao mesmo empenho na vida quotidiana, empenho antigo dum labor de rara persistência, melhor dizendo: resistência de mais de vinte anos de atividade que cobriram não apenas as ilhas menos “ilhas” do arquipélago – Terceira, S. Miguel, Fayal, mas irradiaram para todos os locais dos Açores donde vinham solicitações.

Aonde existissem condições mínimas para a penetração artística, o operário da arte lá estava. (Aonde encontrar uma visão tão antiga e ampla de unidade das nove ilhas)? “Descentralização cultural” autêntica num tempo em que disso não se falava. A fé de Rogério Silva na dimensão estética do homem, no contributo da arte para a sua libertação total, é análoga à tal “fé que remove montanhas”. Com esta fé também se nutrem as revoluções culturais.

“Gávea” é nome chave para a compreensão histórica do movimento cultural nos Açores deste século. Aliás, creio que só a partir daqui se poderá falar de intervenção cultural autónoma na região açoriana. “Gávea” revista, com três números editados aglutina e dá corpo senão a um “movimento” no sentido de grupo com opções ideológicas e estéticas claramente definidas e assumidas, a um conjunto de escritores e artistas até então dispersos. Estas vozes, organicamente unificadas, afirmam-se, ainda que vagamente, com características próprias que as individualizam no conjunto do pais. Contingências, obrigam-na a referir apenas alguns nomes, de memória: A. Firmino, José Eanes, Artur Goulart, Silva Grelo, etc.

Com intervalo de mais de uma década, apareceu “Gávea”, galeria de partes plásticas, não comercial, fins didáticos, como ela própria se definiu e que adotou como lema a frase de Torga: “Quem faz o que pode, faz o que deve”.

Neste centro cultural vivo e dinâmico se ensinou arte a muitos milhares de açorianos; se estimulou a criatividade infantil através de exposições em apoio a atividades escolares; se estimulou o aparecimento de novos pintores locais que vieram, posteriormente à partida de Rogério para os U.S.A., a revelarem-se ou a confirmarem-se no “boom” de artes plásticas e literatura que deflagrou nos Açores de 1971 a 1974. Esta geração que escrevia no suplemento “Glacial” e “Cartaz” e pintava através de Meneses Martins, José Lúcio, Gilberto Amaral e outros, criou três células vivas de intervenção, as galerias “Degrau” (Angra do Heroísmo), “Teia” (Ponta Delgada) e “Francisco de Lacerda (ilha de S. Jorge). Foi a resposta ao encerramento pelo governo da cooperativa livreira “Sextante” que teve também um papel preponderante a nível cultural nos Açores. Ocorre, já que a crónica se faz de coisas não registadas, lembrar dinamizadores culturais fundamentais neste processo: Eduardo Pontes, Paulo Jorge Lobão, Zézé Ávila. Esta geração não partia do nada, herdava o riquíssimo legado espiritual da “Gávea” convivia, aliás, com alguns dos seus principais artífices em iniciativas comuns. Evidentemente, Rogério não foi “um homem só”. 0 programa que a galeria desenvolveu contou com Emanuel Felix,  Artur Goulart e, sobretudo, com Carlos Faria e Ivone Chinita a quem se deve o intercâmbio cultural continente-ilhas e vice-versa, pontes lançadas que hoje permanecem sólidas no espaço comum português.

“Gávea” foi também ocasião de debate cultural e cientifico em colóquios por ela promovidos, e funcionou como editora. Quatro livros publicados, uma preciosa coleção de catálogos alusivos a mais duma vintena de exposições de desenho, gravura, pintura, artesanato, etc. Nomes dos mais importantes das artes plásticas de hoje em Portugal: Palolo, Bartolomeu Cid, entre outros.

Por detrás desta gigantesca atividade, de contornos mais nítidos porque a nível insular, por detrás deste investimento cultural não oficial, realizado por pessoas com a intuição dos valores artísticos e a consciência de como eles podem contribuir para a emancipação dum povo, e sem qualquer apoio financeiro, oficial ou particular, contando apenas com as próprias forças, aceitando o risco de que sem aventura nada acontece, há uma experiencia extraordinariamente importante – pena que o seu eco não tenha percutido suficientemente pelo pais; por detrás desta atividade, dizia, o nome de Rogério Silva permanece. Permanecerá. Como se tudo fosse…

Rogério Silva – um conquistador de arquipélagos

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O que aqui se diz é o relato de factos respeitantes à atividade de Rogério Silva, açoriano da ilha do Faial, notável cidadão e homem de cultura, alem de ser um testemunho sincero de amizade e admiração. O seu desejo intenso de “conquistar arquipélagos” nada teve a ver com intuitos de poder ou de prestígio pessoal, antes com trabalho generoso movido por entusiasmo de civilização e sentido criador.

Costa Brites

Para o Rogério Silva comecei por ser um nome distante de um rapaz há pouco chegado do continente a outra ilha, figura tornada simpática pelas palavras que o poeta Carlos Faria lhe dizia, ajudadas por desenhos que nem de pasta precisavam para que os segurasse.

Vi o Rogério Silva pela primeira vez, nos começos de 1969, numa altura em que veio a Ponta Delgada e se encontrou com o Carlos. Este já me havia falado nele com pormenores entusiásticos a respeito das coisas que se passavam em Angra e não sei se essa ida a Ponta Delgada não teria já a ver com a ideia da “conquista de São Miguel”. Mesmo que a causa próxima fosse de uma outra ordem a questão não deixaria de vir à baila. Fui convidado para ir jantar com os dois. Eu tinha 26 anos, era um rapaz, embora trabalhasse desde cedo e tivesse cumprido já 36 infindáveis meses de tropa. Recordo que os dois amigos falaram das idades respectivas, que eram muito aproximadas porque nasceram no mesmo ano (1929), mas à data do nosso encontro um contabilizava 40 e o outro 41 anos de idade. Para mim eram portanto dois “senhores”, um cheio de vitalidade e muitas graças, o outro com voz mais receosa e flutuante, embora por vezes procurasse, com ar grave e os olhos muito abertos por detrás das lentes grossas, alcançar uma vibração sobre-humana. Já noutro lugar dos episódios das minhas amizades nos Açores contei como é que da convivência com o Carlos Faria acabei por ser envolvido no entusiasmo que o Rogério Silva começou a imprimir ao lugar e às gentes através das linguagens das artes, animado pelo querer desordenado dos idealistas sem remédio.

Qual a receita da poção mágica para Rogério ter feito o que fez?

A pergunta feita assim não pode ignorar o microcosmos da ilha e a paixão de espaços libertos de quem a habita. Vejamos, porém: Um mínimo muito mínimo de apoios pessoais, um meio social com efectiva receptividade cultural, uma dose apreciável de juventude disponível, algumas pequenas casualidades e o empenho ilimitado do apaixonado principal, chamado Rogério.

Este levantou aos ombros muito mais peso do que podiam as suas forças. O seu empenho na missão que entendia como dever, foi radical. Não olhou a meios, isto é, jogou tudo o que tinha para jogar. Se dispusesse de uma liga formal ou informal de amigos ou qualquer outra forma de apoio sólido, o pintor não teria que acabar como acabou, frustrado certamente pela fraca sequência do seu esforço, pobre e exausto. Rogério Silva, o facto foi-me narrado por ele mesmo e não o tenho visto referido frequentemente nos relatos curriculares feitos por terceiros, a certa altura da sua vida, fez a coisa mais difícil que há; Aquilo que disse a Pérsio o Fauno da Écloga 1 de Bernardim Ribeiro:

Por isto, quero de ti que te não deixes morrer. Crê-me tu, Pérsio, a mi, que não há maior vencer que vencer-se homem a si.

“composição”, desenho / Rogério Silva

“composição”, desenho / Rogério Silva

Qual é o motivo de não estar este facto relatado na apresentação das suas andanças pela vida? Será apenas pelo facto de quase ninguém se ter debruçado perante a sua personalidade complexamente recolhida, o seu drama e o seu sonho? Corro algum risco de verdade íntima por pensar que o Rogério – que tantas vezes me tem segredado as suas dores – talvez fique contente, pelo orgulho com que referiu essa razão motora nas conversas muito francas que tivemos. Foi dessa plataforma de bravura e coragem que tinha partido para a sua nova fronteira: tornar-se conquistador de arquipélagos pela convocatória da juventude e pela aliança das artes. Todas as artes, sobretudo as que tonificam a vontade e fazem do homem uma criatura vertical.

As minhas ideias sobre Rogério Isauro da Silva

Para começar pelas coisas principais da apresentação do artista, julgo imperioso referir que era um homem essencialmente dirigido por enraizadas preocupações morais. Escrevo em subtítulo o nome inteiro por não ser aqui o “nome de guerra” ou o “nome artístico” aquilo que define o privilégio de proximidade com que falávamos.

A energia que o impulsionava provinha essencialmente, não do gosto diletante ou do desejo de deixar herança curricular que a história registasse, mas sim do seu sentido de missão ou da ideia de que se não fizesse tudo que estava ao seu alcance para melhorar o seu mundo, ficava-o a dever a si próprio.

A outra coisa principal que a observação cuidada da imagem dos seus trabalhos da última fase me confirmam amplamente (a fase de Nova Bedford) é de que o Rogério não era por natureza um homem da ilha, a sua mente e o seu entusiasmo criativo eram universais. O teor das nossas primeiras conversas em 1970 em Ponta Delgada sobre variedade de temas e também sobre questões de expressão artística e dinâmicas culturais já indicavam isso, mas a ponderada e tranquila visita que nos fez em Coimbra em 1978 confirmou plenamente essa ideia.

À margem deste texto e já que utilizo a expressão “homem da Ilha” desejo esclarecer que não acredito em fatalismos ou determinismos que caracterizem as pessoas, por terem nascido aqui ou acolá. Uma pessoa pode nascer numa ilha e ser muito aberto e cosmopolita ou ser de uma enorme cidade muito desenvolvida e ter um carácter estreito e insulado.

070 peq esc“Futuro”, acrílico / Rogério Silva

O sonho Gávea

O combustível essencial que fazia movimentar o fenómeno da sua acção artística e cultural, portanto, era uma desprendida generosidade, um quase sentido redentor – com tudo o que a palavra tem e com tudo o mais com que a vontade criativa possa acrescentá-la. Por várias razões que vão resumidas mais adiante eu e a minha mulher tivemos o privilégio de aceder à parte mais recôndita e intuitiva do seu coração de homem e às motivações da sua sensibilidade criativa. Estávamos ambos na casa dos vinte, não éramos gente grada e estávamos portanto perfeitamente ao alcance do seu perfil de modéstia. A disponibilidade de carinho que lhe demos foi a mesma que usávamos entre nós, com espontânea fraternidade. E isso oferecido sem condições, a ele, que não era hábil no pedir.

Quando uma pessoa sai ilesa debaixo dos escombros de si mesmo, se levanta e caminha, pode arrastar consigo outros, sobretudo aqueles que com ele se irmanem. Sonha evidentemente que esses sejam muitos e que, conjuntamente, atraiam as atenções do mundo. Por detrás dessa poderosa fantasia estão subentendidos fios condutores de uma justiça automática que venha a ser suporte do homem e da sua luta.

Ouvidas as palavras do artista, pressentida a visão otimista da sua quase inexplicável intenção, é impossível conceber um programa muito bem acabado. Lá no fundo, é tudo possível e impossível, simultaneamente.

Havia no trabalho de Rogério Silva um “pretexto especial” dirigido ao futuro, que era a espinha dorsal das suas expectativas de “transformação do mundo”. Eram as persistentes tarefas de envolvência juvenil, as visitas às escolas, as conversas com as professoras dos mais pequenitos, as recolhas dos desenhos, a viagem interminável que poderia fazer milagres: apanhar a sensibilidade na altura em que dá os primeiros passos e poder encontrar, uma ou duas gerações mais tarde, um novo elenco de cidadãos com o impulso interior de renovação pela arte.

Caderneta de recolha e referenciação de trabalhos artísticos infantis

Cadernetas destas deixou Rogério semeadas durante a sua estadia em Ponta Delgada, junto de professoras de meninos…

Esta era a ferramenta que Rogério Silva utilizava com profusão e que me ofereceu na sua visita a Coimbra em 1978, ano em que fez a sua grande exposição na Brown University, em Providence. É uma caderneta com verbetes muito ingénuos de referenciação de trabalhos infantis de meninos das escolas, que incansavelmente distribuiu a professores do ensino básico, crente que era por aí que era imperioso prosseguir. No decurso da minha exposição em Ponta Delgada, houve visitas de professoras primárias com suas crianças (nada faltou a esse empolgante momento inaugural das minhas emoções artísticas…) e o Rogério Silva lá estava a distribuir cadernetas e a explicar às professoras como tudo iria fazer-se. Elas, muito atentas, muito fixas no olhar e nos gestos do artista, pareciam registar uma ansiedade de véspera, receosas talvez por aquela inesperada responsabilidade que lhes caía no colo, ameaça de futuro artístico e cultural.

ECMO Rogério Silva, o escultor Ernesto do Canto Faria e Maia, um Senhor de Ponta Delgada e eu, na abertura da exposição organizada pelo primeiro em Ponta Delgada

Muitos anos depois, perdidos os rastos vivos do fenómeno e liberto o palco da presença, em muitos aspectos incómoda, do seu autor principal (o único que decidiu levar até ao sacrifício os seus intuitos, isto é, que ousou redimir-se) a sociedade faz esforços aparentes para celebrar o que possa ser celebrado. É o que julgo por sintomas vagamente aparentes de que nem sequer certeza tenho…

Por aquilo que certas vozes têm repetido ao longo dos anos acerca de Rogério e da sua Gávea, julgo ter passado já tempo suficiente para poder monumentalizar-se algo desse sucedido. Morra o homem, fique fama e é bem certo. Neste caso, porém, é desnecessário tentar ilustrar o fenómeno com notabilidades ou palmarés de nomes sonantes. A única coisa que poderíamos celebrar, sendo muito rara,  continua disponível, totalmente grátis e resulta sempre: é a generosidade, essa poalha de oiro e de luz que, manobrada com sorte e com talento, pode revelar as grandes alvoradas e os poentes fulgurantes de esperança.

O Rogério Silva e o bater dos corações dos que o acompanharam com liberdade e alegria, estavam maduros de esperança. E mais nada. Os fios de prata invisível dessa tal justiça automática poderão existir de facto e não é das minhas palavras que vai soltar-se a sombra escura do pessimismo. Ao fim e ao resto, ao usar as minhas camisas, ao comer comigo e com a minha noivazita à mesa, quando lhe fazia a barba (porque ele dizia que não era capaz e que se cortava todo) os fios de prata estavam lá e produziam um efeito que o Rogério sentia e que lhe davam todo o conforto possível.

Mais tarde, nos caminhos da América, para onde o relegou a descontinuidade obrigatória do sonho, atravessou o mar e veio de propósito, muito longe, a nossa casa, para sentir de novo o efeito mágico dos fios de prata. Para mim, certamente, outro fruto pessoal e intransmissível da epopeia confidencial e mágica da Galeria de Arte Gávea, galeria açoriana de arte não comercial, função didática e cultural. Não tenho aqui letras de oiro para escrever isto, mas façamos de conta.

Notas a respeito da “conquista” de Ponta Delgada

Em certas conversas mais especiosas do Carlos e do Rogério a respeito dos labores da Gávea, eram mencionadas claramente as movimentações, os gestos reservados, as raras aberturas “do inimigo”, que tinha rosto. Como eu não era habitante para ficar ali, nem conhecia as caras todas, muito menos as de Angra, deixava passar e não retinha identidades nem outras referências específicas. Nos sucessos mais satisfatórios, quando havia muita gente nos acontecimentos promovidos pela Gávea, quando algum notável vinha marcar presença, quando uma voz se abria no silêncio o Rogério confidenciava de modo convicto, numa frase que fez escola entre nós:

− Eles estão-se a chegar, oh Carlos; eles estão-se a chegar!!!…

Isto era dito com eco de grande convicção, prova que qualquer coisa de contornos difíceis  estava em marcha a caminho de grandes vitórias. O que Rogério queria dizer é que havia um plano ambicioso que estava a ser cumprido; que havia um “inimigo”, mas que não era isso que iria impedir o progresso já não para “a vitória”, mas para muitas vitórias. E que o inimigo não era para abater, era para conquistar, para convencer paciente e laboriosamenteA única solução possível era manter a energia disponível, continuar a fazer andar as rodas pesadas de mecanismos subtis mas eficazes, alimentar a esperança com actos, demonstrar que tudo era – não obstante – possível. E era preciso alargar frentes, conquistar posições, agregando novos aliados. Um dia o “inimigo”, ou parte importante dele, estaria do “nosso” lado. Tudo se tornaria, já não digo fácil, mas possível.

Depois da minha iniciação nos ciclos expositivos da Gávea, houve portanto tratativas entre mim, o Carlos e o Rogério, para estender a actividade da Galeria Gávea a Ponta Delgada. O Rogério estava necessitado de alargar a dinâmica artística e a “conquista” de mais um cenário de actividades era importante para consolidar os seus projectos junto das forças vivas do arquipélago. O programa do Rogério abarcava esse espaço na obtenção de reconhecimento das instituições e dos apoios respectivos. A vitória final a longo prazo seria a ressurreição pelas artes de toda a sociedade com passagens a outros “arquipélagos”: o do continente e do horizonte ideal e altíssimo das américas!… Sonhar só vale a pena assim, sem freio.

A “conquista” da ilha de maiores dimensões era de importância decisiva. O Rogério vinha para nossa casa e era ali apoiado para lhe permitir colocar em marcha a organização da iniciativa. A história está cheia de tontos assim que pensam que basta apontar uma fisga ao sol para que ele pestaneje, e todos esses estão convencidos de que a vitória é só desejá-la com vontade sem limites.

"composição", acrílico / Rogério Silva

“composição”, acrílico / Rogério Silva

A cedência da sala para efectuar a exposição em Ponta Delgada foi alcançada com cumplicidades várias de que já não me lembro em detalhe. Ficava a faltar um conjunto de expositores de dimensões e articulação adequada para fazer nascer nas salas amplas do Ateneu Comercial de Ponta Delgada um condicionamento de espaços adequado para a circulação dos visitantes e a apresentação das obras. Como eu residia em Ponta Delgada e possuía uma temática um tanto explosiva (coisas da militância pela paz e visão universalista) fui o artista escolhido. Produzir uma quantidade adequada de obras era a minha parte na tarefa, que comecei a concretizar certo tempo antes. Meti férias, reuni materiais e trabalhei intensamente de dia e de noite para produzir o mais e o melhor possível. Sobre o trabalho produzido falarei noutra altura. O Rogério Silva estava habituado a enfrentar situações e necessidades do tipo mencionado. Hoje há certamente galeristas profissionais e técnicos habilitados em variadíssimas instituições por todas as ilhas dos Açores. Mas naquele tempo, se o Rogério Silva queria expositores… tinha que os construir!… E era isso que ele vinha fazer a Ponta Delgada, algum tempo antes da exposição. Veio portanto para a nossa casa da Rua do Foral da Misericórdia onde comia à nossa mesa; as camisas e outras mudas de roupa eram da minha gaveta e, só mais um pequeno detalhe: o Rogério Silva não sabia fazer a barba!… Nem mais nem ontem, não sabia fazer a sua própria barba! Lá em Angra ia aguentando e, de xis em xis dias, ia ao barbeiro. Em Ponta Delgada, os muitos afazeres não davam tempo nem ele tinha à mão o barbeiro do costume. Solução: passei eu a ser o barbeiro. A mesma “gilettte” que me fazia a barba a mim, fazia a barba dele, para evitar que ele se cortasse todo, pois. Ainda não havia estas coisas modernas de usar e deitar fora, pois a cultura do “deita fora a compra novo” era nesse tempo mais do que desconhecida, reprovável.

A solidão do esforço de Rogério Silva

Ao longo do convívio estabelecido nesse período entre nós várias conversas íntimas com Rogério revelaram a solidão do esforço que empreendeu. Disse-me as coisas que não diria certamente a muitos outros conhecidos e fizemos apreciações, até a respeito de amigos que – não deixando de o ser – guardavam aquele distanciamento pragmático que tantas vezes fazem dos homens ilhas separadas entre si, já não pelo mar, mas pelas frias águas da pouca generosidade. Tivemos, eu e minha mulher, a ideia que era o momento de fazer algo que tornasse clara a nossa solidariedade concreta com Rogério Silva. Não lhe demos do que não tínhamos, porque era impossível, mas das economias domésticas surgiu o que era necessário para custear as despesas de Rogério Silva em Ponta Delgada, ou seja para custear a aquisição ali de todos os materiais expositivos que, construídos em trabalho de sol a sol feito pelo artista Rogério Silva (que também era carpinteiro/marceneiro), nas  próprias instalações do Ateneu Comercial, ali ficaram depois à disposição da instituição, inteiramente grátis, para outras exposições.

Quinze contos, que eu bem me lembro. Se eu disser aos portugueses das gerações do euro que, ao câmbio de flutuações monetárias inexplicáveis e tenebrosas, se trata de uns míseros 75 euros, toda a gente se larga a rir. Mas nesse tempo um professor do ensino secundário com horário completo ganhava por mês uns magníficos quatro contos (quatro mil escudos – 200 euros) sendo esse exatamente o meu vencimento inicial no Banco de Portugal (3 contos e seiscentos mais 400 escudos de subsídio de custo de vida para quem fosse deslocado para os Açores). Quinze contos eram portanto quase quatro meses do meu trabalho, que os recém-casados tinham ao canto da gaveta para fazer funcionar a magia das artes do lírico e idealista pintor Rogério Silva.

Foi dos mais preciosos e rentáveis investimentos da minha vida. Dirá o leitor que é pouco elegante, pretensioso, narrar detalhes como este. Setenta e cinco euros, caro leitor!… Não, não foram entregues para pagar esforço físico ou canseira mental; não foi uma gratificação pela gentileza grátis, pelo sentimento sem peias ou pela vontade construtiva do espírito que recompensámos, se essa palavra tão receosa como inadequada aqui pode traduzir o que é impossível de explicar. Foi um gesto, um pequeno gesto que, se fosse possível multiplicá-lo por número indeterminado de vezes, transformaria o mundo. Transformar o mundo, a mais solene e louca das utopias, de efeitos sempre somente idealizados e impossíveis. Algures, de maneira imperceptível, no que nos toca… creio que conseguimos plenamente!…

O produto do meu trabalho artístico tinha características completamente distintas daquelas que faziam parte do imaginário muito conservador e até aristocrático da sociedade Micaelense. Foi um teste terrível para as condições vigentes e, quanto à minha exposição, as conversas entre conhecedores ligados até às escolas nacionais de arte da época, licenciados residentes em Ponta Delgada e seus amigos que viajavam de avião para muito mundo, apesar de confidenciais, tornaram-se bem conhecidas. O caso foi discutido entre mim, o Carlos e o Rogério e a exposição que inicialmente era para ser de “pintura” ou de “pintura e desenhos”, acabou por se designar mediante um neologismo que eu inventei para designar os trabalhos que produzia: “formotemas”. Tinham uma forma plástica de vocação predominantemente desenhística e desenvolviam temas de caracterização surreal, fortemente problemáticos. A sua carga de simbolismos e a acentuação literária dos títulos levaram o Rogério, para dar sinal de sentido de responsabilidade perante os sectores mais académicos, a levar por diante o neologismo: “exposição de Formotemas”.

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Portugal encontrava-se em guerra, a temática da exposição estava estampada no teor de muitos trabalhos e no texto do próprio catálogo: Costa Brites ou o Pintor e a Paz. Assim foi promovida a exposição em vários artigos de jornal e profusamente distribuídos os catálogos pelos visitantes que acorreram à inauguração em número significativo, o que foi uma grata surpresa para o seu organizador e para mim, claro.

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Estiveram aliás presentes “altas individualidades” como o governador, esposa e filha e outras autoridades. Uma dessas autoridades, o comandante naval, era toda uma figura e esteve a conversar comigo bastante animadamente, tendo enviado nos dias imediatos um ordenança ao Banco de Portugal pedindo para lhe indicar o preço de um quadro algo impressionante que estava exposto e que acho seria a peça mais bem conseguida técnica e simbolicamente: “Marte o submisso”. A obra ostentava o sub-título: “À memória de Gengis Kahn, percursor da guerra total”. Era todo um manifesto. Dada a minha fidelização a todos os princípios matriciais da Galeria Gávea, recusei-me sequer a fazer preço ao Comandante Naval o que, à luz dos dias de hoje e ao esforço relativo da organização do acontecimento, foi atitude de uma ingenuidade sem sentido. A autoridade deve ter pensado que eu era pateta, e teria tido toda a razão. Podendo ter vendido o quadro, entregaria o produto ao Rogério/Galeria Gávea e não seria nada má ideia. Mas os mentores da iniciativa acharam que eu tinha feito muito bem, por uma questão de “princípio ético e moral”. Isto dá uma imagem concreta das visões que me envolviam por aquela altura e do precipício espaço-temporal entre a ilusão pueril e a poderosa e burocrática contemporaneidade.

Em relação às controvérsias que acima descrevi tenho sempre que fazer larga menção da insigne figura do pintor/professor Tomaz Vieira, que regressara da sua posição na Escola Superior de Belas Artes da capital lisboeta e de digressões europeias, para a nobreza do exercício e magistério das artes na sua terra, desfrutando da dignidade da sua casa e da solidez da sua família. Eu tivera o privilégio de o conhecer pela incontornável apresentação feita por Carlos Faria, nos meus almoços na piscina do calhau, ao fundo da Avenida Marginal. Um certo dia, antes disso, tinha entrado numa loja de ferragens que também vendia coisas para a pintura, ali perto da Igreja Matriz, em pleno centro da cidade. Perguntei, com o desplante de um rapaz, por coisas que tivesse à venda para fazer pinturas e conversei abertamente com o lojista com perguntas elementares a respeito da tecnologia das artes, perante a atenção circunspecta de um senhor que ali estava, em silêncio. Muito mais tarde, o artista Tomaz Vieira contou a alguém que tinha sido ele que estava lá na loja daquele seu amigo e que me tinha visto com interesse pitoresco, na sua qualidade de artista e professor de Belas Artes, expandir o meu entusiasmo ingénuo de candidato ao exercício das artes. Julgo que terá sabido associar com simpatia e algum espanto esse momento com a minha intervenção no dealbar do fenómeno – surpreendente e inovador – da eclosão do “movimento Gávea”.

O escritor Dias de Melo, pintura de Tomaz Vieira, 1974

Dias de Melo, 1974, acrílico s/ tela 1000 x 810 mm / Tomaz Vieira

Julgo que a noção altamente evoluída que tinha dos fenómenos artísticos no seu natural contexto de humanidade e o espirito tolerante que o animava, contribuíram para olhar para a Gávea e o seu périplo açoriano com um olhar de naturalidade desejável, longe dos maximalismos esteticistas dos seus conhecidos e até colegas de universidade. A bagagem cultural de que dispunha Tomaz Vieira estava aberta a outras dimensões e não o impedia de ver que o acessório não pode estorvar o essencial que, neste caso, era todo o calor humano e o entusiasmo comunicativo. Entre outras coisas, cujo essencial terá sido o largo rio sereno das palavras ouvidas,  ainda guardo do convívio com o pintor Tomaz Vieira a cópia passada à máquina, ainda em Ponta Delgada, de uns apontamentos que me ofereceu para “preparação de bases para pinturas de cavalete”…

Rogério Silva faleceu em 2006, trinta e dois anos depois de 1974 e da queda do regime expressamente desfavorável aos impulsos do tipo do movimento pelo qual foi responsável. Estou longe de Angra e dos Açores no espaço, como estive longe de Rogério durante esses trinta e dois anos. Como será visto o artista e a sua obra na memória de quem ali vive, passado todo este tempo?

Mos cap pequm conjunto, naturalmente incompleto, de capas de catálogos de exposições organizadas pela Galeria de Arte Gávea

A Galeria de Arte Gávea e os seus amigos

Tenho muito medo de cometer graves erros de omissão ao nomear apenas alguns amigos que estiveram connosco na movimentação que conduziu a esta exposição. Acima reproduzida encontra-se o retrato de Dias de Melo, em pintura de Tomaz Vieira. Essas duas personalidades artísticas dos Açores estiveram presentes, cada um a seu modo, na movimentação pessoal e no interesse que rodeou a expansão da Gávea a São Miguel.

Sobre Dias de Melo, grande amigo açoriano de presença assídua e actuante, não são necessárias aqui referências que o abonem como homem e como artista. Foi das pessoas com quem mais estreitamente convivi quando em Ponta Delgada e guardo dele, em toda a dimensão da sua personalidade, a mais insígne recordação.

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Na lista de nomes de apoiantes da Galeria Gávea em Ponta Delgada, faz parte um amigo nosso chamado João Carlos, já nessa altura autarca da Fajã de Baixo que se tornou, segundo o que julgo saber, o mais antigo em todo o nosso país a exercer as funções de presidente de Junta de Freguesia e que foi mais tarde relevante personalidade do elenco de deputados do Parlamento Regional dos Açores com o seu nome completo João Carlos do Couto Macedo autor, entre outras coisas de um livro de poemas que ainda possuo nas minhas estantes, intitulado “Em Comum com a Noite”, com a sua dedicatória escrita nesse tempo. Todas as pessoas participantes e chegadas a uma iniciativa cultural que foi da sua iniciativa e com a qual tive o prazer de manter um amistoso contacto (O GRAC da Fajã de Baixo) estiveram presentes na inauguração e numa visita especial de encerramento da exposição da Gávea em Ponta, Delgada.

Um dos aspetos em que a organização do evento não foi muito auspiciosa foi no seu documentário fotográfico. Nesse tempo também não havia ainda máquinas digitais…

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Os fotógrafos do acontecimento foram pessoas amigas que depois me ofereceram as poucas fotografias que tiraram, sem a qualidade profissional que justificasse reprodução. Se aqui as apresento é apenas para dar provas do que digo, além de serem reveladoras, mais da paciência e da boa vontade do que do meu genuíno conhecimento das técnicas digitais. Nunca valorizei muito estes “recuerdos” que balizaram o enorme orgulho do meu amigo Rogério Silva que, deste modo, via formalizado o seu sonho ingénuo: a “conquista de Ponta Delgada”. Na fotografia da esquerda está o senhor Governador e na da direita o senhor Comandante Naval, com a sua expressiva barba de navegador. Ambos empunham o catálogo da mostra, onde é bem visível o logotipo da Galeria de Arte Gávea, profusamente disponíveis sobre as mesas da sala – testemunho do método próprio de Rogério Silva nas suas realizações. Peço desculpa aos historiadores do arquipélago e aos eventuais interessados Micaelenses, se os houver, mas não me lembro do nome de nenhuma das individualidades retratadas. Todas estas fotografias dormiam um sono descansado em velhos envelopes meio guardados, meio perdidos, nas minhas caixas de papéis antigos.

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Na imagem da esquerda vê-se o momento da abertura da exposição em que o senhor Governador de então conversava comigo, na proximidade de Rogério. Na foto da direita o meu amigo João Carlos Couto Macedo fala com uma pessoa conhecida. O desenho que contemplam que não sei onde foi parar, resultou de uma conversa com Carlos Faria. Mostra uma cena inquietante: um ogre gigantesco come gente, nem mais nem menos. Se formos a pensar bem é um episódio muito mais frequente do que podemos imaginar, no presente como ao longo de toda a história da humanidade.

A atenção dispensada à realização de Rogério Silva

Como digo noutro lado das minhas recordações destes factos, nunca valorizei a minha intervenção ao ponto de me sentir o protagonista fosse do que fosse. Embora tenha feito o mais e o melhor possível para desempenhar o meu papel, o meu ego não inflou nem um grama porque o meu sentimento era de que tudo não passava de um episódio esquecido mesmo antes de suceder, ou algo que só começaria muito mais tarde e, mesmo assim, com grandes incertezas. Que não fiquem aliás as mínimas dúvidas a quem lê: este trabalho tem como razão fundamental a memória que guardo do meu caríssimo Rogério Silva, homem de sentimento e muito carácter.

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O eco da exposição de Ponte Delgada foi invulgar e revelou uma inegável recetividade e grande respeito que os açorianos em geral e a comunicação social em particular tiveram por esta iniciativa. Não vou atrever-me a fazer generalizações dado que não tenho bases suficientes para tal. A minha passagem pelos Açores foi demasiado excitante e tão veloz, que, sendo bem verdade o que disse no parágrafo anterior, conservo a sensação de distanciamento perante os factos e de imunidade face à auto-contemplação.

Os testemunhos jornalísticos de tal atenção, as circunstanciadas entrevistas para a rádio (uma das quais foi até transcrita num jornal que acabo de recuperar com estupefacção dos meus arquivos antigos…), as referências críticas publicadas em primeira página (!…) a generosidade e abrangência dos comentários feitos e abundância de outras notícias de antes, depois e durante a exposição excederam todas as (aliás inexistentes!…) expectativas.

Não posso dizer que tenha sido mal tratado em Coimbra, onde realizei exposições nos locais mais desejáveis para o efeito e onde pessoas de muita qualidade me dispensaram uma atenção muito honrosa mas… o balanço utópico da raridade onírica ficou para sempre nos Açores e foi… a excepção que confirma a regra.

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Carlos de Amaral Carreiro do Diário dos Açores

No Ateneu Comercial de Ponta Delgada abriu recentemente uma exposição de pintura de Costa Brites, organizada pela galeria «Gávea», de Angra do Heroísmo, que se reveste de grande interesse como afirmação de mais um artista entre nós. A exploração do mundo do fantástico e do imaginário foi sempre uma constante do homem permanentemente preocupado com os seus problemas íntimos e terrores obsessivos. O fantástico, na pintura de Costa Brites passa a ser uma nova realidade, tão certa como a que nos cerca todos os dias. São outros os ambientes, as estruturas, as forças, os habitantes mas, no fundo, o universo desta pintura é feito de elementos tirados ao mundo em que vivemos, recriados em novas dimensões do real. Até na própria escolha dos títulos para os quadros Costa Brites faz disso um ato criador, formando palavras novas a partir doutras muito usadas, o que torna ainda mais intrigante a sua pintura, acentuando-lhe o cunho poético de um artista pânico. Como exemplo, reproduzimos alguns títulos de quadros: «Burocratia», «Tecnosilenciomaquinocracia» e «Crocodilização da boca». A pintura de Costa Brites é essencialmente desagradável à vista a quem não está habituado a pousar os olhos naquilo que vai contra os conceitos convencionais do belo. Temos de nos convencer de que a arte dos nossos dias não é só descanso e deleite para os olhos, mas há outras procuras lúdicas, intrigantes, ilusórias, ambíguas que tornam a relação entre o espectador e a obra de arte mais activa e participante. Costa Brites peca um bocado na sua exposição pela falta de unidade estilística. Contudo, nota-se que são experiências diversas dum artista à procura de definição, atingindo alguns quadros um exagero barroco que não o favorece, pois tornam-se de difícil leitura, parecendo ter elementos a mais. Costa Brites necessita fazer uma depuração aos elementos do seu universo, estruturando-os em linhas de mais fácil leitura, sem, contudo, perder toda aquela força voluptuosa e infernal, mas evitando a insistência em certos elementos bélicos, por exemplo, que, pelo menos da maneira que estão sendo tratados actualmente, pecam pelo aspecto ainda panfletário.

Há três quadros de excelente qualidade e que são já o prenúncio de um caminho mais seguro que se abre a Costa Brites. É o nº 18 do catálogo “Decomposição do rosto”, o nº 20. “Crocodilização da boca”, e o n° 23, “Morte irónica – I”. Estas três pinturas, em especial a n° 18 destacam-se do conjunto. O rigor factual do desenho cheio de perspectivas inventadas, dando a tudo uma possibilidade de encaixe funcional, faz desses quadros os mais originais e melhor concebidos por um artista que se revela grande esperança das nossas artes.

É de louvar a atitude extraordinária do artista terceirense Rogério Silva, auxiliado por Carlos Faria e João Carlos, que vêm desenvolvendo uma campanha em prol das artes e das letras, verdadeiramente notável, atendendo aos poucos recursos de que se servem, lutando desinteressadamente e com sacrifício, aturando todo o género de recusas e críticas daqueles seres hermeticamente fechados à inovação e à cultura de massas que se agarram às imagens e mitos e de um passado que não foi deles para atacarem um presente que queremos seja de nós todos.

Carlos de Amaral Carreiro

O registo desta opinião teve um valor muito significativo para mim e para Rogério Silva por representar um dos diários de maior circulação em Ponta Delgada com o qual nem eu nem os outros amigos da Gávea tínhamos relações de confiança pessoal. A atitude de Carlos Amaral Carreiro foi um sinal do clima de receptividade e abertura que se observava no meio cultural de Ponta Delgada, em Angra do Heroísmo e nos Açores em geral. Sinto-me aliás uma testemunha apta a dar opinião bem documentada a esse respeito, pelo excelente clima pessoal e cultural a que tive acesso e de que fiquei com saudades. O meu regresso ao continente, em particular a Coimbra, revelaram-me um ambiente em nada comparável com o que tive a ocasião de viver nos Açores. Carlos do Amaral Carreiro, menos próximo dos amigos da Gávea que outros comentadores, produziu um texto muito interessante e motivador das visitas da exposição com o qual não apenas estou completamente de acordo no que toca ao meu trabalho de então, como me cabe registar as observações particularmente justas e interessantes relativamente à Galeria Gávea e a Rogério Silva.

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Dias de Melo, comentário publicado no “Correio dos Açores”

Do lado dos meus amigos e dos amigos da Galeria Gávea, avulta naturalmente o texto apreciativo de Dias de Melo, pela honra que constituiu o testemunho dessa notabilíssima figura das letras açorianas. Conhecê-lo e ter convivido com ele é das recordações mais gratificantes e honrosas que trouxe de Ponta Delgada.

Também se pode fazer poesia com o lápis de desenho e o pincel das tintas. Prova-o Costa Brites com os quadros que tem em exposição no Ateneu Comercial de Ponta Delgada. Quando a gente vê aquelas caras sem olhos e aquelas cabeças recheadas de rodas; quando a gente vê aquelas caveiras que devoram a terra e quanto existe na Terra; quando a gente vê a face daquele homem que assiste indiferente aos lutadores que se destroem; quando a gente vê aqueles peitos de que saem bocas de armas e aquelas criaturas de faces vazias, e aquelas criaturas de dedos acorrentados, no meio de canhões e de arame farpado; – quando a gente vê tudo isto, com aquela deformação (intencional) das formas e com aquela cor que as reveste carregada de significado — a gente sente-se (arrepiadamente) diante do homem atormentado do nosso tempo, que, ao fim e ao cabo, não faz mais do que carregar sobre os ombros a herança que nos foi legada, agravadamente legada, pelo pensar e pelo sentir, sob o signo da incompreensão e da violência, pelas gerações que nos precederam. Homens despidos de alma, pensando em termos de técnica restrita; homens desumanizados, procurando caminho na vida — ou construir uma vida nova sob o império exclusivo da máquina e sob a lei implacável da força, com todas as limitações que por todos os lados nos cercam; homens que, se buscam ainda as soluções do espírito e pelo espírito, se encontram isolados, se encontram sós, e esmagados, no meio dos homens. Isto (para mim) — o simbolismo dos “formotemas” de Costa Brites. Isto — o poema dramático que ele escreveu com o desenho e com a cor, como o poderia ter escrito com a caneta e utilizando as vinte e tantas letras do velho alfabeto latino. Por isso eu digo que se pode fazer poesia com o lápis de desenho e o pincel das tintas. E por isso eu sinto, dolorosamente, a exposição do Costa Brites e lhe admiro, no talento, a grande capacidade de comunicação humana.

A exposição de Costa Brites foi organizada pela Galeria Gávea, de Angra do Heroísmo. E a Galeria Gávea — é o pintor faialense Rogério Silva. Existe há pouco mais de um ano. Realizou já exposições na Terceira, no Faial, em S. Jorge, em Santa Maria. Nas cidades. Nas vilas. Nas freguesias rurais. Esta é a 32ª. Tem trazido até ao Arquipélago valores dos mais significativos do Continente Português, até do estrangeiro, numa exposição recente de crianças das escolas de Paris. Além disso, com a página literária de «A União», «Glacial*, dirigida por Carlos Faria, mantém a colecção «Gávea-Glacial», já com um bom número de obras publicadas. Ter-nos-emos nós, açorianos, apercebido do quanto vale e significa esta Obra de Rogério Silva? Saberemos nós testemunhar-lhe a admiração e gratidão que merece?

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Fraga Brum, no mais antigo Jornal português – Açoriano Oriental

Escrever, pintar, representar ou falar para um público heterogéneo, nunca foi, nem nunca será tarefa fácil, dada a capacidade receptiva e perceptiva que mora e se agita no pequeno mundo de cada indivíduo. Diversas correntes, quer literárias, quer pictóricas têm agitado e impressionado o mundo dos nossos dias, na ânsia de levarem às Sete Partidas do Globo uma nova mensagem, mas que, dada a sua subjectividade, objectivamente não consegue universalizar-se, pois que, além da falta de mentalização adequada e absolutamente necessária, temos que contar com os estados idiossincráticos que se acobertam e presidem ao pequeno mundo de cada ser pensante. Assim Costa Brites, com os seus formotemas dispersos por trinta e três quadros, procurou trazer até nós «páginas» vivas da nova mensagem, em que mãos esquálidas e suplicantes se erguem, pedindo algo que as reconforte, retempere e alivie dum pesado fardo que esmagando o homem o toma número, peça ou engrenagem da grande e poderosa máquina universal. Ansiedade, tortura, súplica, revolta, esmagamento, destruição, ternura, evasão, desejos incontidos… de tudo nos falam os formotemas que Costa Brites ofereceu à nossa sensibilidade, restando-nos, apenas, desejar, ao jovem artista, um pleno êxito, com sinceros votos para que a mensagem de arte ora trazida até nós seja, na verdade, absolutamente compreendida..

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João Carlos (Couto Macedo) – texto do catálogo da exposição com referência de capa no diário Açores de 8 de Dezembro de 1970

Entre o artista e o público, a imaginação é, aqui, o remetente e o destinatário. Não como forma de evasão da realidade, mas como processo de reformulação − ou recriação − dessa mesma realidade, através de metáforas fantásticas e, ao mesmo tempo, acessíveis, que conduzem facilmente ao diálogo sobre temas de extraordinária importância.

Costa Brites crê na capacidade do homem-indivíduo para se redimir a si mesmo, pelos seus próprios meios. Se o homem pensa, torna-se consciente. De onde a sua necessidade de agir, que o leva a, libertar-se dos monstros e a entregar-se à construção de um mundo novo.

Eis aqui, portanto, uma proposta, muito mais do que uma simples atitude. Porque esta Arte não se desenha no círculo fechado de uma personalidade. Um sentido estrutural de diálogo marca-a desde início, fazendo-a explodir em formas excitantes e magníficas, onde a denúncia da condição humana, com especial relevo para as situações de escravização, resulta num simultâneo apelo à liberdade e à paz.

Falta dizer que são estudos formalmente não definitivos. O que se nota logo pelos materiais utilizados: madeira prensada ou marcadores de ponta de feltro. Costa Brites é um artista mágico, de recomeço incessante.

João Carlos (Couto Macedo) – PONTA DELGADA, 0utubro1970

A generosidade do texto de João Carlos Couto Macedo extravasa do leito em que corria o seu carinho pela Galeria Gávea e até da simpatia e amizade pessoais. A última frase deve ser entendida neste sentido: Foi falada entre nós uma das minhas (já) tendências dominantes, a de não me conseguir ficar pela expressão de um certo modelo, embarcando sempre em novas atitudes de cada vez que começo. Mas tarde classifiquei isso como “tendência heteronímica” e está bem documentada num texto de apresentação do meu trabalho “Um artista pode ser muitos, ter vários nomes…” , e era isso a que aludia João Carlos.

A visita de encerramento por iniciativa do GrAC da Fajã de Baixo

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Com uma visita coletiva pro­movida peio Grupo de Animação Cultural GrAC da Casa do Povo da Fajã de Baixo, encerrou-se an­teontem a Exposição de Formotemas do Artista Costa Brites, que a Galeria de Arte Gávea levou a efeito, com- pleno êxito, no Ate­neu Comercial de Ponta Delgada. Participaram na visita doze pessoas e, antes do início, o Pintor Costa Brites, que acompanhou pessoalmente os visitantes na ob­servação dos trabalho expostos, teve palavras de muito apreço pela iniciativa tomada pelo GrAC da Fajã de Baixo, incentivando os participantes a cultivarem ca­da vez mais o espírito de, cama­radagem e de amor pela Beleza e pela Cultura que não é. segundo ele próprio disse, uma simples acumulação de conhecimentos (por vezes suscetíveis de se perderem de memória), mas ante, um con­teúdo espiritual que vai ficando no fundo da personalidade para alimento da Vida. Costa Brites, durante a visita, esclareceu ainda vários aspetos dos seus quadros que suscitaram diálogo entre 0s presentes. Pelo que nos foi dado observar e pela natureza dos comentários troca­dos, estes ficaram extraordinariamente entusiasmados com a Arte assim tratada em termos de ati­vidade vital e social. No final, a Sr.a D. Maria José de Araújo Faria entregou aos Ar­tistas Rogério Silva e Costa Bri­tes, como oferta da Casa do Povo, dois exemplares da «Obra Poética» de Duarte de Viveiros, que nasceu na Fajã de Baixo, em 1898. Costa Brites exarou nos ca­tálogos palavras de estímulo e amizade, sentimentos que fecharam com chave de ouro esta es­plêndida realização da Galeria Gávea em Ponta Delgada.

Diário Insular

Jota Álamo, “pausa para meditação” – Diário Insular de 18 Janeiro 1970

O mundo agita-se sacudido por um diabo de intenções canibais que nos faz abraçar a ideia de que to­dos caminhamos para o primitivismo vampírico, engrenado numa pa­lavra viva e «actuante»: Guerra. O homem distorce-se nas invenções bé­licas, na sua ânsia enorme de ani­quilar para experimentar o gozo da obra destruída. Deve ser fantástico apreciar da Lua o nosso mundo distorcido, com meia dúzia de sobre­viventes grotescos que ainda levan­tarão as mãos a clamarem uma vida decente e possível. Não vem longe o tempo em que alunar será sinó­nimo de pisar. (Isto não é profe­cia). Este mundo do delirio, da ar­ma, da máquina, da droga, caminha com destinos «bonitos» e inverosí­meis, atrás do ruído de uns carac­teres descomunais nas páginas de um jornal. O poeta faz versos para esquecer ou para apontar onde está o fogo. O artista plástico transfere-se com as mesmas intenções. O músico, idem, idem, aspas, aspas. Pensei nisto ao ver a coletânea de desenhos de Costa Brites, onde ele traçou uma vista panorâmica deste nosso mundo sem patas; on­de os braços, que afogam, saem da cabeça; onde os canhões, que as­sassinam, saiem do cérebro, dos olhos, da boca. Num vigorismo des­concertante, numa mão firme e sem hesitações, o mundo está lá − negro e bizarro − em amarelos que nos subjugam e esmagam e com poder de persuasão. A mensagem de Costa Brites é autêntica. Encontra-se essa mensa­gem no conteúdo total da obra em­bora «o pintor» tenha morrido já «o ano passado». (Ele não morreu, minha gente! Não morreu! Deixe­mos «o pintor» convencer-se disso. A obra nega a morte. O artista, co­mo o bicho da seda, tem de morrer para criar). Costa Brites libertou. Pois, incondicionalmente, é legada uma liber­dade que permite, aos artistas, vo­mitar tratados de paz, de humanis­mo e de verdade para a abolição dos antropófagos com a sua vontade de tragar. A exposição ide desenhos (descul­pem não dizer «de pintura») de Cos­ta Brites não é para a gente gostar. É para ver, pensar, assimilar e sair de lá com a promessa de dar as mãos, quebrando as correntes da in­compreensão e do ódio. O Irmão-Costa-Brites-sem-Flores avisa-nos que nem só de flores vive o homem, mas de mãos, muitas mãos, entrelaçadas confiadamente!

Neste inverno de ca­da um, 17.JAN.70

O somatório de todos estes elementos, graficamente demonstrados pela reprodução dos periódicos em que foram publicados, não esgotam os ecos do alargamento da actividade da Galeria Gávea a Ponta Delgada, a que falta um capítulo:  a extensa entrevista dada por mim ao Clube Asas do Atlântico e que foi publicada na íntegra pelo jornal “Açores”.

Dado que os meus trabalhos foram praticamente todos oferecidos à Galeria Gávea quando regressei ao continente, é-me impossível dar a ver um dos que estão mencionados no catálogo da exposição. Tenho pequenas fotografias de muito má qualidade e, ao fazer estes textos e a pesquisa respectiva, tenho tido vontade de refazer alguns deles. Para já tenho, entre outros, um grande desenho sobre cartolina que fiz em Coimbra, quando recomecei a desenhar logo depois de ter instalado a minha família. Este como outros trabalhos foram expostos na Galeria Diedro, em Leiria, que foi fundada pelo Dr. José Henriques Vareda, dinamizador associativo, político e cultural da mais distinta estirpe. Com características muito diferentes como é humanamente compreensível e num outro cenário, mas no mesmo período histórico, pode ser entendido com um outro Rogério Silva, como há tantos – felizmente – para dignificação da humanidade. Vários trabalhos meus ali expostos – como este – escaparam por um triz de ser destruídos na Rua, quando a Galeria Diedro foi vandalizada e queimado todo o seu recheio – no Verão quente de 1975, por activistas de extrema-direita. Alguns outros que tinham ficado no acervo da galeria não tiveram a mesma sorte…

Aqui fica o desenho em referência, já mais sofisticado tecnicamente que os que fazia nos Açores, mas que – executado em 1973 – em tudo se identificava com o “espírito Gávea”:

desenho s/ cartolina 70×50 cm, Costa Brites, 1973

De notar que este trabalho, feito sobre uma folha de cartolina de 70 x 50 cm, como os que fazia em Ponta Delgada, era executado com marcadores de várias cores, mas com o uso agora já alargado a uma caneta “flo-master” e a outros recursos gráficos. Nos trabalhos da Galeria Gávea era hábito não assinar (outra atitude compatível com o “espírito”…) mas neste desenho surge já uma assinatura algo rudimentar feita casuísticamente à época, a pedido da Galeria Diedro. O tema, nas suas motivações evidentes – esquadrinhável também nos textos dos catálogos da Gávea – ou eu me engano muito, não perdeu nem um grama da sua temível actualidade.

Detalhe importante da exposição em Ponta Delgada

Em qualquer trabalho que se faça, há certos detalhes que fazem a diferença. Ao encerrar este texto, no último par de fotografias a preto e branco, pode ver-se à direita uma espécie de vestíbulo da exposição que Rogério Silva montou à força de braço e boa vontade. Nesse vestíbulo apresentou um resumo ilustrado de toda a acção que a Galeria de Arte Gávea vinha desenvolvendo nos vários locais onde estava activa. Isto é, não era uma simples exposição de um artista, fosse ele quem fosse, era também um escaparate de um projecto, o seu projecto que – como pode ver-se – cativou a atenção de muito público:

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À esquerda vê-se à entrada da sala o Senhor Martin Vincente Lezaola com quem Rogério Silva conversava (ao fundo vê-se o tal vestíbulo de apresentação do historial da Galeria Gávea). À direita. no sentido inverso,  vê-se ao fundo um grupo de pessoas que conversava com o expositor e, a meia distância, o Rogério Silva. Julgo que este dia foi aquele em que um grupo da Fajã de Baixo fez uma visita organizada à exposição. Nesta imagem, em primeiro plano, pode ver-se um dos painéis onde está documentada a actividade da Gávea.

Evocar a tarefa dos desinteressados promotores de cultura

Se o que eu penso tiver alguma razão de ser, e por isso afirmo noutro texto também aqui publicado que “os Rogérios Silva fazem muita falta por todo o lado” todas as evocações e todas as referências irão ser inúteis e tardias, menos a da recordação emocionada e do sentimento de admiração. Muito a sós comigo acrescento o agudo sentido de perda que figuras como esta me suscitam, por se ter eventualmente perdido o melhor que tinham para nos dar. A terceira república deu origem a transformações excepcionais em muita coisa, e bem assim nos Açores mas há uma pergunta que me atormenta um pouco:

A galeria de arte Gávea conseguiu surgir no tal regime adverso. Soçobrou, é certo. Mas qual seria o destino de outra Gávea se surgisse um outro Rogério Silva, o que, a suceder, seria um acaso prodigioso? E porque é que eu não encontro sinais visíveis da ingénua epopeia de Rogério, e dos seus trabalhos de artista, nem sombras?

Na terra onde vivo as grandes modificações que se deram na sociedade portuguesa encontram-se também em evidência e são igualmente notórios os exemplos de pouca generosidade e de fraquíssimo ou nulo acolhimento do trabalho e do valor de certas figuras tão insígnes e tão generosas como Rogério Silva (Já para não falar de Henriques Vareda e dos autor-de-fé de Leiria em 1975…) Tenho a certeza que tais exemplos continuam a surgir e a manifestar-se em muitos lugares e nas mais variadas circunstâncias. Esses casos, embora pouca gente saiba, continuam a semear luminescências subtis por aqui e por ali, lavrando o chão da consciência dos povos e abrindo caminho por onde podemos – se assim desejarmos – orientar os nossos passos e contentarmo-nos de ser gente, mulheres e homens capazes da alegria e da esperança.

Uma colaboração entre mim e o Rogério Silva

Da observação desenhos de Rogério nasceu a certa altura em mim o desejo irreprimível de fazer inserções de cor, o que é possibilitado pelas ferramentas digitais de tratamento de imagens.

De forma a desafiar os visitantes a entrarem no menu, em:  “colaboração entre mim e o Rogério Silva” junto abaixo as primeiras explorações cujo teor serve para demonstrar a versatilidade e a eloquência dessas obras de Rogério.

Ora vejamos:

desenho nanquim s/ papel, Rogério Silva

desenho nanquim s/ papel, Rogério Silva

O trabalho original aqui presente (com um enquadramento – ou “passe-partout” que faz imensa falta às reproduções tipográficas) aparece, conforme o próprio original, a preto e branco, embora a brancura do fundo se apresente numa tonalidade cromática a que o meu amigo não teve acesso, por falta de recursos tecnológicos.

Sonho (ou pressinto?…) que ele acompanha de perto estas minhas explorações, exprimindo as suas dúvidas quando me engano ou sou mal sucedido, e encorajando-me a prosseguir quando as coisas me saem bem. A aventura está apenas a começar…

Muito eu gostava de ter ido um tempo viver com o Rogério em Nova Bedford!…

A fase seguinte representa um avanço espectacular desta colaboração activa entre gestos criativos de 1978 e habilidades recentes de um curioso que usa a camaradagem artística. mas que chama a atenção que o potencial criativo que aqui se encontra pertence de modo integral a Rogério Silva!…

composições Rogério Silva

composição cromática c/ desenhos de Rogério Silva (ver Rogério Silva visto pelos meus olhos)

Obrigado pela atenção dispensada, voltem sempre. Se são dos Açores – ou têm lá amigos – divulguem estes textos, por favor. Quer eu, quer o Rogério Silva, ficamos muito gratos. Mas o destinatário principal desse gesto mora na vossa consciência de boa vontade.

Até um dia destes.

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Painéis de azulejos

Galeria de imagens: se não tiver acesso à apreciação da galeria peço o favor de fazer “refresh” ou “reload page” (Ctrl+R ou tecla F5) e tentar de seguida acesso à mesma clicando sobre uma das imagens..

Pintar azulejos, porquê?

Texto inserido no catálogo da exposição realizada pelo 2º Encontro dos Professores de Filosofia do Distrito de Leiria, no castelo de Porto de Mós

o olhar pensativo

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No pátio interior da casa da Rua do Largo de Camões em Leiria, onde vivi até aos 10 anos, 3 depois de ter perdido meu Pai, havia uma barra de azulejos com desenhos geométricos, de composição raríssima, de que nunca mais me esquecerei. É como se estivesse a vê-los agora, e a sua memória faz vibrar em mim o diapasão agridoce dos mais variados sentimentos. Se é essa sensibilidade que persigo agora ao pintar azulejos, não sei ao certo, tal é a variedade de recordações que acordam em mim esses quadriláteros cerâmicos de vidrado colorido, que recobrem paredes de casas e jardins, com a mesma luminosa vibração com que neles se reflectem os ecos de visitas feitas, de passos perdidos, e de palavras há muito, muito tempo esquecidas.

O gesto dos pintores de painéis de azulejos torna-se ágil e fluente devido ao exercício intenso da vontade e do gosto, o que não permite adivinhar as dificuldades de que se reveste. Um conjunto de azulejos acabados de pintar, com suas cores de pigmentos baços e tonalidades cromáticas desviadas do seu real valor, é como o segredo nupcial das noivas escondidas pelas religiões distantes. Só depois do sofrimento e da metamorfose será possível conhecer-se a surpresa do encantamento ou a desilusão do insucesso. O rigor do fogo e o afinar de temperaturas há muito conhecidas irão revelar a verdadeira face das novas cores, trazer à luz a interacção dos pigmentos, desfazer aqui uma ou outra expectativa, quebrar ali algumas peças.

O exercício cerâmico é, para o pintor de quadros sobre telas, aquilo que para o piloto de aviões é o voo por instrumentos: habituado a navegar à vista, é maior o risco e diferente a forma de alcançar o seu destino. A arte contudo é una, e igual o sentido da inovação e da descoberta.

Se os gestos do pintor são quase identicamente os mesmos, idêntico e tão intenso será o olhar com que nos contempla o gesto pintado, em pleno centro do rosto revelado da pintura.

Costa Brites

Juncal de Porto de Mós, Março de 2 000

barco solo

Sobre azulejos

Publicado no jornal “O Trevim”, da Lousã / suplemento cultural “Alicerce” / Dezembro de 2003

A relação que os portugueses têm com o azulejo decorativo é da maior familiaridade. Todos temos uma ideia particular do que significa e de qual o efeito que produz se colocado numa parede seja qual for. Perante o grande número de pessoas que frequenta igrejas ou visita monumentos, fica descrito um quadro de relações marcado pelo sentido de prestígio e de dignidade estético-simbólica. Para sublinhar a representatividade desse singular apetrecho das nossas artes decorativas falta mencionar o espaço que lhe é dispensado em museus, a importância de estudos e publicações que alimenta, não olvidando a realidade económica que a sua produção representa, o número de trabalhadores envolvidos, o volume de negócios, etc.

projecto painel de azulejos pª a Galiza

projecto painel de azulejos pª a Galiza

Num jardim público ou nas paredes duma vivenda particular, olhamos do longe aquela mancha azul e branca ou de colorido variado, e sempre nos parece bem, tal a vivacidade expressiva que comunica ao espaço envolvente. Peças antigas ou modernas, umas bem estimadas outras arruinadas pelo passar dos anos, umas de bom fabrico e outras de evidente mau gosto, não são iguais na sua concepção e no seu valor intrínseco. Se nos aproximamos da tal mancha colorida, se a olhamos de perto, é fácil reconhecer as diferenças entre os trabalhos realmente merecedores de melhor atenção e os outros, destinados de preferência a serem vistos de longe…Desafiamos portanto o leitor a efectuar esse exercício de classificação observativa, e esse saboroso esforço de crítica construtiva. Olhar de longe primeiro, olhar de perto depois, se for possível. E fazer um juízo pessoal que coloque a obra no nível merecido de consideração.

A defesa dos patrimónios culturais é um assunto que fornece as mais acesas declarações, onde a pessoa que fala tem sempre razão pelo que diz, mas nem sempre tem razão pelo que faz. Aqui como noutros sectores da vida pública o discurso teórico tem a reprovável tendência para se transformar numa cortina que oculta uma prática de teor radicalmente oposto. O património vivo, o das memórias ainda actuantes no gesto criador dos artistas é tanto ou mais raro e valioso que o das pedras falantes dos monumentos antigos e quer as entidades públicas quer as pessoas particulares, individuais e colectivas, deveriam estar atentas a essas fontes de entesouramento de valores perduráveis.

Um espaço ou uma parede vazia não valem o mesmo que outros onde se aplique uma obra com valor artístico sensível. E desse esforço de valorização ganha o individual e o colectivo, conforme se prova por toda a tradição da cultura dos povos.

Costa Brites

projecto Sintra

projecto de painel de azulejos, para Sintra c/ Palácio da Pena.

Imagens e textos

Esta é uma apresentação genérica, ainda em construção, dos textos e respectivas galerias de imagens. Para entrar em cada grupo, é favor clicar nos títulos desta apresentação ou nos títulos do menu com os mesmos nomes. A todo o momento irão sendo acrescentadas imagens e textos.

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PAISAGEM URBANA – Coimbra

REGRESSO AOS AÇORES:

Grafite e acrílico s/ tela

REGRESSO AOS AÇORES

Acrílicos s/ tela, desenhos, ilustrações, etc.

paisagens imaginárias

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Ver-te assim leve e nova, cidade cansada! - vião imaginária de Coimbra, Costa Brites

Ver-te assim leve e nova, cidade cansada! – vião imaginária de Coimbra, Costa Brites

Um amigo meu, tendo Coimbra como o centro do seu universo de referências, pediu-me um trabalho que evocasse a faculdade onde estudou e a cidade respectiva na linguagem singela e franca que é típica do azulejo. A respeito do painel que acima se publica (e que é apenas uma parte da totalidade do trabalho em referência) redigi, como é meu hábito, uma “memória descritiva, que faz uma “visita guiada” ao mesmo.

Coimbra, síntese idealizada:

“… apresenta-nos uma síntese de vários pontos de importância paisagística no contexto institucional, cultural e arquitectónico desta cidade. Uma tal visão organiza-se de acordo com uma certa ideia de perspectiva, colocado o observador num sítio ideal elevado, com linhas irradiantes ao longo das quais os diversos monumentos e edifícios se orientam, de acordo com a lógica de anfiteatro da própria cidade. O “Largo da Portagem”, de modo a acolher a perspectiva das traseiras de “S. Bartolomeu”, dinamiza-se num arco de círculo, concordante para o lado esquerdo com a posição da “Sé Velha”, e para o lado direito com a casa do “Governo Civil”. A liberdade da composição permite entrever alguns dos locais de passagem em que toda a cidade se encontra, além do “Largo da Portagem”, a “Couraça de Lisboa” o “Largo da Sé Velha”, a “Praça da República”, o miradouro anexo à Faculdade de Farmácia, etc.

Rangendo amarelo, Portagem além, um carro eléctrico desértico como a sua própria ausência das ruas de Coimbra, conduz-nos para onde a nossa imaginação quiser. Irá para o Tovim? Irá para Celas ou para Santo António dos Olivais? Será o 7, o 4 ou o 3?

Oscila e range ladeiras acima. Meio barco, meio carrocel é um encanto para as crianças que nele se penduram e para os amigos que podem fazer sala de estar na frescura livre das plataformas. Sim, os eléctricos, de que toda a gente gostava, uma coisa que já não há, que ficava barato e não poluia os ares… (só rangia um bocado, é certo, mas eu morei 11 anos mesmo ao lado da linha 4 e nunca acordei com a passagem do elétrico!).

No friso inferior. além de duas construções abstractas que suportam as arborescências que se erguem lateralmente ao longo da paisagem, estendem-se ondulações em perspectiva que sugerem o passar das águas do rio bem como tufos de plantas que ornam as suas margens.

De resto, não se enumeram aqui todos os componentes desta “paisagem”, dado que é um exercício que fica reservada a todos os conhecedores e admiradores da cidade, que vão ter o prazer de os identificar um a um, num pequeno exercício de memória equivalente ao vagabundear liberto por ruas, praças e ladeiras. O único elemento figurado que se observa “olhos nos olhos” e que, por isso, estabelece a linha de horizonte é o do paço real transformado em Universidade de Coimbra. Flanqueando esta perspectiva idealizada erguem-se duas arborescências laterais, com uma expressão primaveril e fundo da mesma cor que aquece o rosto do “Sol”.

"O eléctrico, um passeio de eléctrico!..." Visualidade de Costa Brites, Outono de 1989

“O eléctrico, um passeio de eléctrico!…” Visualidade de Costa Brites, Outono de 1989

O Eléctrico
um passeio de eléctrico!…
deslizar sibilante e amarelo
por sobre longas fitas azuis e curvilíneas
subindo, descendo
Carrocel como um barco!
− barco rosnando ladeiras acima
− carrocel vacilante ladeira abaixo
O sol redondo entra pelo boné sebento do guarda freio
e no banco dos tolos a rapariga das pernas gordas
é uma delícia para o rapaz da camisa branca
que segue de pé
e espreita a lua entre as rendas da blusa
e o arvoredo compacto da Sereia

Praça da República! Paragem.
“Tin-tin” diz a criança e ensina o Avô
que paga o bilhete
para dar a volta inteira
e reacender a vida
entre mulheres que carregam cestos
e senhores que lêem o jornal

O Eléctrico:
um passeio de eléctrico!…
para saltar em andamento ou subir devagar
ou pendurado como os garotos
que desenham um sobrolho carregado
na face magra do homem cinzento que cobra bilhetes

Bilhetes de eléctrico:
tiras modestas com números e letras
frágeis passaportes
e sensatos conselheiros:

“SE VIAJAR DE PÉ SEGURE-SE BEM”

Outono, 1989
“Visualidades”, Costa Brites

Um painel para Finisterra, encomendado/concebido por Ernesto Insua e imaginado/realizado por Costa Brites

 A cultura dos lugares limite, neste caso daqueles que se encontram nos extremos “onde a terra se acaba e o mar começa”, tem sido motivo de enriquecimento referencial no cruzamento de culturas, crenças e formas de arte muito diversas.
No decurso de uma conversa que tivemos Ernesto Insua e eu, no seu magnífico Hotel Dugium, lugar aprazível onde a cultura marca encontro com qualquer pessoa que esteja disposta a complementar a visita com serões de amistosa troca de ideias sobre assuntos de toda a espécie, foi referida a tradição artística da azulejaria portuguesa. Foi daí que surgiu a ideia de executar um painel de azulejos que ilustrasse alguns pontos fundamentais dessa “cultura dos fins do mundo”, para o que diversos elementos de significação foram enumerados pelo seu inventor conceptual, o Senhor Ernesto Insua.
Passo a descrever o painel de azulejos que concebi e executei, de acordo com o projecto que ambos fomos aperfeiçoando, ao longo de conversas cheias de interesse mútuo.
O elemento central de mais destacada presença é uma rosa dos ventos, objecto simbólico que preside ao sentido e à necessidade de orientação que nos domina em momentos de chegada e de partida, ao longo de viagens de necessidade ou no decurso de peregrinações empreendidas sob os mais variadas motivações.
Por natureza um objecto capaz de apontar caminhos em todas as direcções, também aqui distribui o nosso olhar, primeiramente como de acordo com os pontos cardiais, em direcção a quatro paisagens de outros tantos “fins de terra”: Fisterra, Roca, Lands End e La Pointe du Raz, na Galiza, em Portugal, em Inglaterra e na França, respectivamente.
Note-se que estas quatro paisagens estão mostradas neste painel tal como, de forma idealizada, se podem contemplar de Fisterra: o Cabo da Roca como se fosse visto de Norte, e os restantes cabos como se os olhássemos de Sul. Fisterra, ela própria oferece-nos a sua perspectiva mais amável, vista de Sul, ostentando a enseada amena que é a praia de Langosteira.
Como elemento aglutinador dessa variedade de perspectivas foram utilizados diversos grafismos directamente inspirados na arte Celta, cultura de certa forma referível à área geográfica aqui contemplada.
Esse processo vai ao encontro da ideia de “cercadura” geralmente assumida em grande quantidade de painéis clássicos de azulejos, mas que aqui foi utilizada de forma muito livre como forma organizar espacialmente ideias de difícil conciliação visual.
À esquerda em cima o “painel do peregrino” compatibiliza a sua imagem e a da concha de vieira com algumas referências à convivência entre mar e serra que o litoral galego tão abundantemente nos oferece, e de que o “hórreo” é um adereço insuperável.
Ao centro da rosa dos ventos, num espaço propositadamente concebido como alusão à forma do próprio globo terrestre, aparece essa visão distante e sugestiva “do outro lado do mundo”, sonho primeiro e destino de vida depois de tantos e tantos milhares de galegos.

António Pedro Pita – Na iminência do caos – 1997

Texto de catálogo da exposição “regresso aos Açores” que teve lugar em Coimbra na Casa Municipal da Cultura, em Outubro de 1997, da autoria de António Pedro Pita

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“Oh show us the way to the next Whisky bar” (B. Brecht), acrílico s/ tela s/ platex, Costa Brites 96-98

Na iminência do caos

Costa Brites iniciou o seu percurso de pintor em Ponta Delgada, corria o ano de 1968. Colhemos a informação nas sucintas referências biográficas publicadas nos catálogos de algumas exposições. O perfil do pintor, nessas linhas, para além de breve, é de uma secura assinalável. E a sua repetição, de catálogo em catálogo, praticamente sem alterações, é um modo de se tornar expressiva. Como se o pintor Costa Brites não tivesse, como biografia, senão a que fosse constituída pelo que (de desenho para desenho, de quadro para quadro) caótica, sucessiva e/ou simultaneamente se vai exprimindo.

A biografia possível de Costa Brites reduz-se, pois, a muito pouco. Sabe-se que o pintor não frequenta o social nem é profissional de opiniões, protestos, abaixo-assinados e outros folclores. Raramente se inscreve – em todo o caso raramente como pintor – em acontecimentos exteriores aos que ele mesmo desencadeia e que o levam, cruelmente, aos limites de que os seus quadros são, não propriamente a notícia, mas o sinal.

Todavia a referência ao lugar e ao tempo das suas primícias é a citação, pelo exterior, do tempo e do lugar de um processo interior em direção às artes ou, para sermos mais rigorosos, à convicção das possibilidades redentoras da arte. Em nenhuma das várias “Notas biográficas” que conheço é omitida a condição de discípulo (ou aluno de desenho) de Jorge Valadas e do Prof. Narciso Costa ou é apagado o autoctonismo, compensado, como também se refere, pelos estudos de história de Arte e visitas sistemáticas a monumentos, galerias, museus, etc.

Ah, não ter sido Madame de harem!.../grafite e acrílico s/ tela/ Costa Brites 1996

Ah, não ter sido Madame de harém!… (Bernardo Soares) /grafite e acrílico s/ tela/ Costa Brites 1996

Por conseguinte, quem inicia o percurso de pintor é um jovem, mas não muito (confiram-se as datas), que na situação político-cultural de Ponta Delgada em 1968 quis dirigir o gosto e o talento, de que porventura já dera provas e fora reconhecido, para uma construção artística a inscrever voluntariamente num horizonte de emancipação individual e social.

Seria deslocado analisar agora com pormenor as especificidades desse momento riquíssimo. Limito-me a um aspecto. Em Dezembro de 1970, Costa Brites apresenta-se em exposição individual, sob o título Formotemas. Nos títulos dos quadros e nos trechos selecionados para o catálogo Herberto Hélder e António Sérgio, Bertrand Russel e Ray Bradbury, Aldous Huxley e Antero., Hiroshima, Carlos Faria, Lima de Feitas e Nagasaqui são convocados como pontos de referência de uma atitude estética e existencial. Mas um breve texto do pintor define os termos da sua vontade de expressividade pictórica.

Dois anos depois de 1968. 1968 foi, não o esqueçamos, o ano das revoltas estudantis (Paris, Berkeley) e o ano da invasão da Checoslováquia pelo exército soviético. O desejo de revolta ganha contornos inéditos: ilimita-se nos gestos radicais dos estudantes tornados intérpretes da Insatisfação e sofre o duro revez da prova da prática. Ao concreto tornado cena de uma tragédia de que se não antevia desenlace só o poder da imaginação parecia poder contrapor-se. Por isso, a intervenção política da arte implicava também uma rutura com as várias soluções realistas que durante trinta anos quase hegemonizaram a identidade.de uma arte combativa.

Para Brites, tudo gira em torno da polaridade guerra/conformismo. E as artes são a “única eventualidade regeneradora do carácter dos homens, caso as sociedades lhes permitam — nas vésperas muito iminentes do último grande delírio — uma parceria franca com a generosidade, a mansidão e a inteligência”.

As obras desse período testemunham a conquista do espaço do quadro por uma fabulação onírica a que não são alheios o cinema, o surrealismo e a pop-arte. Fixada residência em Coimbra (1971), Brites consagra-se, ao longo da década de setenta, ao apuro das soluções técnicas (= estéticas) para a expressão do seu imaginário próprio.

Habemus PDM!... /acrílico s/ tela/ Costa Brites, 1997

Habemus PDM!… /acrílico s/ tela/ Costa Brites, 1997

É o momento de dizer que a pintura de Costa Brites:

a) toma forma no interior de um imaginário complexo: riquíssimo pela variedade de formas que assume; assombroso, para não dizer monstruoso, pelas figuras que regista.

b) em nenhum momento cedeu à tentação do realismo.

É uma pintura da transfiguração ou, para sermos mais rigorosos, de alguns modos possíveis de transfigurar e, por isso mesmo, uma pintura desinteressada da realidade por compromisso com o real. À distância de quase trinta anos interessa-me anotar a coerência deste percurso, uma coerência que se não desenvolve sob o modo da repetição de problemas e soluções mas sob o modo do incessante desenvolvimento de um núcleo imagético fundamental. Disto mesmo nos apercebemos se tentarmos captar os regimes de transfiguração que operaram, mais ou menos ciclicamente, no devir da sua obra.

Georges Bataille: “Pode definir-se a obsessão da metamorfose como uma necessidade violenta, confundindo-se por outro lado com cada uma das nossas necessidade animais, que leva o homem a separar-se de imediato das atitude exigidas pela natureza humana “.

103 Diogenes

Diógenes e os pássaros de pedra / óleo s/ tela s/ platex/ Costa Brites, 1995

No primeiro período do trabalho de Costa Brites o sonho é o modelo da transfiguração e a chave do processo de metamorfose. As suas figuras, que estão próximo da melhor banda desenhada (falo de Burne Hogarth ou de Guido Crepax, por exemplo), definem um universo surreal. O animal da noite que percorre o corpo dos homens vem à luz do dia na superfície da tela ou da folha. As obras de Brites, ao longo dos anos setenta, percorrem territórios alheios aos da chamada pintura retiniana. É, como queria Breton, uma pintura da concretização das imagens presentes ao espírito. As fulgurações que ocupam a tela ou a superfície do desenho nascem de um trabalho de visionário e não do esforço do observador mesmo, e principalmente, se os objetos do olhar visionário são mais reais do que os objetos observados. São eles e não estes que tudo decidem da própria conformação do real. Os rostos de cujos olhos nascem outros rostos e mãos libertas ou prisioneiras ou as espingardas em flor que irrompem da terra (um desenho de 1972} poderão constituir a suma de uma estética que se concretiza em muitas obras de diferente dimensão e alcance mas que constitui um primeiro nível de maturação desta pintura transfiguradora. Costa Brites transfigura a realidade pelo sonho e é para a maior expressividade possível desta transfiguração que faz apelo a sua transcrição de estados oníricos. O sonho é o real da realidade.

Em 1980, Costa Brites “abre um ciclo de novas exposições tendo como motivo centra! o estudo da paisagem urbana de Coimbra”. (Socorro-me, ainda, das “Notas biográficas” publicadas nos catálogos). Trata-se de um parêntesis figurativo? Se é pertinente a nossa afirmação anterior de que Brites jamais cedeu ao realismo, como compreender este longo período de atividade do pintor, para mais intensa e produtiva? A questão não é fácil. Como já tive oportunidade de escrever, este ciclo da obra de Costa Brites tornou-se responsável por múltiplos equívocos que, a um tempo, fizeram lavrar o seu sucesso num regozijo minado e constituíram um obstáculo à inteligibilidade da obra toda de Costa Brites. É contudo um ciclo essencial.

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lugar longe preparado para um sonho / acrílico s/ tela s/ platex / Costa Brites, 1993

É uma outra referência central do surrealismo — o belga René Magritte — que me parece pertinente evocar, pela exemplar radicalidade do seu alcance, para esclarecer o afloramento deste ciclo na obra de Costa Brites bem como as relações desse ciclo com a obra antecedente e consequente do pintor. Não quero reproduzir o que já escrevi a propósito, em l988 e em l991. Para esses textos remeto o leitor eventualmente interessado. Mais me interessa agora aferir uma outra pertinência, a das palavras de Georges Bataille que escolhi para percorrerem, como fio de aclaramento, todo este texto. O ciclo que Brites consagra — como se diz — ao estudo da paisagem urbana constitui, do meu ponto de vista, ainda uma transfiguração. O que a decide não é a identidade da figura transfigurada. Neste ciclo, Brites não toma um caminho diverso do ciclo anterior do seu trabalho. Pelo contrário: aprofunda os meios e a lógica da transfiguração.

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Quanto aos meios: toda a obra de Brites, mesmo a pintura que dela mais longe parece estar, assenta no domínio prodigioso da técnica de desenho. O ciclo em referência é o do desenvolvimento sistemático, poderíamos dizer: exaustivo, das imensas possibilidades expressivas da grafite e do nanquim. Com este exercício paciente, Brites não se afasta, senão aparentemente (e para além da consciência que o artista possa ter de todo o processo), do ciclo anterior, no qual o desenho já ocupara um lugar de grande importância. O período do estudo da paisagem urbana é, antes de mais, o estudo dos meios adequados à transposição pictórica da cidade.

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Quanto à lógica: artisticamente, é secundário o motivo transfigurado. A figura, como se sabe, não é unicamente o corpo humano. Ora, o corpo transfigurado não é, agora, o humano ou o animal. É a cidade, a rua, a casa, a pedra, a cal. Brites investe o apuro das formas do fantasma da fotografia. Neste ponto, que é indiferente saber se correspondeu ou não a um programa consciente do pintor, é que a breve citação do projeto de Magritte se me afigura de alguma utilidade. Como já foi escrito, “tornando-se surrealista, um ano após o Manifesto de Breton, Magritte escolheu ser um pintor realista para quem o real — o que toda a gente vê facilmente — é o meio privilegiado de fazer oscilar o convencional para o enigma e, assim, revelar tanto quanto possível o mistério que aí se encontra”. Ora, se no primeiro ciclo do seu trabalho a lógica da transfiguração consistiu em projetar a verdade do sonho sobre a aparência da realidade para que o real se fizesse aparecer e sentir, agora Costa Brites toma uma das vias desde o início possíveis para permanecer no exterior da tradição realista: levar a realidade até ao enigma para gerar, no espaço da projeção do enigma sobre a realidade, uma interrogação sobre o real.

O que nos leva ao reencontro de Bataille. A cidade de Costa Brites foi sempre uma cidade deserta. Mas se, num primeiro momento, era uma cidade pujante de cor (é provável que Brites tenha apurado aqui o enorme domínio do trabalho com a cor que se revelará da maior importância no ciclo posterior do seu trabalho), torna-se depois uma cidade em lenta mas inexorável descoloração, até atingir em obras mais recentes, pelo aprofundamento do recurso à grafite, a figuração da pedra corroída e da decadência da cal. Esta cidade não é habitada porque não é habitável. As cidades habitadas, mas igualmente inabitáveis, são as cidades do conformismo (tópico de 68) em que os homens só têm espaço para o pior de si mesmos – o pior, isto é: o tão conforme a todos os outros que nem sequer é visível. Por isso, talvez, a cidade é deserta. A cidade ocupa (também em sentido militar) todo o espaço do quadro. A cidade não tem espaço para a irrupção da força animal que transfigura.

A reinvenção do azul, acrílico s/ tele s/ platex, Costa Brites 1997

A reinvenção do azul, acrílico s/ tele s/ platex, Costa Brites 1997

As obras mais recentes de Costa Brites constituem o fulcro de esta exposição. Não será exagero afirmar que entre elas encontramos algumas das obras mais belas de todo o percurso do artista. Mas dizê-lo é incaracterístico e insignificante embora a complexidade de estas obras não facilite nem o trabalho da análise nem a proximidade do sentimento.

Brites condensa por vezes em cada uma delas várias coordenadas anteriores. Do seu passado remoto ou próximo conserva a paixão pelo rigor do desenho. Agora, todavia, é o trabalho da cor que ocupa a primeira linha do nosso olhar. Para a meticulosa organização do diálogo, por vezes tornado conflito, entre cores e matizes é indispensável volver a mais intensa disponibilidade de que formos capazes.

Mas é insuficiente. Se, em obras anteriores, principalmente do ciclo urbano, Costa Brites já conseguira, na mesma superfície, uma pluralidade de problemas e soluções — o que rapidamente se sintetiza na fórmula: vários quadros num só quadro — agora radicaliza de dois modos o procedimento.

A) Acentua a dimensão narrativa de algumas obras: o quadro deixa de centrar-se unicamente numa figura; em vários quadros, mais do que o devir temporal, é verdadeiramente de uma narrativa, ou fragmentos dela, que se trata.

B) Violenta a superfície da tela e opera ruturas de nível, desnivelamentos, descontinuidades de esquadria.

o oiro e o vento, grafite e acrílico s/ tela s/ platex, Costa Brites 1996

o oiro e o vento, grafite e acrílico s/ tela s/ platex, Costa Brites 1996

Em algumas obras recentes, desdobra os planos de representação e deixa à expressividade da cor o lugar central, como que a emergência na tela de um para-além-dela. Nessas obras do que se trata é verdadeiramente de um conflito, não de um diálogo nem de uma tensão, entre o espaço superficial e o espaço interior da tela. Não se trata de reativar o recurso estilístico da ilusão visual. Trata-se de reconsiderar a problemática da representação não nos terrenos da metalinguagem mas como adequada solução estilística para a expressão do monstruoso imaginário de Costa Brites.

Agora, o pintor subordina a representação deste imaginário às determinações de uma vontade imperativa. O que se perde em espontaneidade ganha-se em rigor e clareza. Brites faz de cada quadro uma síntese de todo o seu percurso. Recupera motivos e inspirações. A superfície da tela é o espaço da metamorfose integral dos corpos, Os membros e os órgãos reorganizam-se em múltiplas figuras, múltiplos corpos, monstros, levados com frequência ao limite de puras formas, irreconhecíveis, ameaçadoras, que vêm ao nosso encontro sopradas por um vento que não sabemos de onde vem.

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“somos as aves de fogo por sobre o campos celestes” (H.Helder) – acrílico s/ tela s/ platex, Costa Brites, 2000

As figuras da produção mais recente de Costa Brites já não são identificáveis com nada anterior ou exterior às telas em que ocorrem. Mas a superfície da tela é a pele de um espaço de acolhimento: “acolhemos em nós não só Deus mas todos os seres que reconhecemos, incluindo os que não nomeamos: somos o cosmos na medida em que o conhecemos e sonhámos” (Nietzsche}. Mas a superfície da tela é o lugar de um florescimento: “do animal e da planta devemos aprender o que é florescer : e depois aprender de novo tudo o que se refere ao homem” (Nietzsche).

As figuras da produção mais recente de Costa Brites são formas em processo de metamorfose, corpos que mudam por exigência da sua própria força, num devir que transforma a superfície da tela no lugar convulso onde o inesperado pode irromper e o caos está iminente.

António Pedro Pita

carta aberta a Rogério Silva

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Caríssimo Rogério Silva,

O trabalho que fizemos nestas páginas com a melhor memória que guardo do vivido e  com tudo o que me deixaste de real e de imaginário está finalmente à vista de toda a gente, isto é, de todos os que tenham a virtude e a vontade de o encontrar e de o contemplar com a mesma vontade e com o mesmo carinho com que foi feito.

Abro esta carta estreitando-te sem mais delongas no mesmo abraço fraterno de quando nos encontrámos e de quando nos encontramos agora. Nós, e nada há a esclarecer a esse respeito, somos daqueles que muito conversam, que muito se encontram e que continuarão a encontrar-se sempre. O meu abraço, tu já o sabes mas é necessário dizer claramente aos nossos visitantes aqui, serve para me congratular com o volumoso sucesso do teu trabalho e os frutos abundantes da tua generosidade que, conforme reafirmo mais abaixo, foram plenamente conseguidos.

Tudo o que fizeste foi visto, apreciado e valorizado por todos os que tiveram a capacidade, a vontade e o gosto de estar presentes. A tua missão foi vasta e preciosa e o fruto dela ficou no coração de todos esses que fomos, não eu nem tu, mas “nós”; Um grupo numeroso de gente, terra fértil em que germinou o teu exemplo. Serviu muito e continua a servir. Como digo noutro lado os Rogérios Silvas fazem falta por todo o lado.

Os Rogérios Silvas são semeadores de sensibilidade, são os que empurram a marcha do homem para a frente. Se poucos os imitam, se poucos seguem o seu exemplo de generosidade desprendida, um dia aprenderão, um dia o farão. E tu, nesse dia, estarás com eles na coragem da tarefa e na alegria da realização. Os Rogérios Silvas são aqueles que inventam a coisa mais simples de inventar: a generosidade de fazer na prática o que se transporta no coração. Há muitos corações infelizmente ainda dormentes no vazio, como há outros em que habita apenas a vontade inconsequente. Mas há um belo dia em que aqueles raros corações que transbordam de sonho e de vontade do sonho são assaltados pela coragem de entregar a obra feita, a atitude concreta. E o melhor das coisas acontece, embora às vezes poucos sejam os que dão por isso.

Já há muito tempo que sonhava fazer estes sítios na net, e tinha medo – com o meu olhar um pouco desfocado por todo o tempo que estivemos longe e calados – de dizer o que não tinha interesse, o que não convinha, de te desagradar em suma, ou de te causar desgosto, o que seria ainda pior. Das tuas terras entretanto não me haviam chegado sinais concretos de memórias maduras e bem conservadas a teu respeito. Resolvi por isso perder o receio de fazer mal o que outros não fizeram, pura e simplesmente. Por um conjunto de razões que hoje não vamos abordar aqui, mas que são substanciais – como agora bem sabes – fomo-nos aproximando mais e mais e a tua ajuda foi preciosa na realização do trabalho. E só por isso pude fazê-lo da forma como está feito.

Quando te conheci em 1969 foi como se tivesse chegado junto de uma grande árvore frondosa, daquelas que tanto me impressionavam quando era miúdo e que tanto ainda me impressionam até à mais profunda comoção. Como frondosa árvore já te achei completo, com dramas, cicatrizes, zonas sombrias e tudo. Abriguei-me no lado do sol, das flores e dos frutos, que foi o que mais abertamente me ofereceste, sem me teres escondido que aquelas outras coisas menos prazenteiras também existiam.

Houve uma coisa que não correu tão bem como eu desejaria. Quem me pôs a trabalhar nos Açores mandou-me para Ponta Delgada, longe de ti. Foi preciso que um outro amigo, o Carlos Faria, tivesse andado por lá de um lado para o outro e servisse de pombo-correio da nossa bela amizade. Acabou tudo por resultar bem, Rogério. Acabei por conhecer-te e acabei por me dar-te a conhecer. Outra coisa que também não correu perfeitamente bem foi teres-te calado tanto, quando regressaste da América. Estavas cansado e triste, eu compreendo. Nem vou alongar-me na consideração de tantas coisas que poderiam ter sido diferentes. O momento a que chegámos é um momento de plena alegria e de celebração dos resultados que atingiste.

Nas recordações que tenho das coisas que me deixaste na tua última visita, estão fotografias de tarefas tuas que julgavas prova de idoneidade na realização de acontecimentos artísticos e outras duas fotos de acontecimentos na tua galeria. Nas costas de uma dessas fotografias está, com pequenos traços a lápis já diluídos pelo tempo, um esquisso que fizeste pelas tuas próprias mãos – ao longo da revisitação da memória – de uma planta da Galeria de Arte Gávea. Lá está a entrada da rua, o apontamento das escadas que subiam para aquele primeiro andar do nº 6 da Rua Pero Anes do Canto e a disposição singela das três salas de exposições com ordenação numérica inscrita por ti: 1, 2 e 3. Nunca fui a Angra do Heroísmo e só agora, com os milagres da internet, tenho a noção exata do local e até uma boa sucessão de imagens daquela rua onde estava a pequena casa com as suas três salas de exposições. A porta com o número 6 não consigo vê-la, e até é bom que permaneça assim, como coisa provavelmente desaparecida.

Gal Gav

Um bom número de pessoas tem tido notícia dos entusiasmos da visitação das artes que ocorreram na Galeria Gávea e daí ao mito vai um passo. Nada é igual ao que o sonho pode configurar na sua visão abstrata e impressiona como uma aventura tão contagiante pode ter-se expandido a partir dum lugar tão modesto. Isso deriva, Rogério, de todo o principal dos gestos humanos estar escondido na vontade sonhada, no desejo embalado pela esperança.

Parabéns Rogério, foi isso que fizeste. Nem os milionários centros culturais, nem as formidáveis fundações, nem os poderosos patrocínios conseguem fazer melhor, nem tanto, nem tão bom: perdurar no tempo e na memória de muitas pessoas como algo vivo e contagiante. Nenhum, que eu saiba, consegue ser tão autêntico, tão cabal, tão liberto da arrogância do poder, tão luminosamente desprendido como tu. Não é o dinheiro, não é o poder nem os mecanismos da propaganda organizada que fabricam o mito, que alimentam a esperança e – muito menos – que ajudam o homem a acreditar em si mesmo como alguém que pode mudar para melhor, ajudando outros a acreditar também. Parabéns Rogério, foi isso que conseguiste. O teu trabalho foi o que foi, não há que contá-lo nem mais largo, nem mais alto, nem imaginá-lo diferente do que tinhas dentro de ti mesmo, comandado pela força metódica do teu espírito e pela determinação da tua vontade.

Que nenhum dos teus amigos, fragilmente lamuriando no intervalo no sonho, diga alguma vez que tudo acabou como talvez não devesse ter acabado. A tua tarefa não acabou, os Rogérios Silvas não desistem nunca, o teu trabalho foi plenamente conseguido e os objetivos que alcançaste formidáveis!… É isso que eu tenho ouvido a muita gente e, mesmo que não tenha sido verdade tudo, ou que tenha sido verdade de outra maneira, foi enorme.

Nós, pelo canal que bem conheces, não precisamos de nos despedir. Até já, Rogério.

José

um desenho original, a negro, de Rogério Silva (“esquecendo tempestades”), resultante de uma colaboração entre nós ambos (ver, por favor, Rogério Silva visto pelos meus olhos).

um desenho original, a negro, de Rogério Silva (“esquecendo tempestades”), resultante de uma colaboração entre nós ambos (ver, por favor, Rogério Silva visto pelos meus olhos).

 

Um reencontro, passagem para diante

Pintura, acrílicas s/ tela, 100 cm x 89 cm, Holly Wood 2008, Costa Brites

Pintura, acrílicas s/ tela, 100 cm x 89 cm, Holly Wood 2008, Costa Brites

Por artimanhas da contemporaneidade digital fiquei sem página pessoal, o que – numa certa ordem menor das ideias – é uma condenação à insignificância e ao silêncio, isto é, à morte.
No seio da minha cultura antiga (quer dizer, presente e actual) a morte não é o fim. Antes pelo contrário. Primeiro porque todo o saber frutificará, toda a semente germinará, todos os gestos serão reencontrados.
A primeira transcrição verídica deste facto está no seguinte: ao realizar uma viagem de regresso a imensos sinais do meu labor, encontro tudo. Passagens, saltos, atrevimentos, desejos e nem é preciso avançar para esse outro território que os poetas atravancaram de gente confusa e perdida: o sonho.
Nunca me encontrei a gosto ali. Não tive tempo nem paciência. Muito talento ocioso e sem destino.
O sonho para mim é um lugar que sempre se menciona, mas um chão que se pisa sempre de passagem.
Amar, o que se diz amar, não se pode realizar em sonhos. Fazer filhos é um sonho, isso sim que é um sonho. Contudo os filhos não são “chão nosso”. O chão assim sonhado, é deles. Essa é a única modalidade valiosa de sonhar: Construir, dar vida, passar adiante.

Este lugar digital é, pois, uma tentativa de ser. Um reencontro com coisas que, se não forem ditas a tempo, não terão existido. Para os outros, claro. Para mim, não só tornarão a ser, como sempre se renovarão e transformarão infinitamente.
Ao reencontrar os gestos, os passos dados; ao revisitar as visões elas são sempre uma metamorfose de outra coisa mais simples e imediata. Uma visão revisitada oferece mais e melhor. Mais completo, mais significativo e sempre diferente.
Isso confirma plenamente aquilo que disse no começo: toda a semente germinará, todo o saber frutificará. E os gestos reencontrados terão um desenho mais aberto. O riso ecoará pelas paredes do tempo em harmónicos mais complexos; As palavras terão descoberto novos significados.
E mesmo que ninguém venha de visita, o que aqui fica não é do sonho. São factos vividos, passagens para diante.

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Um artista pode ser muitos

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Ah, não ter sido Madame de harem!.../desenho s/ Steinbach-Malmedy c/ aguada de acrílico/ Costa Brites 1995

Ah, não ter sido Madame de harem!…/desenho s/ Steinbach-Malmedy c/ aguada de acrílico/ Costa Brites 1995

Há artistas cuja obra é como um grande continente, com suas estendidas paisagens, suas colinas, vales e todo o género de variados horizontes. Se desfrutam dessa “condição continental” é porque apresentam consigo um nexo entendível de continuidades, podendo passar-se daqui para ali tendo a impressão de que se estar a pisar “terreno vizinho” em coerência de entidades legíveis. Haverá outros artistas cuja produção é como um arquipélago de ilhas bem diferentes, cada uma com o seu clima, a sua atmosfera particular, tendo entre si a vastidão de intervalos diferenciadores de atitudes correspondentes não apenas ao teor do instante ou da circunstância. Cada ilha decorre de uma continuidade diferente, como se não fosse apenas o corpo, mas a cabeça, o coração e a vontade que as diferencia entre si. É deste género de pluralismo que se alimentam certas vontades e, se me for permitido assumir uma destas configurações, é a segunda que melhor diz respeito ao tipo de viagens que tenho empreendido através do “largo mar do silêncio”.
A cada uma dessas independências corresponderá o que se poderá chamar um heterónimo, porque se trata de uma entidade própria, específica, com gestos, argumentos e toda uma autonomia significativa e expressiva. São como autorias diferentes, ficando à argúcia de quem contempla confiada a tarefa de adivinhar ou decifrar laboriosamente qual é o profundo leito de convergências que liga entre si tal espécie de diversidades. Este endereço vai procurar apresentar de forma tanto quanto possível organizada essa variedade, talvez só aparentemente descontinua, de formas de ver coisas através do olhar da imaginação. O meu arquipélago de continuidades distintas que entre si partilham segredos comuns, cuja travessia pode efectuar-se com uma animada agitação da brisa e das vagas, sem o risco de naufrágios, na companhia de monstros amáveis e de aves de plumagem variada cujas garras não ferem ninguém, e cujo grito apenas clama por quem queira atravessar também a frescura espaçosa do mar da curiosa confidência.

Costa Brites

Ah, não ter sido Madame de harem!.../grafite e acrílico s/ tela/ Costa Brites 1996

Ah, não ter sido Madame de harem!…/grafite e acrílico s/ tela/ Costa Brites 1996

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Meninos e desenhos de Montemor-o-Velho

– Palavras para uma mão cheia de bonecos feitos  em 2012 que poderão ser vistos nas paredes do agrupamento de escolas em Montemor-o-Velho.

Três painéis pintados a acrílico s/ linhagem de algodão 2,72 m x 1,70 m, aprox.

Embora me considere genericamente impreparado para os tipos de actividade que solicitam uma interactividade criativa, colecciono na memória várias atitudes que abrem para o desejável e sugestivo espaço de encontro entre pessoas com sensibilidades e graus de experiência muito diferenciados.

Entre elas coloco a experiência de pai e avô, pacientemente habituado a envolver filhos e netos no prazer das tintas e dos desenhos, com histórias, invenções e todo o tipo de achados que esse exercício prodigaliza e de que consegui dar provas em mais de quarenta anos de paternidades, vidé o capítulo dedicado, aqui ao lado, à colaboração com o meu neto Flávio.

O convite dos jovens do grupo Olarte, composto por alunos do agrupamento de escolas de Montemor-o-Velho em trabalho de fim-de-curso, chegou-me numa altura algo conturbada de mudança de local de residência. Além disso já me sentia fora do período em que a aceitação dum tal convite parecia possível, no âmbito dos meus préstimos artísticos. Estando para mudar de casa já tinha deitado fora uma numerosa colecção de godés de vidro e de louça de que me servia no exercício da pintura, entre outros objectos e materiais.
Aceitei, contudo, em nome de um voluntarismo inseguro, baseado no tipo de argumentos apresentados pelo grupo candidato (A Carla, o Gonçalo, a Joana e a Vanessa) e não menos pela já antiga consideração pessoal pela sua professora, Senhora Dr.ª Fátima Almeida.

Carla, Gonçalo, Joana, Vanessa

Carla, Gonçalo, Joana, Vanessa

Construí na minha mente, a partir do momento inicial da minha disponibilidade, uma variedade de cenários de acção ou processos de fazer que, longe de me tranquilizarem, aumentaram o sentimento de insegurança.
Durante a primeira visita que realizei ao agrupamento de escolas de Montemor-o-Velho houve um momento providencial: o encontro com meninos criadores de uma turma dos primeiros anos em plena aula de educação visual e bem assim a descoberta de um considerável conjunto de obras – para mim a vários títulos impressionante – que iam alimentando gavetas de desenhos, de nítido pendor lúdico, candidatos a uma limpeza geral de fim de ano e quase fatalmente destinados a desaparecer por efeito do sentido prático das arrumações, esse trágico algoz de tantas preciosidades raras oriundas do gesto despreocupado e simples das crianças.
O testemunho dos desenhos “infantis”, visto pelos meus olhos, resulta numa leitura implacável e eloquente de uma quantidade enorme de sinais e situações bem dentro da lógica dos sistemas de que somos mais objecto que sujeito e cuja decifração ou ultrapassagem raramente se faz nos termos de franqueza perceptiva que esses mesmos desenhos tornam clara.
O trabalho que se seguia era simples: matéria-prima não faltava e estava construída uma ponte formidavelmente eficaz entre o deslocado universo das solicitações artístico-intelectuais e o palpitante presente das emoções juvenis.
Algo de novo ou descoberta surpreendente? Não, as coisas não são assim tão simples.
Entre o delírio de ritmos alucinantes que a televisão impõe a certas sequências e o velho sedimento de narrativas que a antiguidade clássica transformou em mitos universais há uma infinidade de linhas misteriosamente ocultas, um nexo de fábulas, impulsos e requisitos da sobrevivência e frescura da mente que são perfeitamente equivalentes. Nada que assuste os artistas, tenham eles a idade que tiverem, sejam eles do tempo dos avós ou dos netos; se falarem a mesma linguagem e estiverem habituados a decifrar os mesmos sinais, tudo é claro como água.
Depois de alguns passos dados na fabricação dos objectos a realizar e discutidos quais os temas a desenvolver foi preciso dar ao artista convidado algum tempo para concluir as conclusões entendidas como adequadas.
Só me ocorre dizer uma coisa, no esclarecimento do que acho mais importante:
O material que me foi apresentado era naturalmente singelo e espontâneo na sua confecção e estava caligraficamente traçado a lápis sobre folhas simples de papel branco. Num ou noutro caso raro, para atingir maior espaço narrativo, algumas folhas haviam sido anexadas a outras, com fita-cola.

mosaico desenhos crianças a lápis

Mosaico composto com desenhos simples sobre folhas A-4, a lápis de pau, dos meninos de Montemor-o Velho

A expressão dos desenhos dos meninos de Montemor-o-Velho, além de eloquentíssimos na explicitação de universos de densa complexidade, constituía uma captação viril, intensa até ao dramatismo, de tais sinais e de tais argumentos narrativos.

Só não vê quem não quiser olhar, quem vire o rosto para o lado e decida ignorar esses impressionantes ecos da realidade e das circunstâncias.
Na tradução e na síntese que fui levado a fazer de tal aglomerado de sinais, fui irresistivelmente conduzido a imprimir o meu próprio sentimento das coisas, à maneira das mesmíssimas atitudes que me fazem levar pela mão os meus netos através das veredas do sonho e da fantasia. (“Tradutore, traditore” e é bem certo dizê-lo neste como noutros casos em que uma mensagem muda de lábios…)

Transfigurei por isso os mais alarmantes sinais do espanto, da violência e do medo (porque é substancialmente disso que se fala nas “ingénuas” séries televisivas e revistas de super-heróis que maciçamente são prodigalizadas dia a dia às crianças deste e doutros países) e coloquei no rosto dos bonecos adoptados como interlocutores privilegiados do sonho uma fisionomia leve, um sorriso aberto, entremeados aqui e ali por aberturas problemáticas para um pitoresco de combates sem mortos nem feridos, demónios de dentuça arreganhada que empunham impiedosas armas de corte (é assim que se diz nos jogos de guerra com que risonhamente brinco com o meu neto) e uma ou outra alusão do meu próprio universo de razões, que involuntariamente se me escapou…

Tenho pois que pedir perdão aos meus queridos e novos amigos de Montemor-o-Velho, por ter despromovido o combustível de pavores de que é feita a gentil bonecada com que se encantam.

Como poderia fazer de outro modo se são tão jovens e belos, desejando-lhes – como desejo aos meus próprios netos – um futuro de risonha liberdade e um passeio pela vida que lhes sirva a paz, a confiança e a mais segura felicidade.

Agora vamos ao fruto desta tarefa (colhido depois de meses de trabalhos e encontros) :

OS ALEGRES MAGOS E PARADOX

os alegres magos e PARADOX

os alegres magos e PARADOX

SKAI DRAGON E OS ARTISTAS AUTORES

SkyDragon e os artistas autores

SkyDragon e os artistas autores

A PARÁBOLA DO ASTRONAUTA

a parábola do astronauta

a parábola do astronauta

António Pedro Pita – Um lápis enquanto sonho / Setembro de 1993

Alta-Quebra Costas, acrílico s/ tela s/ platex, Costa Brites

Alta-Quebra Costas, acrílico s/ tela s/ platex, Costa Brites

1. Ao inaugurar mais uma exposição, Costa Brites apresenta o seu primeiro livro, Visualidades.

A ele pertencem estas palavras: “as minhas opções são assumidamente alheias à necessidade – que não quer dizer indiferença – da determinação “moderno/não moderno”. Gostaria de sugerir que tal alheamento tem sido responsável por uma leitura superficial deste universo pictórico ao incluí-lo imediatamente num desses polos (o não moderno) e demasiado rápida para aperceber-se das subtilezas de que se alimenta este filho longínquo, mas não tardio, da constelação surrealista, cuja peculiar figuração muito deve às lições da pop-art, à importância do enquadramento cinematográfico, à fotografia e à utilidade expressiva da colagem. Que a reconstituição deste trajecto – desde as primícias de 1968, no meio culturalmente vivo que o arquipélago dos Açores (já) era, até às soluções estéticas actuais – seja difícil, insólita ou paradoxal, consoante o observador, não me custa admitir. Mas não me é menos claro que uma tal reconstituição – possível, unicamente, através de uma retrospectiva que, além da pintura, exponha também o desenho e o trabalho gráfico – evidenciaria alguns possíveis modos de apropriação de tendências fundamentais das artes plásticas do nosso século. Pela frontalidade com que interpela o espectador esclarecido, pela radicalidade com que elabora a fascinação fotográfica e pelo território frágil em que obriga a estabelecer critérios e desenvolver argumentos, a pintura de Costa Brites exige uma pausa reflexiva quase pelas mesmas razões em que, à primeira vista, parece dispensá-la. E é no ligeiro movimento implicado neste quase que tudo se joga. Não é a pintura, todavia, que em primeiro lugar deveria referir. Mas este livro, o primeiro livro de Costa Brites, intitulado Visualidades.

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 2.“A obra dum artista é indesculpável, seja qual for a roupagem de que se cinja” (Costa Brites).

O que é este livro? Uma autobiografia oficinal? Uma reflexão teórica sobre o fazer-se da pintura e as suas condições, estéticas e históricas? Uma colectânea de poemas? Uma espécie de diário pessoal e de trabalho? Serão estas, contudo, as perguntas justas, quero dizer, ajustadas ao livro a que se reportam? Suponho, de facto, que só de um outro modo é possível adequarmo-nos a este dispositivo textual, ver e saber o que o livro nos propõe: porque não sendo em rigor uma autobiografia oficinal nem uma reflexão teórica nem um diário, nem um ciclo poético, e não sendo também nem paráfrase nem explicitação do que o pintor já exprimira em tela, Visualidades fala de um momento anterior à pintura mas sem o qual a pintura não existiria, sua condição razoavelmente obscura. Será possível, porventura, traçar o gráfico desta obscuridade pelo carácter “poético” ou “racional” da escrita de Costa Brites. Que as aspas nos ajudem a aludir a um problema que não pode agora ser desenvolvido. Notemos, de passagem, este aspecto curioso: a segunda parte, “poética”, intitula-se “Ecos da cidade e outras coisas“; como se o sujeito da escrita fosse o local de ressonância de um som e de uma voz que vêm de longe, de uma origem porventura inacessível ou indeterminável, e que por isso mesmo precisa dessa ressonância para determinar-se, precisa de uma escuta que, ao mesmo tempo, seja acolhimento, interpretação e significação. Na primeira parte, “teórica”, “Falas do pintor“, o artista desenha os limites da sua perspectiva, refere momentos de um processo de tomada de consciência teórica. Subiste o problema fundamental da articulação destes dois níveis: o facto de Costa Brites nos propor, como totalidade, um Livro Primeiro (“Falas do pintor“) e um Livro Segundo (“Ecos da cidade e outras coisas“) sugere a ligação, que deve ser meditada, entre 1) o Objecto que se dá em eco, 2) a subjectividade que interpreta o eco, 3) a mão que exprime pictoricamente.

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3. O Objecto que se dá em eco é a Cidade. Mas a Cidade é uma realidade contraditória: comunhão e isolamento, silêncio, ruído e morte, júbilo de existir, “experiência alucinante de viver”. Leia-se: “Eu sou uma dor que caminha ausente/ Estou aqui à espera e ninguém me encontra”. Mais do que um desencontro pessoal, de expectativa frustrada, é aquele descentramento de uma dor que, ao ser subjectivada, radicaliza um essencial mecanismo de alienação, que nos fornece um traço forte da Cidade que já não é “lugar de encontro e de diálogo”. Não sejamos iludidos pelas palavras: há em vários destes textos e em especial no sentido gerado pelo conjunto uma raiz que excede o humanismo balofo das boas intenções. Escrever: “Já não existe espaço na minha carne/ para o sentido da força/ para a coragem do prazer”, é reivindicar um espaço próprio de afirmação do desejo; mas fazê-lo é rasgar os próprios limites do humanismo, como mostra a difícil recuperação humanista de Espinosa e Nietzsche, que fizeram desta afirmação um eixo fulcral.

Espaço, pois: “espaço na minha carne” 1) traduz, na terminologia de Costa Brites, a condição primeira para superar a indeterminação, para ir além da facticidade. Como se fosse necessário, para o advento de um (do) sentido, uma espécie de dilaceração íntima, um rasgo na compacticidade do ser, uma descontinuidade – a inscrição, na própria imanência, de um ponto de fuga , mistério, mar (“Eco distante de encontrar meu mistério/ minha fuga/ meu mar interior”). Neste sentido, a alusão à “cidade sem espaço” é particularmente significativa. A Cidade não é só uma concretização do espaço: a Cidade é uma concretização convivial do espaço (“a civilização do espaço é um acto cultural”): deverá permitir falar de janela para janela e da janela para a rua, ser generosa para velhos e crianças, ser possibilidade de silêncio e paz. O espaço na cidade, para existir, necessita da “aragem de mistério, inspirador e fecundo, que invoca em cada objecto a presença transitória, mas eficaz, de cada ser e de cada ideia”. Isto é: para existir como tal, a Cidade não pode extinguir o mistério, a marca individual, a voz solitária.

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4. Submetida a um rápido processo de crescimento desregulado e especulador, a Cidade desenvolve até ao paroxismo uma contradição: é preciso reduzir o espaço para acolher mais gente que precisa de mais espaço para viver. Em rigor, o Objecto que se dá em eco neste livro de Costa Brites é a Cidade assim dilacerada, ou melhor, é a própria contradição que dilacera. Compreende-se, deste modo, que à Cidade-real, desfigurada e pobre, triste e sem alma, seja contraposta não propriamente uma Cidade-ideal, que seria o positivo da outra, mas uma Cidade-mito, fundamento íntimo da própria ideia de Cidade. Mais demorada reflexão sobre este ponto permitiria desfazer um duplo equívoco: o de considerar a pintura de Costa Brites subordinada ao fascínio da fotografia e o de a ligar imediatamente à representação de algumas cidades (Coimbra, Leiria, etc.). Pelo contrário: a verosimilhança, nesta pintura, é o campo (arriscado, subtil, irónico) de um jogo que o pintor iniciou há muito com os leitores da sua pintura. Porque, em verdade, nenhuma cidade real é o referente desta pintura. Na tarefa de representar a Cidade-mito, Costa Brites realiza, com a maior coerência, uma pintura, como se diz, “sem pessoas”, uma vez que o mito é uma estrutura pré e trans individual que, precisamente, ordena e dá inteligibilidade à vida das pessoas. Fica reservado ao rigor geométrico do traço, ao diálogo das cores, à harmonia das superfícies, à obsessão pelo detalhe o trabalho de nos representar possibilidades de um espaço aprazível, comum, feliz, misterioso, percorrido de “verdades assombrosas” e de “sonhos de aventuras”.
5. “O artista escolhe tal assunto porque ele lhe é consubstancial, porque este assunto desperta nele uma certa emoção, sustenta uma certa interrogação; não se trata de copiar mas de dar através dele um equivalente sensível tanto da significação afectiva como intelectual que este assunto tem para ele: Rouault não pintou um Cristo mas através do Cristo um equivalente pictórico do que o Cristo significa para ele. O objecto é representado na sua verdade, pelo menos na verdade que dele o artista conhece, e não na sua realidade lisa e insignificante”. 2)

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6. Ao reconhecimento, “Olha a Rua das Flores!”, deverá substituir-se uma interrogação: “Qual é a cor da felicidade?”

7. Recordemos o debate entre os desenhistas e os coloristas: “O desenho imita todas as coisas reais, enquanto a cor só representa o que é acidental” (Le Brun). Compreende-se pois que os racionalistas privilegiassem o desenho, em nome de uma “transcrição” fiel da realidade.

Mas o lápis de Costa Brites (“Pego num lápis enquanto sonho”), exacto, rigoroso como uma navalha, está no limiar de uma aventura. Imita. Mas não imita o que se vê, “coisas reais”. Desenha serpentes, estrelas. Primeiro, o lápis, como uma navalha. Todo o trabalho de reconstrução (que é também adivinhação 3) ) do mundo, que a pintura é, começa aí. Porém, o facto de Costa Brites relacionar o lápis e o sonho (o exercício da razão e o seu adormecimento) é muito significativo, e a própria estrutura da frase enigmaticamente sugestiva. Pegar no lápis enquanto sonha para pintar (quer dizer, reconstruir) a Cidade, mais do que subordinar o rigor da mão que desenha ao adormecimento da consciência, significa inscrever aquele rigor neste adormecimento. Ou ainda, para retomar considerações iniciais, significa que toda a consciencialização (“pego no lápis”) nasce da obscuridade (“enquanto sonho”). Mas há na formulação do pintor uma outra possibilidade: pegar no lápis enquanto sonho poderia ser um modo de designar a matéria de que o lápis é feito. Hipótese não desprezível, à luz da doutrina do referido debate e da importância do desenho na estruturação da Cidade-mito de Costa Brites. Como se, afinal, o lápis – este lápis: “o lápis enquanto sonho” – resolvesse a contradição entre a consciencialização e a obscuridade. Como se, a mais de saber os contornos exactos de serpentes e estrelas – este lápis, antes de reconstruí-las, adivinhasse a cor da solidão e da melancolia.

ANTÓNIO PEDRO PITA

Figueira da Foz, 1 de Setembro de 1993

1) – O que se escreve agora, quanto a este ponto, poderá ser lido como eco da conhecida tese de Maurice Merleau-Ponty: “Mon corps est de la même chair que le monde”.

2) – Mikel Dufrenne, Phénoménologie de l’expérience esthétique – I, PUF, Paris, 3ª ed, 1992, p. 393-394.

3) – Costa Brites: “Se pinto, adivinho e reconstruo o mundo”.

Pedro Dias – Exposição Museu Machado de Castro, 1989

Texto de catálogo da Exposição que teve lugar em Coimbra no Museu Nacional de Machado de Castro em Novembro de 1986, organizada pelo então director Professor Pedro Dias, e de autoria do mesmo.

O mesmo texto, com algumas alterações de carácter curricular foi publicado pelo Departamento de Cultura do Concello de Vigo, por altura da exposição naquela cidade de trabalhos integrados no Encontro Vigo Coimbra, em Maio de 1989

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Quase todas as cidades de características peculiares ou fecunda história tive­ram os seus pintores, artistas que as compreenderam, que as amaram e souberam captar aquilo que as individualizava e tornava distintas das restantes. Poderá dizer-se que, até hoje, tal não aconteceu com Coimbra, pese embora que os seus recantos mais típicos ou a larga mancha do seu casario modesto em anfiteatro cubra centenas de telas, a maioria das quais executadas já neste século.

Parecerá isto uma contradição, mas não é a mesma coisa ser um pintor da cidade ou alguém que pinta a cidade. O primeiro é o que a ela se dedica de alma e coração, exclusivamente, permitindo-se, quando muito, uma escapadela a um tema marginal, para logo regressar. O segundo usa a cidade como motivo, de quando em vez, como mais um dos do seu reportório. Foi isto o que se passou com Cristino, ainda no final de Novecentos e sobretudo com Fausto Gonçalves e José Contente, mais recentemente, só para citar alguns dos que já nos deixaram, há várias décadas.

Alta - Bota Abaixo; acrílico s/ tela s/ platex, Costa Brites, 1984-86

Alta – Bota Abaixo; acrílico s/ tela s/ platex, Costa Brites, 1984-86

Coimbra não teve até hoje, como Lisboa teve Carlos Botelho e o Porto António Cruz, quem a elegesse como motivo primeiro e permanente da sua arte. Por isto, se outras razões não houvesse, a pintura de Costa Brites teria já de ser tomada em conta.

Mas a representação da cidade na pintura ocidental não foi sempre a mesma. Entrando pêlos séculos dentro, vamos encontrar a urbe como mero marco de refe­rência de passos da História Sagrada ou da crónica dos feitos dos grandes deste Mundo, seja na iluminura ou nas tábuas e murais que, na Idade Média, decoravam as casas das instituições religiosas. Como entidade autónoma, merecedora do primeiro ou exclusivo plano, apenas temos Jerusalém, a terrestre ou a celeste, consoante os casos, mas, sempre, uma construção ideal.

Na Renascença e no Barroco a cidade é o cenário, é apenas o espaço onde o homem desenvolve a sua actividade ou o marco que evoca o lugar de martírio ou de milagre das hagiografias ou da Vida de Cristo.

Santa Clara-a-Nova, acrílico s/ tela s/ platex, Costa Brites, Costa Brites, 1987

Santa Clara-a-Nova, acrílico s/ tela s/ platex, Costa Brites, Costa Brites, 1987

Seria necessário esperar por Canaletto e Guardi, para que a cidade se tornasse digna de ocupar o trono das Musas, fundindo-se assim a fonte de inspiração com o próprio objecto. Mas foi breve a vida deste realismo urbano.

Estes dois pintores, e esquecemos necessariamente outros menores, dedica­ram-se a Veneza com paixão, souberam vê-la e, mais que isso, transcrevê-la. A sua identificação com as águas da laguna, as fachadas das igrejas e palácios e com os corsos foi tal que, nas suas telas, Veneza não só se vê, como se ouve, se cheira e se sente.

O Romantismo e a viagem, esse primeiro turismo, provocou o incremento das pinturas de cidades, mas agora só interessavam as recordações, os trechos mais pito­rescos, os apontamentos monumentais.

O caso de Costa Brites está, indiscutivelmente, mais próximo dos de Canaletto e Guardi que de qualquer outro pintor que antes referimos. Para ele Coimbra é o objecto exclusivo da sua arte, que estuda, descobre, entende, vive e representa. Porém, este artista não é o fotógrafo da cidade, o pintor-fotógrafo melhor dizendo, que hoje, aliás há já um século, não tem razão de existir. A Coimbra de Costa Brites não é a real, como à primeira vista parece. Nem todos aqueles telhados lá estão, nem todas as cores são aquelas, nem todas as ruas têm aquela inclinação. Mas é Coimbra, indiscutivelmente, que todos vemos nas suas telas, que todos reconhecemos e, mais que tudo, profundamente sentimos.

Chiado, Praça Velha / acrílico s/ tela s/ platex, Costa Brites, 1986

Chiado, Praça Velha / acrílico s/ tela s/ platex, Costa Brites, 1986

Como é então isto possível. Como explicar que tomemos, de novo, a nuvem por Juno, que aceitemos a ilusão por realidade, sem um protesto. É aqui que reside o grande mérito do artista. É por isto que é artista e não artífice.

Ele capta o que há de essencial, enfatizando-o, desprende o acessório ou relega-o para um plano secundário, de quase adorno. Não se limita a olhar e reprodu­zir, antes interpreta as formas, as cores, os espaços e recria-os, balançando entre a verdade e a miragem.

Este processo não é fácil, não é imediato, e Costa Brites tem vindo a aperfeiçoá-lo. Pouco a pouco as pessoas foram varridas das telas, saíram das ruas, os meios de transporte volatilizaram-se e apenas ficou a paisagem urbana — paredes, vias, árvores, etc. Mas a Coimbra de Costa Brites nem por isto é uma cidade fan­tasma. Não notamos a falta das gentes nas ruas. Pelo menos nós, os que aqui nasce­mos ou que aqui vivemos já há muito tempo. Porque, afinal, como o amante ciu­mento, todos queremos a cidade apenas e só para nós. Por isso aceitamos a ausência dos outros, mais, aplaudimo-la, para, no silêncio daquela luz fria e uniforme a pos­suirmos ou sermos por ela possuídos, numa cumplicidade em que o secretismo é parte fundamental.

Rua dos Bazares, acrílico s/ tela s/ platex, Costa Brites, 1992

Rua dos Bazares, acrílico s/ tela s/ platex, Costa Brites, 1992

Em toda esta pintura, há o mérito de a ela aderirmos de imediato, somente quando amamos o objecto há muito e não à primeira vista.

Percorrer a obra de Costa Brites não é apenas um passeio turístico por mais uma cidade, pitoresca aqui, monumental acolá. Percorrer a obra de Costa Brites é penetrar fundo na essência de um espaço vivido e construído por gerações, de onde o artista previamente arrancou tudo o que podia distrair a atenção, desviar o olhar e perturbar os sentimentos.

Trabalhos morosamente elaborados, eles estão longe de ser frios, calculistas e pretensamente rigorosos. Apenas que nem todos amam da mesma maneira. À fugaz paixão, violenta até, dos impressionistas, opõe-se aqui a constância de quem saboreia cada momento, longa, longamente.

 

Pedro Dias

António Pedro Pita – Uma poética do espaço – Abril de 1988

Texto de António Pedro Pita para uma exposição de Costa Brites que teve lugar numa galeria comercial em Abril de 1988

Largo do Romal / São Bartolomeu, Costa Brites

Largo do Romal / São Bartolomeu, Costa Brites

UMA POÉTICA DO ESPAÇO

A minha relação com a pintura de Costa Brites começou há mais de quinze anos. Era, se me permitem usar a palavra, uma obra engagé; mas, pelas suas referências e pelas suas soluções estéticas, diversa das concepções clássicas do engagement. As referências eram Bertrand Russel e Bob Dylan, Ray Bradbury e Hiroshima, Nagasaky e Huxley, entre outros, e a linguagem justa encontrava-se no cruzamento do cinema, da banda desenhada e da publicidade inventiva, a que a pop-arte deu uma primeira expressão. Costa Brites começou aí. Deixem-me dizer: foi aí que Costa Brites se me tornou visível. Com perplexidade, por isso, encontrei anos depois a linha estética que Costa Brites agora expõe. Desaparecera (o sentido de) a homenagem a Huxley? A denúncia da paranóia nuclear? A marca do seu encontro com o surrealismo? Sim. Sim, mas.

Mas.

À primeira vista, o olhar de Costa Brites enraizou-se. É uma cidade (Coimbra?) que obsessivamente aparece nas suas telas e nos seus desenhos. Mais do que uma representação, um retrato. Um retrato minucioso, colocado na iminência da fotografia. Mas.Vejamos melhor.

É uma cidade deserta. Um vulto no eléctrico, um rosto que espreita a uma janela, a corda da roupa, uma inscrição toponímica, uma placa publicitária tornam ainda mais visível o deserto. É uma cidade exuberante de cor. A cor esbate-se, porém: e os trabalhos mais recentes apresentam-nos já um preto-e-branco matizado. É uma cidade captada em todo o seu detalhe. Para que, na particularidade de uma chaminé, na abertura de uma janela, na cal corroída de uma parede (entre a antiguidade e a ruína), na globalidade de um conjunto arquitectónico, se torne visível a marca impressiva do tempo: a cidade tem data, tem história, leva-nos a um passado que nos transporta, mais do que nós saberemos pensá-lo. Ao alcance do seu rigorismo, contudo, no qual poderíamos encontrar afinidades com Carlos Botelho ou Magritte, não é alheia uma profunda influência cinematográfica (se influência é o termo adequado; talvez deva dizer-se que a visão de Costa Brites se constituiu cinematograficamente). Os seus enquadramentos complexos (enquadramento: escolha da porção de realidade que aparecerá na imagem): o espaço pictórico é minuciosamente preenchido e organizado com uma autêntica reorganização do espaço real – jamais o olhar do pintor é neutro. Creio, por isso, que todos os objectos pintados não fazem mais do que acentuar a riqueza e a imensa variedade do espaço que eles próprios definem. Encontramos a interrogação decisiva da poética de Costa Brites: o espaço pinta-se?

É, finalmente, uma cidade raramente limitada ao que está feito, ao que está completo. Nos acrílicos sobre tela ou nos desenhos, para lá da cidade histórica, existe uma outra cidade, uma cidade branca, simples silhueta, reduzida aos traços mais simples, uma espécie de hipótese, onde seja possível inventar outros modos de estar e viver. Portanto, contra todas as aparências do fotografismo ingénuo, a pintura de Costa Brites insinua-se como um eco das palavras de Gaston Bachelard, na obra a que roubei o título: «O número da rua, o andar, fixam a localização do nosso ‘buraco convencional’, mas a nossa morada não tem espaço à volta nem verticalidade dentro de si». Se é assim, Costa Brites prolonga, por outros meios, o combate inicial: a reivindicação do espaço humano, a exigência da habitabilidade do mundo. A respiração e o silêncio. A música do outro lado da cor.

António Pedro Pita

Vasco Pereira da Costa – Novembro de 1984

Texto de catálogo duma exposição individual que teve lugar em Coimbra na galeria “O Primeiro de Janeiro”, em Novembro de 1984, da autoria de Vasco Pereira da Costa

A larga Praça de Sansão

A larga Praça de Sansão

CIDADE   PODE   SER o perímetro de um rectângulo, as linhas que se cruzam nesse limite, as cores que animam casas, ruas e céus.

NÃO  É  INDIFERENTE ESTAR postado daquele ângulo ou daqueloutro para encarar a cidade. Ver a cidade é dizê-la por traços e matizes aos outros cidadãos — perpendicularmente solidário com as pedras que se afagam e se pisam.

A CIDADE DO ARTISTA É SEMPRE UMA CIDADE sublimada porque assenta os alicerces na utopia e rasga os céus  da ambiguidade.   Mesmo quando sugere o real, faz lembrar uma nova verdade: cidade nunca quimérica, nunca ingénua, nunca inofensiva. A cidade é uma Coimbra,   O artista é Costa Brites.

103-Alta-B-Abaixo

DESTA   CIDADE   ESTÃO arredados os interesses abastardados do construtor civil barrigudo, Benz arrogante, charuto de impertinência, camisa riquísta de sulamericano bananeiro. Costa Brites expurga a cidade das incontinências presunçosas de arquitectos avilta­dos, alivia-a de cancros que lhe corroem as entranhas, alerta para a impunidade pornográfica que a vai, sem remissão, aleijando. E restitui-lhe uma dignidade ancestral, uma nobreza escorreita: a beleza de UMA NOTÍCIA URGENTE COMO UM GRITO — lançado do Alto de Santa Clara, varre a Baixa e faz retinir a Cabra num desespero de alerta. Não será por acaso que, nesta fase, Costa Brites não apresenta a figura humana e se detém apenas na feição das pedras. Pedras que não muram a visão do artista — mas que podem emparedar (já emparedam) o cidadão. Daí uma pin­tura de libertação:

DO HOMEM QUE VIVE A CIDADE, com o qual o artista se sente irmanado, porque quotidia­namente a sua visão tropeça com pedras que constroem a fealdade e destroem aquele direito fundamental de qualquer cidadão — o de sentir-se bem com as linhas e as cores que lhe percorrem a retina, com os pés assentes na terra e os olhos despertos no ar.

Surge, assim, uma arte comprometida, que brota da cons­ciência de que fazer arte é mostrar os escaninhos da alma e os esconsos do imo. Não com a egolatria de levianos corrupto­res do real; não com a brutal espectacularidade de descobrir o inventado; não com a tola exibição de uma cópia… única; não com o pincel onanista a desenhar o insensorial. Mas com a equilibrada noção de valores assimilados que até no dissonante se harmonizam; mas com a humildade dos que acreditam que a cidade, afinal, pode muito bem ser uma imi­tação do quadro do artista, E Costa Brites recusa a insulação e apura esse poder raro que é o de usar em reciprocidade os sentidos — amar, pois, por que não?

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A Cidade de Costa Brites escapará ao traço cartográ­fico do coimbrinha desatento e do coimbrão acomodado; ser­virá para barbudas querelas de cachimbadas opinientas de fotográfico e naturalista; será, porventura, rejeitada pelo geometrismo impositivo e pela linearidade teimosa; receberá narizes de desconfiança e esgares de dúvidas escolásticas.

MAS   SERÁ olhada e fruída na sua harmonia estável, no equilíbrio melodioso de um traço honesto, na procura incessante da cor ritmada. Na pintura de Costa Brites ler-se-á a corajosa denúncia dos atropelos à nossa civilidade. Com ela se empunhará uma arma terrível para defender o património cultural. Quem sabe se, com ela, o Homem reconquistará a cidade e a chamará de sua?

Coimbra, 1984 / Vasco Pereira da Costa

Leiria e outras paragens

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O único auto-retrato do pintor

Único auto-retrato do pintor / Martim Moniz, acrílico s/ tela s/ platex, Costa Brites 1990

Único auto-retrato do pintor / Martim Moniz, acrílico s/ tela s/ platex, Costa Brites 1990; nota: o quadro é uma composição muito intensa e a fotografia – como em tantos outros casos – não lhe faz justiça plena…

Este sector estava aqui à espera de texto e, quando comecei a colocar os títulos e todas estas minúcias digitais dei-me conta do título possível para um dos trabalhos: “O único auto-retrato do pintor”. Partindo do princípio, para mim óbvio, de que todos os meus quadros são como “auto-retratos”, nunca experimentei a vertigem de querer retratar “o homem”, na sua solitária individualidade. Prefiro coleccionar-lhe as visões…

Descobri depois uma carta que escrevera para oferecer aos coleccionadores respectivos (e que nunca remeti aos destinatários…) e que fala no assunto. Aqui ficam, portanto, as palavras escritas, fazendo companhia às imagens, no caso de haver paciência para lê-las.

Exmos. Senhores

(…)

Estive no passado fim-de-semana a executar a digitalização de slides de 6 x 6 de antigos trabalhos meus, entre eles o que me foi adquirido por Vós: O eléctrico no Martim Moniz junto à Senhora da Saúde e um outro que me foi adquirido pela Senhora Dª… (o do “Adro de Baixo, com mota”).
As tarefas de digitalização têm bastante importância não só pelo interesse que têm os artistas em guardar memória útil dos trabalhos já feitos, como devido às extraordinárias qualidades que as novas tecnologias nos oferecem e que permitem uma intensa revisitação das obras em autêntico mergulho nos seus mais íntimos segredos.
Sempre tive a consciência de que o primeiro dos trabalhos em questão é uns dos pouquíssimos, senão o único auto-retrato objectivo que jamais efectuei. A figura que me representa encontra-se praticamente perdida na margem lateral de uma paisagem urbana de cujos principais protagonistas são a cidade em si, que monumentalmente se agiganta por toda a perspectiva envolvente, e o objecto eléctrico irremediavelmente imóvel, dado que se apresenta sem o indispensável guarda-freio e sem um único espectante paassageiro. A paragem do eléctrico não possui banco onde descanse quem espera e os horários ou o mapa de localização dos destinos não colhe o interesse da figura que fatigadamente se arrima ao dispositivo de recolha de bilhetes usados, sopesando a cabeça.

Adro de Baixo e mota, acrílico s/ tela s/ platex, Costa Brites

Adro de Baixo e mota, acrílico s/ tela s/ platex, Costa Brites

No quadro da mota não há presenças pessoais à vista, representando contudo a máquina ruidosamente colorida o sinal das coisas moventes e activas. Ocupa uma margem lateral do que se vê e, como se introduz no campo visual no sentido contrário ao da escrita (ocidental…) não ficamos a saber ao certo se entra ou se está prestes a sair desse mesmo campo. A sua presença é eficaz mas tem a instabilidade lateral de algo que não quis impor-se ou dominar a figuração restante. As corrosões da parede, a meticulosa malha do pavimento e os segredos bem guardados da janela pedem meças à mota no seu protagonismo, usando muito embora o magnetismo desta para se colocarem em evidência.

É esse também o efeito da figura problematizante que aguarda um eléctrico dramaticamente condenado à imobilidade: polarizar a paisagem envolvente. Ou seja: são dois elementos laterais que contraditoriamente se salientam pela vocação de alheamento que evidenciam.

Pareceu-me importante dar a conhecer estas reflexões dado que estando esses quadros em Vosso poder, eles retratam-me duma forma particularmente expressiva e, já que as redigi para meu próprio uso, é interessante que sejam conhecidas por Vós. Não são portanto uma completa memória descritiva mas comunicam um segredo que não gostaria que se perdesse por enquanto…

Os meus melhores cumprimentos.

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Agências do Banco de Portugal

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Catálogo exposição Lisboa, BP - Março/Abril 1896

Catálogo exposição Lisboa, BP – Março/Abril 1896

Texto de Catálogo de uma exposição individual em Lisboa em Março de 1986, promovida pelo Sector Cultural do Grupo Desportivo do Banco de Portugal, por altura dum encontro realizado pelo Comité dos Sindicatos dos Bancos Centrais, de autoria de Paulino Mota Tavares

da pintura 

Chamemos ao pintor, aquele que vê por excelência! ele estará sempre viajando pelo interior das coisas; e o traço rigoroso que lhe pertence e a ondulação que lhe habita o texto cromático reenviam-nos, em cada momento, para atitudes e universos de crítica, para áreas e conteúdos exemplarmente questionáveis. Um quadro transmuta-se, em segundos, numa larga e multímoda leitura. Ver tornar-se em acto lúdico de salutar interrogação. Uma estética que, por dentro de nós, sofre a lenta metamorfose da alegria ou do protesto, do grito ou da raiva, da notícia de tudo quanto apressadamente recolhemos, ao entardecer, por entre as ruas e a circunstância.

do pintor

A pintura é tratada como universo políédrico, facetado, construído na arquitectura dos símbolos, a exprimir angústia, pesadelo, denúncia, medo, limitação imposta pela força e tão adivinhada na rigidez circundante da linha. costa brites interioriza um dado tempo e opta por esquema figurativo que atinja, com rigor, a conflitualidade e o desencontro. Dir-se-ia que vive e sacraliza as nossas próprias angústias para, lançando mão oficinal sobre o traço e a cor, ultrapassar os limites e alcançar o campo aberto da esperança. frequenta o esquema simbólico de José de Guimarães, o misté­rio e a alegria de Francisco Relógio, a linha, a superfície, as cores de Léger, a figuração mecanícista de Paolozzi. o seu trabalho rigoroso, matemático e recortado, a sua cor violenta ou pacífica, os temas e objectivos que revela, esses fazem parte do quotidiano meditado e contrastante.

do lugar 

Depois, Costa Brites fixa um espaço, adoça a escrita mecânica; ou melhor, sublima essa disci­plina antiga e vem até nós com a descoberta álacre da cidade. nasce e renasce uma arqui­tectura, revisítando caminhos também trilhados pêlos modernistas portugueses, o pitoresco encantatório de Francis Smith, o optimismo ilustrativo de Emmérico Nunes, a reconstrução espacial de Carlos Botelho. vemos a portagem, a Praça Velha, a Rua Ferreira Borges, a Alta e Santa Clara. Ali, o brilho dos espaços amáveis onde se aprende igualmente a viver, a comunicar, a praticar a cidadania, a inventariar encontros e solidões.

Paulino Mota Tavares, 1986

Nota.: as referências aos artistas com influência em C.B. referem-se não apenas a esta temática pictórica mas a outras obras da sua heteronímia.

Meados de 80, meia dúzia de estampas de Coimbra…

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