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"...navegar é solitário e cansa-se o navegante à medida do silêncio da esperança do mar do ardor da viagem não se cansa não" CB

Presença inexplicável de Orientes familiares, sons e odores de terras onde nunca fomos, saudades feitas de loiça colorida

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Mos LP


Não é necessária ciência alguma nem histórias complicadas com letras e datas. Não é preciso explicarem nada.
(Os sábios só estorvam com seus livros pesados bem escondidos debaixo do braço e suas palavras lentas como lajes de sepulturas…).
De onde conhecemos estas coisas é daqui de dentro, da lembrança de tardes paradas na memória ou do ramo de flores secas esperando sem tempo naquela jarra tão familiar.

col. JML

Vai passarinho vai, leva esta carta à minha namorada! Corre cachorrinho corre, vê se trazes novidades boas do meu amigo!
Oh, quem me dera poder subir às torres altas do castelinho que repousa naquela nuvem e espreitar dali as vivas cores dos dias de nunca mais!
Desenhadas a azul e branco são como capelas de sonho no cimo dos montes claros.
Pintados de cores diversas são como mesas postas em toalhas de alvo linho.

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esta peça foi executada pelo meu amigo Senhor Belmiro Quitério

De onde conhecemos perfeitamente tudo isto? Eu sei lá…
Em que praças ou em que ruas teremos cruzado os homens que descobriram, as mãos que fizeram, os poetas que desvendaram? Vá lá saber-se…
Talvez tenha sido tão-somente como diz aquela arrebatadora canção de Vitorino:

“…nas ondas do mar
do mundo inteiro
terras da perdição parco império mil almas
por pau da canela e Mazagão.
Pata de negreiro
tira e foge à morte
que a sorte é de quem a terra amou
e no peito guardou
cheiro da mata eterna
laranja, Luanda sempre em flor…”

Este texto foi publicado na Revista de Informação do SBC, de Julho/Agosto de 2008

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por entre os canaviais os coelhinhos e lebrões…

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A peça aqui presente é um pote facetado, com tampa, decoração “desenho miúdo” azul e vinoso muito típica na faiança decorativa de Coimbra com influência chinesa do Sec. XVII.
Na base e na tampa frisos de contas e na borda uma faixa barroca. Na zona central desenvolve-se o que os artífices designam como “a paisagem” essencialmente constituida por flores e folhagens de sabor oriental, entre as quais, ao lado direito do coelhinho se torna visível uma variante do adorno que é conhecido como “canavial”. Os “coelhinhos” (que nalgumas descrições são chamados “lebrões”) saltam por entre a vegetação.

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O nomes da coisas

A respeito da necessidade urgente de um Centro de Desenvolvimento da Cultura Cerâmica em Condeixa

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O texto abaixo:

foi apresentado “workshop” Cultura Cerâmica, Tradição e Inovação realizado a 16 de Maio, na Junta de Freguesia do Zambujal, Expo Sicó 2010.

Ocorreu em Conímbriga, há pouco tempo, o seguinte episódio: um casal de turistas estrangeiros, visitantes interessados na cerâmica artística, fez uma consulta relativa à genuína louça de Coimbra, sua bem conhecida de outras circunstâncias.
Tinham estado em diversas lojas de recordações mas o que verdadeiramente desejavam era visitar um centro de conhecimento, oficina produtiva ou associação de coleccionadores, comprar de preferência no local próprio, com convicto sentimento de beber nas fontes a cultura amadurecida que adivinhavam por detrás do valor de um produto cobiçado e admirado.
Não foi possível satisfazer o pedido feito, foi grande o desapontamento e manifesto o desencanto por não se amar nesta terra de forma organizada o património que é de todos.
Dá pena a visitantes e interessados que não haja uma loja qualificada, um museu ou galeria autorizada, competentes e bem documentados que informem e valorizem um produto que merece todo o respeito e deveria ser apresentado com a devida dignidade cultural e artística.

É norma infeliz encontrar-se um tal património disperso e alienado por um sem número de tendas de “souvenirs”, como se fosse coisa corriqueira, sem o eco da tradição cuidada e longe de raízes históricas fundamentadas.
O episódio do casal visitante denuncia um vazio que poderia e deveria ser resolvido na defesa dos nossos mais legítimos interesses e na promoção das conveniências de toda a comunidade. Dispomos de uma riqueza preciosa mas mal conhecida porque escassamente estudada, carente de uma comercialização dignificante e sem o esteio cultural e organizativo que lhe dê asas para poder representar adequadamente o passado e ser suporte vitalizado de melhor futuro, entregue à anarquia produtiva e à correspondente perda de estatuto de categorização.

Será importante lembrar, no que toca aos antigos oleiros da cerâmica decorativa, que podemos estar no último momento possível para preservar o património vivo que representam. No tempo antigo os rapazes ainda novos começavam a aprender o seu ofício indo para a oficina no fim da escola primária e aprendiam tudo desde o princípio, herdando gestos e saberes que tinham séculos.
Agora, já ninguém quer tal ofício. A escolaridade é mais larga e ninguém está disponível para o sacrifício que foi imposto a tantas gerações de trabalhadores servis.

A criação de um Centro de Desenvolvimento da Cultura da Cerâmica teria portanto o maior interesse sócio-cultural e serviria para conservar e eventualmente desenvolver um sector da economia que tem dado o seu melhor na criação de riqueza ao longo dos séculos.
A importância e significado de uma instituição deste género é defensável de vários pontos de vista e transcende o imaginário local, dado que a produção da cerâmica artística reflecte uma complexidade vastíssima de fenómenos artístico-culturais com raízes distantes, correspondentes ao destino riquíssimo, tão disperso como fascinante, de toda a gesta das viagens dos portugueses pelo mundo em pedaços repartida.

Não esqueçamos contudo a multiplicidade das suas valências se for devidamente estruturado e dirigido para englobar múltiplas iniciativas de natureza artística, cultural e económica, com uma necessária abertura a novas atitudes e novos horizontes criativos.
Essa capacidade de potenciar virtualidades resulta da própria natureza da indústria cerâmica como pólo de produtividades complementares, em cujas origens ancestrais se cruzam razões ligadas à própria sobrevivência do homem e à manifestação confirmada das suas capacidades de realização estética.

Nota breve sobre a peça acima reproduzida:

A peça acima reproduzida é uma do incontável número de cópias que se fizeram até agora nas fábricas de louça decorativa de Condeixa, de Coimbra e de todo o largo mundo. Com efeito a cópia é um processo natural que tem sido utilizado por todo o lado onde artífices e artistas lançaram mão da tecnologia antiquíssima de produzir objectos cerâmicos.
Neste caso concreto reproduz o que costuma ser designado como um prato “de aranhões”, é um já raro e notável objecto salvo da hecatombe das frágeis peças de louça decorativa, produzido – em data indeterminada do Sec. XX – na importante fábrica que foi fundada em Condeixa por Armando Vaz Lameiro (pertence à colecção do Dr. José Machado Lopes).

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Um Centro de Desenvolvimento da Cultura Cerâmica em Condeixa

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Em Coimbra e na sua região têm tido intensa actividade, desde há milénios, uma multidão de oleiros e gente ligada à produção de materiais e objectos cerâmicos.
Como noutras partes do mundo esta actividade foi essencial para a utilidade, para o conforto e para a própria sobrevivência do homem.
À distância de séculos é possível descortinar a importância que teve o objecto de utilidade essencial e o encanto que possuiu o simples objecto de adorno. Uns e outros foram produto de atenção dedicada, de esforço de trabalho e certamente constituíram, cada um a seu modo, pequenas parcelas de uma actividade que deu de comer a quem a ela se dedicou com esforço criador e sensibilidade. Milhares de famílias, milhares de mãos, milhares de bocas, milhões de horas e muitas vidas se consumiram em torno dessa arte que é feita de invenção e necessidade, mas que também é feita de paixão e sentimento.

Em Coimbra e na sua região há universidades, institutos, fundações e toda a sorte de organismos complexos que envolvem responsabilidade, conhecimento e dedicação.
Mas tem faltado aos obreiros e industriais dessa antiga arte uma organização que não existe e que faça a ponte entre eles e todo o edifício da sociedade. Uma entidade que promova com legitimidade os interesses e necessidades que são seus e que sirva de agente de enriquecimento da comunidade em geral. Que explore novas frentes de desenvolvimento, que divulgue novos aspectos de uma actividade antiga renovada pela actualidade de novos saberes e novas tecnologias.

Começa-se agora a falar em Condeixa da constituição de um Centro de Desenvolvimento da Cultura Cerâmica, uma instituição que deveria estar de pé desde há séculos se fossemos a raciocinar em termos de utilidade e de necessidade.
Dirão alguns que é tarde e que agora já não vale a pena. Nós dizemos que sim agora, por não ter sido antes, e porque é urgente estancar a sangria de esquecimento e indiferença por um património que é precioso e que convém renovar a cada dia que passa.
Ainda há muito para salvar da memória que restou e quanto às novas empresas, às entidades de grande sucesso com negócios que correm o mundo, há que consolidar conquistas, alargar o prestígio ganho e organizar a representatividade local e universal. Os novos processos de organização e aquisição de novas técnicas produtivas, os novos instrumentos de divulgação, o estudo de novos produtos e a defesa da sua imagem abrem para um futuro que não é só adereço acidental mas condição de sobrevivência.

No que toca aos antigos oleiros da cerâmica decorativa, podemos estar no último momento possível para levar a cabo a tarefa de estudar o seu interesse e preservar o património vivo que representam.
No tempo antigo os rapazes ainda novos começavam a aprender o seu ofício indo para a oficina no fim da escola primária (se a tinham frequentado até ao fim…) e aprendiam tudo desde o princípio, herdando gestos e saberes que tinham séculos.
Agora, felizmente, ninguém quer tal ofício. A escolaridade é mais larga e ninguém está disponível para o sacrifício que foi imposto a tantas gerações de trabalhadores servis.
Esta é, portanto, a altura de procurar organizar a memória e fixar o testemunho de quem viveu doutra forma, numa sociedade que tem que contar e sabe coisas que podem, mas não devem, ser esquecidas para sempre.

No que toca a negócios de outra monta, estudando a história mais recente, é possível alinhar nomes de importantes empresas que foram marcos notáveis da produtividade desta região e que, também elas, soçobraram perante a força de circunstâncias diversas, umas sabidas outras dificilmente explicáveis.
Em todas as regiões onde se observa a implantação de indústrias de um determinado tipo existem instituições que salvaguardam a cultura inerente a esse universo produtivo e que constituem suporte e produzem estímulos favoráveis à manutenção e ao desenvolvimento das mesmas.
O formato dessas instituições deriva do estilo próprio que cada região, da índole dos grupos sociais que a rodeiam, mas representa sempre uma plataforma sobre a qual se dão as mãos diversas potencialidades culturais, científicas e organizativas, capazes de multiplicar energias de proveniência diversa, criar solidariedade, adicionar e aperfeiçoar vontades para benefício colectivo actual e futuro.
É necessário neste tipo de iniciativas que o conhecimento não vire as costas à metodologia do trabalho industrial e operário, que o lustre académico não se envergonhe das mãos calosas e que haja permeabilidade, desejo de explorar, esclarecer e desvendar novos caminhos.

Na aventura do conhecimento há lugar para uma imensa variedade de abordagens e descobertas e uma boa ferramenta que serviu durante séculos não deve ser deitada fora sem serem experimentadas novas soluções que nos tragam progresso, desenvolvimento e esclarecimento.
Aliás, os modelos de trabalho neste tipo de instituições estão abundantemente demonstrados na prática em numerosos exemplos que podem e devem ser estudados. Um Centro de Desenvolvimento da Cultura Cerâmica poderia desempenhar funções importantíssimas nos mais diversos aspectos da defesa e promoção dos interesses duma imensa variedade de profissionais, dos mais modestos aos mais solidamente organizados.

É impossível começar já a configurar um modelo definitivo que resolva todas as perplexidades que envolvem este tipo de projecto, mas é profundamente importante que não se adie para amanhã o que se pode fazer já.
Falemos uns com os outros. Esse é, para já, o modelo assumido de exploração de reconhecimento do passado e de descoberta do futuro.
Para que mais tarde outros não venham lamentar o que nós também lamentamos quanto às omissões do passado, sem termos assumido uma responsabilidade que é nossa e que é fundamental para o progresso de toda a comunidade em que estamos inseridos.

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A herança dos afecto e do gosto, os bonecos que chegaram do Oriente, os jardins no tapete e os animais mitológicos das colchas de seda.

Avó Cristina

Avó Cristina

Um dia a minha avó Cristina, mãe do meu saudoso pai, chamou-me junto de si preparando com o jeito de falar que lhe era muito próprio uma daquelas encenações do sentimento que tanta perturbação lançavam no meu espírito de adolescente.
Tinha junto de si nada mais do que um conjunto de objectos de loiça antiga: pratos, travessas e uma graciosa terrina redonda. Do que se tratava era de me dar posse dessa tão frágil como preciosa herança sentimental.
Minha avó tinha passado parte da sua juventude na África do Sul e, durante algum tempo, associei essa loiça a uma remota noção de requintes britânicos. Mas não, olhando para a parte detrás de cada peça, reparei mais tarde que era loiça bem portuguesa, feita em Sacavém, agora seguramente com não sei quanto mais do que 100 anos, embora com temas decorativos oriundos de longes terras.
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Avó Cristina
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Raramente abro as portas dos móveis onde se guardam, embora não tenha receio algum de perder ou quebrar um ou outro daqueles objectos. Se os não perder eu a eles, perder-me-ão eles a mim, o que dá no mesmo, e nenhuma diferença faz tal coisa ao incessante e perturbado mundo que por cá fica.
Quando era rapaz novo acompanhei turistas estrangeiros e para as afinidades especiais que certos encontros propiciavam (e não foram poucos…) havia sempre na minha bagagem de viajante um pequeno agrado trazido do Portugal sentimental e mais profundo: uma garrafa de Porto, um Moscatel de Setúbal, barros de Estremoz ou de Barcelos, uma jarra ou uma travessa do Juncal, um prato de Alcobaça, um altarzinho da Nazaré ou um barquito em miniatura de Peniche.
Para os cavalheiros que cheiravam a Gitanes ou a charutos: mais bebidas. Para as jovens francesas que cheiravam a perfumes Galion (oh, que saudades!…) mais cerâmica, mais ovos-moles, mais paninhos com renda!…
Perdi por isso o tino das colecções. O que fui juntando ao sabor de acasos risonhos foi para dar, e não tenho pena nenhuma disso. As alegrias que eu tive, os sorrisos que recebi em troca, meu Deus!…
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O maior número de peças de loiça de Coimbra que comprei até hoje, foi para oferecer.
Era bom que esse hábito vingasse junto dos portugueses que viajam lá para fora, sobretudo, onde é prenda de valor.
Se não formos nós a ajudar os nossos solitários artesãos do povo e as antigas indústrias tão nobres, quem poderá fazê-lo?
Que netos ouvirão o sereno discurso do nobre sentimento, se se perder essa viva corrente de lembranças?
E toda aquela multidão de figuras exóticas desenhadas em loiça, em colchas e tapetes, herdada da gesta dos navegantes em busca de pó de canela e peças de seda, que será delas se a mão que as pinta ou tece se esquecer do seu formato, do seu mistério, da sua confusa abundância?
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Este texto foi publicado na Revista de Informação do SBC, de Julho/Agosto de 2008

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mais recordações de afectos

mos Jar J 01A jarra do lado esquerdo foi fabricada numa oficina do Juncal de Porto de Mós que, durante o século XX exportou imensa loiça para o estrangeiro. Ofereci um bom número de peças dessas a amigos estrangeiros e tenho pena de não ter guardado umas tantas também para mim. Esta lá resistiu à paixão da oferta…
Porque cessou de laborar essa fábrica, não sei dizer. Também muita loiça notabilíssima, antiga, e merecedora de galas de prestigiados museus foi deitada fora, partida sem dó. Neste risonho e soalheiro país a distracção sem nexo e as cabeças cheias de areia e água chilra não são só de agora…

Estas duas imagens, apresentadas assim, enganam um bocadinho. As jarras propriamente ditas não são tão iguais no tamanho. A direita (e essa é das antigas…) é mais pequenita que a outra.

A da esquerda, mais regularmente industrial, possui uma cor muito genuína, a luz reflecte-se nela com a mesma suave alegria e as mãos que a pintaram são do mesmo sangue e do mesmo povo que deu vida à do lado direito.

Quem inventou todas estas subtilezas da sensibilidade que ilustram a nossa tradição artística não foram as competências sentadas nos cadeirões: foi o coração, os olhos e as mãos calejadas da gente simples…

Por isso tem sido tudo tão mal amado e até – como se prova facilmente – abandonado sem prazer nem proveito para uns e para outros…

 

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“Prometeu Agrilhoado” pelo grupo “El Aedo Teatro” de Cádis

“Prometeu Agrilhoado” pelo grupo “El Aedo Teatro” de Cádis

 

Foi publicado no Diário de Coimbra de hoje, 21 de Maio de 2010


Seja o Teatro Grego, seja alto o verbo com que nos fala e cheios de mágico encantamento todas as imagens e seres que coloca diante de nós, as suas principais virtudes – contudo – trazer-nos-hão sempre algo do nosso próprio drama, da nossa privada e pública disputa com os deuses, de como organizamos o nosso combate com o destino dando exemplo vivo de como estão organizadas as contradições do mundo.
Se possível, quando no Teatro se ouvir o ribombar do trovão, que ele seja como o alerta de uma enorme inquietação ou o eco dum entusiasmo jamais sentido antes.
Digo estas coisas porque foi assim que as senti durante todo o espectáculo oferecido por “El Aedo Teatro” de Cádis, com largo número de assistentes juvenis acompanhados pelos seus professores que teve lugar em Coimbra, no pátio do Museu Machado de Castro, em sessão promovida pelo XII Festival Internacional de Teatro de Tema Clássico.
“El Aedo Teatro”
é um grupo formado por jovens que se dedicam ao teatro clássico cujas realizações têm propósitos de interesse didáctico mas que, mais do que ler textos e colocá-los em cena, está vocacionado para pensar o teatro e organizá-lo como encontro de ideias e opções difíceis. Sentados por todo o lado, muitos dos jovens espectadores empunhavam os livrinhos com o texto clássico apropriadamente editado pelo Festival. Notei que estavam atentos e que procuravam um nexo de sequência entre aquilo que se passava no palco e que diziam os actores e o texto clássico, traduzido a preceito do grego por uma especialista na matéria.
Notei alguma perplexidade: a representação não seguia – nem à letra nem de perto – o discurso exacto contido no texto. Mas os questionamentos sobre a necessidade e a existência dos deuses, o fogo roubado a Zeus por Prometeu e oferecido clandestinamente aos homens com generosidade e sentido libertador, a própria liberdade e a sua questionável ou precária condição face aos tiranos ficavam ali vivos e palpitantes como toda a lógica da criação de Ésquilo, os seus personagens e o mesmo encadeamento cénico. A questão ver-se-ia esclarecida mais tarde, no fim da peça, quando a larga audiência de espectadores teve a oportunidade de dialogar com a totalidade do grupo, em pleno pátio do Museu.
Como se sugere acima a companhia faz uma leitura dinâmica de cada peça, utiliza obras de autores diversos sobre o mesmo assunto, e adapta aquilo que julga mais adequado para traduzir as ideias do próprio original em função do efeito dramático, da claridade da mensagem ou da sua eficácia em cena. Neste caso foi-nos dito que foram tratados textos de Eugénio d’Ors e Goethe, em obras dedicadas ao mesmo tema de Ésquilo.
“O que importa é sabermos o que queremos contar”, esclarece um dos actores.
“A liberdade não existe se o homem não a busca” parece ter sido o mais forte motivo condutor ao longo de várias cenas, ficando a pairar como um grito de angústia a denúncia terrível das vozes da negação enfrentadas em debate: “A liberdade não existe” e “Zeus é o único fogo”, ao que responde Prometeu, o encarcerado: “Zeus não existe se o homem dele não necessita, Zeus não escuta, só castiga”.
Na empolgante cena final Prometeu falou, aos homens assustados, de uma nova vida, garantindo que a liberdade existe e que devem procurá-la numa nova dignidade, em futuro que se fará presente. Um bom final embalado pela terra que treme e pelo ribombar do trovão, eco das convictas palavras de Prometeu que, embora perseguido e agrilhoado, não parece arrependido de ter oferecido aos homens o fogo, símbolo da sua libertação e pai de todas as artes.
O XII Festival Internacional de Tema Clássico assim prossegue, sugerindo-se a todos os interessados que procurem seguir a sua realização, que tem todo o interesse.

Nota sobre a ilustração:

Kylix lacónica con Prometeo y Atlas
(Museo Gregoriano Etrusco) Cerveteri. 560-550 a.C. Cerámica figurada. Alto 14 cm – diám. 20,2 cm;


Entre las demás producciones de cerámica griega figurada, destaca la cerámica lacónica, testimoniada por una famosa kylix (copa) fabricada en Esparta poco antes de mediados del s. VI a.C. y atribuida al Pintor de Arquesilas II. En ella se puede admirar una de las primeras representaciones del mito de Atlante que hayan llegado hasta nosotros. Atlas, con barba, dobla las rodillas debido al peso de la masa que tienen que sostener sobre sus hombros, al haber sido condenado por Zeus a mantener separado el cielo de la tierra. Además de su castigo se añade el de un segundo Titán, su hermano Prometeo, culpable de haber dado el fuego a la humanidad, atado a un poste y sometido al suplicio perpetuo del águila que le roe el hígado, el cual cada noche vuelve a crecer para ser nuevamente comido. La asociación de ambos episodios ha hecho suponer que este pintor se haya inspirado directamente en la Teogonía de Hesíodo, en la que los dos Titanes se describen uno después del otro.

Eugène Green, Soror Mariana e os azulejos

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Publicado no Diário de Coimbra de 12 de Maio de 2010

Interessei-me desde há pouco pela figura de Eugène Green, o realizador de “A Religiosa Portuguesa”, e já li a seu respeito uma quantidade de coisas invulgares.
Por exemplo, os seus filmes incluem sempre cenas filmadas à luz de velas: projectores barrocos, assim chamados por terem detrás um espelho que ajuda a luz a comunicar às cenas uma suave luminosidade nocturna. E esclarece Raphaël O’Byrne, director de fotografia: “Deve ser o único realizador no mundo que filma sem luz eléctrica”.
Outra excentricidade, não menos surpreendente, é tratar-se de um nova-iorquino que não afina pelo diapasão “normal” pró-hollywoodesco. Antes pelo contrário, Eugène considera o seu país como “a barbárie”, abomina a produção fílmica norte-americana, adoptou há longos anos a França como local de residência e, imagine-se, tem uma acentuada fixação simpática pelos portugueses, por Lisboa e pelos mais sensíveis avatares da nossa cultura. Se eu fosse realizador cinematográfico e me encomendassem um filme sobre as qualidades emblemáticas de Portugal e dos portugueses, teria pudor em ser tão sentimentalmente frontal na exaltação da nossa personalidade simbólica.
Uma sequência de “A Religiosa Portuguesa” oferece-nos uma simples viagem de eléctrico e o olhar da câmara extasia-se e detêm-se em cada rosto, revelando a fisionomia meridional, o curioso olhar mourisco e o sorriso suspenso daqueles viajantes sem pressas. Numa cidade tão empedernida pelo cansaço, Eugène avalia os lisboetas com a imagem que deles retém e faz questão em nos mostrar o velho amparado nas canadianas a quem uma rapariga nova, tão solícita, oferece imediatamente o seu lugar. As escadinhas e calçadas tranquilas, os pátios escondidos, as portas antigas com pequenas janelitas, o sol forte por entre as ramagens, as paredes velhas com garatujas, as mais abertas perspectivas sobre a cidade enorme, os seus miradouros e jardins antigos, o dorso das colinas, os fontanários e bancos de pedra: Eugène vê tudo à lupa, explica, regala-se, ostenta como ornamento precioso aquilo que nós porventura desistimos já de ver ou simplesmente confundimos com velhice de alma decadente. Há muitos anos que não via um filme com fados inteiros e gente conhecida sentada, tornando explícita a morena estirpe lusitana de magriços e mouras encantadas.
E os azulejos, meu Deus, os azulejos!… Por todo o lado, detrás de cada vulto, de dia ou de noite, reforçando a solenidade da talha dourada e a convicção dos santos nas igrejas, em palacetes graves ou velhas dependências de casas modestas. Aparece por fim D. Sebastião, como se outra coisa faltasse para retratar o sentimento do inexplicável narrado num tom que explicitamente evoca a linguagem fílmica de Manoel de Oliveira, tão declaradamente presente que a própria protagonista e outras figuras são transferidas dos elencos favoritos do consagradíssimo realizador. Nada de tão fortemente emblemático poderia levar o filme tão longe como tem ido, a festivais e encontros com prémios e referências honrosas. A sua produção foi maioritariamente portuguesa e obteve subsídio do ICA (Instituto do Cinema e do Audiovisual), o que gerou certa polémica. Não impediu no entanto que tenha sido considerado por certas opiniões como “mais português do que muitos filmes portugueses”, tendo sido rodado em Lisboa por uma equipa técnica maioritariamente portuguesa, com base na que fez outra película de sucesso: “Aquele Querido Mês de Agosto”. “O Som e a Fúria”, entidade produtora do filme, foi criada em Setembro de 1998 e dedica-se em exclusivo à produção cinematográfica, procurando estabelecer um vínculo com o cinema de autor e independente. Já produziu 2 documentários, 23 curtas e 4 longas-metragens. No seu conjunto, estes filmes arrecadaram 53 prémios e 14 menções especiais em Festivais de Cinema. Também participa na distribuição das obras que produz, pelo que convém aos cinéfilos amigos mantê-la sob observação atenta.

As telenovelas, o plano fechado e o campo-contracampo

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Esta crónica foi publicada este mês no Diário de Coimbra

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Já falei aqui a respeito da insanidade ficcional da telenovela, das disputas e da má educação que é sua vocação propagandear.
Um dia destes, na paz do lar, fui de novo surpreendido pela cena de uma das telenovelas portuguesas mais em evidência na actualidade: uma mãe e uma filha travavam um combate do mais aceso ódio em que o sorriso nervoso e crispado de uma e as lágrimas da outra eram a fronteira mais longínqua de um país escarninho de danação e amargura.
Depois disso já houve novos “rounds” desse combate de azedumes recalcados como se tal exercício necessitasse de treino ou fosse indispensável renovar em nós a lástima da aversão sem tréguas.
Cabe hoje falar aqui a respeito de alguns dos esquemas técnicos mais frequentes na confecção desse produto televisivo que é, antes de mais, uma indústria que movimenta recursos elevados e custos de produção caríssimos, o que demonstra o seu interesse na fixação de públicos dóceis, receptivos ao contexto publicitário abundantemente envolvente.
A colheita de imagens de uma telenovela é geralmente feita em cenários integralmente construídos para o efeito, com som directo, seguida de uma técnica de montagem que obedece a regras muito estritas, caracterizadas por uma trivialidade estética facilmente observável.

Termos chave são o “plano fechado” e a técnica do “campo-contracampo”

Quanto ao “plano fechado” basta dizer que ele é, como metáfora, a própria essência do processo narrativo da telenovela por insistir em concentrar a imagem num ângulo de visão sem espaço livre para a libertação do olhar, da curiosidade e da imaginação.
Para além de algumas imagens de abertura e de fecho que nos dão a conhecer o ambiente em que se desenrolam os episódios (com muito poucos exteriores e escassas cenas de acção) os diálogos (geralmente muito despojados, sintéticos e até rudimentares) são filmados por duas câmaras que revelam alternadamente o rosto de cada um dos intervenientes, não permitindo muito mais do que a articulação da fala, sem grande espaço concedido para a caracterização dramática. É o “campo-contracampo”.
Numa telenovela o vazio do discurso não convida a pensar e o realizador brinca com o espectador dando-lhe continuadamente pistas duvidosas para que com isso alimente a única curiosidade possível: saber quem foi o culpado da trama de confusos equívocos e esperar que tudo se resolva da forma mais previsível.
Os comportamentos são pouco edificantes, a inveja e a disputa não obedecem a regras e o desmascarar dos criminosos e dos oportunistas é quase tão difícil como na vida real, o que leva certos espíritos complacentes a julgar que a telenovela é “realista” porque se limita a reproduzir aquilo que se passa na realidade.
O encadeamento das cenas processa-se sem pausas ou acentuações que concedam ao espectador a faculdade de olhar e o privilégio de ver, pensando naquilo que está a acontecer, distanciando-se o suficiente para formular juízos críticos.
Na leitura de um livro podemos fazer uma pausa, voltar atrás para ler de novo e pensar no assunto. Na telenovela pode perder-se um episódio inteiro, os dados estão lançados desde o início e não há espaço algum para o imprevisto, o fenomenal e a excepção edificante.
Se houver duas telenovelas simultâneas em dois canais diferentes, temos uma vantagem: podem dar-se dez minutos a cada uma alternadamente, e nada se perderá com isso. Ou dormir uma soneca lá pelo meio. Deixa de ver-se uma cena de ódio, ganha-se uma de inveja ou de má criação e ao fim, casam todos na mesma uns com os outros.

Na Galeria Sete, pinturas de Miguel Telles da Gama e Pedro Pascoinho

Publicado no Diário de Coimbra no dia 17 de Abril de 2010

Recomendo a todos os interessados pela pintura uma visita à exposição “Permanências” que se encontra na Galeria Sete, ao fundo da Avenida Elísio de Moura, desde o dia 10 de Abril, com obras de Miguel Telles da Gama e Pedro Pascoinho. Os dois artistas evidenciam personalidades artísticas bem caracterizadas e as obras respectivas encontram-se devidamente apresentadas no espaço disponível de modo a não confluírem no mesmo horizonte contemplativo.
Os dois núcleos de obras são completamente diferentes, mas, a oportunidade de ver um conjunto primeiro e o outro logo depois, oferece um desafio mais ao visitante: o de poder viajar entre dois pólos de uma mesma fidelidade a princípios de observação e caracterização do universo das coisas sensíveis, podendo aproveitar a oportunidade para elaborar na mente um conjunto estimulante de relacionações não forçosamente comparativas, mas de valorização mútua de entidades contrastantes.
Entidades contrastantes, poderia ser esse porventura um outro título para a mesma realização conjunta, dado que é o que se nos depara ali: uma dualidade de confrontações, cada uma com a sua temperatura específica, o seu clima visual e a sua intensidade própria.

Na Galeria Sete, pinturas de Miguel Telles da Gama e Pedro Pascoinho


Miguel Telles da Gama apresenta-nos uma galeria de seres anónimos, fragmentários, oclusos, reduzidos a uma teoria de cores neutras, evidenciando a categoria de objectos escultóricos que oferecem pose em silêncio distanciado, página de modelos recortada pela tesoura criteriosa dum esvaziamento premeditado, sistemático, sem piedade.
Essas captações sintéticas afirmam o temperamento fotográfico de cada fragmento, materializado mediante o exercício cuidadoso de uma pintura meticulosa, obediente à focagem, à solidez, ao claro-escuro, ao capricho volumétrico dos tecidos, reminiscência da presença inapagável dos panejamentos da grande pintura.
A força do contraste, neste caso, é-nos revelada pela contraposição de tais elementos com planos de cores fortes, tornados objecto visível por intermédio de um expediente vocabular, título ou legenda de uma circunstância anexa ao sentido gráfico que envolve a totalidade das composições.


Pedro Pascoinho desenvolve perante o nosso olhar um teatro de confrontações de forte poder sugestivo, apoiado numa sistemática exploração de recursos gráficos do universo das revistas vindas do outro lado do Atlântico e de além Mancha, os “magazines” repassados pelo tipismo das gerações de entre guerras, dos seus trajes, adereços, apetrechos e ambientes de trabalho.
Essas figurações desenvolvem entre si uma dose de nonsense e de indeterminação que abrem para o mistério insolúvel amparadas muitas vezes por um manto de espesso negrume que marca a sua presença com uma plasticidade viscosa sem apelo.
O sistema de contrastes é acentuado (também) mediante as diferenças de escala de elementos contrapostos, expediente narrativo que por vezes assume o carácter de uma verdadeira abordagem psicanalítica, queira ou não queira a opção inicial que os colocou sobre a tela.
A execução plástica é fluente, intuitiva, as cores oscilam todas em torno de uma gama abatida na área de tons terrosos aquecidos pela maturidade das coisas antigas, alma residual de papéis deixados a amadurecer nas prateleiras de verão dum sótão de irrecuperável memória.

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Os suportes de Pedro Pascoinho acusam, em coerência com o clima plástico que os anima, uma tendência para a originalidade, para o suavemente inacabado, para a margem difusa, para o uso sofisticado de processos simples mas cheios de requinte.

As telenovelas, companheiras das tardes sem fim e das vésperas do cansaço

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Sónia Braga

Quando no dia 16 de Maio de 1977 foi apresentado o primeiro episódio da telenovela “Gabriela Cravo e Canela” os portugueses estavam bem longe de poder imaginar que esse iria ser, durante muitos anos, o horizonte mais duradouro dos seus passatempos televisivos, companhia de almas solitárias por tardes sem fim e testemunha das fadigas do fim do dia de tanta gente sequiosa de um momento diferente de escape, evasão e alguma curiosidade insatisfeita.
Das crianças aos adolescentes, das donas de casa aos elementos mais velhos das famílias, pessoas enfim de todas as qualidades e feitios carentes de melhor alternativa de utilização do tempo vazio antes do sono, todos procuram na fonte de águas pouco minerais dos episódios das telenovelas matar alguma sede de vidas novas e diferentes, noutro cenário e noutras companhias.
Que coisas levam tais pessoas consigo para o sono reparador? Que coisas aprendem esses jovens? Que imagem da vida compõem? Que sonhos sonham? Que desejos acalentam?
Alguma coisa fica, certamente, nos espíritos de quem vê e ouve. A linguagem, por exemplo. Mas não só isso. Há nas telenovelas uma escola de atitudes, uma ideologia para a disputa do quotidiano, uma lógica de moralidades e uma justificação de necessidades que não podem deixar de imprimir as suas marcas.
Os nossos avós antigos aprenderam a construir seus usos no rigor da família, na austeridade do trabalho e no temor das igrejas. Algumas gerações mais recentes conseguiram acesso a um universo mais aberto de horizontes mais largos, em locais de trabalho, escolas e instituições de todo o tipo.
Hoje é também o mercado de consumos que dita as suas leis e conforma as consciências. E o mercado das imagens, aquele que nos entra pela casa dentro com a nossa complacência e até um indisfarçável entusiasmo consumista. Não é a telenovela que vem até às pessoas. As pessoas é que lhe abrem as portas aceitando o universo de valores que lhes propõe.
Será bom que tenhamos consciência desses factos e que aprendamos a organizar em torno de nós próprios um círculo de defesas naturais. Ideal será estabelecer um processo de conviver com realidades mais positivas, se possível com gente dentro e valores humanos à mistura. Entre-se no site de uma das telenovelas portuguesas mais “badaladas” dos últimos tempos e consulte-se uma sinopse do enredo:
“…fulano e beltrano são dois irmãos gémeos, ambiciosos e sem escrúpulos que competiram entre si durante toda a vida. Em miúdos disputavam os brinquedos, em adolescentes as namoradas e em adultos a própria vida numa luta pela ascensão social”.
Melhor mesmo do que isto só o critério abertamente enunciado que sustenta a historieta:
“Uma novela é tão boa quanto o seu vilão. Nesta telenovela o vilão é servido em dose dupla: fulano e beltrano são dois irmãos gémeos. Mas esta não é a história clássica do gémeo bom versus o gémeo mau. Ambos são a maldade em pessoa. Nestes gémeos o laço que os une é o ódio…”
Um universo ficcional destes não o reservo nem para o meu pior inimigo.
Quantos milhões de olhos e quantas cabeças predispostas terá inundado de curiosidade absorta? Em quantas consciências terá ficado a morar essa indesejável galeria de fantasmas?
Eu não a vi. E o leitor (ou leitora), lembra-se da história?

Alice no país das maravilhas, o livro de tantos filmes

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DrawAlFoi publicado dia 26 de Março de 2010 no Diário de Coimbra

The Hatter opened his eyes very wide on hearing this; but all he said was ‘Why is a raven like a writing – desk?’

Lewis Carrol, de seu nome Charles Lutwidge Dodgson, foi um clérigo anglicano de muito respeitável família, precoce, sensível, gago, canhoto, cultíssimo, tendo ingressado em 1851 na mesma faculdade onde estudara seu pai, a Christ Church da Universidade de Oxford, onde veio a leccionar matemática. Dele pode dizer-se igualmente que, além de cientista dotado de promissora carreira, também era apreciador das novas tecnologias de então. Dedicou-se à fotografia com particular afinco, produziu em estúdio próprio milhares de originais que documentou de forma exaustiva, facto que – entre outros – justifica a sua inserção no mais elevado estrato cultural e artístico da sociedade inglesa da época victoriana. A sua obra literária deu origem a uma galeria de figuras e de situações de uma originalidade sem par, servidas por uma imensa subtileza de linguagem e um enorme sentido de análise psicológica, tudo envolvido por um halo de irrealidade que em inglês costuma designar-se por “nonsense”, um “não-sentido cheio de conteúdos latentes” de elegante complexidade.
As suas duas obras mais conhecidas “Alice no país das maravilhas” e “Alice do outro lado do espelho” têm fornecido matéria a um sem número de referências analíticas e inúmeras criações artísticas, de que o cinema se tem servido abundantemente. São agora aproveitadas para fazer um filme que, com algumas afinações de enredo “made in Hollywood”, conta a história conjunta mais uma vez, aproveitando o pano de fundo de enorme notoriedade que a obra do sofisticado inglês conseguiu granjear praticamente por todo o mundo.
A novidade essencial desta milionária realização é a de nos trazer a história contada a três dimensões, facto que se arrisca a ser cada vez mais frequente em filmes de grande notoriedade e movimento, de proveniência norte americana já se vê, por ser – fatalmente – a única origem de praticamente todo o cinema visto entre nós, em salas ou mesmo na televisão.
Além do acréscimo das percepções visuais, os animais são todos assustadores e aquele “Jabberwocky” tem qualquer coisa de familiar dos monstros das guerras das estrelas, figuras medonhas que matam tudo que lhes aparece à frente e que têm um rugido que até faz abanar as cadeiras.
Sendo o imaginário de Lewis Carrol uma ferramenta de profundo interesse na interpretação metafórica de uma quantidade de estranhezas e complexidades do nosso espírito e da natureza das coisas, seria talvez proveitoso que da ida a este filme alguma coisa ficasse na mente do espectador médio para além do ruído e dos efeitos especiais que comandam o espectáculo.
Mas receio bem que para isso seja fundamental um mergulho silencioso e delicado na leitura dos seus livros, o que cada um de nós poderá fazer em qualquer altura com o apoio garantido da nossa capacidade imaginativa que entende capazmente as “falas do Inconsciente” e que também fornece, estou seguro, imagens a três dimensões.

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Reflexão em torno do monólogo “coisa pública”

Reflexão em torno do monólogo “coisa pública”

Custódia Gallego em “Vulcão” de Abel Neves.

Diário de Coimbra de 9 de Março de 2010

A especialização do teatro conduz a diversíssimas variantes que fazem parte integrante da sua imensa riqueza. Algumas chegam a constituir modalidades suficientemente caracterizadas, com públicos certos e determinados para serem vistos em lugares próprios e dependem da riqueza de patrimónios colectivos sedimentados, consoante o caso, ao longo de gerações. Entre elas as que se estruturam em torno da ideia do monólogo.
Tudo de novo, pois, sob o sol, tendo este tipo de aberturas sempre um interesse muito legítimo, no caso da sociedade portuguesa, face à consolidação de públicos e à valorização que este sector da cultura tem vindo a registar, com a vantagem acrescida de afirmar uma saudável tendência descentralizante. A XII semana cultural da Universidade de Coimbra integrou, no âmbito do teatro, um conjunto de realizações sob o tema do monólogo “coisa pública”, que agregou, além de vários acontecimentos de reflexão e estudo, um conjunto de espectáculos de teatro concebidos sob o signo dessa modalidade específica. Os acontecimentos mais especializados desta iniciativa foram – como é habitual – dirigidos a sectores estrategicamente situados, sendo de acesso mais geral os que foram levados à cena no Teatro Académico de Gil Vicente e no Teatro da Cerca de São Bernardo. Poucas pessoas terão podido acompanhar todos os espectáculos do ciclo, tendo-me tocado a mim ver, no TCSB, dois dos cinco que foram apresentados: “Vulcão” de Abel Neves, com Custódia Gallego (encenação de João Grosso, ACE Teatro do Bulhão) e “Calendário da Pedra”, texto, encenação e interpretação da brasileira Denise Stoklos.
Ambos os espectáculos são notabilíssimos devido desde logo à presença de artistas que – sozinhas em palco – têm a capacidade hercúlea de concentrar numa só voz e num só corpo todo os conteúdos expressivos de uma construção narrativa, por mais específica que ela seja.
Custódia Gallego faz um trabalho mais próximo do teatro habitual, com uma história com diversos figurantes, um drama, em suma com suporte essencial no texto de que decorre e Denise Stoklos assume a pose de um “performer essencial” mais centrada na mímica, na coreografia, no exercício vocal, viajando em torno de si própria e do íntimo colectivo.
“…A estratégia aqui do performer é não ter estratégia. Diferente do ficcionista que segue uma linha pré-desenhada, ele busca o tónus da cena no seu ego, no seu âmago. Melhor dizendo o seu próprio tónus é a cena…” afirma Denise no texto em que apresenta, mais que a sua actuação particular, o contexto programático da sua forma de estar em palco.
Sem poder trazer aqui uma análise detalhada de ambos os espectáculos, de elevada qualidade e muitíssimo diferentes na sua génese e desenvolvimento cénico, terei que afirmar que ambos dependem de uma coisa que me parece um pouco contingente no teatro como veículo de transmissão de ideias, sentimentos e percepções do mundo: a vitalidade essencial e a resistência psíquica e física dos intérpretes respectivos, para além do seu talento genuíno. Apetece-me dizer que o espectador deixa de poder ver o tema, de atender apenas à palavra e ao gesto como produtores de uma certa ideia das pessoas e dos sentimentos que as animam, para passar a assistir a uma espécie de competição extremada do artista consigo mesmo. O espectáculo, de construção dramática, passa de certo modo à categoria de ultrapassagem emocional na qual o espectador sai esmagadoramente vencido pela extenuante energia posta em marcha pela actuação do solista.
Devastado pelo talento evidente, o espectador rende-se. Mas será que fica convencido ao nível do exercício quotidiano do pensamento sensível?
Será que da imensa energia dispendida e do elenco de recursos histriónicos, da ciência do dizer e da capacidade da construção gestual sobra alguma coisa para seu próprio consumo íntimo?
Esperemos que sim, dada a dinâmica de pluralismos de que o teatro é capaz e do merecido incremento de interesse que tem vindo a registar entre nós.

Reflexão em torno do monólogo “coisa pública”
Denise Stoklos, “performer essencial” de “Calendário da Pedra”
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Os painéis de azulejos da Rua Olímpio Nicolau Rui Fernandes

Os painéis de azulejos da Rua Olímpio Nicolau Rui Fernandes

A seguir às grandes movimentações sociais do 25 de Abril surgiu na longa parede que se estende à frente do Mercado D. Pedro V uma espécie de mural revolucionário de que deve haver escassas memórias em escondidos arquivos fotográficos.
Eu mesmo guardei alguns slides que documentam esse vestígio do entusiasmo popular e que comprovam esclarecidamente que o acto de requalificar esses muros, entre 1984 e 1986, não foi um grande acto de coragem: foi apenas um acto de lucidez mínima, conforme documenta a imagem acima.
Quanto aos azulejos de substituição houve certamente pressa demais em fazer obra e não houve coragem de consultar alguém que estivesse à altura do restante património edificado na cidade. O local, pela sua extensão e configurações seria sempre problemático, não ajudando o facto de ser um espaço que se atravessa geralmente sem olhar para o lado.
Conheci o seu executante como brioso profissional de artes gráficas, o Senhor Amílcar Matias, do qual conservo a melhor recordação pela sua paciente e laboriosa cordialidade. A encomenda que lhe fizeram era coxa, o conceito da obra proposta não se insere nem na tradição monumental da cidade nem na memória que o país (julga que) tem do que são os azulejos como técnica artística de revestimento.
A obra configura-se como uma simples “passagem de slides”, citações tal e qual de ângulos monumentais da cidade de fotogenia elementar. As figuras escolhidas de “postal turístico” são envolvidas por um halo de brancura que produz com a parede envolvente um contacto duma frieza extrema em tudo distanciado de qualquer dos opulentos capítulos da gramática expressiva da azulejaria portuguesa. Uma obra de arte que cobrisse todo o enorme espaço em questão teria que ter sido concebida como um todo organicamente estruturado, com diferenciações no tipo de cobertura e vectores criativos bem orientados quanto ao seu conteúdo plástico e referencial.
Consideremos apenas dois casos concretos de murais cerâmicos que se tornaram emblemáticas dos locais onde se situam: o conjunto de sete painéis de azulejos para a AAC, “A Evolução do Traje Académico” de 1958, de João Abel-Manta, situado em Coimbra apenas algumas centenas de metros mais acima, e o painel da Ribeira Negra de Júlio Resende, à saída do tabuleiro inferior da Ponte de D. Luís I, no Porto, de 1985, exactamente contemporâneo daquele que estou a referir.
Os primeiros estão perfeitamente enquadrados na estrutura arquitectónica de que fazem parte, representam uma pesquisa rica de alusões significativas relativamente ao tema proposto e alternam de forma ideal com materiais de cobertura criteriosamente escolhidos e plasticamente orientados. O segundo é uma obra de estética muito austera e forte sinalização humanista, em suportes de grés vidrado de 30×30, que se cinge à curva ascendente de forma escalonada num aproveitamento ideal da altura a que se encontra, para se tornar visível e atingir força monumental. Infelizmente a obra em apreço não tem nenhuma destas características, não possui potencial simbólico nem expressão emblemática que lhe valha e irá doer enquanto durar, pela insignificância burocrática da concepção que lhe deu vida.
Ao fim de uma geração lá segue desempenhando o seu papel de zona de passagem que não empolga ninguém, de que quase nada se tem falado nem ensina a ver aquilo que a cidade tem de mais valioso.

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Amilcar Matias: Era natural de Casais do Campo, estudou na Escola Avelar Brotero e exerceu ao longo de toda a sua vida a actividade de artista gráfico com extensa obra feita, que complementou com actividades criativas diversas no domínio da cerâmica, da ilustração e do cartaz. Também se dedicava com gosto à pintura que expôs por diversas ocasiões, nomeadamente na galeria do Primeiro de Janeiro, em Coimbra.

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O painel de azulejos do Instituto do Emprego de Coimbra, de Eduardo Nery, na Avenida Fernão de Magalhães, em Coimbra

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Aspecto do painel de azulejo “Jardim da Manga”

Este comentário foi publicado no dia 26 de Fevereiro de 2010 no Diário de Coimbra

Depois de ter falado em datas muito diferentes e distanciadas do painel de azulejos do Montepio Geral e do trabalho de cromatismo urbano do ex-Edifício dos CTT, faltam-me ainda mencionar duas outras obras da concepção de Eduardo Nery que se encontram nesta cidade e que podem ser observadas em espaços públicos. Uma encontra-se no Instituto do Emprego e Formação Profissional, no nº 660 da Avenida Fernão de Magalhães e outra num dos corredores do Centro Cirúrgico de Coimbra, na Espadaneira, ao lado direito da estrada que conduz a Taveiro.
É a primeira destas duas que vai ser aqui hoje brevemente analisada no que tem de plástico-simbólico e no que significa para um espaço público ser prendado com um elemento de valorização patrimonial e artístico, usando para mais essa (dita) singela e muito particular técnica das artes decorativas, tida como sendo um dos mais genuínos exemplos do génio criativo da alma lusa. Mais uma vez se deve a sua criação à centralidade lisboeta pois deriva de uma opção de encomenda tomada na capital pela direcção do então designado Instituto de Emprego que no decurso dos anos oitenta tinha alguma dinâmica interna quanto a aquisições directas para a decoração de espaços onde instalava os seus serviços. Aliás, foi também uma empresa de Lisboa que foi encarregada da execução do painel e da sua aplicação no local em 1988, a Azularte, Lda.
Tem a particularidade de conter uma alusão ao património arquitectónico da cidade de Coimbra, mas essa escolha deve-se à sensibilidade do artista e às suas memórias e não a qualquer outra razão específica.
É um trabalho que tem como suporte os mesmos azulejos de chacota grossa que fazem o regalo de espaços nobres e selectos mas que oferece para além disso a sugestão do fantástico e do inesperado: o familiar mas esteticamente requintado templete do Jardim da Manga arranca para o céu como se fosse uma nave espacial, quebrando a serenidade monástica do convento de Santa Cruz em cujo segredo tantos anos viveu, rodeado de silêncio e de pensamento. É uma ruptura feita a partir da naturalidade tranquila dum painel à maneira do Sec. XVII, conformado com o seu branco e azul e com a sua perspectiva renascentista, em cujo ponto de fuga se opera a “explosão” dinamizadora da figura que ascende aos céus animada de velocidade e evidenciada pela cor amarelo laranja. As próprias peças cerâmicas que no motivo inferior se encontram ordenadas em malha vertical/horizontal, ganham um dinamismo que passa pela meia esquadria e atinge a inovação de deixar vazios certos sectores do painel que revelam a própria base do reboco de suporte, com azulejos aplicados “ao acaso”, animados pelo acidente explosivo da inesperada “nave do futuro”…
A transformação que a realidade presente veio trazer ao ambiente claustral de antanho não é excedida em muito pela sugestão da nave espacial já mencionada. Para os frades que ali leram e pausadamente meditaram, a passagem de milhares de automóveis e autocarros, o rio de gente e o ruído, pouca diferença fariam da explosão de uma nave que os derrubasse de espanto e de antecipação mágica. Aqui, como em muitas situações da vida, a realidade equivale a própria ficção e rouba lugar ao sentimento de surpresa ou à capacidade de ilusão que resta no nosso espírito.
Esforçando-se por alcançar alguma coesão com o espaço envolvente, Eduardo Nery insistiu em alargar a sua intervenção à barra inferior e aos pilares de suporte, para criar uma complementaridade com a arquitectura do local e para que o tema do painel não parecesse tão despojadamente casual como em princípio poderia ficar se lhe faltasse esse remate ambiental.

O painel de azulejos do Instituto do Emprego de Coimbra, de Eduardo Nery, na Avenida Fernão de Magalhães, em CoimbraO mesmo painel numa visão mais geral. Notar a barra inferior que se prolonga mais para a esquerda e a cobertura azulezar do pilar situado ao lado direito da imagem, referidos no texto acima

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O “Single Singers Bar” do Teatrão, o tal espectáculo que seria impossível noutros tempos

O “Single Singers Bar” do Teatrão, o tal espectáculo que seria impossível noutros tempos

Na fotografia de Paulo Abrantes: Margarida Antunes de Sousa, João Castro Gomes, Isabel Craveiro, Nuno Carvalho e Inês Mourão


O culto da noite e as estratégias do prazer têm séculos de tradições e correspondem a necessidades que não desaguam necessariamente no desconcerto do deboche nem na alienação licenciosa. Infelizmente, ousarão sussurrar algumas almas cinzentas e solitárias, a cuja porta bate com certa teimosia a fria mão de desencanto e o desconforto do coração incompreendido. A “má vida”, assim se tem chamado ao apelo secreto dos serões inundados por uma dose de licença e de sensualidade vital, na suspeita de que tudo aquilo que pressupõe se encontra fatalmente ligado ao conceito de “pecado”.
As propostas explícitas que nos trouxe o espectáculo para piano e canto apresentado pelo Teatrão, na Oficina Municipal do Teatro, o “Single Singers Bar”, se fosse apresentado “no meu tempo” neste mesmíssimo país e cidade em que nos encontramos, seria um caso de desaforo, de escândalo e constituiria por isso mesmo, um autêntico “caso de polícia”!…
Isto para entendermos o quanto mudou a sociedade em que vivemos no decurso de algumas décadas e para que se compreenda que as máscaras que entretanto caíram não escondiam monstros nem maldições fatais mais do que todos aqueles que a liberdade e o pluralismo conseguem resolver na complexidade de uma sociedade em permanente mutação.
A mistura de um bar/tabacaria com a de cabaret/teatro produz um “cocktail” do mais saboroso efeito, agora nestes tempos que – não nos iludamos – não são de licenciosidade mais desenfreada do que a de outros de antes por razões que nem cabem aqui, nem vale a pena explicar.
As inúmeras programações que têm sido apresentadas neste espaço (a tabacaria do OMT, um café/teatro) acusam essa vocação específica de associar o clima de convívio à fruição do teatro ao som da música e às artes da declamação e do canto.
Têm variadíssimos antecedentes entre os quais recordo como particularmente interessante “O Cabaret da Santa”, de Setembro de 2008, do brasileiro Reinaldo Maia e do português Jorge Louraço, também encenada – como o “Single Singers Bar” – por Dagoberto Feliz e que resultou de uma frutuosa parceria com o grupo Folias d’Arte de S. Paulo. Saliente-se que Dagoberto Feliz é fundador, actor e director musical da companhia paulista.
Neste espectáculo de agora, sem desprimor para nenhum dos outros intervenientes que com valor desempenharam os seus respectivos papéis, seja-me permitido salientar os dois belíssimos quadros do “casamento” e da “Lorelei” (nome estereotípico de mulher comum que também evoca o das ninfas das águas do romântico rio Reno…) protagonizados por Inês Mourão. O suporte pianístico fornecido por Jorge Marinheiro teve a máxima dignidade artística e o naipe de actores/cantores cumpriu de forma sugestiva e convincente o projecto que, mais do que um simples acto de teatro, configura um “espectáculo total ao vivo”, tão raro porque tão difícil.
Há que acrescentar que este trabalho se pode considerar um acto de coragem por todas estas razões e também pelo facto acima vagamente sugerido de constituir um desafio relativo aos fantasmas e temores tão frequentemente dissimulados por detrás de uma aparente e concertada moderação de gestos e de atitudes que pinta de cinzento muito do nosso quotidiano, cansado de tanta briga inútil e de tanta frustração envergonhada.

O “Single Singers Bar” do Teatrão, o tal espectáculo que seria impossível noutros tempos


Ficha Técnica e Artística:
Encenação: Dagoberto Feliz
Elenco:

Inês Mourão,
Isabel Craveiro,
João Castro Gomes,
Jorge Marinheiro (Pianista),
Margarida Sousa e
Nuno Carvalho

Figurinos e Adereços: O Teatrão
Desenho de luz: Alexandre Mestre
Montagem e Operação de luz: Alexandre Mestre, João Castro Gomes, Jonathan Azevedo e Rui Capitão
Cabeleireiro: Carlos Gago (Ilídio Design)
Fotografia: Paulo Abrantes
Grafismo: Sofia Frazão
Costureira: Fernanda Tomás
Direcção de Produção: Inês Mourão
Produção Executiva: Isabel Craveiro, Margarida Sousa e Nuno Carvalho
Direcção Técnica: João Castro Gomes
Produção: O Teatrão 2010

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“Saloon yé-yé” pelo Teatro Regional da Serra do Montemuro no TCSB, em Coimbra

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Publicado hoje, 12 de Fevereiro de 2010 no Diário de Coimbra


O Teatro Regional da Serra do Montemuro tem um sugestivo e bem organizado site na Internet que nos transmite, desde o texto de abertura “Convívios Comunitários”, a entusiástica sensação de que é perfeitamente possível fazer do teatro uma plataforma sem par de convívio e de abrangência cultural, com sede – imagine-se – na pequena aldeia de Campo Benfeito.
Em mais uma apresentação levada a efeito no Teatro da Cerca de São Bernardo, onde tem sede activa A Escola da Noite, esteve de visita aquele agrupamento de teatro com o seu castiço “Saloon yé-yé”, ou “paraíso à espera”.
Catt Pingado, Kid Mocas, Débora Boy, Xerife Olívia, Susy Carioca, Teclas Man, Lulu Quem-me-dera, Speedy Meu, FredySnif e Lucas Rosinha, além de Cavaca, o cavalo com cornos de vaca, são designações desopilantes de uma encenação de Graeme Pulleyn, com um soberbo texto de Abel Neves, companheiro e amigo d’A Escola da Noite, onde os seus textos já estiveram na origem de três espectáculos:
“Além as estrelas são a nossa casa”, “Além do Infinito” e “Este Oeste Éden”, apresentado no ano passado no TCSB.
Tive o grato prazer de assistir ao “Saloon yé-yé” sentado muito perto duma criança acompanhada de seu pai (belíssima acção de amor pela renovação da cultura) e ir apreciando uma variedade de atitudes, perguntas, interjeições e estados de ânimo que valeram, além do mais, para dar credenciais à vitalidade contagiante do Teatro neste espectáculo (de sala literalmente cheia, diga-se de passagem).
A peça, cheia de cor, movimento, música e “mistérios” dignos de uma activa mescla de cinema, banda desenhada e “music-hall”, tem um texto cuja construção e desenvolvimento potencia o espectáculo muito para além da frivolidade aparente do menu acima descrito.
Num país onde as famílias adormecem atormentadas pela dramaturgia inconcreta de telenovelas que são autênticos “workshops” para a malvadez e a má criação, com direcções de actores mais que questionáveis e textos para mentes conformadas à mediocridade, impressiona ver assim um trabalho bem feito onde a palavra toma o lugar que lhe compete, trazendo à tona temas sérios e concretos da vida real, pleno de plasticidade semântica, riqueza de intertexto e neologismos cheios de graça e intenção irónica.
Nesse sentido o espectáculo, servido por um excelente grupo de actores plenos de qualidade e polivalência expressiva, permite uma diversidade de leituras verdadeiramente intergeracional, em que as eventuais cenas de “violência” são sublimadas por um adequado processo de “câmara lenta” em fundo de música condizente, que enche de gáudio os mais jovens espectadores sem descomprometer os mais maduros pela verdade escondida por detrás do expediente cénico.


O Teatro Regional da Serra do Montemuro tem também uma clara vocação para intervir na área educacional e formativa e um programa de digressões que levam longe a sua actividade. Parabéns e continuação do bom trabalho!

FICHA ARTÍSTICA
Texto: Abel Neves
Encenação: Graeme Pulleyn
Direcção Musical: Carlos Clara Gomes
Cenografia e Figurinos: Ana Brum
Construção de Cenários: Carlos Cal
Direcção Técnica: Paulo Duarte
Design Gráfico: Zé Tavares
Direcção de Produção: Paula Teixeira
Assistência de Produção. Susana Duarte

Interpretação
Abel Duarte,
Eduardo Correia,
Paulo Duarte,
Daniela Vieitas,
Neusa Fangueiro.

O trigésimo aniversário da Cooperativa Bonifrates, de Coimbra, com a peça “Estilhaços”

Foi publicado hoje, dia 5 de Fevereiro de 2010 no Diário de Coimbra


O aniversário da Cooperativa de Teatro Bonifrates não teve lugar ao fundo daquele húmido corredor de garagens onde humildemente vamos ver os belíssimos espectáculos que desenvolve e apresenta. Foi acolhida, sim, no Cine-Teatro de Condeixa, numa magnífica infra-estrutura cultural onde todos desejariam se centrasse uma mais continuada actividade da sua inerente vocação de palco de artes, actualizadas algumas depreciações originadas pela própria descontinuidade no seu uso.
A peça “Estilhaços” (aquilo que resulta de qualquer coisa que ameaça por ter explodido sem apelo) já foi vista antes e apreciada na rigorosa metodologia (pode dizer-se científica) com que foi elaborada, no contexto que ela própria descreve: os horizontes fechados da violência doméstica, os verdadeiros protagonistas e gente ligada às instituições especializadas no seu tratamento sociológico e humanitário.
O texto da peça adopta uma versão literária sem diálogo interactivo entre os personagens, apresentando-os, ainda por cima, predominantemente confinados ao casulo de uma solidão muito menos que simbólica: uma espécie de gaiola ou célula cujo significado metafórico cruza de modo eficaz o sentido de um guichet de repartição, de toca de um esconderijo ou de célula de uma prisão.
É uma terrível “invenção cénica” que ampara um dinamismo de mutações permanentes na geometria do espectáculo e de que raramente se liberta a maior parte dos intervenientes.
Alguns deles “parecem” mais soltos, numa pose de intrusos aparentemente livres da lógica imediata do espectáculo. Puro engano, essa diferenciação resulta simplesmente de um artifício perfeitamente conseguido para diferir no tempo ou no espaço a “continuidade” lógica de planos narrativos.
No encadeado de monólogos intimamente trágicos a que se entregam todas e cada uma das “almas aprisionadas” existe, contudo, um intervalo de tolerante espírito de sacrifício, uma necessidade de justificar o injustificável e a ingénua alusão aos instantes fugazes de paz ou felicidade. O que não nos liberta a todos nós, actores e espectadores, é o estampido final que nos remete subitamente para o plano irrecusável da responsabilidade cívica e da noção inequívoca das realidades.
“Estilhaços” não é seguramente um espectáculo vocacionado para substituir um serão de sofá e telenovela. Ele é, mais propriamente dito, uma espécie de anti-telenovela, pelo rigor inflexível com que nos obriga a ver a sociedade despida dos subterfúgios duma aparente facilidade em espreitar pelo buraco da fechadura do sofrimento alheio, longe de todos os cenários da sociedade consumista do sucesso e dos finais felizes.
O único final feliz que pode descortinar-se em “Estilhaços” é olhar de frente a verdade completa, sem bónus de concorrente vencido ou prémio de consolação de participante ingénuo.
A continuidade da apresentação da peça está felizmente garantida por um protocolo estabelecido com a CIG (Comissão para a Igualdade de Género). Parabéns a ambas as instituições.

A fuga de Wang-fô no Teatro da Cerca de São Bernardo, em Coimbra

foto-pupo

 

Publicado no Diário de Coimbra de hoje, 29 de Janeiro de 2010

Enquanto nós, corpulentos e laboriosos caucasianos ensaiávamos a nossa titânica descoberta científica do mundo, outros grupos de povos há muito tempo voavam alto na senda de todas as possíveis aventuras do Homem, inventando tantas coisas que não cabe aqui serem sequer resumidas.
O TCSB teve a feliz ideia de nos vir mostrar um desses outros exemplares da raça humana, de tez lunar e estatura frágil, que nos conta a história felizmente recuperada das águas tempestuosas da distância intercontinental por Marguerite Yourcenar, escritora de um dos maiores livros da minha vida: “As Memórias de Adriano”.
Joana Pupo
(e a respectiva talentosa equipa de trabalho) dá corpo ao subtil contador de histórias que trata com gestos de vaporosa imaterialidade a enorme saga de um pintor e de seu leal ajudante e dedicado companheiro, através de aventuras que eu gostava de ter vivido, por transportar também comigo esse sonho sem nome que é o de dar vida a telas pintadas com poderes milagrosos e irradiante lucidez. Com secretas pretensões também eu gostaria de ter os meus trabalhos coleccionados pelos trágicos imperadores do Reino dos Han!…
O espectáculo é de uma sumptuosa simplicidade e resolve o problema central da arte de todos os tempos: fazer o máximo com o mínimo. Desenrola-se envolvido pela cor predilecta da liberdade do corpo enquanto dorme e é no seio desse negro que Joana o povoa de uma narrativa que exige esforço de atenção, é certo, para todos aqueles que estão habituados a querer elevar-se da insignificância da vulgaridade.
Não vou contar aqui a história adaptada nas suas simples complexidades nem vou aborrecer o leitor apressado que lerá (?) algures esta minha confissão de espanto: Houve na China um pintor chamado Wang-fô que ressuscitou o seu discípulo Ling do lenço vermelho da decapitação; o tal companheiro que o ajudava a transportar por vales e caminhos duas caixas vazias de bagagem, mas que levavam dentro de si tudo aquilo que queira a tenacidade imaginária dos privilegiados espectadores carentes de sortilégios, tal como aqueles que vi aquela noite na sala do TCSB.

Acabo com duas auspiciosas anotações:

Primeiro, a de que a verdadeira história de “Comment Wang fô fut sauvé” tal como a versão simplificada (?) de Marguerite Yourcenar, estão ao alcance de todos na internet, e bem assim uma infinidade de preciosos acompanhamentos pedagógico-literários da obra em questão.
A história original é – em extensão e complexidades de enredo – diferentíssima da excelente versão de Marguerite.
Segundo, foi um prazer sentar-me para ver este espectáculo numa sala povoada por pessoas de todas as idades, a maiora das quais podiam ser meus filhos ou netos.

ficha técnica

ideia e interpretação Joana Pupo colaboração criativa Tiago Hespanha apoio contador de histórias Cristina Cartaxo apoio interpretação e figurino Inês de Carvalho apoio movimento Ana Borges apoio técnico Mafalda Soares de Oliveira design gráfico Joana Pinho Neves fotografia Iuri Albarran operação de luz e som Rui Capitão assistente produção Carla Carreira produção Vagão, Assoc. Para Viagens Culturais e Artísticas

 

Manuel Cargaleiro no Museu do Vinho Bairrada, na Anadia

Cabral Moncada

Manuel Cargaleiro, painel de azulejos, 1992; visto site Cabral Moncada Leilões, pesquisa internet.

 

Publicado em 20 de Janeiro de 2010, no Diário de Coimbra

Naquele Sábado apresentei o meu neto a Manuel Cargaleiro. A cena toda começou comigo a chegar atrasado e a ter de me armar em fulano da imprensa para furar sem cerimónias por uma sala já à cunha para assistir a uma sessão impregnada pelo orgulho legítimo de uma comunidade trasbordantemente presente. O dever de ofício constrange-me a dizer coisas insignificantes como ter falado com fulano, ter ouvido falar sicrana, ter sido abraçado com emoção à frente de toda a gente por António Pedro Pita e ter tido pena de comer tão pouco leitão e apenas provado o vinho.
Importante foi ter apresentado o meu neto a Manuel Cargaleiro sem ter tido a coragem imaginária de lhe dizer a verdade magnífica: olha, este senhor é que me ensinou a pintar antes de passares tu a ser meu professor em artes. O meu neto Flávio, além de ser a minha mensagem genética ao futuro do Universo, descobriu e ensinou à Vóvó, que é uma ingénua celestial em mecanismos técnicos, como é que funciona aquele saca-rolhas do Museu que ele conhece de ginjeira de casa do avô Vítor.
Quando me apanhei frente daquele que não é Cristo mas a quem todos chamavam Mestre, fui dizer-lhe assim: conheço Manuel Cargaleiro muitíssimo bem há mais de quarenta anos e vinha apresentar-lhe três gerações de olhares convergentes nas sumptuosas simplicidades produzidas pelas suas mãos que me fazem lembrar as do meu avô mas de facto era impossível porque mal tem idade para poder ter sido meu pai.
Agora que me desculpe a primorosa e, como é tradicional, opípara, realização do acontecimento e um dos respectivos catálogos, o que diz respeito a MC: Obra Gravada é uma expressão que pode estar (e estará) correcta, mas acorda no apreciador ansioso uma gama tão vasta de expectativas e horizontes que me obriga a falar da distância formidável a que se encontra a vibração matérica dos originais propriamente ditos. Uma tela é uma tela; as gotas de tinta têm a espessura de rastos de sangue fossilizado por um dramatismo sem tempo; a passagem de um pincel arrastado com suavidade por sobre outra camada de tinta deixa um tracejado de vestígios que só a alma vê, se tiver vícios de uma sensualidade que cavalga a utopia. Para dizer bem isto só, por exemplo, Agustina Bessa-Luís, e eu era lá capaz de escrever um artigo para o Diário que chegasse aos calcanhares da grande Senhora.
Já lá voltei à Anadia, sem o Flávio, a mana e o pai, para ver tudo mais uma vez. O Flávio agora tem mais que fazer do que mergulhar na “pintura vitoriosa” de uma varanda que “é a coisa mais importante que há numa casa” e nos “jardins suspensos” como os de Sintra que têm muitos nomes “e descem dos muros como um lenço de lágrimas”.
Já lá voltei, como ia dizendo, para ver de facto o que há para ver e o máximo dos máximos é um filme que é mostrado numa salinha estreita com tamboretes forrados de negro que não deixam adormecer ninguém. Fala Mestre Manuel Cargaleiro, vêem-se montes de coisas de agora e do meu tempo e convive-se com o sorriso impassível do artista.
As obras que estão patentes servem para que pessoas como eu consigam alcançar para além das cristalinas ilusões de quem ama sobreviver no corpo e pelo espírito e persiste na teimosia de reviver todas as sensações deste e de outros mundos.

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Manuel Cargaleiro; óleo s/ tela 1979; Museu Cargaleiro / Castelo Branco (pesquisa internet)

.Tudo isto na Anadia num centro cultural que tomara Coimbra e só tenho de dizer um dia destes ao Senhor Litério Augusto Marques que a sinalização está tão bem feita que até eu que sou um tipo desenrascado a chegar a sítios me vejo, sempre que lá tenho ido, em palpos de aranha para chegar ao Museu do Vinho Bairrada.

Métro station Champs-Elysées-Clémenceau (3)

Manuel Cargaleiro, painel de azulejos,  Paris; Métro station Champs-Elysées-Clémenceau, pesquisa internet blog Paris-bise-art

Escrevi uma primeira versão do comentário a este acontecimento, que guardei sem publicar, e que me atrevo a mostrar a seguir, por diversas razões que vão sublinhadas a bold:
Foi a exposição de Manuel Cargaleiro em 1973 na Galeria São Mamede em Lisboa que me repassou de indeléveis emoções, como ainda hoje acontece sempre que me encontro com obras suas, e bem recentemente assinalo a exposição que esteve presente no Museu Municipal de Coimbra, a qual não tive o ensejo de referir apreciativamente neste mesmo Diário de Coimbra. Temos todos agora a oportunidade imperdível de visitar uma mostra de múltiplos de sua autoria, de diversas épocas, no Museu do Vinho Bairrada, na Anadia.
Entre outras prendas dessa iniciativa tenho a salientar a projecção de um filme a respeito do Mestre que corre repetidamente durante 50 minutos – à discrição de qualquer visitante, e que recomendo de uma forma inequívoca. Pegando nas próprias palavras de MC ao longo desse documentário refiro a sua admiração pela obra de Henri Matisse. Aligeirando um pouco a pressão anímica que me estorva de dizer porventura aquilo que deveria, formulo apenas uma pergunta que muitíssimo ou nada pode ter a ver com tudo isto: Será Manuel Cargaleiro o Henri Matisse português, ou será Henri Matisse o Manuel Cargaleiro francês?
Qualquer resposta a esta pergunta será tão tonta como a pergunta em si mesma, servindo-me eu dela, aqui e agora, para me libertar do peso opressivo de ter de dizer tudo aquilo que deveria caber no meu discurso e não cabe.
MC tem sido caracterizado por uma certa crítica atabalhoada como um decorativista assumidamente feliz com o mundo, detentor de pleno sucesso, privilégio insuportável para certas almas tão abundantes como presumidas. Uma outra versão não menos precipitadamente redutora costuma referenciá-lo como sucedâneo venturoso vagamente protegido de Maria Helena Vieira da Silva.  Não tenho tempo a perder com idiotices mas estou disponível, agora ou em outro local a combinar, para desmontar de maneira incansável e apaixonada o desastroso disparate destas presunções sem tom nem som.
Tive, há cerca de 30 ou 40 anos atrás, a oportunidade de ver um filme documental em que o próprio artista tinha a suma coragem e a generosidade raríssima de dar a conhecer de forma franca o seu modo de estar frente à paleta do óleo ou perante a estante do inventor de obras cerâmicas. Executou, nem mais nem menos, à frente de todo o mundo, a forma como congeminava e levava a termo o mesmíssimo tipo de obras que já então eram entendidos e admirados por todos os seus inúmeros seguidores. Retirar desse modo ao gesto criativo o segredo da intimidade não o enfraquece nem o diminui. Permite sim que se escreva na parede luminosa da sensibilidade, em letras bem visiveis ao longe, uma mensagem de convívio directo com o espírito das artes e com a alegria do gesto consequente.

Fotografias de J.M.F. Coutinho na Livraria Almedina estádio, em Coimbra

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Publicado hoje, 15 de Janeiro de 2010, no Diário de Coimbra

Fazer fotografia pode ser um simples passatempo ou uma vaga vocação de registo de imagens marcada pelo sentido da contingência do tempo, das coisas ou dos seres.
Há, contudo, um reduzido número de pessoas que fazem fotografia como um pintor pinta, como um actor de teatro representa ou como um poeta constrói os seus poemas. Ou seja, para sobreviver. Para manter com a realidade e toda a complexidade de que ela se reveste uma ligação mais estreita, essencial e expressiva; uma tentativa de equilíbrio de forças que nos restitua aquele sentimento indispensável de pertença, de domínio, de entendimento das coisas.
Registar as imagens, por conseguinte, como tentativa de materializar impressões que merecem sobreviver e que jamais “aconteceriam” para além do seu segredo mágico, salvas da infinitude das coisas desconhecidas pelo privilégio do olhar.
O fotógrafo torna-se pois intérprete e tradutor de uma coisa imponderável, diferente e destacada do próprio objecto da imagem em si, uma transcendência nova, uma criação, em suma.
J.M.F. Coutinho é um fotógrafo que se situa exactamente nesse ponto de vista, tendo além disso o hábito de querer arrastar consigo uma quantidade de outros artistas, na senda de uma procura sem fim. Serve-se de todos os meios das modernas tecnologias ao seu alcance para fazer confluir inventores de imagens, praticando uma militância de generosidades que se torna rara na voragem de indiferenças de um quotidiano tantas vezes vencido pelo turbilhão das imagens sem sentido, pela torrente invasora do excesso televisivo, publicitário, propagandístico.
Olhando um conjunto de fotografias suas organizo o que vejo entre dois extremos tipológicos. Num deles amostras da realidade, objectos e seres nomeáveis, marcados entretanto por uma economia expressiva que os coloca muito perto do silêncio, da solidão e duma preocupação de mostrar apenas o essencial. No outro extremo a componente documental vai-se rarefazendo, dando lugar a uma visualidade pura, transformando o objecto ou a porção captada do real em exploração de texturas compactas ou densidades subtis. A luz, a água, a transparência ou a natureza palpável de objectos ainda perfeitamente identificáveis, por vezes, transformam-se em “acontecimentos” autónomos que não ouso classificar de abstractos, mas que independem largamente da sua matriz visual primária. Uma tal procura torna essencial o visível conferindo-lhe uma dimensão filosófica pela austeridade dos meios, sem lhe furtar a componente poética pela carga de “equívocos” ou de mistério que consigo transporta. No meu entender a sólida substância de que se constroem muitos dos trabalhos de J.M.F.Coutinho torna fácil memorizá-los. Tomo por isso a liberdade de os purificar da sua categoria de objectos legendados, ou legendáveis. E ao folhear as suas imagens, quanto mais olho, mais vejo. É este, penso eu, a função primordial da diligência de qualquer artista de artes visuais: dar a “ver”, de forma amplificante, uma certa captação das infinitas faces do mundo. Amplificante, no sentido em que daquela única imagem podemos extrair muitas imagens, ou muitas percepções do mesmo objecto retratado. O objecto ganhou vida própria, transformou-se numa entidade autónoma face ao próprio motivo e à sua circunstância.

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Fotografias de J.M.F. Coutinho na galeria da Livraria Almedina, ao estádio Municipal da cidade de Coimbra.

Dom Quixote (de Coimbra) pelo Teatrão, na Oficina Municipal do Teatro

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Publicado no Diário de Coimbra de 31 de Dezembro de 2009

Quando vi o anúncio do espectáculo do Teatrão, senti um ligeiro arrepio devido à indicação de que se trataria de um “Dom Quixote”, sim, mas “de Coimbra”.
A seriedade do trabalho que a companhia costuma apresentar dava-me as melhores garantias, mas não pude evitar aquele sentimento de temor perante uma aventurosa efabulação romântico-evocativa das virtudes mais usualmente celebradas da eterna Lusa Atenas.
A verdade dos factos veio tranquilizar-me dado que até a sóbria referência à paisagem que nos cerca é traduzida por um gesto poético da mais categórica eficácia teatral.
Um Dom Quixote pujante e juvenil (e que melhor metáfora poderia desejar-se para o que Coimbra gosta de ser) puxa do cantil de Sancho Pança e desenha no mapa imaginário que cada espectador transporta no seu olhar benevolente, por entre as árvores plantadas no instante, um rio Mondego, líquida sinuosidade em cujos recônditos ecoam os odores e sonoridades que nos têm embalado durante séculos. A plateia, plena de juventude, entende e vibra com essa forma subtil de dizer as coisas, tais como podem ser ditas mediante os melhores mecanismos da inteligência do Teatro.
É curto aqui o espaço para referir todas as implicações do trabalho construtivo desta iniciativa teatral, feita para ser, mais do que uma “simples” peça de teatro, um autêntico e variado projecto de intervenção e criatividade cultural. Comece-se por dizer que a peça em apreço é tudo menos simples e encaixa num universo cenográfico repleto de artimanhas e artefactos aparentemente “improváveis” para as fadigas e paixões “del ingenioso hidalgo de La Mancha”.
Com a parafernália envolvente de um decadente pátio das traseiras da sociedade consumista (ao qual não falta um avelhentado ecran por onde desfilam alusões ao entrecho e seus heroísmos) organiza-se no cenário um surpreendente “espelho do mundo”.
Há ali de tudo porém, para surpresa do espectador, para que ganhe credibilidade a narrativa fabulosa do Cavaleiro da Triste Figura e de alguns dos seus celebrados e dramáticos contendores, desde o Cavaleiro da Branca Lua aos maximamente simbólicos moinhos de vento de todas as visões às quais faz falta a consistência das duras realidades da vida.
O burro de Sancho vai aparecendo aqui e acolá, pitorescamente travestido pelos mais ingénuos e decadentes disfarces, marcando presença de que se não duvida porque impera no olhar de quem vê a receptividade franca que só o Teatro concede.
O final da peça é outra das surpresas que faz com que a história de Alonso Quijano e seu prosaico escudeiro possa entrar, aqui e agora, num imaginário a que queiramos chamar nosso.
As “dramatis personae” ascendem para o alto, lá onde no céu se alumia um cosmos de fantasiosas estrelas e cavalgam inesgotáveis instantes da fugacidade que lhes dá vida, pela via láctea da esperança; a tal reserva de energias que dá à juventude a tenacidade de continuar a ser o que é, continuando o Teatro a fermentar nas almas a lúcida compreensão da complexidade da vida.

Com peças como esta, com encenação e actores como estes, não podem queixar-se todos aqueles que se manifestam enfadados pela invasão do tédio e da trivialidade. Uma vez por semana, pelo menos, saiam da frente dos seus televisores e, TODOS AO TEATRO, que é atitude sempre nova e de urgente utilidade!…

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Ficha técnica e artística:
Dramaturgia: Jorge Louraço Figueira /
Encenação: Isabel Craveiro /

Elenco:

  • Inês Mourão,
  • João Castro Gomes,
  • Luís Campos Eiras e
  • Margarida Sousa / 

Música Original: Afonso Rodrigues e Filipe da Costa /
Apoio ao Movimento: Leonor Barata /
Desenho de Luz: Jonathan de Azevedo /
Dispositico Cénico e Figurinos: Helena Guerreiro /
Adereços, Construção e Montagem do Cenário: José Baltazar /
Vídeo: Alexandre Mestre / Sonoplastia: Rui Capitão /
Fotografia: Paulo Abrantes /
Grafismo: Sofia Frazão /
Costureira: Fernanda Tomás /
Produção Executiva: Isabel Craveiro, Inês Mourão, Leonor Barata e Margarida Sousa /
Equipa técnica: Alexandre Mestre, João Castro Gomes, Jonathan de Azevedo e Rui Capitão Contactos com as escolas: Nuno Carvalho /

Produção: O TEATRÃO 2009.

J.M.F. Coutinho e a sua obra fotográfica

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infinito


Conheço de J.M.F. Coutinho, isto é José Manuel Ferreira Coutinho, artista fotógrafo, por um variado conjunto de textos escritos que divulga na internet a respeito do seu percurso pessoal e ficheiros gráficos anexos, além de uma variada presença noutros sites especializados em fotografia.
Tive ainda acesso a um volumoso pacote de originais seus, o que alargou bastante a memória que tinha da exposição que fez no edifício Chiado, as “Filosografias”, e melhor me lembraria se para esta mesma mostra tivesse sido feito um catálogo, como é hábito na instituição relativamente à generalidade dos artistas que ali expõem e que se justificaria plenamente pelo mérito das obras expostas.
Vou deixar de lado o evidente prazer (ou necessidade) que sente em titular os seus trabalhos, depois mesmo de ter lido a defesa que faz dessa atitude. Lembro-me agora que também eu coloco títulos aos meus trabalhos de pintura. Com a diferença que os títulos que coloco aos meus trabalhos “nada” têm a ver com o conteúdo plástico dos mesmos. Ou seja, fogem deliberadamente a qualquer coisa essencialmente inerente à sua matéria plástica. Não confluem. São apenas um eco que, numa parede oblíqua, atira para outras paragens a multiplicidade das leituras possíveis. Ficam por isso ligados apenas à sua “matéria crítica”. No meu entender a sólida substância de que se constroem muitos dos trabalhos de J.M.F.Coutinho torna fácil memorizá-los. Tomo por isso a liberdade de os purificar da sua categoria de objectos legendados, ou legendáveis. Tenho uma das suas vinte e cinco fotografias aqui ao meu lado, e tenho olhado para ela à medida que venho escrevendo este texto e cada vez me sinto mais capaz de “vê-la” por dentro da sua complexidade, da sua espessura significativa. Como tenho as vinte e cinco fotografias sobrepostas faço agora um outro exercício de observação: Substituo a primeira das provas observadas por uma outra da série que aqui possuo. E o fenómeno do ganho de legibilidade repete-se a cada mudança de imagem.
Chegando a este ponto da apreciação do trabalho de Coutinho é praticamente supérfluo dizer que se trata dum diligente militante de causas artísticas, envolvido em projectos muito ambiciosos de agremiação cultural, envolvendo muita gente de muitos lugares.
Leio mais uma vez alguns dos seus textos e acho significativa a associação da calma e da serenidade, que usualmente valorizam e caracterizam os seus momentos de captação de imagens fotográficas.
É muito interessante fazer a conotação desta ideia com o conjunto de trabalhos que produz e aprender com isso a associar a atitude de olhar com a capacidade de ver. Encontrar, sobretudo, na pluralidade dos objectos e dos lugares que coloca ao alcance do observador aquela “pico” de tensão, que gosta de chamar “punctum”, à maneira de Roland Barthes, e que de forma tão particular pode ser chamado a referenciar algumas das suas captações.
A tranquilidade observativa, um certo culto do “silêncio”, são de facto condimentos particulares do seu modo de ver. Esse princípio ordenador conduz-nos a uma outra dimensão das suas observações: a tendência de sintetizar, de confinar ao essencial os meios de que se serve sem que eles percam a opulência expressiva. Uma imagem pode ser reduzida ao seu essencial, pode não depender de efeitos documentais e de focagem, pode “transgredir” até e não perder a capacidade de nos esclarecer, dando-nos prazer e provocando-nos emoção, ainda conforme Barthes. Alguma arte fotográfica parece conduzir esse princípio de economia de sinais a um despojamento tão extremo que subtrai inteiramente ao observador o motivo de olhar para ela. J.M.F. Coutinho é um homem delicado e não quer seguramente deixar-nos de “olhar vazio”. Algumas das suas sínteses mais concentradas são, aliás, aquelas que mais emoções nos comunicam. Umas vezes através da alusão poético-simbólica, outras vezes mediante o reforço da plasticidade dos elementos colhidos, por uma concentração de valores significativos de encontro à sua própria saturação.

segredo

No Edifício Chiado, em Coimbra, pintura de J. M. Bustorff (Ícaro espera por vós…)

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Ikarus ou homâge à El Greco, 2009 Têmpera a ovo com pigmentos s/ tela 220 x 220 cm


Não estamos em Creta, mas talvez nos encontremos de certa forma no exílio. O Rei Minos veste-se de mil disfarces e o voo de Ícaro perde sustentação despenhando-se sobre um mar de sombras desconhecidas, fragmentando-se em inúteis penas desirmanadas aquilo que foram asas, derretidas pelo sol impiedoso que condena sem remédio a cobiçosa ânsia de altitude, de fortuna e de domínio ilimitado de horizontes. A visita à exposição de Jochen Maria Bustorff desenrola-se toda dentro da sala iluminada e encanta-nos Mozart, a finura da sua musicalidade, da mesma forma que nos confrangem os alucinantes desastres da guerra, a semi-oculta paixão de Cristo pela carnavalesca contradição da desconcertada violência e nos aquece o sangue a cálida presença de mulatas estendidas ao sol, algures perto dos trópicos. Mas Ícaro está lá, à entrada da exposição, como um aviso solene pelo qual passamos quase distraídos, como se nada fosse o espectáculo de um homem despenhando-se na vertical, complicado pelos remotos mistérios do mito e pela teatralidade do drama barroco. Homenagem a El Greco ali se diz mas pergunto eu se não se tratará com efeito de um outro retrato de todos aqueles que olham muito e confusamente procuram organizar na mente a acumulação de sinais, o coro de gritos, a chinfrineira das campanhas.
Olha, aquele tipo vai de cabeça a fundo, dirão alguns. Os mais tímidos poderão pensar, não sem algum temor, será aquilo o retrato de algum de nós? Jochen Maria Bustorff, cujos cruzamentos com a identidade cultural portuguesa conduziram o seu próprio nome à curiosa assimilação simplificante de José Maria Bustorff apresenta aqui uma pintura de tão genuína autenticidade que dispensa as habituais referenciações estilísticas e a enumeração das dignificantes influências matriciais.
Bustorff evidencia a vitalidade própria das grandes culturas e dos homens cujo destino parece conduzi-los a medir forças com o mundo em geral, numa recusa evidente desse relativismo fácil em que se deixa enlear a maioria. Vários continentes, uma apreciável pluralidade de horizontes e uma multidão de alusões complexas fazem parte do seu campo de pesquisas, vivências e questionamentos de natureza universalista, logo, tendentes a ultrapassar toda e qualquer contingência ou limitação atribuível ao “meio”.

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Via Láctea, 2000-2005 Têmpera a ovo com pigmentos s/ tela 300 x 600 cm


A técnica que exibe em formações de vocação monumental é duma enérgica virilidade, rica de todos os equívocos da visão prospectiva da complexidade do mundo em desdobramento de alusões concretas possíveis de decifrar e de esclarecer (ao que o pintor não se escusa numa aberta franqueza de propósitos) não isentas contudo do confortável recheio de paradoxos que tanto estimulam a mente sequiosa do sagrado fascínio da pintura.
A tecnologia de que lança mão é toda fruto de pesquisa e de fabrico próprio (têmpera de ovo, pigmentos de origem remota, resinas autênticas e outros expedientes oficinais genuínos) e os suportes apresentam-se libertos de todos os complexos de loja de artigos de pintura. Aqui e ali eles próprios fazem parte da “pintura” que se deixa ver, denunciando a visão instantânea e o gesto rápido.
Da exposição fazem ainda parte uma notável galeria de retratos de pessoas anónimas, figuras de sociedades ainda distantes, de culturas recheadas de humanidade de que apenas temos a vaga ideia por noticiários geralmente assustadores de realidades traumáticas. São retratos de gente como nós e ajudam a saturar de humanidade este acontecimento artístico, que tem muito que se lhe diga e para o qual todos os meus leitores estão empenhadamente convocados, caso se deixem impressionar pelo que fica dito.

“Sabina Freire” de Manuel Teixeira-Gomes, pela Companhia de Teatro de Braga e pela Escola da Noite, no Teatro da Cerca de São Bernardo, em Coimbra

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Publicado no Diário de Coimbra de 4 de Dezembro de 2009

“Sabina Freire” é uma “comédia” pesada que acaba com um retrato de morte ao som de um achado de Tony de Matos, assim qualquer coisa muito mais saborosa e muito menos terrível que “o nosso fado”…
Ir ver esta peça é o melhor conselho que posso dar a qualquer espectador que tenha interesse por espectáculos construídos com paixão e a melhor cultura teatral. A cenografia é fluida e esteticamente eficaz, a direcção de actores e as respectivas interpretações são intensas, criativas e perfeitamente equilibradas, e não falta à encenação um conjunto de subtilezas que desafiam o sentido de observação do espectador avisado, adereço imprescindível para que uma apresentação cénica seja aquilo que deve ser: uma heróica empresa para quem a faz e um inteligente desafio para quem a desfruta.
Sem desprimor para detalhes mais sérios das profundidades da peça, agrada-me referir uma variedade de tipos que vão aparecendo do princípio ao fim e que se aproximam de forma quase literal de figuras carismáticas da banda desenhada.
Entretanto o espectáculo não se justifica apenas por si próprio, dado que se destina a fazer parte das comemorações do centenário da República e, ainda por cima, lança mão de um texto escrito por um intelectual finíssimo, homem de muitas artes e saberes, que muitos anos depois viria a ser presidente desta mesma República.
A obra, cuja qualidade nos faz pensar que melhor seria ter-se ganho um bom dramaturgo do que perder-se um desenganado presidente de república, traça da sociedade circundante uma análise perspicaz, irónica e quase trágica. Hesito em escrever o “quase” porque, à parte ter o próprio considerado a sua obra uma “comédia”, não lhe falta uma dimensão tão vasta de implicações sociais e psico-analíticas que, mais de cem anos depois (foi escrita em 1905) ainda se oferece como um retrato praticamente impiedoso de circunstâncias e fenómenos que o tempo não lavou e que todas as arquivoltas do devir histórico não têm conseguido senão aprimorar (e oxalá esteja eu bem enganado!…)
O desamor da injustiça social, as convenientes acrobacias da “gente fina”, a organização metódica das negociatas, o salamaleque jeitoso, o poder volúvel, a ambição desmedida que não recua nem perante o crime e (oh, céus!) o crime em que a própria vítima é o agente de ilibação do criminoso são metáforas sim, mas suficientemente realistas para cidadãos cansados disso no palco permanente da vida.
Homenagear uma república não está nada mal mas fazê-lo com uma obra-mestra de um seu presidente que se viu obrigado a renunciar ao cargo às vésperas de uma longuíssima ditadura, auto-exilando-se na Argélia, e que só pôde regressar ao seu país depois de morto e até assim com incómodos da polícia política, já é uma atitude problematizante que baste.

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Manuel Teixeira-Gomes aos 20 anos (1881), visto pelo pintor Marques de Oliveira


Por todas as razões e mais uma, “Sabina Freire”, da autoria de Manuel Teixeira-Gomes e encenação de Rui Madeira, em proveitosa parceria de companhias, no Teatro da Cerca de São Bernardo, em COIMBRA ou em qualquer outro palco, a não perder.

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Ficha Técnica:

Sabina Freire
de Manoel Teixeira-Gomes

Theatro Circo (Braga)
Teatro da Cerca de São Bernardo (Coimbra)

Encenação: Rui Madeira


Elenco:
Actores da CTB:
Solange Sá (Sabina Freire),
André Laires (Júlio Freire),
Jaime Soares (Dr. Fino),
Carlos Feio (Padre Correia e Procurador Ferreira).


Actores d’A Escola da Noite:
Sílvia Brito (Maria Freire),
António Jorge (Augusto César e Ministro),
Ricardo Kalash (Epifânio),
Miguel Magalhães (Josezinho Soares),
Lina Nóbrega (Josefina).


Cenografia: Rui Anahory
Figurinos: Sílvia Alves
Desenho de Luz: Fred Rompante
Criação de Som e Imagem: Luís Lopes
Criação Gráfica: Carlos Sampaio

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No Edifício Chiado “ciranda de muitas luas” de Roberto Chichorro

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Publicado no Diário de Coimbra de 3 de Novembro de 2009

Em mais uma realização em torno da ideia da pintura como visão do mundo oferece-nos presentemente a Galeria de Exposições Temporárias do Museu Municipal da Cidade de Coimbra uma “ciranda de muitas luas” construída com obras de vária natureza da autoria de Roberto Chichorro.
A mostra evidencia uma cuidadosa generosidade expositiva, com reminiscências do trabalho do artista em obras de certa antiguidade, mescladas com outras de mais recente produção e com exemplares de várias modalidades de expressão artística.
Diz-me o dicionário que uma ciranda é uma joeira ou uma espécie de dança popular. Mais me diz que cirandar é “andar de um lado para o outro nas lides da casa”.
Tenho dificuldade em fixar-me em cada uma destas opções, embora o nome por si mesmo, ainda que distante de qualquer significado, já tenha seu movimento garboso e uma graciosidade inexplicável.
As muitas luas coroam a totalidade de sentidos com uma solenidade nocturna que está bem expressa num abundante número de obras de Chichorro que – não obstante – nos oferece uma pintura feliz.
Dizer pintura feliz não é dizer pouco, embora as categorizações habituais não se conformem com uma tão grande simplicidade classificativa e prefiram afirmar coisas mais substanciais de nível “onírico e surreal” ou envolvendo a sugestão do “cubismo pictórico”.
Eu dou-me por satisfeito chamando esta arte pelo nome, dizendo que é feliz, poética, aromática e suavemente nocturna.
Se a chamo nocturna, acrescento que é feérica, vibrante de cores, e as luas – de facto – transportam consigo a carícia morna de noites cálidas de odores acentuados.
As figuras presentes convivem frequentemente com animais até ao ponto de se resolverem em metamorfismos como ressonância de energias secretas e mitologias remotas. Porém, além da sugestão simbólica da música há como que uma gravidade nostálgica em todos os presentes, um silêncio contemplativo de inseguras expectativas.
Abstenho-me quanto à familiaridade anunciada entre esta pintura e a de Chagall, e também não me perco em considerações complexas de africanidade relativa naquilo que toda a pintura pode ter de localmente imagético ou de apelo universalizante.
A pintura de Roberto Chichorro, apesar de fortemente intuitiva, solta, impregnada do gesto livre, construída à base de manchas que entre si travam um diálogo permanente de correspondências e contaminações tonais, parece-me predominantemente cerebral. Cada figura ou cada grupo de figuras se apoia ou é enquadrado “cenograficamente” por elementos estruturantes de raiz geométrica, mesmo que muitas vezes habilmente atenuado o seu efeito mediante a liberdade do tratamento cromático e com o apoio de variado leque de soluções de complemento gráfico.
A variedade de espaços assim dinamicamente modulados é intuitivamente apropriado pelo pintor das mais variadas formas, entregue a uma evidente espontaneidade de execução e ao notório prazer de acrescentar tonalidades contrastantes, gestualismos variados, tracejados, referenciais de registo caligráfico, etc.
Por detrás de algumas figuras ergue-se a estruturação geometrizada de painéis ou tapeçarias numa simpatiquíssima alusão às artes cerâmicas, de que o artista não deixa de dar testemunho em obra feita noutro sector da sua produção, que se alarga em exemplos eloquentes de imaginário escultórico pleno do referencial surrealista.

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A não perder, obras artísticas de Roberto Chichorro no Museu Municipal de Coimbra, Edifício Chiado, até 21 de Novembro.

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Ida e regresso aos Estados Unidos de um português da Relva

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Estes textos e estas ilustrações documentam a ida e regresso de Sebastião de Matos Gomes aos Estados Unidos da América, onde viveu cerca de dezasseis anos, de 1911 a 1926 na cidade de Providence, no Estado de Rhode Island. O presente trabalho, incluídas todas as ilustrações, foi publicados em Setembro de 2009 pela revista “Gávea-Brown”, Revista Bilingue de Letras e Estudos Luso-Americanos (volumes XXVIII-XXIX, 2007-2008) publicação anual patrocinada pelo “Department of Portuguese and Brasilian Studies” da Brown University de Providence, RI, e corresponde a um convite pessoal que me fora feito por Onésimo Teotónio de Almeida, professor daquela Universidade e co-director da referida publicação.

Capa Gávea Brown

Narrativa de Costa Brites na qualidade de neto de Sebastião de Matos Gomes
Coimbra, Setembro de 2009
(versão original – Maio de 2008)

Peço aos visitantes o favor de clicarem, debaixo do título acima, na indicação 1 Reply, que dá acesso a um comentário muito valioso para mim da autoria de meu primo Carlos Manuel de Matos Gomes, que usa – como escritor – o pseudónimo de Carlos Vale Ferraz .
Trata-se de um sobrinho-neto de meu avô Sebastião de Matos Gomes, isto é, filho de Manuel de Matos Gomes, primo direito de minha Mãe, Maria de Lurdes (de Matos Gomes) Brites.

Parte I – Itinerário de vida e recordações pessoais

A vida esforçada de Sebastião de Matos Gomes e de sua família, descrita à maneira de narrativa ficcional, forneceria matéria para uma obra muito rica de factos emblemáticos duma epopeia portuguesa de tantas gerações de emigrantes que encontraram na aventura de partir aquilo que não encontraram, de outro modo, na sua pátria de origem.
Tantos são os livros que se não escrevem, tantas as memórias que se perdem, tantos os trabalhos e sacrifícios que ficam por contar que a falta de mais um nada importa no largo oceano dos sonhos ignorados.
A breve resenha que aqui apresento das memórias que tenho da passagem de meu avô pelos Estados Unidos da América é apenas um registo simples de natureza afectiva.

Um conjunto de circunstâncias pessoais fez com que eu tenha sido um dos seus mais íntimos companheiros de conversas no derradeiro período da sua vida. A diferença de idades e o distanciamento no tempo das experiências de cada um, contudo, fazem com que Providence, para mim, não passe de um lugar fora de todos os mapas possíveis deste mundo que contemplo de longe com a saudade inexplicável das coisas que nunca vimos. Ainda conheci e convivi também com o seu irmão, meu tio Guilherme (ou Guilhermino) de Matos Gomes que fez nos Estados Unidos um percurso muito semelhante ao do meu avô e que nutria pela sua estadia ali o mesmo género de emotivas recordações.
Tive, e ainda tenho, familiares já distanciados e desconhecidos a residir em Providence ou nas suas imediações.
O único contacto assinalável com contemporâneos do meu avô em Rhode Island, ainda ali residentes à época de uma sua visita feita no fim dos anos 50 a Portugal, foi com o meu tio Joaquim Pires (que residiu em Barrington, era irmão de minha avó e, portanto, cunhado de Sebastião) e sua segunda esposa, a Tia Maria Pires, de Fornos de Algodres.
Recebi a visita nos anos 90, já em Coimbra, de uma filha de Joaquim chamada Leopoldina (Pauline), com quem estabelecemos um contacto muito simpático que poderia ter resultado numa viagem a Rhode Island, não fosse a América um tão longínquo destino de visitas.
No auge da minha adolescência surgiu o sonho inconsequente e frustrado de poder ir viver para Providence, que nunca veio a concretizar-se devido – entre outros – ao facto de meu avô ter trazido sua esposa a Portugal para que aqui nascesse minha mãe, o que lhe retirou direitos de regresso. capital daquele pequeno estado da União tornou-se portanto, para sempre, um lugar idealizado e abstracto.
As pessoas que me conhecem e que me visitam ficam sempre muito surpreendidas por ver no meu atelier de pintor uma velha bandeira dos Estados Unidos da América que, em cores esmaecidas pelo tempo, além das riscas brancas e vermelhas mostra 48 estrelas brancas muito bem arrumadas sobre fundo azul forte: o número de Estados da União nessa época…

OLYMPUS DIGITAL CAMERAa bandeira “do Papá”

É a última coisa que poderiam esperar em minha casa, tão ostensivamente exposta.
Mas a todos explico que aquela bandeira não é de potência mundial nenhuma, mas sim estandarte amorosamente guardado e estimado do país das recordações de meu avô, com a qual me deixava brincar por privilégio especial concedido ao seu primeiro neto.
De seu nome Sebastião de Matos Gomes nasceu no dia 5 de Outubro de 1885, tendo ido para a América depois da implantação da República em Portugal em 1910, e regressado a Portugal em Agosto de 1926.
No dia 12 de Julho de 1942 nasci na sua casa em Cernache do Bonjardim, contava ele 56 anos, portanto.

…O pano de fundo desta fotografia nada tem a ver com a elegância daquelas que meu avô tirou na América. Os retratados são minha avó Maria, meu avô Sebastião e o autor desta narrativa com poucos meses de vida.

Meu pai era de Leiria, para onde vim viver, passando entretanto largas temporadas em Cernache do Bonjardim, lugar eleito de brincadeiras e convivências de família.
Em 1949 iria falecer meu pai por acidente rodoviário, facto que originou uma transformação imensa e desastrosa em todo o decurso da minha vida. Sebastião tinha portanto 64 anos, tendo vindo viver para Leiria com a Mamã (assim todos chamávamos minha avó).
Embora tenha começado cedo a exercitar um certo gosto pela escrita nunca tive a disponibilidade ou a capacidade para encetar uma recolha sistemática e organizada das memórias de vida desse meu grande amigo e protector moral, o que lamento de forma indescritível.
Pelas iluminadas manhãs da sua Quinta da Salgada passeávamos pelo arvoredo, pela chã e pelas hortas, atrelávamos o cavalo ao engenho, enquanto lhe perguntava e ele gostosamente me contava coisas da América.

Papá, Mamã, minha mãe Lourdes e tia Lídia

Dezassete anos separam esta fotografia (tirada em Providence em 1925) daquela que acima se encontra publicada, e não fazem falta as palavras para acentuar o contraste de universos que vigorava entre Cernache do Bonjardim, Beira Baixa e Providence, Rhode Island. As pessoas adultas retratadas são as mesmas, acompanhadas aqui pelas duas filhas Maria de Lurdes, minha Mãe (de pé) e Lídia (sentada), não estando ainda presente a terceira filha do casal (Ermelinda), que viria a nascer em 1926

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– Oh Papá, alguma vez falou com cow-boys?

Houve um desgosto que, sem saber, me deu um dia meu avô.
Passageiro legítimo da geração das histórias de quadradinhos, e desde cedo habituado a ir ao cinema – de quando em vez – com os meus pais, acreditava no mundo encantado dos cow-boys do Far-West, das histórias do Cisco Kid, do Falcão Negro do grande desenhador português Eduardo Teixeira Coelho (que assinava Etc), de Búfalo Bill, dos filmes a preto e branco de John Ford e de outros.
Perguntei um dia ao meu avô se tinha visto ou conversado com cow-boys!…
Habitando na Nova Inglaterra, longe das pradarias das grandes aventuras, os cow-boys em nada se tinham relacionado com a sua experiência.
E lembro-me como se fosse hoje o ter-me dito que alguns cow-boys não passavam de guardadores de vacas (os rapazes das vacas) e que outros eram “uns grandes ciganões”!…
Tal explicação não deixava de ser perfeitamente realista, é evidente. Mas não é de realismos que se alimenta a curiosa fantasia de um petiz de dez anos, mais coisa menos coisa.

09 a pVista Geral de New York com algumas das suas pontes, conforme colecção de postais ali adquiridos por meu avô

Algo me consolou saber que sempre tinha visto cow-boys, mas apenas nos fantásticos desfiles de espectáculos de circo (“as Çâkâss”, circus) que sempre suscitavam imensa curiosidade pública quando chegavam a Providence: os tais “ciganões”, a cavalo, a revoltearem o laço e com grandes bigodaças. Sobre as tais “Çâkâss” havia um detalhe que era sempre muito bem explicado, como coisa prodigiosa da América.
Todo esse mundo fantástico sobre rodas se instalava num grande espaço da cidade, fazia a propaganda através desse tal grande desfile, dava um pequeno número de espectáculos sempre à cunha de público entusiástico partindo num ápice para outras terras!…
Na América era tudo assim, fulminantemente rápido e eficaz, e havia também a história daquela ponte (julgo que em Nova York) cuja montagem fora tão intensamente planeada e organizada que colocá-la no seu lugar durara apenas o espaço de uma noite para o dia seguinte!…

Tenho a felicidade de ter um neto que é muito meu amigo. Brincamos muito, conto-lhe muitas histórias, pintamos os dois com grande alegria e fazemos bonecos que ilustram as nossas mais delirantes invenções. Revivo nele e com ele a mesma alegria comovida que sempre vi no olhar de Sebastião nos anos em que acalentou a minha mais feliz infância.
América à parte, e embora o subtítulo colocado acima demonstre que naquele tempo não se tratavam os antepassados por tu, oxalá possa o meu neto lembrar-se um dia de mim com a apaixonante alegria e o comovido enlevo com que me tenho lembrado sempre de meu avô.

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 photo a5b24df4-dfc5-4a0b-b629-6cf6be0943ce.jpgO meu tio Guilherme, o meu avô, eu e o meu primo Alfredo José Brites, segundo neto seu, em Cernache do Bonjardim, algum tempo antes de 1949.

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Origens e partida para a América

Quando o meu avô Sebastião de Matos Gomes nasceu, no ano de 1885, era uma criança extremamente débil e nos tempos desamparados em que viveu a sua primeira meninice, no seio de uma família muito pobre de pequeníssimos agricultores da baixa Beira Baixa, era duvidoso que viesse sequer a sobreviver. Contou-me muitas vezes que sua mãe o levava deitado numa cesta e que o colocava à sombra de uma árvore durante os duros trabalhos do campo, onde mal se mexia dada a sua falta de energias.
Tendo conseguido sobreviver a esse difícil período atingiu a idade adulta como homem de baixa estatura mas de carácter decidido e presença enérgica.
Um dos receios que mais o afligia era essa sua baixa estatura e a impressão que havia gerado todo o decurso da sua infância de que jamais viria a tornar-se um homem como tantos outros.
Teve que reunir forças, entretanto, para enfrentar os duros trabalhos do campo e fazia até parte dos grupos de trabalhadores de jorna forçada que iam para as extenuantes ceifas no Alentejo, nas migrações anuais que os denominados “ratinhos” da Beira faziam para as terras alentejanas, e cujo enorme sacrifício tanto lhe ouvi narrar em memórias sofridas de tempos idos.
A ceifa obrigava a um esforço terrível de corpos vergados sobre a terra debaixo do calor e da secura alentejanos. A única forma de poder descansar alguns momentos de vez a tempo daquela posição forçada era o intervalo consentido para fumar um cigarro, dizia-me. E assim devido a essa única razão se foi habituando ao cigarro, vício que viria a abandonar quando passou a sofrer de alguma bronquite.

Foi nesses plainos do Alentejo que aprendeu a ler. Os trabalhadores da ceifa depois do sol se pôr e à luz duma lanterna organizavam-se sob a orientação de um voluntário que conhecesse as letras e trocavam conhecimentos e instrução elementar entre si. Um dos camaradas (assim se chamavam os ceifeiros maduros) que exerceu essas funções de rústico mestre escola foi um tio meu, chamado Joaquim Pires, irmão de minha avó Maria da Silva (“Mariana”), e que mais tarde também emigrou para os Estados Unidos da América, para Providence, onde foi operário da indústria de fiação e onde ficou até ao fim dos seus dias.

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Chegado o momento de “ir às sortes”, ou seja, de “tirar o número” que definia o destino militar dos jovens mancebos de então, Sebastião teve a enorme alegria e até o orgulho de ter sido apurado para o serviço da tropa. Foi a consagração de que era de facto um homem válido como os outros, sendo o seu regresso a casa com a fita vermelha na lapela do casaco que ostentavam os “apurados” um momento de rara felicidade. Numa família de homens altos foi ele, aliás, o único apurado para o serviço militar. “Ainda servi o Rei D. Carlos”, usava dizer, tendo tido a especialidade de tratador de cavalos o que era outro dos seus motivos de vaidade. Pela diferença de apenas uma incorporação livrou-se de ser mobilizado para as campanhas de África onde os seus camaradas de armas se bateram na guerra contra o Gungunhana, em Moçambique.
Quando regressou da América alimentou o grande gosto de possuir sempre um cavalo que o recordava dos encantos de cavalgadas pelos campos de Tomar, no treino da montada do comandante do quartel general dessa cidade, tarefa honrosa que lhe coubera a si.
Costumava portanto ter sempre um cavalo para a sua locomoção e eu próprio ainda andei não poucas vezes nos que possuía na Quinta da Salgada, em Cernache do Bonjardim.
Tal como certo cão favorito que fez época e se chamou “Rocky Point”, também os cavalos que foi possuindo ostentavam sempre o mesmo nome importado: o “Pony”, em preito de memória aos seus tempos de Providence, nome pronunciado – já se vê – com a entoação especiosa das palavras vindas de além Atlântico.
Acabado o seu serviço militar rumou para os lados de Lisboa acompanhado de seu irmão Guilherme em busca de melhor vida e de outras condições de trabalho.
Nas vésperas da proclamação da República em Portugal eram ambos operários no maior conglomerado industrial do nosso país, a Companhia União Fabril ou CUF do Barreiro, como era conhecida.
No dia 5 de Outubro de 1910 sei que se deslocaram até Lisboa, na data que era também do aniversário de Sebastião, para darem fé do que se passava.
Na sequência da queda da monarquia os empresários fizeram como costumam fazer noutras ocasiões similares: despediram grande quantidade de trabalhadores. Sebastião não foi despedido mas sim Guilherme e os laços de família que eram fortíssimos levou-o a despedir-se, ele próprio, por solidariedade.
Seguindo o caminho de conterrâneos seus da baixa Beira Baixa (área de Vila de Rei) demandou terras da América do Norte, levando até lá, mais tarde, alguns outros irmãos, vizinhos e parentes.
Quem lhe prestou ajuda na sua ida para a América deve ter sido Manuel Mendes Diogo, da Relva/Vila de Rei, ali residente, que foi tio de um outro luso-americano posteriormente nascido em Providence (é da geração das filhas do meu avô) e ali mais tarde bastante activo como industrial de salsicharia, Diamantino Mendes Henriques. Este casou com Leopoldina Pires Henriques, prima direita de minha mãe, por ser filha de Joaquim Pires, irmão de minha avó Leopoldina, e da segunda esposa de Sebastião, Maria da Silva, minha avó por eleição do mais profundo afecto.
Joaquim Pires terá sido uma das pessoas que meu avô ajudou a ir para os Estados Unidos, ali tendo residido até ao fim dos seus dias, e já foi referido no episódio das lições de leitura na campina alentejana, noites adentro.
Já tive o prazer, como já disse antes, de receber a visita dessa minha prima Leopoldina aqui em Coimbra, que vive ainda em Rhode Island e adoptou o nome de Pauline.
A maior parte destas pessoas e seus familiares encontram-se sumariamente referidos numa obra acerca de “Vila de Rei e a sua Gente”, de autoria do Padre José Maria Félix, agrupados em duas linhas familiares, os Matos Gomes do Vale da Urra e os Silvas da Relva, ambas as localidades situadas no concelho de Vila de Rei.

 

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Estamos no Picoto da Milriça, virados para Nordeste, local onde existe o “Museu da Geodesia” e um marco geodésico que assinala o centro considerado exacto de Portugal. Por detrás do cabeço que vemos ali à frente, um pouco à direita, situa-se a Relva, onde nasceu meu avô.

07 pEste é o conhecido marco geodésico acima referido, à direita o museu, e em frente, lá muito longe, do outro lado do mar que não se vê daqui, o país onde se encontra Providence.

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As viagens

No tempo da juventude dos meus avós não havia comodidades em nenhum aspecto da vida. As “camionetas da carreira” e os próprios automóveis não existiam, nem em sonhos.
Depois das terríveis invasões dos soldados franceses (que cometeram inúmeras atrocidades nas terras onde viveram meus tetravós) e das guerras civis entre absolutistas e liberais que se sucederam deixando o país na mais profunda miséria, a segunda metade do século XIX ofereceu apesar de tudo um notável desejo de recuperação.
A poucas léguas da Relva, no Rossio ao Sul do Tejo (conhecido também pelo Rossio de Abrantes) inaugurou-se, exactamente no ano em que nasceu Sebastião de Matos Gomes, uma estação de caminhos de ferro.
Havia além disso o transporte fundamental, a pé, e a saca às costas com o pequeno dispositivo de modestíssimos recursos. Para viagens de matérias mais pesadas serviam os “carreiros” com as suas parelhas de bois e os seus carros de mulas e cavalos. Para coisas mais miúdas, os burros. No tempo do meu avô, lá fundo no horizonte próximo permanecia em uso essa enorme via de transportes que era o rio Tejo e os seus barqueiros.

Foi essencialmente a pé que Sebastião se deslocou nas idas e vindas para trabalho no Norte Alentejano, nas maltas de “ratinhos” (trabalhadores migrantes da Beira Baixa que ceifavam no Alentejo) organizadas ali mesmo na Relva e noutras localidades vizinhas por “manajeiros” encartados. A pé foi com toda a certeza para a tropa, porque Tomar era “ali perto”. Nas idas e vindas para embarcar para a América, a pé e de comboio inicialmente. Mais tarde, no regresso com toda a família, o seu estatuto de emigrante bem situado permitiu-lhe alugar um automóvel, que venceu como pôde a precária ligação por estrada até Cernache do Bonjardim, pela qual só anos mais tarde – para lá dos meados de trinta – viriam a circular as camionetas de carreira.
As abundantes bagagens de porão que trazia ficaram na alfândega de Lisboa, e terão vindo de comboio até Tomar, por ficar mais à mão que o Rossio de Abrantes, transportadas por “carreiros” depois, até Cernache.

Das histórias e anedotas que o meu tio Guilherme contava com imensa graça faziam parte os episódios de carreiros e barqueiros do Tejo, e episódios singelos das noites passadas em pensões modestas, nas idas e vindas que a vida deu. Entre elas a do barqueiro de Santarém, explorador e avaro, ludibriado por um conterrâneo ali das “terras detrás do Sol posto”, que acabava na maior cascata de gargalhadas, em que o esperto beirão, depois de ter comido as papas na cabeça ao maldoso barqueiro lhe perguntava já da margem, no fim da viagem:
– Queres mais “silada”, santareno?
“Silada”, aqui, não era sinónimo de armadilha como o jogo de palavras pode graciosamente sugerir. Era sim a “salada” que o modesto beirão tinha papado sem pagar, furtando-se ao poder que o barqueiro foi tendo sobre ele, enquanto embarcado.

A passagem de Sebastião pelo serviço militar mostrou-lhe Lisboa e o emprego que teve depois na Companhia União Fabril do Barreiro e as travessias do Tejo devem ter-lhe tornado familiar o perfil majestoso das imensas máquinas a vapor que levavam passageiros para longes terras. A viagem para os Estados Unidos no bojo duma dessas enormidades não pode ter deixado de ser fantástica e a chegada à América, ainda que apoiado por patrícios seus, nada menos que estonteante.

Em certa altura, já nos Estados Unidos, adquiriu meu avô uma colecção de postais de Nova York com vistas da enormíssima cidade, que me explicava sentando-me no seu colo, com um ligeiro tremor nas mãos e com grande entusiasmo e admiração na voz.

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08 pNew York City Souvenir Folder/Views in color

09 pEstas são a capa e a contracapa do “souvenir folder”

 

10 pNew York Harbour from the Battery showing Statue of Liberty and Ellis Island

Aqui o aspecto do grande porto de entrada nos Estados Unidos, bem diferente do Tejo, mas também cenário de grandes viagens e de “muitas e desvairadas gentes”

11 p Elevated R.R. Curve at 110th Steet, New York

Este é um dos tais comboios que trovejavam por cima das cabeças estonteadas dos recém-chegados

12-p1A Queensboro Bridge over Blackwell’s Island, East River, New York

Seria esta uma das tais pontes que na América, dizia-me, se construíam com grandes proezas de técnica e em menos de um fósforo?

Os empregos de Sebastião na América

Depois de embarcar para os Estados Unidos da América, Sebastião trabalhou primeiramente numa fábrica de papel, o “Paper Mill”, com uma passagem – ao que julgo breve – por trabalho num navio que efectuava transportes ao longo da costa, nas imediações de Providence.
Nos seus começos também trabalhou por curto espaço de tempo numa trefilaria, ou seja, numa unidade industrial onde se efectuava o tratamento de peças de aço, trabalho que era extremamente desconfortável e perigoso até, pelo que veio a abandoná-lo.

13 pFoi num barco deste género que Sebastião trabalhou, não durante muito tempo, quando chegou à América.

A última fase da sua actividade profissional foi passada na “E. M. Dart”, onde era operário que examinava juntas e válvulas de passagem de fluidos, rejeitando as que não estavam em condições. Dizia com certa vaidade que era o último homem das linhas de controlo de qualidade e, como era cumpridor e esforçado, não admira que tenha conservado o emprego durante a maior parte da sua permanência na América.

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Numa fase inicial trabalhara como “watch man”, durante a noite. Percorria a unidade fabril e as suas várias instalações em rondas no decurso dos quais tinha que accionar relógios que demonstravam a sua passagem por esses locais. No Portugal de antanho, um tal emprego deixava as pessoas que o ouviam contar a história de boca completamente aberta.



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Casamento em Providence, com uma portuguesa da Relva

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Sebastião casou em primeiras núpcias com Leopoldina da Conceição, uma portuguesa muito bonita, sua conterrânea da Relva, muito parecida, aliás, com a sua primeira e única filha, minha Mãe.
Ao longo desta breve narrativa há duas mulheres as quais trato indistintamente como “a minha avó”. Uma é Leopoldina por quem meu avô se apaixonou, lindíssima nas fotografias que felizmente possuo como herança grave e preciosa, e que olho com uma saudade inexplicável e dolorosa pelo abismo duma morte em plena flor da idade.
A outra minha “verdadeira” avó chamava-se Maria da Silva, Gomes pelo casamento, a preciosa e “única” avó, coração generosíssimo de mulher por todos estimada e admirada. Sebastião habituou-se a tratá-la por Mariana devido a brincadeiras da alegre e harmoniosa convivência que mantinham, nome de que Maria não gostava porque era alusão espirituosa a uma sua antiga namorada.
Voltando entretanto a Leopoldina e à primeira fase da sua estadia nos Estados Unidos: Sebastião, numa atitude de exacerbado carinho pela terra mãe decidiu fazer com que a primeira filha de ambos viesse nascer a Portugal, decisão trágica para a jovem esposa que morreu três meses depois de um parto difícil, ao que parece por apendicite aguda, numa terra carente de todo o apoio hospitalar já então disponível em Providence.
O infeliz acontecimento causou na alma de Sebastião um terramoto de desgosto sem fim.

Uma irmã de Leopoldina, que tinha tido anteriormente uma secreta inclinação por aquele que viria a ser seu cunhado, não hesitou – por solidariedade com a menina e sua falecida irmã – sujeitar-se a uma decisão pouco ortodoxa para os prazos e formalismos morais da época e do lugar: acompanhar Sebastião sem mais delongas para os Estados Unidos, apenas feito casamento civil, tendo o enlace matrimonial católico tido lugar depois, já em Providence.

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A “pneumónica”

Numa certa altura foi o mundo inteiro sacudido pelo medonho fenómeno da chamada “peneumónica” ou “gripe espanhola”. Sebastião regressava um dia de seu trabalho e, ao atravessar um jardim de Providence, soltou-se-lhe um vómito estranho da cor do sangue. Ficou preocupadíssimo porque sabia que era um dos sintomas de estar inoculado pelo vírus da doença. A forma como sempre contava a história dos factos ocorridos depois estava a meio caminho entre a realidade que certamente viveu e uma espécie de acaso proveitoso do destino, que não sei explicar. Dizia que se aconselhava às pessoas assim receosas que regressassem imediatamente a casa, que recolhessem ao leito bem agasalhadas e que fumassem e bebessem bebidas alcoólicas, dentro do que fosse possível. Sebastião assim fez. Diz ter passado por um estabelecimento logo de seguida, onde adquiriu algumas onças de tabaco e garrafas de whisky. Transpirou os trinta farrapos e assim aguentou um certo número de dias, o prazo crucial que era indicado para os felizes que conseguiam vencer a enfermidade.

Que a história é verídica não duvido porque meu avô era um homem de sinceras verdades. Quanto à mezinha e ao resultado que alcançou não me convencem muito, mais me parecendo recurso de certo desespero para pessoas distanciadas de outros meios mais especializados, ou pela falta de tratamentos que não existiam na altura, pois não haviam ainda sido descobertos.

 

17 mos

Terá sido no “Café delle Tre Stelle” que Sebastião comprou as bebidas de que falava? Foi por certo antes da aplicação da Lei Seca, o que está conforme com a época em que a doença se propagou (1918) e a data de promulgação daquela lei (1920). A peça que aqui se mostra é uma pequena relíquia do meu avô por ele trazida de Providence.

A decisão do regresso a Portugal

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Tendo três filhas meninas, não quis Sebastião dar-lhe a educação americana já muito permissiva nessa altura para os seus hábitos, e resolveu regressar a Portugal acompanhado de toda a sua família, facto que causou o maior desgosto à minha avô “Mariana”.
Ela bem sabia quão “arrastada” era a vida das mulheres em Portugal, habituara-se já a um sem número de facilidades e comodidades usuais da Norte América e doeu-lhe muito a decisão de seu marido. Esta foi tomada de uma forma inaceitável para os dias de hoje, mas porventura entendível para a época em que viviam, patriarcal por excelência. “Mariana” soube que iria regressar a Portugal apenas no dia em que Sebastião chegou a casa com os bilhetes da viagem transatlântica já guardados no seu bolso e com data marcada para o embarque.
Lá se ficava a casa modernizada na qual não faltava um antecedente do frigorífico (a “ice box”) para conservação dos alimentos, a abundância de produtos num mercado muito mais evoluído, a graça e conforto dos trajes, a escola a que as meninas estavam já habituadas e a língua dos residentes que já dominavam. No seu regresso a Portugal esse facto produziu-lhes um choque terrível na nova escola que passaram a frequentar, onde as outras crianças as aceitaram de forma estranha dada a linguagem que usavam entre si. Esse facto acelerou de forma dramática a rejeição do inglês que nunca mais voltaram a praticar na sua vida.
Sem saber o que iria acontecer no futuro imediato naquela sua amada América, Sebastião teria tomado, contudo, uma decisão circunstancialmente acertada. Tendo regressado antes da “grande depressão” pôde vender ainda a sua casa com facilidade por um preço conveniente e formar um pecúlio suficiente para se instalar com a família em Cernache do Bonjardim.
Mesmo que eu não tivesse uma informação detalhada a respeito de tais factos históricos, são claras na minha memória juvenil as referências a algo que teria acontecido por lá, que impediu depois muitos portugueses de realizarem, durante certo período, o sonho dourado de regressarem à sua terra gozando dos proveitos dum mealheiro confortável. Foi o caso, aliás, do meu tio Joaquim Pires, irmão da minha avó “Mariana”, que gorada a oportunidade de regressar nessa altura ali se enraizou e residiu até ao fim dos seus dias.
Lembro-me bem de ouvir falar, nas visitas que lhe faziam alguns torna-viagem daqueles tempos, das súbitas mudanças na situação económica. Que bem tinha feito o meu avô em regressar antes da crise porque tinha conseguido amealhar um bom pecúlio por ter podido vender a sua casa ainda por uma boa porção de dólares.

19 p

Quanto à exactidão concreta das motivações do regresso de meu avô, julgo que a questão da educação das suas meninas não cobre toda a verdade, tendo sido essa uma forma sentimentalmente airosa de “verdade oficial” que pode justificar uma rejeição mais global duma certa forma de vida. Essa atitude foi, aliás, adoptada por uma grande quantidade de outros emigrantes portugueses radicados nos Estados Unidos que regressaram naquela época a Portugal. Regresso que, no caso do meu avô, também não era para ser definitivo, o que é comprovado pela forma cuidadosa como se documentou em relação a um eventual retorno e por declarações feitas nesse sentido.
Tendo-se tornado definitiva a permanência portuguesa em tempo de “grandes depressões” nos USA, teve a virtude de transformar um operário que seria sempre modesto num “proprietário” rural de algum respeito, o que não deixou de ser uma subida interessante de estatuto para um antigo e sofredor “ceifeiro” de além Tejo!…
Quanto às saudades, ao “arrependimento” e outras ocorrências futuras, isso são contos largos.

O escasso número de pessoas que conhecia a história sabia bem que o olhar pesaroso da minha avó, nesta fotografia, registava bem o desgosto que foi, para si, deixar Providence e uma vida diferente na América.

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Documento que teria permitido ao meu avô regressar aos Estados Unidos, durante um certo período.

 

Cernache do Bonjardim, lugar de regresso

Durante um largo período de mais de 20 anos Sebastião e sua “Mariana” gozaram, portanto, a circunstância de ser um casal unido que criou as suas filhas num meio que tinha características especiais e no qual eu tive o privilégio de ser o primeiro neto a surgir, tendo por isso como nome próprio o mesmo nome que meu avô. Chamo-me José Sebastião Gomes (da Costa Brites), José da Costa Brites herdado de meu pai e Sebastião Gomes de meu Avô.
Vivi em Cernache do Bonjardim não muito tempo mas o suficiente para ali ter apreendido uma deliciosa visão da vida, de tal forma que concebo a Quinta da Salgada, o local onde eu nasci, como uma verdadeira “memória do paraíso”.
Esse é, aliás, o nome de um livro que gostaria de escrever, contendo, além de muitas outras coisas, as inúmeras referências da passagem de meus avós, seus familiares e conhecidos por lugares, ruas, parques, lojas, rios e mares fascinantemente longínquos cujos nomes se foram tornando familiares: Providence, East Providence, Newport, New Bedford (“Niu Betfet”), Pawtucket (P’táquêt), Barrington (Barrinton), Bristol (Brístola), Fall River, Cranston, Seekonk, Rocky Point (nome que para mim era mais do tal cão que houve na Quinta da Salgada do que de um lugar qualquer que possa ter existido algures), o Crescent Park (o Cri’cent pák) e uma tal prodigiosa e grande loja chamada o Outlet, onde havia de tudo.
Isto para não falar de tantos lugares de nome sonante dos quais sinto uma perfurante saudade porque nunca neles habitei e mesmo se agora os visitasse já não teriam nada do encanto com que me habituei a habitá-los na memória: a Warren Avenue, a Wickenden Street, a Broadway, a Freeborn Avenue, a Gano Street, que sei eu…

Da imensidade de hábitos que meu avô trouxe da América, muitos posso dizer que ainda persistem em minha própria casa, anos e anos depois do seu desaparecimento e muito mais anos depois da sua saída desse longínquo país.

22 pSebastião de Matos Gomes
Fotografia tirada em Lisboa, nos Restauradores, em 1926 – data em que regressou dos Estados Unidos.

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Tralhas velhas estimadas como preciosos vestígios de felicidade…

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Numa época em que as travessias atlânticas eram feitas de barco a vapor era prática normal trazer móveis e utensílios de todos os géneros, inclusive certas inutilidades que ficavam apenas como memórias dum tipo de vida completamente diferente. Não posso esquecer-me, como testemunho de um clima completamente diverso, dum certo artefacto dotado de pontas de ferro que se afivelava com uma correia à volta dos sapatos para evitar as quedas no chão gélido e escorregadio do Inverno Americano.
Desses objectos de mobiliário que conservo em minha casa subsiste uma cama de casal cuja estrutura de ferro resistiu a todos estes anos e ainda se encontra em uso. Era uma bonita peça feita em ferro moldado e com elementos em latão que o meu avô entretanto pintou e repintou com tintas de esmalte e que foi a sua cama até ao fim da vida, depois de encurtada a altura de pernas e de cabeceira que ostentava quando vinda da América.
Eu próprio a raspei e repintei de branco há alguns anos. Depois de retirada a pesada estrutura original de ferro do colchão de arame e com um colchão actualizado, é a cama onde eu próprio nasci em 1942 e é a cama de casal onde ainda durmo nos dias de hoje com minha mulher.

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A chamada “secretária” do meu avô existe ainda e está em uso em casa de um primo meu, depois de preciosamente restaurada. É esse meu primo que possui em seu poder a velha colecção de discos antigos da grafonola que todo o emigrante americano que se prezasse trazia dos Estados Unidos.

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O meu avô Sebastião trouxe uma daquelas de dar à corda com uma manivela lateral, que era evidentemente a única “força motriz” disponível ao tempo para este tipo de objectos, acompanhada com a respectiva colecção de grandes e pesados discos negros de 78 rotações. Eram objectos manipulados pelo meu avô quase exclusivamente, com sulcos que reflectiam a luz em fileiras curvilíneas de um brilho estranho num rigor tecnológico naquele tempo perfeitamente invulgar. As agulhas eram de ferro grosso e, contando com a usura do tempo que Sebastião sabia iria ser longo, muniu-se de duas ou três caixas porque era homem previdente e não queria que se perdesse a utilidade daquela mágica lembrança de convívios animados entre família e amigos.

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Era encantadora a série de músicas que ouvi inúmeras vezes e que animaram bailes e convívios em sua casa. Marchas típicas da América, os seus hinos e canções mais em voga, valsas, polkas e mazurkas, mas também árias de óperas, canções portuguesas e, imagine-se, gravações brejeiras de cenas da revista à portuguesa que na altura gozavam de especial popularidade junto dos portugueses distantes da terra natal, tudo disponível surpreendentemente na América desses tempos ao alcance dos portugueses ali residentes.
Era sobretudo interessante a audição colectiva de tais entremezes, não existindo os falsos pudores que poderiam ter caracterizado certa pequena burguesia da época, a que nós não pertencíamos, de resto.
Só para amostra lembro-me dos seguintes versos: “Ai tira o bicho, tira, tira, tira,tira, mas que cabeça tamanha”, e narrava as façanhas de certo namorado de voz grossa em contraponto com a namorada esganiçada ao que parece muito aflita nos termos em que o próprio poema documenta…

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Esta Valsa “Três da Manhã” era das melodias preferidas do meu querido avô que, com a ajuda eloquente do grande contador de histórias que era o seu irmão Guilherme, também narrava episódios e proezas técnicas e científicas do insigne fotografado nesta capa: Guglielmo Marconi.

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Vinho do agricultor, festas de família, canções da América e as histórias do tio Guilherme!…

Tudo isso se passava com grande animação nos dias de festa e convívio familiar na velha Quinta da Salgada, no Molhapão e no Vale Ferraz, nas quais estavam presentes todos os parentes mais chegados que, na generalidade, tinham passado pela América.
O convívio entre todos era muito franco e alegre. As pessoas eram muito simples e entreajudavam-se o máximo que lhes era possível.
As refeições de festa tinham momentos de grande entusiasmo. O Tio Guilherme era um grande contador de histórias e uma refeição de convívio com ele podia contar de forma automática com uma sessão de anedotas e pequenas histórias, umas vividas entre amigos ou irmãos (sendo Sebastião, meu avô, um dos mais habituais protagonistas), outras inventadas.
Narravam, entre outras peripécias, ocorrências das viagens e da estadia na América. Aquele episódio da longa viagem em que os balanços do mar produziam o enjoo proverbial faz-me lembrar as cenas do imigrante embarcado do filme de Charlie Chaplin: pessoas modestas e habituadas a privações não podiam pensar em escapar a uma boa refeição no navio, é claro. E se havia quem vomitasse punham uma mão a ocultar o que estava de lado e vai disto, deglutiam à pressa tudo o que restava no prato para que o estômago, se sofresse de algo, não seria por falta de conforto do repasto completo.

25 p
O meu tio Guilherme: fotografia feita em Providence no SMales Studio, 489 Westminster St.

Uma história destas contada pelo meu tio Guilherme, por mais insignificante que pareça, não ficava nada atrás das cenas do conhecido Charlot, de que o meu avô narrava recordações do seu tempo de Providence e de uma visita que o famosíssimo artista fez a essa cidade, no tempo em que ali permaneceu.
O talento e o entusiasmo que o meu tio punha nessas actuações, para as quais não era preciso convidá-lo, provocava um delírio de gargalhadas que fazia dores de barriga e soltava as lágrimas de todos os ouvintes.
O curioso de tais sessões de euforia familiar é que as histórias eram sempre as mesmas, os episódios vividos eram geralmente coisas simples passadas entre ele e os irmãos, cenas francamente ingénuas e contadas a meias pelos intervenientes mas de efeito hilariante.
O tio Guilherme, o único dos parentes que na América se deu ao trabalho de ir frequentar a escola nocturna para adultos, era um jovem muito aprumado e eram narrados com imensa graça pelo meu avô as minudências que punha no trato da sua aparência. Andando sempre com as calças o mais vincadas possível (o que a foto acima documenta) tinha por hábito, antes de se deitar, colocar as mesmas entre o colchão e o chamado “judeu” para que, de manhã, as calças estivessem sempre bem vincadas.

Havia no entanto um momento final nos jantares de festa, quando o meu avô e seus irmãos de passado vivido nos Estados Unidos estavam já um pouco tomados pelo magnífico vinho que eles próprios cultivavam, que era o das canções cantadas por todos em inglês, sendo obrigatório, além do próprio hino americano e uma ou outra canção de que já não me lembro, o momento mais fantástico com aquela que era conhecida lá em casa como “It’s a long way”!…

It’s a long way to Tipperary,
It’s a long way to go.
It’s a long way to Tipperary
To the sweetest girl I know!

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Ir à guerra e escolher bandeira…

Essa canção, pela conotação patriótica e ligação com o conflito da WWI, devia ter conhecido grande popularidade na América desses dias para ter chegado até nós em Cernache do Bonjardim, e lembro-me de ouvir contar uma variedade de episódios ligados à participação e ao alistamento de homens para esse conflito.
Dizia Sebastião que era perguntado nos Estados Unidos, pelas autoridades que faziam os alistamentos dos eventuais combatentes, se desejavam ser inscritos sob a bandeira americana ou sob as cores de Portugal. Os de índole mais sentimental diziam querer bater-se por Portugal, o que terá sido para alguns uma decisão com as piores consequências, se atendermos às condições precárias dos destacamentos portugueses e a decorrente miséria e falta de apoio social, de regresso à sua pátria.

Recordo-me de uma história muito contada em minha casa e bem conhecida dos ex-emigrantes nos Estados Unidos, de certo conterrâneo de meu avô que foi combatente na primeira guerra mundial sob a bandeira americana, donde regressou mais tarde para viver em Portugal.

Nas voltas da vida correram-lhe as coisas mal e viu-se velho e sozinho, acompanhado de sua mulher, em condições de carência financeira e acompanhamento familiar, sem filhos ou ajudas que pudessem dar-lhe o necessário apoio. Não tratara bem dos seus direitos e nada averbara das condições nessa altura garantidas aos ex-combatentes dos Estados Unidos. Os departamentos próprios encetaram todavia uma procura de pessoas nessas condições e só nesse lamentável fim de vida veio a chegar-lhe correspondência que lhe dava conhecimento da pensão que jamais havia recebido e a que tinha direito, tal como todos os respectivos retroactivos.

Imaginemos pois qual não teria sido a milagrosa surpresa que veio favorecer aquela necessitada família naquela excepcional situação de carência e solidão, o súbito alívio que os bafejou e o impacto que esse acontecimento teve no reforço do “sonho americano” tão intensamente vivido por toda aquela geração.

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Uma forma velha de falar uma língua nova (ou vice-versa…)

Um apetrecho imaterial, mas formidável, trazido da América por meu avô e por todos os seus contemporâneos, foi uma forma específica de falar nutrida por palavras de inglês americano “tratadas” com a pronúncia que lhes era própria, ou seja, um léxico de palavras enigmáticas que só eles entendiam!…
No que me toca, fui criado por diversas pessoas que haviam apropriado todo esse contingente de vocábulos, o que os transformou em aquisições automáticas da minha forma de estar e que ainda subsistem, em certos momentos da vida de minha família, embora à enorme distância da sua origem própria.
Durante vários anos da minha infância usei enquanto brincava umas calças de ganga com peitilho e alças, feitas à imagem e semelhança das calças largas de operário do meu avô, que eram vestidas por cima da outra roupa para evitar a sujidade. Chamavam-se na América, julgo eu, umas calças “over all” e passaram a ser para mim uns “alvarózes”, termo que se usava em minha casa com a naturalidade de qualquer outra palavra em português.
Como o meu pai era de Leiria e ali vivi sempre que não estava em casa dos meus avós em Cernache do Bonjardim, houve pessoas amigas que ficaram muito intrigadas com o que seriam uns “alvarózes” e eu muito surpreendido de que elas o desconhecessem, por ser coisa tão útil e familiar.
Tendo vivido nos Açores nos últimos anos da década de sessenta fui ali reencontrar, nas gentes do povo (e não só), uma certa quantidade de palavras esquisitas importadas da América, que minha recente esposa não entendia e que eu não tinha nenhuma dificuldade em traduzir porque me eram completamente familiares.
O próprio nome porque eram tratados os meus avós por toda a gente viria a sofrer uma inflexão particular derivada da sua vivência norte americana. Papá e Mamã eram designativos completamente fora dos hábitos lusitanos, pelo menos na área de onde provinham. Como foi essa a fórmula usada pelas suas meninas desde que nasceram até virem para Portugal, Sebastião ficou a ser conhecido por Papá e a minha Avó era, naturalmente, a Mamã.
O hábito permaneceu e essa forma de trato estendeu-se a vizinhos, amigos e familiares, durante toda a sua vida.
Desde que os meus filhos nasceram também fui promovido a “Papá” e Maria da Conceição a “Mamã”. Mas esse vocativo nada tem a ver com usos ou modas de fresca data. O nosso é antigo, e veio de longe num vapor com muitos passageiros!…

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Os livros da América

Meu avô trouxe da América alguns livros que rechearam de emoção certos serões de família, que ele começou a apreciar lá e que depois foram sendo lidos como episódios de uma telenovela, em tiradas de leitura em que minha mãe ou uma das minhas tias se revezavam na tarefa de narradoras.
Além de outras obras que se perderam, das quais recordo algumas de Camilo Castelo Branco e a incontornável “Rosa do Adro”, tenho ainda em meu poder as seguintes edições, especialmente valiosas do ponto de vista das minhas evocações afectivas:

  • Colliers´s New Photographic History of the World’s War/Including Sketches, Drawings and Paintings Made by Artist at the Front, de 1918; P. F. Collier & Son Publishers/New York/NY;
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  • Novo Testamento de Nosso Senhor Jesus Christo pelo Padre João Ferreira d’Almeida/Edição revista e corrigida/New Yourk Bible Society, instituted in the year MDCCCXVI/1913 (com uma dedicatória); (Nota – a pessoa que ofertou a obra não era certamente muito versada em português; a palavra “ruinada”  quererá dizer “situada”)
27 p
  • A Bíblia Sagrada, contendo o Velho e o Novo Testamento: traduzida em Potuguez pelo Padre João Ferreira d’Almeida/Edição revista e corrigida/New Yourk Bible Society, instituted in the year MDCCCXVI/1913 (com uma dedicatória);
28 p
  • Ignez de Castro/Romance histórico por Faustino da Fonseca/2ª Edição revista e corrigida pelo autor/Volumes I e II/Bibliotheca Popular/Chronicas Nacionaes/Antiga Casa Bertrand – José Bastos/73 Rua Garret, 75/Lisboa (Estas obras estão assinaladas com um carimbo: Vende-se na Livraria Colonial de Luiz Freitas & Laranjo, 101 Rivet St., New Bedford, Mass);
29 p
  • As Duas Mães, de Emile Richebourg/ Vol I, II e III/versão portugueza de Julio de Magalhães/Segunda Edição/Casa Editora Belém & Cª – Succ. / 16- Rua do Marechal Saldanha – 16/ Lisboa;

30 p

  • Desk Atlas of the World/Rand McNally & Co. Chicago, Los Angeles , New York;
31 p
  • Lunário Perpétuo;
32 p
  • Souvenir Book of Providence, RI (colecção de postais);
33 p
  • New York City souvenir folder / views in color (Já atrás documentado):

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A primeira obra citada desta série, o álbum de fotografias “Colliers´s New Photographic History of the World’s War” é uma obra de grande formato que o meu avô guardava ciosamente e que só começou a mostrar de forma mais liberal a mim, por ter sido o primeiro dos seus netos. Antes disso dificilmente saía da gaveta da sua secretária, e não permitia que outras pessoas o folheassem. Tenho a gratíssima recordação de o ter contemplado, repetidas vezes e com as explicações que me regalavam, sentado no seu colo. É uma colectânea notabilíssima de fotos relativas à primeira guerra mundial, cobiçado por coleccionadores de livros com reproduções fotográficas.

Esta referência a livros, à música e certos hábitos de vida que eram facto adquirido na nossa família, não derivaram de nenhuma forma de educação orientada para a cultura no sentido estrito. Os meus avós eram pessoas muito simples e de origem muito modesta, mas minha avó fora cozinheira principal numa casa de Cernache de Bonjardim construída por um português emigrante riquíssimo no Brasil que tinha caleche e preceptoras estrangeiras para ensinarem os filhos.

O próprio ambiente da localidade era interessante pois contava com um grande seminário de missões, um conceituado colégio de ensino secundário, coisa rara na remota província daquele Portugal de então e, “last, but not the least”, um Clube para os proprietários mais abastados e outros remediados da terra onde cedo se viu cinema, se jogava ténis, se bebia chá, ainda activo em vários aspectos nos dias de hoje e que tem o ano de 1885 como data de fundação!…

Nesse Clube (que se conhecia universalmente por essa mesma designação, “o Clube”) jogava-se pesadamente a dinheiro às escondidas – para desgraça de fortunas muito gradas outrora amealhadas na diáspora pelas gerações antecedentes…
O facto, de toda a gente conhecido, pode agora ser referido sem graves ofensas, dado que o tempo já terá sarado as feridas mais profundas do ócio alienante daqueles que herdaram sem cuidar de si, de suas famílias e – pior ainda – nas consequências sobre a colectividade – com perda irremediável de potencial económico e dinamismo socio-cultural.

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Notas do “Deutches Reich” vendidas aos molhos nos United States a emigrantes ingénuos…

35 pOutra das lembranças da América que conservo do meu avô Sebastião são dois pacotes de notas estranhíssimas, que referenciam um episódio político-histórico muito particular e que documentam a enorme ingenuidade da informação geral de que dispunham os emigrantes nos Estados Unidos e porventura outros americanos daquele tempo.
Trata-se de um elevado número de notas alemãs de dez e de cem mil Marcos (!!!…) de dinheiro com o qual o estado alemão inundou bancos de vários países, numa operação cujos contornos me parecem do mais suspeito mas que não sei documentar de forma exacta.
O que sei é que esse “dinheiro” acabou por ser vendido a pessoas simples que residiam nesse tempo nos Estados Unidos e que, da tal forma ingénua, colocavam a hipótese mirífica de que pudessem voltar a ter valor, ficando ricos de uma vez por todas.
Tais notas eram vendidas pelos próprios bancos americanos por quantias irrisórias, noutra operação que julgo também não muito dignificante, pela sua frustrante inconsequência.
Em visita que tive a ocasião de efectuar muitos anos depois, na qualidade de funcionário do Banco de Portugal, ao museu do Deutsche Bundesbank em Frankfurt, fiquei admiradíssimo ao observar expostos especímenes dessas notas, o que confirma a sua autenticidade como documentos de carácter histórico.

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As famosas notas trazidas pelo meu avô da América encontram-se aliás nos exactos envelopes onde sempre as teve guardadas, libertando-se delas ainda uma pequena réstia do seu odor misterioso, porventura igual ao das esperanças infundadas nos milagres impossíveis.
Cheiro, cheiro a sério, era o dos chás e pomadas de que Sebastião era apologista. E do “Sloan’s Liniment”, e do “Vick Vaporub”, coisas poderosamente evocativas da América, embora minha Mãe tenha sofrido imenso com as aplicações do primeiro daqueles tratamentos por não gostar do cheiro forte que o caracterizava e por lhe agravar as fortes dores de cabeça que teve desde muito jovem.

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Parte II – Imagens e objectos

A primeira fotografia / cidade de Tomar, cerca de 1906
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A primeira imagem que existe do meu avô, de que tenho conhecimento, é esta.

Como indica o cartão castanho escuro sobre o qual se encontra aplicada, foi tirada por um tal Carlos Gomes “Photographo excursionista”, que registava no texto de apresentação do seu currículo ter sido empregado na “photographia Vidal & Fonseca, Photographos da Casa Real”, e que tinha o seu estúdio na Rua do Grémio Lusitano, 32 – 4º em Lisboa.
Mas não foi ali que Sebastião de Matos Gomes, aí por volta de 1906, tirou esta fotografia, como outra mostrada na “Parte I” desta resenha, ambas com a farda principal, numa envergando um barrete mais simples e em pose normal, outra com uma barretina mais formal e empunhando o sabre.
Como saberemos pela imagem a seguir o fotógrafo de Lisboa era “excursionista”, forma fina de dizer que era “ambulante”, tendo as fotografias de Sebastião sido feitas em Tomar, onde estava localizado o Regimento de Infantaria 15, dispositivo militar que para ali fora transferido em 1901 depois de uma longa história militar que não vem ao caso.
O número 15 no barrete e na gola confirmam de uma forma clara o que eu bem sei, que foi ali que Sebastião prestou serviço militar.
Embora baixo e pouco corpulento estava afeito a tarefas duríssimas, a viver com pouquíssimo alimento e sem conforto de espécie alguma. Em sua casa (como em tantas outras casas de portugueses desse tempo) era natural que sua mãe cortasse em pedaços uma sardinha e a distribuísse sobre pequenos pedaços de pão, para que cada um fizesse figura de refeição para outras tantas bocas.
O episódio não é uma suposição inventada, foi o próprio Sebastião que o descreveu num serão após o jantar na casa onde morámos em Leiria, lá por volta de 1950.
São visíveis no retrato as suas duas mãos, esse território tão frequentemente explorado por mim desde criança com uma enorme curiosidade, no pleno gozo de uma intuitiva e serena intimidade consentida. Eram compactas, espessas e musculadas com dedos curtos mas grossos o que os obrigava a abrirem-se um pouco, quando em repouso.
Entre mãos e estatura existia a concordância caracterizadora de um homem de pequena estatura, cujas mãos possuíam a mesma solidez que o carácter do seu dono e a firme determinação de um homem de trabalho.

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Parte detrás do cartão da fotografia acima

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Avô, tios, irmãos

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Esta fotografia foi tirada em 1914, em Providence, no SMales Studio, nº 489 da Westminster Street.
As pessoas que nela figuram são, da esquerda para a direita, o meu tio Guilherme (ou Guilhermino), Sebastião, meu avô, sentado e o meu Tio Isidro, todos de apelido Matos Gomes.
À primeira vista não vemos senão três pessoas representadas numa pose visivelmente fraterna, que a tonalidade sépia envolve num encantamento de antiguidade.
Olhando com mais detalhe outras conclusões são possíveis: Sebastião fora o primeiro a ir para a América e os seus outros dois irmãos não estão ainda tão à vontade. Por isso é ele que se encontra ao centro, recebendo a homenagem espontânea das mãos de seus irmãos colocadas sobre seus ombros. Guilhermino (será por acaso) tem um olhar algo fixo, um tanto crispado. Seu irmão Isidro, meu padrinho de baptismo já está mais confiante. Foi dos três o primeiro a falecer, logo depois de eu nascer.
O fato de Guilherme não é tão cuidado como aqueles que podemos ver mais tarde noutras fotografias suas, as calças que veste não estão esmeradamente vincadas – como é seu costume – e as botas que lhe vemos podem ser aquelas que trouxe ainda de Portugal. Visivelmente não são do mesmo modelo de abotoar que calça Sebastião, certamente já compradas em Providence.
É notória a satisfação do irmão que se senta ao meio dos outros dois. Foi ele que lhes deu apoio na sua ida para a América, que os acolheu e lhes arranjou emprego, que os agasalhou e a quem ajudou a contornar os primeiros obstáculos duma vida tão nova, tão intensa e estimulante. Esta é a verdade aqui patente que não escapa ao observador que tiver o desvelo de ler estas linhas.
Para mim, que nasci acalentado pelos sorrisos e pelas lágrimas desta gente, os gestos e atitudes que diviso são uma lição de humanidade fraterna, uma demonstração daquilo que se torna evidente porque quem olhava o mistério da máquina das fotografias, não temia – antes se orgulhava – de mostrar o que sentia.
Há um segredo nesta fotografia, contudo, que esperou quase 100 anos para ser revelado e que poderia continuar oculto, não fosse esta imensa necessidade de entender tudo o que nela está contido para além duma primeira observação distraída.
Efectuando o restauro da imagem original, ampliando-a muito, descubro o seguinte detalhe: o tradicional bigode do meu avô Sebastião encontra-se um pouco favorecido mediante um retoque de atelier feito pelo profissional que revelou a fotografia. O bigode, que foi crescendo mais ou menos de acordo com as épocas, não estava nesta altura ainda tão afirmativo, tão retorcido.
Terá sido uma ajuda deliberada do profissional para agradar ao cliente? Será que o bigode era de facto mais proeminente e não saiu tão bem como o autêntico ou será que se falou nisso durante a pose?

No verso cartonado da fotografia, legendada pelo próprio punho de meu avô muitos anos mais tarde, identifica-se o estúdio em que foi feita, e à qual estas pessoas iriam regressar mais vezes:

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Fotografia de casamento / 1914

Foi também no estúdio de SMales que foram, pouco tempo mais tarde, tiradas as fotografias de casamento de Sebastião com minha avó Leopoldina.
Estão presentes os seus irmãos que a primeira fotografia representa e o seu amigo e antigo companheiro de trabalho nas ardentes searas alentejanas, o meu Tio Joaquim Pires (tio, por ser irmão de minhas duas avós, conforme explico noutro local), sendo de reparar que o pano de fundo onde são tiradas as fotografias é ainda o mesmo que da fotografia anterior.
O que parece ter mudado é o traje e o aspecto de meus tios, agora mais cuidado, e o bigode de meu avô, um pouco mais farto, sem sinais aparentes de retoques de atelier:

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Desta feita quem aparece sentada, à direita de uma amiga sua, é a noiva, minha avó, lindíssima como diziam todos os que a conheceram e as fotografias bem demonstram.
O ar de Sebastião é francamente menos aberto que na foto que tirara com seus irmãos, colocando no ombro de sua recentíssima esposa uma tímida mão com seus dedos curtos e grossos afastados entre si, como era sua pose natural. A cabeça da noiva esboça uma leve inclinação para a sua esquerda, o lado em que repousa a mão de seu marido.
Os sapatos de ambas as senhoras são de salto alto e encontram-se guarnecidos de aplicações decorativas, um formidável requinte para mulheres simples imigradas das arborizadas e soturnas serranias do centro de Portugal. O mais alto dos presentes é o meu tio Joaquim Pires, já referido. Guilherme tem um fato novo, está bem mais elegante e meu tio Isidro que, como ele, traz gravata branca, resolveu mudar de penteado: aparta agora o cabelo com risca ao meio.
Em Portugal, tal como à época da sua chegada à América, mostrava ainda marrafa virada para a direita, com risca à esquerda. Assim o vemos numa fotografia tirada na altura do seu embarque para os Estados Unidos, em 1912:

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Vizinhos, conterrâneos e companheiros de viagem

Esta fotografia é de Rosalina da Conceição Nunes, nascida em 1896, que emigrou para os Estados Unidos da América em 1920 no mesmo barco que transportou meu avô Sebastião, minha mãe de poucos meses e Maria da Silva, minha avó. Era amiga da família e foi madrinha de baptismo de minha tia Ermelinda, nascida em Providence em 1926, terceira filha depois de Lídia, nascida também ali em 1921. Rosalina e o marido, português e conterrâneo com quem casou naquela cidade, seguiu a tradição da maioria dos portugueses que emigraram e regressou mais tarde para Ferreira do Zêzere, bastante perto de Cernache do Bonjardim.

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Esta fotografia é de um amigo, vizinho e companheiro de viagens de meu avô, do qual falava com frequência. Está acompanhado pela mulher e filhos, o seu nome era João da Silva Carvalho e era natural da Boafarinha, localidade perto da Relva. O cartão que envolve a foto está assinalado pela escrita do meu avô e menciona o nome de seu amigo.

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A fotografia abaixo mostra o meu tio Guilherme e um conterrâneo, Manuel Aparício, possivelmente familiar de um João Baptista Aparício, do Vale da Urra, próximo da Relva, que também esteve nos Estados Unidos e que era casado com uma irmã de meu avô, chamada Conceição. Estas pessoas existiram, os nomes são exactos, mas não possuo informações precisas quanto ao itinerário na América.

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Retrato de família; Sebastião de Matos Gomes, mulher e filhas, Providence, 1926

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O meu avô rodeado da sua família essencial, mulher e três filhas, no momento porventura mais alto da sua maturidade. Foi retrato tirado algum tempo depois do dia 25 de Maio de 1926, no qual, “às 10 horas em ponto da manhã”, conforme escreve Sebastião no seu Day Book dos acontecimentos principais da família, nasceu a sua filha Ermelinda.
Lugar: Providence, cidade enorme e distante dum país praticamente infinito em tudo, até no sonho que lhe inspirou por toda a vida. Ficou colocado à esquerda, a atestar o gosto compositivo do mestre fotógrafo que certamente organizou a pose de todos os retratados. Sebastião ostentava um gracioso chapéu de palhinha com o qual ainda brinquei em Cernache do Bonjardim. O formalismo do fato completo com colete e a camisa branca com gravata confirmam uma dignidade a que os óculos redondos e o bigode acrescentam uma nota subtil de afirmado urbanismo. Mas não nos iludamos: o homem que ali está é bem modesto, embora tivesse tido a sorte e a determinação necessárias para transformar de forma radical o curso da sua vida anterior.
A volumetria do chapéu ajuda a compor a estatura do chefe da família e o bigode deve-se à circunstância de que, no seu tempo de militar, todos os homens que entravam para o serviço das forças armadas eram obrigados (tácita ou expressamente) como ele próprio me disse, a ostentar qualquer apêndice capilar ao gosto do próprio. Bigode, barba, barbicha mais farta ou rala, patilhas, mosca, qualquer coisa enfim que fosse prova expressiva de virilidade.
Coisas da monarquia agonizante? Regra ancestral de militares empedernidos incansáveis de guerra? Ignoro.

Ao centro da foto está a sua segunda esposa, Maria da Silva, segurando ao colo Ermelinda. Ao lado esquerdo Lídia e ao lado direito Maria de Lurdes, minha mãe.
Como fotografia de minha avó é aquela que mais justiça faz à sua beleza, ostentando aqui um olhar serenamente convicto de mulher realizada pela graça da maternidade.
Se lhe chamo avó, pelo que digo adiante sabereis que não o era de facto, e que a minha outra avó (ambas entendidas como únicas e verdadeiras) era sua irmã e falecera três meses depois do parto de sua filha, Maria de Lurdes.
Sebastião foi, na minha opinião, o elemento da minha família que mais capacidade demonstrou de transformar a sua própria existência e daqueles que dele dependeram. Fez a transição heróica de um campesinato oprimido pela pobreza e de horizontes fechados para uma abertura ao mundo e para todas as suas promessas possíveis.
Esse prodígio deve-se ao enorme desejo de mudar de vida e passa pela decisão de ter emigrado para os Estados Unidos da América.

A minha avó Maria, apesar do começo dramático do seu casamento quase forçado com Sebastião, pelo dramatismo da morte de sua irmã Leopoldina, adaptara-se muito bem à sua vida nos Estados Unidos, a novos vizinhos de várias nacionalidades, amigos e familiares. Carregava consigo lembranças de muito trabalho, de enorme coragem perante a adversidade, sobretudo após a mais tenra infância. Raras foram as ocasiões e raras foram as pessoas a quem confiou o detalhe pormenorizado desse longo caminho de sofrimentos.
A confiança carinhosa com que se relacionava com minha mulher, Maria da Conceição, proporcionou longos momentos de narrativas da vida que foi obrigada a viver em menina e dos padecimentos que patrões sem sensibilidade nem sentimentos lhe infligiram.
Usava blusinhas muito pobres sobre cujas ombreiras era possível ver sempre a mancha escura do sangue de puxões nas orelhas. E para começar as regas bem de madrugada, para evitar punições físicas por qualquer atraso, não raras vezes teve de dormir ao relento, com a cabeça sobre os braços apoiados no muro de um poço.

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A Mamã e eu, em Leiria, Julho de 1968

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Os locais de residência de meu avô Sebastião em Providence

Além de outros locais provisórios, em casa de amigos, nomeadamente à data da sua chegada a Providence, os principais sítios onde residiu meu avô, foram os seguintes:

– Wickenden Street;

– 42 Brightdridge Avenue;

– Freeborn Avenue.

Este último foi o local de que ouvi mais abundantemente falar, por ter sido a última e a melhor residência que possuiu.

No dia 15 de Maio de 1960, a minha Tia Lídia, em romagem de saudade, por assim dizer, fez visitas ao último local onde residira seu pai e onde ela própria nasceu em 22 de Outubro de 1921.

No caso da Freeborn Avenue o aspecto que apresentava toda a área envolvente estava dramaticamente transformado devido à vizinhança da Interstate 195.

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No local indicado com um sinal azul, no termo da Freeborn Avenue, está indicado o sítio onde existiu uma casa na qual – anteriormente – morou meu tio Joaquim Pires, cunhado de meu avô, antes de ter mudado de residência para Barrington. As pessoas que se vêem na foto, de 15 de Maio de 1960, são a minha tia Lídia, e os meus primos Fernando e Alfredo Brites.

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O sinal azul indica o local exacto onde foi a casa do meu avô na Freeborn Avenue. De acordo com as minhas “visitas” pelos mecanismos da Internet, a fotografia foi tirada do viaduto sobre o qual passa a Lyon Avenue. A dedicatória inscrita pela própria mão de minha tia Lídia, no verso desta fotografia, também de 15 de Maio de 1960, reza assim:

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Estando ainda vivo por esta altura o meu tio Joaquim Pires, contemporâneo e vizinho de meu avô em Providence capaz de certificar estas indicações de minha tia, a casa do meu avô seria, portanto, exactamente na esquina da Freeborn Avenue com a Henry Street.

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Os parques de Providence na memória de meu avô

As modernas tecnologias permitem-me a curiosidade e o gosto de fazer uma visita aérea à cidade de Providence, apercebendo-me com razoável rigor de uma enorme quantidade de características do urbanismo e dos conceitos de espaço ali dominantes, que admiro – sobretudo – no que diz respeito à largueza e à abundância de zonas verdes.
Toda a região envolvente se torna sugestiva por ser próxima do mar e por possuir cursos de água, lagos, baías, enseadas, todo o elenco de recursos paisagísticos que caracterizam as regiões de costa excepcionalmente recortada.
O meu avô falava muito de Rocky Point, do Roger Williams Park e do Crescent Park. Este último sei ter encerrado em 1979, constituindo uma saudade para muitas pessoas que o conheciam e que o frequentavam. Eram frequentes as alusões do meu avô a esses locais, que visitava com a família nos momentos de lazer e convívio.

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Imagens dos locais referidos, do álbum de recordações que possuo, trazido de Providence pelo meu avô.
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Esta fotografia foi tirada em Junho de 1960 no Crescent Park e as pessoas retratadas são a minha tia Lídia e os seus dois filhos, Fernando e Alfredo Brites, também netos do meu avô, que residiram em Providence. O regresso ao local e a remessa para meu avô desta fotografia não pode ter deixado de ser uma referência evocativa de visitas feitas na infância por minha tia, acompanhada por seus pais.

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Esta fotografia mostra a minha mesma tia Lídia, no Roger William’s Park e o teor da dedicatória, datada de 14 de Maio de 1961 evidencia o mesmo propósito indicado relativamente à fotografia anterior.

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