Category Archives: jornalismo

A importância do jornalismo cultural

Um acontecimento cultural ou artístico sem eco ou resposta inteligente é um não-acontecimento. Sempre tive o interesse e o gosto de olhar e considerar o trabalho dos outros. Primeiro para meu uso, seguidamente para dar testemunho de opinião e sensibilidade. Julgo que uma sociedade que não responde de forma critico-apreciativa às manifestações culturais e artísticas é uma sociedade pobre, no sentido mais cortante e inconveniente do termo. A inteligência crítica é uma energia produtora de evolução em todos os sentidos. A cultura que não estimula essa atitude, se não está morta, está entregue ao calculismo e à falta de generosidade.

Costa Brites

Armando Martinez – Conjunto escultórico megalítico Mealhada

Sete blocos de pedra com formas petroglíficas formam um círculo mágico com seu portal virado a nascente. Na face exterior, o lado terreno, definido por elementos esculpidos em alto relevo, são a ligação do homem à mãe Terra, iluminada pelo Sol.
Na face interior, o misticismo, representado por figuras de deuses em baixo relevo que caminham na Terra sob o obscuro mistério da Lua. O círculo mágico encerra dentro de si uma mesa… Mesa mágica de agradecimento pelas dádivas ao universo e à vida…

Mealhada 21 – 06 – 2010 (placa identificativa da C.M. da Mealhada)

8320 a
NOTA:Este projecto, de autoria de Armando Martinez, foi executado por ele próprio, com a colaboração de três escultores seus amigos: Fernando Martins, Santos Carvalho e Xico Lucena.

.

Do druidismo e da cultura céltica, do coração antiquíssimo da idade da pedra, vem visitar-nos a sugestão de um espaço diferente de todos os outros, mescla inventada por um escultor habituado a calcorrear serras em busca de fósseis de todos os animais desaparecidos há milhões de anos, pedras ornamentais, blocos maciços de pedras duras ou duríssimas de todas as cores e consistências, picadas à mão com esforço doloroso ou cortadas à máquina, conforme a altura, a espessura e a tonelagem.
Espaço diferente de todos quer dizer: espaço igual apenas a si próprio, inventado pela sugestão de tempos apenas imaginariamente concebíveis, feitos por homens que apanhavam animais ferozes à mão, que se protegiam do frio com as peles curtidas desses animais e que acabavam por desenhá-los um dia na pedra, como desenhavam o sol ou a lua, a vulva materna fundamental, o guerreiro, o caçador, o gamo, os peixes e todas as coisas principais, com perfil de antemão concebido para enfrentar milénios.
Tais homens existiram e deixaram sinal de si como talvez muito poucos agora consigam fazê-lo, emaranhados no novelo da multidão confusa de tudo o que não pára na cabeça, porque não descansa no olhar tempo suficiente e não ganha direito ao silêncio merecido pela contemplação íntima.
É preciso talento sentimental de humanidade para sonhar vidas como essas, diferentes de tudo que podemos imaginar no precipitado quotidiano destes dias. É preciso uma enorme ternura de solidariedade, um poética energia da memória, e a vontade de viajar no tempo quem sabe, para nos lembrarmos lucidamente do que fomos nós mesmos nessa remota fúria original.

Armando Martinez - Conjunto escultórico megalítico Mealhada

Costa Brites e Armando Martinez


Os meus parabéns aos cidadãos da Mealhada

As minhas felicitações ao povo da Mealhada são a resultante da visão apreciativa que me mereceu uma obra do património monumental doravante entregue à utilização de todos que ali vivem.
O monumento está ali, desafia o olhar de quem observa e responsabiliza também o cidadão que passa. Se é notável na sua concepção, se está bem enquadrado na natureza organizada pela mão do homem, deve ser estimado e, mais do que isso, deve merecer um comentário. A indiferença dos cidadãos pelas obras públicas que favorecem a sociedade de forma objectiva, contribuem para a desmoralização de quem as imaginou, realizou e promoveu à condição de objectos reais.
Tendo buscado na internet (que é onde está tudo) não consegui saber a respeito dessa certa obra monumental nada mais do que o trivial das declarações de inauguração política, em fraca notícia mínima. Esta pobre documentação de uma peça monumental é aliada muito útil da indiferença dos cidadãos. Se a obra tem valor, se foi erigida com consciência e determinação, o esclarecimento deve estar presente de forma explícita e o recado da sua importância deve ser redigido antes − de modo que, passando por ela um grupo de crianças e de professoras, não a tomem como imprestável ou ausente.

A porta aberta para o nascer do Sol

A porta aberta para o nascer do Sol

Parabéns pois aos cidadãos da Mealhada porque dispõem, num sítio espaçoso e muito belo, de um lugar óptimo para fazer congressos, ou convénios, ou festivais, ou qualquer outra coisa destinada a amantes da visão retrospectiva da longuíssima aventura dos homens sobre a terra.
Fiz o meu juizo, tirei as fotografias, mostro-me com gosto ao lado do artista, cumpri o meu dever de cidadania da sensibilidade. Espero agora que todos os cidadãos da Mealhada cumpram a sua parte. Apreciando o que deve ser apreciado, vivendo a vida com gosto, tomando o Sol ou uns pingos de chuva que também faz falta, passeando com os amigos ou com a família, ou solitariamente se assim for desejável e propício à temperatura da alma, deixando o coração bater ao ritmo que puder com a serena consciência do prazer de estar e de ser.

Armando Martinez, escultor

Armando Martinez, escultor

Armando Martinez, a “pedra-mãe” e a alegria sem fim da viagem

O artista que escolhe a pedra como meio favorito de trabalho tem de ter, além da cultura e da sensibilidade respectivas, algo de mais enérgico, ou mais antigo, que o sólido saber necessário a todas as disciplinas da criação artística.
A escultura de Armando Martinez reflecte a experiência viva de contactos com a ampla diversidade do material lítico, e atestam o sentido de ofício que liga qualquer escultor de pedra à crepitação de antiguidade e aos metamorfismos da formação das rochas.
Ouvi-lo contar histórias de fósseis e blocos de pedra descobertos, mencionando o seu nome e a sua abundância, situa-nos algures entre o cenário imenso e mitológico das montanhas e o labor industrioso e poeirento das pedreiras donde saiu a matéria de que são feitas as catedrais.
Sem espaço para poder trazer-vos aqui um estudo sistemático de toda a sua obra, espalhada ao longo duma activa carreira internacional, iria referir principalmente o predomínio dum sensualismo sólido e fundamental, em sínteses regidas pela moderação e pela economia de meios.
A pedra esculpida permanece, apesar de esculpida, como forma simbolicamente compacta à flor da qual se desenvolvem configurações humanizadas, geralmente surpreendidas no gesto protector do abraço, no esforço titânico da maternidade ou no apelo fundamental da paixão.
É acentuada a modernidade sintética de formas opulentas, de cunho por vezes megalítico, apenas reduzidas no seu impacto por serem concebidas desta feita como trabalhos de reduzidas dimensões e mais fácil apresentação.
Noutro tipo de esculturas a forma alonga-se na perpendicular, atingindo o esquematismo totémico dum grito agudo de pedra, onde as mesmas sugestões de referência sensual e afectiva podem surgir, umas vezes de forma quase explícita, outras vezes mais francamente abstractizadas.
Em elevado número de obras é posta em evidência a variedade expressiva do material, que chega a incluir espécies rochosas muito raras, sendo habitual o contraste simultâneo de zonas lascadas e outras polidas.
Artista que viaja intensamente, mantém acesa a chama dum sentido de convivência que tem produzido frutos no estreitamento de laços entre Portugal e a Galiza.
Presente em largo número de obras públicas no seu país natal e em diversos outros, da Itália à Escócia, tem também um largo número de obras em jardins e praças portuguesas, numa clara demonstração da sua energia comunicativa, em tudo compaginável com o génio irrequieto do povo Galego, que connosco partilha a irrequietude insatisfeita de trota-mundos, fura-vidas descobridores e empreendedores de torna-viagem.

Costa Brites

Armando Martinez, escultor
Publicado Diário de Coimbra 3 de Dezembro de 2002,  por altura de uma exposição de Armando Martinez na Casa Municipal da Cultura em Coimbra

Carlos Lobo, um olhar aberto no meio da multidão

Publicado Diário de Coimbra 7 de Dezembro de 2001

mos 01

Esmalte de Carlos Lobo

Tenho à minha frente e manipulo alguns esmaltes coloridos da autoria de Carlos Lobo, nome que lanço à escrita sem os adjectivos brilhantes que os homens merecem apenas depois de mortos.

Carlos Lobo com seu rosto limpo e bem barbeado caminha pela rua com vários papéis debaixo do braço. Não vai depressa nem devagar, mas sentimos nos seus passos uma segurança e uma delicada determinação.
Irá visitar um amigo necessitado de apoio? Irá à abertura dum acontecimento artístico ou mandar uma carta urgente para um continente distante? Provável é que vá encontrar-se com outros militantes da cultura ou reunir-se com ex-colegas envolvidos em problemas de trabalho e desemprego, carentes da solidariedade quente daqueles que se encontram na mesma situação, os únicos que podem trazer alento e estímulo verdadeiros.

379 ap

Onde irá Carlos Lobo com seu olhar tranquilo e a voz serena que tanto invejo?

Não saberei nunca e todas essas hipóteses são possíveis. Certo é que vai seguro e não caminha em vão. Debaixo do braço alguns papéis preciosos, destino certo de ideias variadas, pensamentos coloridos preenchidos de intenção e sonho. Ou simplesmente o dom organizado e voluntário duma ilusão magnífica.

Acaricio outra vez o corpo ondulado dos esmaltes coloridos pelo pó mágico transfigurado pelo calor do pequeno forno laborioso, densamente cercado por um universo de alfaias e produtos e artefactos metodicamente alinhados.
Mergulho na vibração espontânea que só as coisas carinhosa e longamente elaboradas possuem, atravessadas pela indeterminação da fantasia e pela casualidade da revelação que apenas à natureza infinita diz respeito.
São obras de expressão condensada que oscilam entre a candura figurativa de visões ingénuas e o desafio enorme da visão abstracta. Quer num quer noutro extremo desse universo existe contudo a marca constante dum diálogo respeitoso e inteligente com materiais de utilização subtil e misteriosa. Um elaborado processo de descoberta e encantamento.
O consenso de simpatia e de afabilidade que geram os espíritos da categoria de Carlos Lobo tornam quase dispensável mais esta conversa de pintor. Todos o conheceram e todos o estimaram. Todos vão elogiá-lo e dizer que pessoas assim fazem imensa falta.
A ilusão contudo também cansa, e olhar para o mundo e procurar entendê-lo em toda a sua conflagração de paixões divergentes é como descer uma escada de expectativas que parece não ter fim.
Enquanto estivermos vivos é que vale a pena dar atenção às pessoas, escutar a mensagem quente e útil que possam querer transmitir-nos. Todas os homens bons que desaparecem são mais uma razão para dar ouvidos àqueles que ainda estão disponíveis e generosamente interessados em prestar seu contributo.
A sociedade concorrencial possui uma lógica impiedosa de categorizar os indivíduos por uma determinada ordem de notabilidades incontestáveis.
A essa norma se sujeitam todos os cidadãos, todos os artistas, todos aqueles que possuem uma ideia generosa e útil escondida em seu coração. O mais certo é que a sociedade não lhes dê ouvidos, e vá ficar perdida mais uma preciosa razão para sentir que se deu um pequeno passo em frente na salvação da própria humanidade.
Na “Invenção do Dia Claro”, disse Almada em seu discurso pitoresco que “quando eu nasci, as frases que hão-de salvar a humanidade já estavam todas escritas, só faltava uma coisa – salvar a humanidade”.

Carlos Lobo nunca foi uma alta individualidade

Que bom para ele, e que bom para nós que possa um homem ser uma criatura insigne, sem ter que levar uma estátua, ou uma medalha, ou um cargo público, e permanecer vivo como ele por certo fica na lembrança de todos aqueles que o conheceram.

TÚLIA SALDANHA; Curriculum Vitae resumido

.

TS 01

O seguinte “curriculum vitae” (resumido) da artista Túlia Saldanha foi inserido num breve catálogo, cuja capa acima se reproduz, de uma sua exposição realizada por iniciativa dos Serviços Culturais da Câmara Municipal de Macedo de Cavaleiros, de 24 a 30 de Junho de 1987.

Túlia Saldanha nasceu em Perêdo, Macedo de Cavaleiros em 1930. Foi sócia do Círculo de Artes Plásticas des­de 1967 e fez parte do Corpo Docente desde 1974.

Algumas exposições colectivas:
1968

Em Coimbra: − no Museu Machado de Castro; − no CAPC;
Em Amarante:
− no Centenário de Amadeu de Sousa Cardoso
1971
Em Coimbra:
− “A Floresta”, no CAPC;
No Porto:
− “O Presente”, na Galeria Alvarez;
Em Óbidos:
− na Galeria “Ogiva”
1973
Em Coimbra, no CAPC:
− “Minha Coimbra Deles” e “Aniversário da Arte”.
1974
“Projectos Ideais” na Sociedade Nacional de Belas Artes (S.N.B.A.) em Lisboa
1975
“Semana de Arte na Rua” em Coim­bra
1976
“Alternativa Zero” em Belém, Lisboa,
Encontros Internacionais de Arte na Póvoa de Varzim
1977
“Mitologias Locais” na S.N.B.A. emLis boa,
Cooperativa Árvore no Porto,
Encontros Internacionais de Arte nas Caldas da Rai­nha
1980
Participações:
na SACOM 2 Museu Vostell em Malpartida de Cárceres, Espanha,
“Panorama das Galerias” na Galeria de Arte Moder­na em Belém,
“a Caixa” na Galeria Diferença Lisboa
1981
“25 Artistas de Hoje” no Museu de Ar­te Moderna na Universidade de S. Paulo Brasil, “100 Horas a Desenhar” na Galeria do Chiado em Coimbra
1982
Bienal Internacional de Vila Nova de Cerveira
1983
“30 Horas a Desenhar” Instituto Alemão em Lisboa,
“Exposição Nacional de Desenho” na Cooperativa Arvore, no Porto,
“O Papel como Suporte” na S.N.B.A. Lisboa
1984
“Anti-Heróis, Malditos e Marginais” em Lisboa;
“Pipxou” − Inverno 84 − Galeria Diferença Lisboa
1985
Intervenção no Centro de Arte Moderna da Gulbenkian Lisboa
1986
II Bienal Nacional de Desenho/85 na Cooperativa Árvore, no Porto;
Faculdade de Direito de Coimbra;
“Agitarte” em Aveiro;
Casa Museu Teixeira Lopes em Vila Nova de Gaia;
Faculdade Psicologia Universidade de Coimbra.
1986
Festa para Ernesto de Sousa;
Como elemento do Grupo de Intervenção do CAPC, participação nos Encontros Internacionais de Arte Caldas da Rainha,
em Coimbra, na S.N.B.A.,
no IADE, no Café Brasileira em Lisboa, etc.
Exposições individuais:
1969, 70, 71 CAPC Coimbra
1974 Galeria Dois no Porto
1976 no CAPC
1979 Gal. Diferença Lisboa
1982 no CAPC Coimbra
1985 na Galeria Diferença em Lisboa
1986 Teatro Gil Vicente Coimbra.
1986 Galeria QUADRUM, Lisboa
1987 Desenho e Pintura Macedo de Cavaleiros
1987 Galeria Almada Negreiros, (aquisições Recentes) S.E.C.
1987 Abertura do Museu de Arte Moderna (Casa de Serralves), no Porto.

Chamo a atenção dos visitantes para a crónica de minha autoria a respeito da memória pessoal que tenho dessa insígne artista e pessoa de raríssimas qualidades humanas, abaixo publicada.

TS 02

Esta imagem representa as capas de duas edições do CAPC que me foram oferecidas pessoalmente por Túlia Saldanha e que guardo como importantes documentos da actividade daquela instituição, respectivamente, durante os anos de 1979 a 1980 e de 1981 a 1983.

.

Uma artista de elevado nível que Coimbra faz por ignorar

..

À “minha Túlia”, a homenagem simples tão só de uma criança
Este artigo foi publicado no Diário de Coimbra no dia 03 de Dezembro de 2006, no espaço “Temas de Domingo”, pg. 20.

HPIM6529 p trat

Túlia Saldanha e Inês Paulino, no CAPC, no começo dos anos 80

Carta à minha estimada amiga Túlia Saldanha,

Tenho muita pena de não ter podido estar presente no último encontro que tinha marcado consigo. Realmente estava mal informado sobre o seu estado de saúde quando vi o anúncio de que iria fazer parte dum painel de especialistas para discutir, no contexto das iniciativas da ARCO em Madrid, as actividades pedagógicas ligadas ao ensino e divulgação das artes plásticas, há cerca de uma dúzia e meia de anos atrás.
Já não pudemos encontrar-nos e tive de conformar-me com a sua ausência devido a motivo de força maior. A notícia do seu falecimento consternou, como é tão abundantemente sabido, uma boa mão-cheia de amigos desta velha cidade e tantos outros admiradores que, fora dela, tiveram o privilégio de consigo trabalhar e de consigo viver o gosto e a paixão da arte.

Muitos são os eleitos mas poucos os escolhidos

À engenharia das preferências colectivas e das homenagens públicas se pode aplicar a mesma frase que se aplica a muitas outras situações: diz-me como e quanto homenageias e eu dir-te-ei quem és. Lembro-me disto, Túlia, porque sou reincidente em homenageá-la muito singelamente, por palavras breves mas calorosas de sincera admiração.Por mim não fica a sociedade em falta consigo em salientar o valor seguro do seu labor metódico ao serviço de toda a cultura e de todas as artes, mas, acima de tudo, ao serviço da arte sem academias, nem medalhas, nem poses estudadas, da sua preciosa dedicação pela sensibilidade das pessoas em si mesmas.
Confesso-lhe que tenho tentado uma e outra vez convencer todas as pessoas com quem converso de que há uma enorme dívida pública para com a lúcida atenção que dedicou às artes, às suas técnicas, ao seu exercício oficinal e, principalmente, à sensibilizada percepção dos seus valores mais profundos.

A Túlia pertencia à rara multidão dos eleitos, mas não granjeou a condição de escolhida, por culpa de modéstia própria e do funcionamento fatal da sociedade em que viveu. Venho por isso contar-lhe a pequena palavra de uma criança, em substituição de uma grande homenagem institucional, tentando disfarçar o pecado de ocultação que têm cometido todos os seus contemporâneos e sobretudo os que foram testemunhas, utentes e beneficiários directos, individuais ou colectivos, dessa mesma obra e dessa mesma atenção; A homenagem sem preço do afecto de um menino.
Além de artista e dinamizadora cultural exerceu a minha amiga a profissão de educadora, actividade da qual foi afastada ao final da sua carreira, por um processo burocraticamente lamentável e verdadeiramente kafkiano que talvez pouca gente conheça.Anos antes, porém, fora educadora num infantário do qual era utente um filho meu, criança que, como tantas, lutava com certas dificuldades de enquadramento devido à timidez e à incapacidade de reagir perante o meio já agressivo da comunidade infantil. A problemática que viveu foi um tanto perturbadora, sucedendo-se as conjecturas improdutivas de outras educadoras e até da directora do estabelecimento em causa.
A produção de opiniões em nada resultou até que tivemos a sorte de vir para o infantário Túlia Saldanha, que estabeleceu com o menino um relacionamento sem problemas, que conseguiu integrá-lo no colectivo e que fez desabrochar nele a capacidade límpida duma natureza somente tocada de alguma raridade, sem patologias negativas.
A amizade entre menino e educadora, centrada principalmente no trabalho de expressão plástica que desenvolvia, foi tão caloroso que, desde então, Túlia Saldanha perdeu o seu nome artístico para ser bem conhecida entre nós da forma como passou a designá-la esse menino: “a minha Túlia”.

Fique pois sabendo, além disso, que aqui em casa, falando-se de artistas, não viramos todos o rosto para o mesmo lado donde sopra o vento das amenas conveniências da unanimidade. Artistas, apreciamos todos, e a todos dedicamos a atenção que a obra justifica e merece. Mas não queremos ver na paisagem apenas o lado onde bate o sol das preferências sem questionamentos raros. E a si, cara amiga, para além do conhecimento que temos da grande obra por si desenvolvida e da sua total indiferença pelas homenagens deste mundo, creia que ficou “a minha Túlia” para todo o sempre, no imaginário de uma pequena família sem importância que rememora o seu trabalho inteligente como um bálsamo, e a sua perspicácia humana como um acto produtor de futuro em harmonia e felicidade.

Ainda a respeito de Túlia Saldanha e do CAPC, escrevi mais tarde – numa crónica publicada no Diário de Coimbra, o seguinte:

.

Túlia Saldanha, uma presença inesquecível

.

“…No dealbar dos anos setenta, quando cheguei a Coimbra, o CAPC era ainda procurado por interessados praticantes que aqui vinham propositadamente frequentar os seus ateliers, sendo dignificante em futuras carreiras artísticas a menção desse facto nos curricula respectivos.
Datam dessa década e da seguinte as visitas que ali fui fazendo, sendo para mim do maior significado a excelente convivência artística e cultural que pude travar nas antigas dependências da Rua Castro Matoso com artistas como Túlia Saldanha e Inês Paulino, para citar apenas dois nomes distintos.
O período seguinte foi caracterizado por convulsões e acontecimentos do mais variado teor que evidenciaram o Círculo como centro de realizações, debates, encontros, participações activas, sessões de divulgação, confronto de atitudes, etc.
As mudanças registadas, no percurso das quais o infausto desaparecimento de Túlia Saldanha não deixou de ser um notável ponto de viragem, associaram-se ao montante geral de transformações da própria sociedade, apagando de forma duradoura aquilo que fora e não mais voltou a ser.
Até aí ligado ao convívio artístico e à aprendizagem e divulgação oficinal das artes com carácter plural e de acentuada modernidade, o CAPC situou-se a partir de então no horizonte da “emergência” da arte contemporânea, numa tendência conceptual que acentuou a “desmaterialização” da arte e o isolamento progressivo da instituição, tendo alguns dos seus mentores mais avançados – o que não deixa de ser curioso – liderado a eclosão do que hoje é um importante núcleo universitário privado do ensino de Belas Artes…”

.

“Prometeu Agrilhoado” pelo grupo “El Aedo Teatro” de Cádis

“Prometeu Agrilhoado” pelo grupo “El Aedo Teatro” de Cádis

 

Foi publicado no Diário de Coimbra de hoje, 21 de Maio de 2010


Seja o Teatro Grego, seja alto o verbo com que nos fala e cheios de mágico encantamento todas as imagens e seres que coloca diante de nós, as suas principais virtudes – contudo – são trazer-nos sempre algo de nosso próprio drama, da nossa privada e pública disputa com os deuses, de como organizamos o nosso combate com o destino dando exemplo vivo de como estão organizadas as contradições do mundo.
Se possível, quando no Teatro se ouça o ribombar do trovão, ele seja como o alerta de uma enorme inquietação ou o eco dum entusiasmo jamais sentido antes.
Digo estas coisas porque foi assim que as senti durante todo o espectáculo oferecido por “El Aedo Teatro” de Cádis, com largo número de assistentes juvenis acompanhados pelos seus professores que teve lugar em Coimbra, no pátio do Museu Machado de Castro, em sessão promovida pelo XII Festival Internacional de Teatro de Tema Clássico.
“El Aedo Teatro”
é um grupo formado por jovens que se dedicam ao teatro clássico cujas realizações têm propósitos de interesse didáctico mas que, mais do que ler textos e colocá-los em cena, está vocacionado para pensar o teatro e organizá-lo como encontro de ideias e opções difíceis. Sentados por todo o lado, muitos dos jovens espectadores empunhavam os livrinhos com o texto clássico apropriadamente editado pelo Festival. Notei que estavam atentos e que procuravam um nexo de sequência entre aquilo que se passava no palco e que diziam os actores e o texto clássico, traduzido a preceito do grego por uma especialista na matéria.
Notei alguma perplexidade: a representação não seguia – nem à letra nem de perto – o discurso exacto contido no texto. Mas os questionamentos sobre a necessidade e a existência dos deuses, o fogo roubado a Zeus por Prometeu e oferecido clandestinamente aos homens com generosidade e sentido libertador, a própria liberdade e a sua questionável ou precária condição face aos tiranos ficavam ali vivos e palpitantes como toda a lógica da criação de Ésquilo, os seus personagens e o mesmo encadeamento cénico. A questão ver-se-ia esclarecida mais tarde, no fim da peça, quando a larga audiência de espectadores teve a oportunidade de dialogar com a totalidade do grupo, em pleno pátio do Museu.
Como se sugere acima a companhia faz uma leitura dinâmica de cada peça, utiliza obras de autores diversos sobre o mesmo assunto, e adapta aquilo que julga mais adequado para traduzir as ideias do próprio original em função do efeito dramático, da claridade da mensagem ou da sua eficácia em cena. Neste caso foi-nos dito que foram tratados textos de Eugénio d’Ors e Goethe, em obras dedicadas ao mesmo tema de Ésquilo.
“O que importa é sabermos o que queremos contar”, esclarece um dos actores.
“A liberdade não existe se o homem não a busca” parece ter sido o mais forte motivo condutor ao longo de várias cenas, ficando a pairar como um grito de angústia a denúncia terrível das vozes da negação enfrentadas em debate: “A liberdade não existe” e “Zeus é o único fogo”, ao que responde Prometeu, o encarcerado: “Zeus não existe se o homem dele não necessita, Zeus não escuta, só castiga”.
Na empolgante cena final Prometeu falou, aos homens assustados, de uma nova vida, garantindo que a liberdade existe e que devem procurá-la numa nova dignidade, em futuro que se fará presente. Um bom final embalado pela terra que treme e pelo ribombar do trovão, eco das convictas palavras de Prometeu que, embora perseguido e agrilhoado, não parece arrependido de ter oferecido aos homens o fogo, símbolo da sua libertação e pai de todas as artes.
O XII Festival Internacional de Tema Clássico assim prossegue, sugerindo-se a todos os interessados que procurem seguir a sua realização, que tem todo o interesse.

Nota sobre a ilustração:

Kylix lacónica con Prometeo y Atlas
(Museo Gregoriano Etrusco) Cerveteri. 560-550 a.C. Cerámica figurada. Alto 14 cm – diám. 20,2 cm;


Entre las demás producciones de cerámica griega figurada, destaca la cerámica lacónica, testimoniada por una famosa kylix (copa) fabricada en Esparta poco antes de mediados del s. VI a.C. y atribuida al Pintor de Arquesilas II. En ella se puede admirar una de las primeras representaciones del mito de Atlante que hayan llegado hasta nosotros. Atlas, con barba, dobla las rodillas debido al peso de la masa que tienen que sostener sobre sus hombros, al haber sido condenado por Zeus a mantener separado el cielo de la tierra. Además de su castigo se añade el de un segundo Titán, su hermano Prometeo, culpable de haber dado el fuego a la humanidad, atado a un poste y sometido al suplicio perpetuo del águila que le roe el hígado, el cual cada noche vuelve a crecer para ser nuevamente comido. La asociación de ambos episodios ha hecho suponer que este pintor se haya inspirado directamente en la Teogonía de Hesíodo, en la que los dos Titanes se describen uno después del otro.

Eugène Green, Soror Mariana e os azulejos

A RelPort

Publicado no Diário de Coimbra de 12 de Maio de 2010

Interessei-me desde há pouco pela figura de Eugène Green, o realizador de “A Religiosa Portuguesa”, e já li a seu respeito uma quantidade de coisas invulgares.
Por exemplo, os seus filmes incluem sempre cenas filmadas à luz de velas: projectores barrocos, assim chamados por terem detrás um espelho que ajuda a luz a comunicar às cenas uma suave luminosidade nocturna. E esclarece Raphaël O’Byrne, director de fotografia: “Deve ser o único realizador no mundo que filma sem luz eléctrica”.
Outra excentricidade, não menos surpreendente, é tratar-se de um nova-iorquino que não afina pelo diapasão “normal” pró-hollywoodesco. Antes pelo contrário, Eugène considera o seu país como “a barbárie”, abomina a produção fílmica norte-americana, adoptou há longos anos a França como local de residência e, imagine-se, tem uma acentuada fixação simpática pelos portugueses, por Lisboa e pelos mais sensíveis avatares da nossa cultura. Se eu fosse realizador cinematográfico e me encomendassem um filme sobre as qualidades emblemáticas de Portugal e dos portugueses, teria pudor em ser tão sentimentalmente frontal na exaltação da nossa personalidade simbólica.
Uma sequência de “A Religiosa Portuguesa” oferece-nos uma simples viagem de eléctrico e o olhar da câmara extasia-se e detêm-se em cada rosto, revelando a fisionomia meridional, o curioso olhar mourisco e o sorriso suspenso daqueles viajantes sem pressas. Numa cidade tão empedernida pelo cansaço, Eugène avalia os lisboetas com a imagem que deles retém e faz questão em nos mostrar o velho amparado nas canadianas a quem uma rapariga nova, tão solícita, oferece imediatamente o seu lugar. As escadinhas e calçadas tranquilas, os pátios escondidos, as portas antigas com pequenas janelitas, o sol forte por entre as ramagens, as paredes velhas com garatujas, as mais abertas perspectivas sobre a cidade enorme, os seus miradouros e jardins antigos, o dorso das colinas, os fontanários e bancos de pedra: Eugène vê tudo à lupa, explica, regala-se, ostenta como ornamento precioso aquilo que nós porventura desistimos já de ver ou simplesmente confundimos com velhice de alma decadente. Há muitos anos que não via um filme com fados inteiros e gente conhecida sentada, tornando explícita a morena estirpe lusitana de magriços e mouras encantadas.
E os azulejos, meu Deus, os azulejos!… Por todo o lado, detrás de cada vulto, de dia ou de noite, reforçando a solenidade da talha dourada e a convicção dos santos nas igrejas, em palacetes graves ou velhas dependências de casas modestas. Aparece por fim D. Sebastião, como se outra coisa faltasse para retratar o sentimento do inexplicável narrado num tom que explicitamente evoca a linguagem fílmica de Manoel de Oliveira, tão declaradamente presente que a própria protagonista e outras figuras são transferidas dos elencos favoritos do consagradíssimo realizador. Nada de tão fortemente emblemático poderia levar o filme tão longe como tem ido, a festivais e encontros com prémios e referências honrosas. A sua produção foi maioritariamente portuguesa e obteve subsídio do ICA (Instituto do Cinema e do Audiovisual), o que gerou certa polémica. Não impediu no entanto que tenha sido considerado por certas opiniões como “mais português do que muitos filmes portugueses”, tendo sido rodado em Lisboa por uma equipa técnica maioritariamente portuguesa, com base na que fez outra película de sucesso: “Aquele Querido Mês de Agosto”. “O Som e a Fúria”, entidade produtora do filme, foi criada em Setembro de 1998 e dedica-se em exclusivo à produção cinematográfica, procurando estabelecer um vínculo com o cinema de autor e independente. Já produziu 2 documentários, 23 curtas e 4 longas-metragens. No seu conjunto, estes filmes arrecadaram 53 prémios e 14 menções especiais em Festivais de Cinema. Também participa na distribuição das obras que produz, pelo que convém aos cinéfilos amigos mantê-la sob observação atenta.

As telenovelas, o plano fechado e o campo-contracampo

morangospeq1

Esta crónica foi publicada este mês no Diário de Coimbra

.
Já falei aqui a respeito da insanidade ficcional da telenovela, das disputas e da má educação que é sua vocação propagandear.
Um dia destes, na paz do lar, fui de novo surpreendido pela cena de uma das telenovelas portuguesas mais em evidência na actualidade: uma mãe e uma filha travavam um combate do mais aceso ódio em que o sorriso nervoso e crispado de uma e as lágrimas da outra eram a fronteira mais longínqua de um país escarninho de danação e amargura.
Depois disso já houve novos “rounds” desse combate de azedumes recalcados como se tal exercício necessitasse de treino ou fosse indispensável renovar em nós a lástima da aversão sem tréguas.
Cabe hoje falar aqui a respeito de alguns dos esquemas técnicos mais frequentes na confecção desse produto televisivo que é, antes de mais, uma indústria que movimenta recursos elevados e custos de produção caríssimos, o que demonstra o seu interesse na fixação de públicos dóceis, receptivos ao contexto publicitário abundantemente envolvente.
A colheita de imagens de uma telenovela é geralmente feita em cenários integralmente construídos para o efeito, com som directo, seguida de uma técnica de montagem que obedece a regras muito estritas, caracterizadas por uma trivialidade estética facilmente observável.

Termos chave são o “plano fechado” e a técnica do “campo-contracampo”

Quanto ao “plano fechado” basta dizer que ele é, como metáfora, a própria essência do processo narrativo da telenovela por insistir em concentrar a imagem num ângulo de visão sem espaço livre para a libertação do olhar, da curiosidade e da imaginação.
Para além de algumas imagens de abertura e de fecho que nos dão a conhecer o ambiente em que se desenrolam os episódios (com muito poucos exteriores e escassas cenas de acção) os diálogos (geralmente muito despojados, sintéticos e até rudimentares) são filmados por duas câmaras que revelam alternadamente o rosto de cada um dos intervenientes, não permitindo muito mais do que a articulação da fala, sem grande espaço concedido para a caracterização dramática. É o “campo-contracampo”.
Numa telenovela o vazio do discurso não convida a pensar e o realizador brinca com o espectador dando-lhe continuadamente pistas duvidosas para que com isso alimente a única curiosidade possível: saber quem foi o culpado da trama de confusos equívocos e esperar que tudo se resolva da forma mais previsível.
Os comportamentos são pouco edificantes, a inveja e a disputa não obedecem a regras e o desmascarar dos criminosos e dos oportunistas é quase tão difícil como na vida real, o que leva certos espíritos complacentes a julgar que a telenovela é “realista” porque se limita a reproduzir aquilo que se passa na realidade.
O encadeamento das cenas processa-se sem pausas ou acentuações que concedam ao espectador a faculdade de olhar e o privilégio de ver, pensando naquilo que está a acontecer, distanciando-se o suficiente para formular juízos críticos.
Na leitura de um livro podemos fazer uma pausa, voltar atrás para ler de novo e pensar no assunto. Na telenovela pode perder-se um episódio inteiro, os dados estão lançados desde o início e não há espaço algum para o imprevisto, o fenomenal e a excepção edificante.
Se houver duas telenovelas simultâneas em dois canais diferentes, temos uma vantagem: podem dar-se dez minutos a cada uma alternadamente, e nada se perderá com isso. Ou dormir uma soneca lá pelo meio. Deixa de ver-se uma cena de ódio, ganha-se uma de inveja ou de má criação e ao fim, casam todos na mesma uns com os outros.

Na Galeria Sete, pinturas de Miguel Telles da Gama e Pedro Pascoinho

Publicado no Diário de Coimbra no dia 17 de Abril de 2010

Recomendo a todos os interessados pela pintura uma visita à exposição “Permanências” que se encontra na Galeria Sete, ao fundo da Avenida Elísio de Moura, desde o dia 10 de Abril, com obras de Miguel Telles da Gama e Pedro Pascoinho. Os dois artistas evidenciam personalidades artísticas bem caracterizadas e as obras respectivas encontram-se devidamente apresentadas no espaço disponível de modo a não confluírem no mesmo horizonte contemplativo.
Os dois núcleos de obras são completamente diferentes, mas, a oportunidade de ver um conjunto primeiro e o outro logo depois, oferece um desafio mais ao visitante: o de poder viajar entre dois pólos de uma mesma fidelidade a princípios de observação e caracterização do universo das coisas sensíveis, podendo aproveitar a oportunidade para elaborar na mente um conjunto estimulante de relacionações não forçosamente comparativas, mas de valorização mútua de entidades contrastantes.
Entidades contrastantes, poderia ser esse porventura um outro título para a mesma realização conjunta, dado que é o que se nos depara ali: uma dualidade de confrontações, cada uma com a sua temperatura específica, o seu clima visual e a sua intensidade própria.

Na Galeria Sete, pinturas de Miguel Telles da Gama e Pedro Pascoinho


Miguel Telles da Gama apresenta-nos uma galeria de seres anónimos, fragmentários, oclusos, reduzidos a uma teoria de cores neutras, evidenciando a categoria de objectos escultóricos que oferecem pose em silêncio distanciado, página de modelos recortada pela tesoura criteriosa dum esvaziamento premeditado, sistemático, sem piedade.
Essas captações sintéticas afirmam o temperamento fotográfico de cada fragmento, materializado mediante o exercício cuidadoso de uma pintura meticulosa, obediente à focagem, à solidez, ao claro-escuro, ao capricho volumétrico dos tecidos, reminiscência da presença inapagável dos panejamentos da grande pintura.
A força do contraste, neste caso, é-nos revelada pela contraposição de tais elementos com planos de cores fortes, tornados objecto visível por intermédio de um expediente vocabular, título ou legenda de uma circunstância anexa ao sentido gráfico que envolve a totalidade das composições.


Pedro Pascoinho desenvolve perante o nosso olhar um teatro de confrontações de forte poder sugestivo, apoiado numa sistemática exploração de recursos gráficos do universo das revistas vindas do outro lado do Atlântico e de além Mancha, os “magazines” repassados pelo tipismo das gerações de entre guerras, dos seus trajes, adereços, apetrechos e ambientes de trabalho.
Essas figurações desenvolvem entre si uma dose de nonsense e de indeterminação que abrem para o mistério insolúvel amparadas muitas vezes por um manto de espesso negrume que marca a sua presença com uma plasticidade viscosa sem apelo.
O sistema de contrastes é acentuado (também) mediante as diferenças de escala de elementos contrapostos, expediente narrativo que por vezes assume o carácter de uma verdadeira abordagem psicanalítica, queira ou não queira a opção inicial que os colocou sobre a tela.
A execução plástica é fluente, intuitiva, as cores oscilam todas em torno de uma gama abatida na área de tons terrosos aquecidos pela maturidade das coisas antigas, alma residual de papéis deixados a amadurecer nas prateleiras de verão dum sótão de irrecuperável memória.

Pedro Pasc


Os suportes de Pedro Pascoinho acusam, em coerência com o clima plástico que os anima, uma tendência para a originalidade, para o suavemente inacabado, para a margem difusa, para o uso sofisticado de processos simples mas cheios de requinte.

As telenovelas, companheiras das tardes sem fim e das vésperas do cansaço

braga1
Sónia Braga

Quando no dia 16 de Maio de 1977 foi apresentado o primeiro episódio da telenovela “Gabriela Cravo e Canela” os portugueses estavam bem longe de poder imaginar que esse iria ser, durante muitos anos, o horizonte mais duradouro dos seus passatempos televisivos, companhia de almas solitárias por tardes sem fim e testemunha das fadigas do fim do dia de tanta gente sequiosa de um momento diferente de escape, evasão e alguma curiosidade insatisfeita.
Das crianças aos adolescentes, das donas de casa aos elementos mais velhos das famílias, pessoas enfim de todas as qualidades e feitios carentes de melhor alternativa de utilização do tempo vazio antes do sono, todos procuram na fonte de águas pouco minerais dos episódios das telenovelas matar alguma sede de vidas novas e diferentes, noutro cenário e noutras companhias.
Que coisas levam tais pessoas consigo para o sono reparador? Que coisas aprendem esses jovens? Que imagem da vida compõem? Que sonhos sonham? Que desejos acalentam?
Alguma coisa fica, certamente, nos espíritos de quem vê e ouve. A linguagem, por exemplo. Mas não só isso. Há nas telenovelas uma escola de atitudes, uma ideologia para a disputa do quotidiano, uma lógica de moralidades e uma justificação de necessidades que não podem deixar de imprimir as suas marcas.
Os nossos avós antigos aprenderam a construir seus usos no rigor da família, na austeridade do trabalho e no temor das igrejas. Algumas gerações mais recentes conseguiram acesso a um universo mais aberto de horizontes mais largos, em locais de trabalho, escolas e instituições de todo o tipo.
Hoje é também o mercado de consumos que dita as suas leis e conforma as consciências. E o mercado das imagens, aquele que nos entra pela casa dentro com a nossa complacência e até um indisfarçável entusiasmo consumista. Não é a telenovela que vem até às pessoas. As pessoas é que lhe abrem as portas aceitando o universo de valores que lhes propõe.
Será bom que tenhamos consciência desses factos e que aprendamos a organizar em torno de nós próprios um círculo de defesas naturais. Ideal será estabelecer um processo de conviver com realidades mais positivas, se possível com gente dentro e valores humanos à mistura. Entre-se no site de uma das telenovelas portuguesas mais “badaladas” dos últimos tempos e consulte-se uma sinopse do enredo:
“…fulano e beltrano são dois irmãos gémeos, ambiciosos e sem escrúpulos que competiram entre si durante toda a vida. Em miúdos disputavam os brinquedos, em adolescentes as namoradas e em adultos a própria vida numa luta pela ascensão social”.
Melhor mesmo do que isto só o critério abertamente enunciado que sustenta a historieta:
“Uma novela é tão boa quanto o seu vilão. Nesta telenovela o vilão é servido em dose dupla: fulano e beltrano são dois irmãos gémeos. Mas esta não é a história clássica do gémeo bom versus o gémeo mau. Ambos são a maldade em pessoa. Nestes gémeos o laço que os une é o ódio…”
Um universo ficcional destes não o reservo nem para o meu pior inimigo.
Quantos milhões de olhos e quantas cabeças predispostas terá inundado de curiosidade absorta? Em quantas consciências terá ficado a morar essa indesejável galeria de fantasmas?
Eu não a vi. E o leitor (ou leitora), lembra-se da história?

Alice no país das maravilhas, o livro de tantos filmes

.

DrawAlFoi publicado dia 26 de Março de 2010 no Diário de Coimbra

The Hatter opened his eyes very wide on hearing this; but all he said was ‘Why is a raven like a writing – desk?’

Lewis Carrol, de seu nome Charles Lutwidge Dodgson, foi um clérigo anglicano de muito respeitável família, precoce, sensível, gago, canhoto, cultíssimo, tendo ingressado em 1851 na mesma faculdade onde estudara seu pai, a Christ Church da Universidade de Oxford, onde veio a leccionar matemática. Dele pode dizer-se igualmente que, além de cientista dotado de promissora carreira, também era apreciador das novas tecnologias de então. Dedicou-se à fotografia com particular afinco, produziu em estúdio próprio milhares de originais que documentou de forma exaustiva, facto que – entre outros – justifica a sua inserção no mais elevado estrato cultural e artístico da sociedade inglesa da época victoriana. A sua obra literária deu origem a uma galeria de figuras e de situações de uma originalidade sem par, servidas por uma imensa subtileza de linguagem e um enorme sentido de análise psicológica, tudo envolvido por um halo de irrealidade que em inglês costuma designar-se por “nonsense”, um “não-sentido cheio de conteúdos latentes” de elegante complexidade.
As suas duas obras mais conhecidas “Alice no país das maravilhas” e “Alice do outro lado do espelho” têm fornecido matéria a um sem número de referências analíticas e inúmeras criações artísticas, de que o cinema se tem servido abundantemente. São agora aproveitadas para fazer um filme que, com algumas afinações de enredo “made in Hollywood”, conta a história conjunta mais uma vez, aproveitando o pano de fundo de enorme notoriedade que a obra do sofisticado inglês conseguiu granjear praticamente por todo o mundo.
A novidade essencial desta milionária realização é a de nos trazer a história contada a três dimensões, facto que se arrisca a ser cada vez mais frequente em filmes de grande notoriedade e movimento, de proveniência norte americana já se vê, por ser – fatalmente – a única origem de praticamente todo o cinema visto entre nós, em salas ou mesmo na televisão.
Além do acréscimo das percepções visuais, os animais são todos assustadores e aquele “Jabberwocky” tem qualquer coisa de familiar dos monstros das guerras das estrelas, figuras medonhas que matam tudo que lhes aparece à frente e que têm um rugido que até faz abanar as cadeiras.
Sendo o imaginário de Lewis Carrol uma ferramenta de profundo interesse na interpretação metafórica de uma quantidade de estranhezas e complexidades do nosso espírito e da natureza das coisas, seria talvez proveitoso que da ida a este filme alguma coisa ficasse na mente do espectador médio para além do ruído e dos efeitos especiais que comandam o espectáculo.
Mas receio bem que para isso seja fundamental um mergulho silencioso e delicado na leitura dos seus livros, o que cada um de nós poderá fazer em qualquer altura com o apoio garantido da nossa capacidade imaginativa que entende capazmente as “falas do Inconsciente” e que também fornece, estou seguro, imagens a três dimensões.

.

.

Reflexão em torno do monólogo “coisa pública”

Reflexão em torno do monólogo “coisa pública”

Custódia Gallego em “Vulcão” de Abel Neves.

Diário de Coimbra de 9 de Março de 2010

A especialização do teatro conduz a diversíssimas variantes que fazem parte integrante da sua imensa riqueza. Algumas chegam a constituir modalidades suficientemente caracterizadas, com públicos certos e determinados para serem vistos em lugares próprios e dependem da riqueza de patrimónios colectivos sedimentados, consoante o caso, ao longo de gerações. Entre elas as que se estruturam em torno da ideia do monólogo.
Tudo de novo, pois, sob o sol, tendo este tipo de aberturas sempre um interesse muito legítimo, no caso da sociedade portuguesa, face à consolidação de públicos e à valorização que este sector da cultura tem vindo a registar, com a vantagem acrescida de afirmar uma saudável tendência descentralizante. A XII semana cultural da Universidade de Coimbra integrou, no âmbito do teatro, um conjunto de realizações sob o tema do monólogo “coisa pública”, que agregou, além de vários acontecimentos de reflexão e estudo, um conjunto de espectáculos de teatro concebidos sob o signo dessa modalidade específica. Os acontecimentos mais especializados desta iniciativa foram – como é habitual – dirigidos a sectores estrategicamente situados, sendo de acesso mais geral os que foram levados à cena no Teatro Académico de Gil Vicente e no Teatro da Cerca de São Bernardo. Poucas pessoas terão podido acompanhar todos os espectáculos do ciclo, tendo-me tocado a mim ver, no TCSB, dois dos cinco que foram apresentados: “Vulcão” de Abel Neves, com Custódia Gallego (encenação de João Grosso, ACE Teatro do Bulhão) e “Calendário da Pedra”, texto, encenação e interpretação da brasileira Denise Stoklos.
Ambos os espectáculos são notabilíssimos devido desde logo à presença de artistas que – sozinhas em palco – têm a capacidade hercúlea de concentrar numa só voz e num só corpo todo os conteúdos expressivos de uma construção narrativa, por mais específica que ela seja.
Custódia Gallego faz um trabalho mais próximo do teatro habitual, com uma história com diversos figurantes, um drama, em suma com suporte essencial no texto de que decorre e Denise Stoklos assume a pose de um “performer essencial” mais centrada na mímica, na coreografia, no exercício vocal, viajando em torno de si própria e do íntimo colectivo.
“…A estratégia aqui do performer é não ter estratégia. Diferente do ficcionista que segue uma linha pré-desenhada, ele busca o tónus da cena no seu ego, no seu âmago. Melhor dizendo o seu próprio tónus é a cena…” afirma Denise no texto em que apresenta, mais que a sua actuação particular, o contexto programático da sua forma de estar em palco.
Sem poder trazer aqui uma análise detalhada de ambos os espectáculos, de elevada qualidade e muitíssimo diferentes na sua génese e desenvolvimento cénico, terei que afirmar que ambos dependem de uma coisa que me parece um pouco contingente no teatro como veículo de transmissão de ideias, sentimentos e percepções do mundo: a vitalidade essencial e a resistência psíquica e física dos intérpretes respectivos, para além do seu talento genuíno. Apetece-me dizer que o espectador deixa de poder ver o tema, de atender apenas à palavra e ao gesto como produtores de uma certa ideia das pessoas e dos sentimentos que as animam, para passar a assistir a uma espécie de competição extremada do artista consigo mesmo. O espectáculo, de construção dramática, passa de certo modo à categoria de ultrapassagem emocional na qual o espectador sai esmagadoramente vencido pela extenuante energia posta em marcha pela actuação do solista.
Devastado pelo talento evidente, o espectador rende-se. Mas será que fica convencido ao nível do exercício quotidiano do pensamento sensível?
Será que da imensa energia dispendida e do elenco de recursos histriónicos, da ciência do dizer e da capacidade da construção gestual sobra alguma coisa para seu próprio consumo íntimo?
Esperemos que sim, dada a dinâmica de pluralismos de que o teatro é capaz e do merecido incremento de interesse que tem vindo a registar entre nós.

Reflexão em torno do monólogo “coisa pública”
Denise Stoklos, “performer essencial” de “Calendário da Pedra”
.

Os painéis de azulejos da Rua Olímpio Nicolau Rui Fernandes

Os painéis de azulejos da Rua Olímpio Nicolau Rui Fernandes

A seguir às grandes movimentações sociais do 25 de Abril surgiu na longa parede que se estende à frente do Mercado D. Pedro V uma espécie de mural revolucionário de que deve haver escassas memórias em escondidos arquivos fotográficos.
Eu mesmo guardei alguns slides que documentam esse vestígio do entusiasmo popular e que comprovam esclarecidamente que o acto de requalificar esses muros, entre 1984 e 1986, não foi um grande acto de coragem: foi apenas um acto de lucidez mínima, conforme documenta a imagem acima.
Quanto aos azulejos de substituição houve certamente pressa demais em fazer obra e não houve coragem de consultar alguém que estivesse à altura do restante património edificado na cidade. O local, pela sua extensão e configurações seria sempre problemático, não ajudando o facto de ser um espaço que se atravessa geralmente sem olhar para o lado.
Conheci o seu executante como brioso profissional de artes gráficas, o Senhor Amílcar Matias, do qual conservo a melhor recordação pela sua paciente e laboriosa cordialidade. A encomenda que lhe fizeram era coxa, o conceito da obra proposta não se insere nem na tradição monumental da cidade nem na memória que o país (julga que) tem do que são os azulejos como técnica artística de revestimento.
A obra configura-se como uma simples “passagem de slides”, citações tal e qual de ângulos monumentais da cidade de fotogenia elementar. As figuras escolhidas de “postal turístico” são envolvidas por um halo de brancura que produz com a parede envolvente um contacto duma frieza extrema em tudo distanciado de qualquer dos opulentos capítulos da gramática expressiva da azulejaria portuguesa. Uma obra de arte que cobrisse todo o enorme espaço em questão teria que ter sido concebida como um todo organicamente estruturado, com diferenciações no tipo de cobertura e vectores criativos bem orientados quanto ao seu conteúdo plástico e referencial.
Consideremos apenas dois casos concretos de murais cerâmicos que se tornaram emblemáticas dos locais onde se situam: o conjunto de sete painéis de azulejos para a AAC, “A Evolução do Traje Académico” de 1958, de João Abel-Manta, situado em Coimbra apenas algumas centenas de metros mais acima, e o painel da Ribeira Negra de Júlio Resende, à saída do tabuleiro inferior da Ponte de D. Luís I, no Porto, de 1985, exactamente contemporâneo daquele que estou a referir.
Os primeiros estão perfeitamente enquadrados na estrutura arquitectónica de que fazem parte, representam uma pesquisa rica de alusões significativas relativamente ao tema proposto e alternam de forma ideal com materiais de cobertura criteriosamente escolhidos e plasticamente orientados. O segundo é uma obra de estética muito austera e forte sinalização humanista, em suportes de grés vidrado de 30×30, que se cinge à curva ascendente de forma escalonada num aproveitamento ideal da altura a que se encontra, para se tornar visível e atingir força monumental. Infelizmente a obra em apreço não tem nenhuma destas características, não possui potencial simbólico nem expressão emblemática que lhe valha e irá doer enquanto durar, pela insignificância burocrática da concepção que lhe deu vida.
Ao fim de uma geração lá segue desempenhando o seu papel de zona de passagem que não empolga ninguém, de que quase nada se tem falado nem ensina a ver aquilo que a cidade tem de mais valioso.

.

Amilcar Matias: Era natural de Casais do Campo, estudou na Escola Avelar Brotero e exerceu ao longo de toda a sua vida a actividade de artista gráfico com extensa obra feita, que complementou com actividades criativas diversas no domínio da cerâmica, da ilustração e do cartaz. Também se dedicava com gosto à pintura que expôs por diversas ocasiões, nomeadamente na galeria do Primeiro de Janeiro, em Coimbra.

.

O painel de azulejos do Instituto do Emprego de Coimbra, de Eduardo Nery, na Avenida Fernão de Magalhães, em Coimbra

.

Aspecto do painel de azulejo “Jardim da Manga”

Este comentário foi publicado no dia 26 de Fevereiro de 2010 no Diário de Coimbra

Depois de ter falado em datas muito diferentes e distanciadas do painel de azulejos do Montepio Geral e do trabalho de cromatismo urbano do ex-Edifício dos CTT, faltam-me ainda mencionar duas outras obras da concepção de Eduardo Nery que se encontram nesta cidade e que podem ser observadas em espaços públicos. Uma encontra-se no Instituto do Emprego e Formação Profissional, no nº 660 da Avenida Fernão de Magalhães e outra num dos corredores do Centro Cirúrgico de Coimbra, na Espadaneira, ao lado direito da estrada que conduz a Taveiro.
É a primeira destas duas que vai ser aqui hoje brevemente analisada no que tem de plástico-simbólico e no que significa para um espaço público ser prendado com um elemento de valorização patrimonial e artístico, usando para mais essa (dita) singela e muito particular técnica das artes decorativas, tida como sendo um dos mais genuínos exemplos do génio criativo da alma lusa. Mais uma vez se deve a sua criação à centralidade lisboeta pois deriva de uma opção de encomenda tomada na capital pela direcção do então designado Instituto de Emprego que no decurso dos anos oitenta tinha alguma dinâmica interna quanto a aquisições directas para a decoração de espaços onde instalava os seus serviços. Aliás, foi também uma empresa de Lisboa que foi encarregada da execução do painel e da sua aplicação no local em 1988, a Azularte, Lda.
Tem a particularidade de conter uma alusão ao património arquitectónico da cidade de Coimbra, mas essa escolha deve-se à sensibilidade do artista e às suas memórias e não a qualquer outra razão específica.
É um trabalho que tem como suporte os mesmos azulejos de chacota grossa que fazem o regalo de espaços nobres e selectos mas que oferece para além disso a sugestão do fantástico e do inesperado: o familiar mas esteticamente requintado templete do Jardim da Manga arranca para o céu como se fosse uma nave espacial, quebrando a serenidade monástica do convento de Santa Cruz em cujo segredo tantos anos viveu, rodeado de silêncio e de pensamento. É uma ruptura feita a partir da naturalidade tranquila dum painel à maneira do Sec. XVII, conformado com o seu branco e azul e com a sua perspectiva renascentista, em cujo ponto de fuga se opera a “explosão” dinamizadora da figura que ascende aos céus animada de velocidade e evidenciada pela cor amarelo laranja. As próprias peças cerâmicas que no motivo inferior se encontram ordenadas em malha vertical/horizontal, ganham um dinamismo que passa pela meia esquadria e atinge a inovação de deixar vazios certos sectores do painel que revelam a própria base do reboco de suporte, com azulejos aplicados “ao acaso”, animados pelo acidente explosivo da inesperada “nave do futuro”…
A transformação que a realidade presente veio trazer ao ambiente claustral de antanho não é excedida em muito pela sugestão da nave espacial já mencionada. Para os frades que ali leram e pausadamente meditaram, a passagem de milhares de automóveis e autocarros, o rio de gente e o ruído, pouca diferença fariam da explosão de uma nave que os derrubasse de espanto e de antecipação mágica. Aqui, como em muitas situações da vida, a realidade equivale a própria ficção e rouba lugar ao sentimento de surpresa ou à capacidade de ilusão que resta no nosso espírito.
Esforçando-se por alcançar alguma coesão com o espaço envolvente, Eduardo Nery insistiu em alargar a sua intervenção à barra inferior e aos pilares de suporte, para criar uma complementaridade com a arquitectura do local e para que o tema do painel não parecesse tão despojadamente casual como em princípio poderia ficar se lhe faltasse esse remate ambiental.

O painel de azulejos do Instituto do Emprego de Coimbra, de Eduardo Nery, na Avenida Fernão de Magalhães, em CoimbraO mesmo painel numa visão mais geral. Notar a barra inferior que se prolonga mais para a esquerda e a cobertura azulezar do pilar situado ao lado direito da imagem, referidos no texto acima

 .

O “Single Singers Bar” do Teatrão, o tal espectáculo que seria impossível noutros tempos

O “Single Singers Bar” do Teatrão, o tal espectáculo que seria impossível noutros tempos

Na fotografia de Paulo Abrantes: Margarida Antunes de Sousa, João Castro Gomes, Isabel Craveiro, Nuno Carvalho e Inês Mourão


O culto da noite e as estratégias do prazer têm séculos de tradições e correspondem a necessidades que não desaguam necessariamente no desconcerto do deboche nem na alienação licenciosa. Infelizmente, ousarão sussurrar algumas almas cinzentas e solitárias, a cuja porta bate com certa teimosia a fria mão de desencanto e o desconforto do coração incompreendido. A “má vida”, assim se tem chamado ao apelo secreto dos serões inundados por uma dose de licença e de sensualidade vital, na suspeita de que tudo aquilo que pressupõe se encontra fatalmente ligado ao conceito de “pecado”.
As propostas explícitas que nos trouxe o espectáculo para piano e canto apresentado pelo Teatrão, na Oficina Municipal do Teatro, o “Single Singers Bar”, se fosse apresentado “no meu tempo” neste mesmíssimo país e cidade em que nos encontramos, seria um caso de desaforo, de escândalo e constituiria por isso mesmo, um autêntico “caso de polícia”!…
Isto para entendermos o quanto mudou a sociedade em que vivemos no decurso de algumas décadas e para que se compreenda que as máscaras que entretanto caíram não escondiam monstros nem maldições fatais mais do que todos aqueles que a liberdade e o pluralismo conseguem resolver na complexidade de uma sociedade em permanente mutação.
A mistura de um bar/tabacaria com a de cabaret/teatro produz um “cocktail” do mais saboroso efeito, agora nestes tempos que – não nos iludamos – não são de licenciosidade mais desenfreada do que a de outros de antes por razões que nem cabem aqui, nem vale a pena explicar.
As inúmeras programações que têm sido apresentadas neste espaço (a tabacaria do OMT, um café/teatro) acusam essa vocação específica de associar o clima de convívio à fruição do teatro ao som da música e às artes da declamação e do canto.
Têm variadíssimos antecedentes entre os quais recordo como particularmente interessante “O Cabaret da Santa”, de Setembro de 2008, do brasileiro Reinaldo Maia e do português Jorge Louraço, também encenada – como o “Single Singers Bar” – por Dagoberto Feliz e que resultou de uma frutuosa parceria com o grupo Folias d’Arte de S. Paulo. Saliente-se que Dagoberto Feliz é fundador, actor e director musical da companhia paulista.
Neste espectáculo de agora, sem desprimor para nenhum dos outros intervenientes que com valor desempenharam os seus respectivos papéis, seja-me permitido salientar os dois belíssimos quadros do “casamento” e da “Lorelei” (nome estereotípico de mulher comum que também evoca o das ninfas das águas do romântico rio Reno…) protagonizados por Inês Mourão. O suporte pianístico fornecido por Jorge Marinheiro teve a máxima dignidade artística e o naipe de actores/cantores cumpriu de forma sugestiva e convincente o projecto que, mais do que um simples acto de teatro, configura um “espectáculo total ao vivo”, tão raro porque tão difícil.
Há que acrescentar que este trabalho se pode considerar um acto de coragem por todas estas razões e também pelo facto acima vagamente sugerido de constituir um desafio relativo aos fantasmas e temores tão frequentemente dissimulados por detrás de uma aparente e concertada moderação de gestos e de atitudes que pinta de cinzento muito do nosso quotidiano, cansado de tanta briga inútil e de tanta frustração envergonhada.

O “Single Singers Bar” do Teatrão, o tal espectáculo que seria impossível noutros tempos


Ficha Técnica e Artística:
Encenação: Dagoberto Feliz
Elenco:

Inês Mourão,
Isabel Craveiro,
João Castro Gomes,
Jorge Marinheiro (Pianista),
Margarida Sousa e
Nuno Carvalho

Figurinos e Adereços: O Teatrão
Desenho de luz: Alexandre Mestre
Montagem e Operação de luz: Alexandre Mestre, João Castro Gomes, Jonathan Azevedo e Rui Capitão
Cabeleireiro: Carlos Gago (Ilídio Design)
Fotografia: Paulo Abrantes
Grafismo: Sofia Frazão
Costureira: Fernanda Tomás
Direcção de Produção: Inês Mourão
Produção Executiva: Isabel Craveiro, Margarida Sousa e Nuno Carvalho
Direcção Técnica: João Castro Gomes
Produção: O Teatrão 2010

.

“Saloon yé-yé” pelo Teatro Regional da Serra do Montemuro no TCSB, em Coimbra

saloon
Publicado hoje, 12 de Fevereiro de 2010 no Diário de Coimbra


O Teatro Regional da Serra do Montemuro tem um sugestivo e bem organizado site na Internet que nos transmite, desde o texto de abertura “Convívios Comunitários”, a entusiástica sensação de que é perfeitamente possível fazer do teatro uma plataforma sem par de convívio e de abrangência cultural, com sede – imagine-se – na pequena aldeia de Campo Benfeito.
Em mais uma apresentação levada a efeito no Teatro da Cerca de São Bernardo, onde tem sede activa A Escola da Noite, esteve de visita aquele agrupamento de teatro com o seu castiço “Saloon yé-yé”, ou “paraíso à espera”.
Catt Pingado, Kid Mocas, Débora Boy, Xerife Olívia, Susy Carioca, Teclas Man, Lulu Quem-me-dera, Speedy Meu, FredySnif e Lucas Rosinha, além de Cavaca, o cavalo com cornos de vaca, são designações desopilantes de uma encenação de Graeme Pulleyn, com um soberbo texto de Abel Neves, companheiro e amigo d’A Escola da Noite, onde os seus textos já estiveram na origem de três espectáculos:
“Além as estrelas são a nossa casa”, “Além do Infinito” e “Este Oeste Éden”, apresentado no ano passado no TCSB.
Tive o grato prazer de assistir ao “Saloon yé-yé” sentado muito perto duma criança acompanhada de seu pai (belíssima acção de amor pela renovação da cultura) e ir apreciando uma variedade de atitudes, perguntas, interjeições e estados de ânimo que valeram, além do mais, para dar credenciais à vitalidade contagiante do Teatro neste espectáculo (de sala literalmente cheia, diga-se de passagem).
A peça, cheia de cor, movimento, música e “mistérios” dignos de uma activa mescla de cinema, banda desenhada e “music-hall”, tem um texto cuja construção e desenvolvimento potencia o espectáculo muito para além da frivolidade aparente do menu acima descrito.
Num país onde as famílias adormecem atormentadas pela dramaturgia inconcreta de telenovelas que são autênticos “workshops” para a malvadez e a má criação, com direcções de actores mais que questionáveis e textos para mentes conformadas à mediocridade, impressiona ver assim um trabalho bem feito onde a palavra toma o lugar que lhe compete, trazendo à tona temas sérios e concretos da vida real, pleno de plasticidade semântica, riqueza de intertexto e neologismos cheios de graça e intenção irónica.
Nesse sentido o espectáculo, servido por um excelente grupo de actores plenos de qualidade e polivalência expressiva, permite uma diversidade de leituras verdadeiramente intergeracional, em que as eventuais cenas de “violência” são sublimadas por um adequado processo de “câmara lenta” em fundo de música condizente, que enche de gáudio os mais jovens espectadores sem descomprometer os mais maduros pela verdade escondida por detrás do expediente cénico.


O Teatro Regional da Serra do Montemuro tem também uma clara vocação para intervir na área educacional e formativa e um programa de digressões que levam longe a sua actividade. Parabéns e continuação do bom trabalho!

FICHA ARTÍSTICA
Texto: Abel Neves
Encenação: Graeme Pulleyn
Direcção Musical: Carlos Clara Gomes
Cenografia e Figurinos: Ana Brum
Construção de Cenários: Carlos Cal
Direcção Técnica: Paulo Duarte
Design Gráfico: Zé Tavares
Direcção de Produção: Paula Teixeira
Assistência de Produção. Susana Duarte

Interpretação
Abel Duarte,
Eduardo Correia,
Paulo Duarte,
Daniela Vieitas,
Neusa Fangueiro.

O trigésimo aniversário da Cooperativa Bonifrates, de Coimbra, com a peça “Estilhaços”

Foi publicado hoje, dia 5 de Fevereiro de 2010 no Diário de Coimbra


O aniversário da Cooperativa de Teatro Bonifrates não teve lugar ao fundo daquele húmido corredor de garagens onde humildemente vamos ver os belíssimos espectáculos que desenvolve e apresenta. Foi acolhida, sim, no Cine-Teatro de Condeixa, numa magnífica infra-estrutura cultural onde todos desejariam se centrasse uma mais continuada actividade da sua inerente vocação de palco de artes, actualizadas algumas depreciações originadas pela própria descontinuidade no seu uso.
A peça “Estilhaços” (aquilo que resulta de qualquer coisa que ameaça por ter explodido sem apelo) já foi vista antes e apreciada na rigorosa metodologia (pode dizer-se científica) com que foi elaborada, no contexto que ela própria descreve: os horizontes fechados da violência doméstica, os verdadeiros protagonistas e gente ligada às instituições especializadas no seu tratamento sociológico e humanitário.
O texto da peça adopta uma versão literária sem diálogo interactivo entre os personagens, apresentando-os, ainda por cima, predominantemente confinados ao casulo de uma solidão muito menos que simbólica: uma espécie de gaiola ou célula cujo significado metafórico cruza de modo eficaz o sentido de um guichet de repartição, de toca de um esconderijo ou de célula de uma prisão.
É uma terrível “invenção cénica” que ampara um dinamismo de mutações permanentes na geometria do espectáculo e de que raramente se liberta a maior parte dos intervenientes.
Alguns deles “parecem” mais soltos, numa pose de intrusos aparentemente livres da lógica imediata do espectáculo. Puro engano, essa diferenciação resulta simplesmente de um artifício perfeitamente conseguido para diferir no tempo ou no espaço a “continuidade” lógica de planos narrativos.
No encadeado de monólogos intimamente trágicos a que se entregam todas e cada uma das “almas aprisionadas” existe, contudo, um intervalo de tolerante espírito de sacrifício, uma necessidade de justificar o injustificável e a ingénua alusão aos instantes fugazes de paz ou felicidade. O que não nos liberta a todos nós, actores e espectadores, é o estampido final que nos remete subitamente para o plano irrecusável da responsabilidade cívica e da noção inequívoca das realidades.
“Estilhaços” não é seguramente um espectáculo vocacionado para substituir um serão de sofá e telenovela. Ele é, mais propriamente dito, uma espécie de anti-telenovela, pelo rigor inflexível com que nos obriga a ver a sociedade despida dos subterfúgios duma aparente facilidade em espreitar pelo buraco da fechadura do sofrimento alheio, longe de todos os cenários da sociedade consumista do sucesso e dos finais felizes.
O único final feliz que pode descortinar-se em “Estilhaços” é olhar de frente a verdade completa, sem bónus de concorrente vencido ou prémio de consolação de participante ingénuo.
A continuidade da apresentação da peça está felizmente garantida por um protocolo estabelecido com a CIG (Comissão para a Igualdade de Género). Parabéns a ambas as instituições.

A fuga de Wang-fô no Teatro da Cerca de São Bernardo, em Coimbra

foto-pupo

 

Publicado no Diário de Coimbra de hoje, 29 de Janeiro de 2010

Enquanto nós, corpulentos e laboriosos caucasianos ensaiávamos a nossa titânica descoberta científica do mundo, outros grupos de povos há muito tempo voavam alto na senda de todas as possíveis aventuras do Homem, inventando tantas coisas que não cabe aqui serem sequer resumidas.
O TCSB teve a feliz ideia de nos vir mostrar um desses outros exemplares da raça humana, de tez lunar e estatura frágil, que nos conta a história felizmente recuperada das águas tempestuosas da distância intercontinental por Marguerite Yourcenar, escritora de um dos maiores livros da minha vida: “As Memórias de Adriano”.
Joana Pupo
(e a respectiva talentosa equipa de trabalho) dá corpo ao subtil contador de histórias que trata com gestos de vaporosa imaterialidade a enorme saga de um pintor e de seu leal ajudante e dedicado companheiro, através de aventuras que eu gostava de ter vivido, por transportar também comigo esse sonho sem nome que é o de dar vida a telas pintadas com poderes milagrosos e irradiante lucidez. Com secretas pretensões também eu gostaria de ter os meus trabalhos coleccionados pelos trágicos imperadores do Reino dos Han!…
O espectáculo é de uma sumptuosa simplicidade e resolve o problema central da arte de todos os tempos: fazer o máximo com o mínimo. Desenrola-se envolvido pela cor predilecta da liberdade do corpo enquanto dorme e é no seio desse negro que Joana o povoa de uma narrativa que exige esforço de atenção, é certo, para todos aqueles que estão habituados a querer elevar-se da insignificância da vulgaridade.
Não vou contar aqui a história adaptada nas suas simples complexidades nem vou aborrecer o leitor apressado que lerá (?) algures esta minha confissão de espanto: Houve na China um pintor chamado Wang-fô que ressuscitou o seu discípulo Ling do lenço vermelho da decapitação; o tal companheiro que o ajudava a transportar por vales e caminhos duas caixas vazias de bagagem, mas que levavam dentro de si tudo aquilo que queira a tenacidade imaginária dos privilegiados espectadores carentes de sortilégios, tal como aqueles que vi aquela noite na sala do TCSB.

Acabo com duas auspiciosas anotações:

Primeiro, a de que a verdadeira história de “Comment Wang fô fut sauvé” tal como a versão simplificada (?) de Marguerite Yourcenar, estão ao alcance de todos na internet, e bem assim uma infinidade de preciosos acompanhamentos pedagógico-literários da obra em questão.
A história original é – em extensão e complexidades de enredo – diferentíssima da excelente versão de Marguerite.
Segundo, foi um prazer sentar-me para ver este espectáculo numa sala povoada por pessoas de todas as idades, a maiora das quais podiam ser meus filhos ou netos.

ficha técnica

ideia e interpretação Joana Pupo colaboração criativa Tiago Hespanha apoio contador de histórias Cristina Cartaxo apoio interpretação e figurino Inês de Carvalho apoio movimento Ana Borges apoio técnico Mafalda Soares de Oliveira design gráfico Joana Pinho Neves fotografia Iuri Albarran operação de luz e som Rui Capitão assistente produção Carla Carreira produção Vagão, Assoc. Para Viagens Culturais e Artísticas

 

Manuel Cargaleiro no Museu do Vinho Bairrada, na Anadia

Cabral Moncada

Manuel Cargaleiro, painel de azulejos, 1992; visto site Cabral Moncada Leilões, pesquisa internet.

 

Publicado em 20 de Janeiro de 2010, no Diário de Coimbra

Naquele Sábado apresentei o meu neto a Manuel Cargaleiro. A cena toda começou comigo a chegar atrasado e a ter de me armar em fulano da imprensa para furar sem cerimónias por uma sala já à cunha para assistir a uma sessão impregnada pelo orgulho legítimo de uma comunidade trasbordantemente presente. O dever de ofício constrange-me a dizer coisas insignificantes como ter falado com fulano, ter ouvido falar sicrana, ter sido abraçado com emoção à frente de toda a gente por António Pedro Pita e ter tido pena de comer tão pouco leitão e apenas provado o vinho.
Importante foi ter apresentado o meu neto a Manuel Cargaleiro sem ter tido a coragem imaginária de lhe dizer a verdade magnífica: olha, este senhor é que me ensinou a pintar antes de passares tu a ser meu professor em artes. O meu neto Flávio, além de ser a minha mensagem genética ao futuro do Universo, descobriu e ensinou à Vóvó, que é uma ingénua celestial em mecanismos técnicos, como é que funciona aquele saca-rolhas do Museu que ele conhece de ginjeira de casa do avô Vítor.
Quando me apanhei frente daquele que não é Cristo mas a quem todos chamavam Mestre, fui dizer-lhe assim: conheço Manuel Cargaleiro muitíssimo bem há mais de quarenta anos e vinha apresentar-lhe três gerações de olhares convergentes nas sumptuosas simplicidades produzidas pelas suas mãos que me fazem lembrar as do meu avô mas de facto era impossível porque mal tem idade para poder ter sido meu pai.
Agora que me desculpe a primorosa e, como é tradicional, opípara, realização do acontecimento e um dos respectivos catálogos, o que diz respeito a MC: Obra Gravada é uma expressão que pode estar (e estará) correcta, mas acorda no apreciador ansioso uma gama tão vasta de expectativas e horizontes que me obriga a falar da distância formidável a que se encontra a vibração matérica dos originais propriamente ditos. Uma tela é uma tela; as gotas de tinta têm a espessura de rastos de sangue fossilizado por um dramatismo sem tempo; a passagem de um pincel arrastado com suavidade por sobre outra camada de tinta deixa um tracejado de vestígios que só a alma vê, se tiver vícios de uma sensualidade que cavalga a utopia. Para dizer bem isto só, por exemplo, Agustina Bessa-Luís, e eu era lá capaz de escrever um artigo para o Diário que chegasse aos calcanhares da grande Senhora.
Já lá voltei à Anadia, sem o Flávio, a mana e o pai, para ver tudo mais uma vez. O Flávio agora tem mais que fazer do que mergulhar na “pintura vitoriosa” de uma varanda que “é a coisa mais importante que há numa casa” e nos “jardins suspensos” como os de Sintra que têm muitos nomes “e descem dos muros como um lenço de lágrimas”.
Já lá voltei, como ia dizendo, para ver de facto o que há para ver e o máximo dos máximos é um filme que é mostrado numa salinha estreita com tamboretes forrados de negro que não deixam adormecer ninguém. Fala Mestre Manuel Cargaleiro, vêem-se montes de coisas de agora e do meu tempo e convive-se com o sorriso impassível do artista.
As obras que estão patentes servem para que pessoas como eu consigam alcançar para além das cristalinas ilusões de quem ama sobreviver no corpo e pelo espírito e persiste na teimosia de reviver todas as sensações deste e de outros mundos.

Cargaleiro-Museum

Manuel Cargaleiro; óleo s/ tela 1979; Museu Cargaleiro / Castelo Branco (pesquisa internet)

.Tudo isto na Anadia num centro cultural que tomara Coimbra e só tenho de dizer um dia destes ao Senhor Litério Augusto Marques que a sinalização está tão bem feita que até eu que sou um tipo desenrascado a chegar a sítios me vejo, sempre que lá tenho ido, em palpos de aranha para chegar ao Museu do Vinho Bairrada.

Métro station Champs-Elysées-Clémenceau (3)

Manuel Cargaleiro, painel de azulejos,  Paris; Métro station Champs-Elysées-Clémenceau, pesquisa internet blog Paris-bise-art

Escrevi uma primeira versão do comentário a este acontecimento, que guardei sem publicar, e que me atrevo a mostrar a seguir, por diversas razões que vão sublinhadas a bold:
Foi a exposição de Manuel Cargaleiro em 1973 na Galeria São Mamede em Lisboa que me repassou de indeléveis emoções, como ainda hoje acontece sempre que me encontro com obras suas, e bem recentemente assinalo a exposição que esteve presente no Museu Municipal de Coimbra, a qual não tive o ensejo de referir apreciativamente neste mesmo Diário de Coimbra. Temos todos agora a oportunidade imperdível de visitar uma mostra de múltiplos de sua autoria, de diversas épocas, no Museu do Vinho Bairrada, na Anadia.
Entre outras prendas dessa iniciativa tenho a salientar a projecção de um filme a respeito do Mestre que corre repetidamente durante 50 minutos – à discrição de qualquer visitante, e que recomendo de uma forma inequívoca. Pegando nas próprias palavras de MC ao longo desse documentário refiro a sua admiração pela obra de Henri Matisse. Aligeirando um pouco a pressão anímica que me estorva de dizer porventura aquilo que deveria, formulo apenas uma pergunta que muitíssimo ou nada pode ter a ver com tudo isto: Será Manuel Cargaleiro o Henri Matisse português, ou será Henri Matisse o Manuel Cargaleiro francês?
Qualquer resposta a esta pergunta será tão tonta como a pergunta em si mesma, servindo-me eu dela, aqui e agora, para me libertar do peso opressivo de ter de dizer tudo aquilo que deveria caber no meu discurso e não cabe.
MC tem sido caracterizado por uma certa crítica atabalhoada como um decorativista assumidamente feliz com o mundo, detentor de pleno sucesso, privilégio insuportável para certas almas tão abundantes como presumidas. Uma outra versão não menos precipitadamente redutora costuma referenciá-lo como sucedâneo venturoso vagamente protegido de Maria Helena Vieira da Silva.  Não tenho tempo a perder com idiotices mas estou disponível, agora ou em outro local a combinar, para desmontar de maneira incansável e apaixonada o desastroso disparate destas presunções sem tom nem som.
Tive, há cerca de 30 ou 40 anos atrás, a oportunidade de ver um filme documental em que o próprio artista tinha a suma coragem e a generosidade raríssima de dar a conhecer de forma franca o seu modo de estar frente à paleta do óleo ou perante a estante do inventor de obras cerâmicas. Executou, nem mais nem menos, à frente de todo o mundo, a forma como congeminava e levava a termo o mesmíssimo tipo de obras que já então eram entendidos e admirados por todos os seus inúmeros seguidores. Retirar desse modo ao gesto criativo o segredo da intimidade não o enfraquece nem o diminui. Permite sim que se escreva na parede luminosa da sensibilidade, em letras bem visiveis ao longe, uma mensagem de convívio directo com o espírito das artes e com a alegria do gesto consequente.

Fotografias de J.M.F. Coutinho na Livraria Almedina estádio, em Coimbra

.

lagrima

 

Publicado hoje, 15 de Janeiro de 2010, no Diário de Coimbra

Fazer fotografia pode ser um simples passatempo ou uma vaga vocação de registo de imagens marcada pelo sentido da contingência do tempo, das coisas ou dos seres.
Há, contudo, um reduzido número de pessoas que fazem fotografia como um pintor pinta, como um actor de teatro representa ou como um poeta constrói os seus poemas. Ou seja, para sobreviver. Para manter com a realidade e toda a complexidade de que ela se reveste uma ligação mais estreita, essencial e expressiva; uma tentativa de equilíbrio de forças que nos restitua aquele sentimento indispensável de pertença, de domínio, de entendimento das coisas.
Registar as imagens, por conseguinte, como tentativa de materializar impressões que merecem sobreviver e que jamais “aconteceriam” para além do seu segredo mágico, salvas da infinitude das coisas desconhecidas pelo privilégio do olhar.
O fotógrafo torna-se pois intérprete e tradutor de uma coisa imponderável, diferente e destacada do próprio objecto da imagem em si, uma transcendência nova, uma criação, em suma.
J.M.F. Coutinho é um fotógrafo que se situa exactamente nesse ponto de vista, tendo além disso o hábito de querer arrastar consigo uma quantidade de outros artistas, na senda de uma procura sem fim. Serve-se de todos os meios das modernas tecnologias ao seu alcance para fazer confluir inventores de imagens, praticando uma militância de generosidades que se torna rara na voragem de indiferenças de um quotidiano tantas vezes vencido pelo turbilhão das imagens sem sentido, pela torrente invasora do excesso televisivo, publicitário, propagandístico.
Olhando um conjunto de fotografias suas organizo o que vejo entre dois extremos tipológicos. Num deles amostras da realidade, objectos e seres nomeáveis, marcados entretanto por uma economia expressiva que os coloca muito perto do silêncio, da solidão e duma preocupação de mostrar apenas o essencial. No outro extremo a componente documental vai-se rarefazendo, dando lugar a uma visualidade pura, transformando o objecto ou a porção captada do real em exploração de texturas compactas ou densidades subtis. A luz, a água, a transparência ou a natureza palpável de objectos ainda perfeitamente identificáveis, por vezes, transformam-se em “acontecimentos” autónomos que não ouso classificar de abstractos, mas que independem largamente da sua matriz visual primária. Uma tal procura torna essencial o visível conferindo-lhe uma dimensão filosófica pela austeridade dos meios, sem lhe furtar a componente poética pela carga de “equívocos” ou de mistério que consigo transporta. No meu entender a sólida substância de que se constroem muitos dos trabalhos de J.M.F.Coutinho torna fácil memorizá-los. Tomo por isso a liberdade de os purificar da sua categoria de objectos legendados, ou legendáveis. E ao folhear as suas imagens, quanto mais olho, mais vejo. É este, penso eu, a função primordial da diligência de qualquer artista de artes visuais: dar a “ver”, de forma amplificante, uma certa captação das infinitas faces do mundo. Amplificante, no sentido em que daquela única imagem podemos extrair muitas imagens, ou muitas percepções do mesmo objecto retratado. O objecto ganhou vida própria, transformou-se numa entidade autónoma face ao próprio motivo e à sua circunstância.

.
Fotografias de J.M.F. Coutinho na galeria da Livraria Almedina, ao estádio Municipal da cidade de Coimbra.

Dom Quixote (de Coimbra) pelo Teatrão, na Oficina Municipal do Teatro

.
CARTAZ-DQ2
.

Publicado no Diário de Coimbra de 31 de Dezembro de 2009

Quando vi o anúncio do espectáculo do Teatrão, senti um ligeiro arrepio devido à indicação de que se trataria de um “Dom Quixote”, sim, mas “de Coimbra”.
A seriedade do trabalho que a companhia costuma apresentar dava-me as melhores garantias, mas não pude evitar aquele sentimento de temor perante uma aventurosa efabulação romântico-evocativa das virtudes mais usualmente celebradas da eterna Lusa Atenas.
A verdade dos factos veio tranquilizar-me dado que até a sóbria referência à paisagem que nos cerca é traduzida por um gesto poético da mais categórica eficácia teatral.
Um Dom Quixote pujante e juvenil (e que melhor metáfora poderia desejar-se para o que Coimbra gosta de ser) puxa do cantil de Sancho Pança e desenha no mapa imaginário que cada espectador transporta no seu olhar benevolente, por entre as árvores plantadas no instante, um rio Mondego, líquida sinuosidade em cujos recônditos ecoam os odores e sonoridades que nos têm embalado durante séculos. A plateia, plena de juventude, entende e vibra com essa forma subtil de dizer as coisas, tais como podem ser ditas mediante os melhores mecanismos da inteligência do Teatro.
É curto aqui o espaço para referir todas as implicações do trabalho construtivo desta iniciativa teatral, feita para ser, mais do que uma “simples” peça de teatro, um autêntico e variado projecto de intervenção e criatividade cultural. Comece-se por dizer que a peça em apreço é tudo menos simples e encaixa num universo cenográfico repleto de artimanhas e artefactos aparentemente “improváveis” para as fadigas e paixões “del ingenioso hidalgo de La Mancha”.
Com a parafernália envolvente de um decadente pátio das traseiras da sociedade consumista (ao qual não falta um avelhentado ecran por onde desfilam alusões ao entrecho e seus heroísmos) organiza-se no cenário um surpreendente “espelho do mundo”.
Há ali de tudo porém, para surpresa do espectador, para que ganhe credibilidade a narrativa fabulosa do Cavaleiro da Triste Figura e de alguns dos seus celebrados e dramáticos contendores, desde o Cavaleiro da Branca Lua aos maximamente simbólicos moinhos de vento de todas as visões às quais faz falta a consistência das duras realidades da vida.
O burro de Sancho vai aparecendo aqui e acolá, pitorescamente travestido pelos mais ingénuos e decadentes disfarces, marcando presença de que se não duvida porque impera no olhar de quem vê a receptividade franca que só o Teatro concede.
O final da peça é outra das surpresas que faz com que a história de Alonso Quijano e seu prosaico escudeiro possa entrar, aqui e agora, num imaginário a que queiramos chamar nosso.
As “dramatis personae” ascendem para o alto, lá onde no céu se alumia um cosmos de fantasiosas estrelas e cavalgam inesgotáveis instantes da fugacidade que lhes dá vida, pela via láctea da esperança; a tal reserva de energias que dá à juventude a tenacidade de continuar a ser o que é, continuando o Teatro a fermentar nas almas a lúcida compreensão da complexidade da vida.

Com peças como esta, com encenação e actores como estes, não podem queixar-se todos aqueles que se manifestam enfadados pela invasão do tédio e da trivialidade. Uma vez por semana, pelo menos, saiam da frente dos seus televisores e, TODOS AO TEATRO, que é atitude sempre nova e de urgente utilidade!…

.

Ficha técnica e artística:
Dramaturgia: Jorge Louraço Figueira /
Encenação: Isabel Craveiro /

Elenco:

  • Inês Mourão,
  • João Castro Gomes,
  • Luís Campos Eiras e
  • Margarida Sousa / 

Música Original: Afonso Rodrigues e Filipe da Costa /
Apoio ao Movimento: Leonor Barata /
Desenho de Luz: Jonathan de Azevedo /
Dispositico Cénico e Figurinos: Helena Guerreiro /
Adereços, Construção e Montagem do Cenário: José Baltazar /
Vídeo: Alexandre Mestre / Sonoplastia: Rui Capitão /
Fotografia: Paulo Abrantes /
Grafismo: Sofia Frazão /
Costureira: Fernanda Tomás /
Produção Executiva: Isabel Craveiro, Inês Mourão, Leonor Barata e Margarida Sousa /
Equipa técnica: Alexandre Mestre, João Castro Gomes, Jonathan de Azevedo e Rui Capitão Contactos com as escolas: Nuno Carvalho /

Produção: O TEATRÃO 2009.

J.M.F. Coutinho e a sua obra fotográfica

.

infinito


Conheço de J.M.F. Coutinho, isto é José Manuel Ferreira Coutinho, artista fotógrafo, por um variado conjunto de textos escritos que divulga na internet a respeito do seu percurso pessoal e ficheiros gráficos anexos, além de uma variada presença noutros sites especializados em fotografia.
Tive ainda acesso a um volumoso pacote de originais seus, o que alargou bastante a memória que tinha da exposição que fez no edifício Chiado, as “Filosografias”, e melhor me lembraria se para esta mesma mostra tivesse sido feito um catálogo, como é hábito na instituição relativamente à generalidade dos artistas que ali expõem e que se justificaria plenamente pelo mérito das obras expostas.
Vou deixar de lado o evidente prazer (ou necessidade) que sente em titular os seus trabalhos, depois mesmo de ter lido a defesa que faz dessa atitude. Lembro-me agora que também eu coloco títulos aos meus trabalhos de pintura. Com a diferença que os títulos que coloco aos meus trabalhos “nada” têm a ver com o conteúdo plástico dos mesmos. Ou seja, fogem deliberadamente a qualquer coisa essencialmente inerente à sua matéria plástica. Não confluem. São apenas um eco que, numa parede oblíqua, atira para outras paragens a multiplicidade das leituras possíveis. Ficam por isso ligados apenas à sua “matéria crítica”. No meu entender a sólida substância de que se constroem muitos dos trabalhos de J.M.F.Coutinho torna fácil memorizá-los. Tomo por isso a liberdade de os purificar da sua categoria de objectos legendados, ou legendáveis. Tenho uma das suas vinte e cinco fotografias aqui ao meu lado, e tenho olhado para ela à medida que venho escrevendo este texto e cada vez me sinto mais capaz de “vê-la” por dentro da sua complexidade, da sua espessura significativa. Como tenho as vinte e cinco fotografias sobrepostas faço agora um outro exercício de observação: Substituo a primeira das provas observadas por uma outra da série que aqui possuo. E o fenómeno do ganho de legibilidade repete-se a cada mudança de imagem.
Chegando a este ponto da apreciação do trabalho de Coutinho é praticamente supérfluo dizer que se trata dum diligente militante de causas artísticas, envolvido em projectos muito ambiciosos de agremiação cultural, envolvendo muita gente de muitos lugares.
Leio mais uma vez alguns dos seus textos e acho significativa a associação da calma e da serenidade, que usualmente valorizam e caracterizam os seus momentos de captação de imagens fotográficas.
É muito interessante fazer a conotação desta ideia com o conjunto de trabalhos que produz e aprender com isso a associar a atitude de olhar com a capacidade de ver. Encontrar, sobretudo, na pluralidade dos objectos e dos lugares que coloca ao alcance do observador aquela “pico” de tensão, que gosta de chamar “punctum”, à maneira de Roland Barthes, e que de forma tão particular pode ser chamado a referenciar algumas das suas captações.
A tranquilidade observativa, um certo culto do “silêncio”, são de facto condimentos particulares do seu modo de ver. Esse princípio ordenador conduz-nos a uma outra dimensão das suas observações: a tendência de sintetizar, de confinar ao essencial os meios de que se serve sem que eles percam a opulência expressiva. Uma imagem pode ser reduzida ao seu essencial, pode não depender de efeitos documentais e de focagem, pode “transgredir” até e não perder a capacidade de nos esclarecer, dando-nos prazer e provocando-nos emoção, ainda conforme Barthes. Alguma arte fotográfica parece conduzir esse princípio de economia de sinais a um despojamento tão extremo que subtrai inteiramente ao observador o motivo de olhar para ela. J.M.F. Coutinho é um homem delicado e não quer seguramente deixar-nos de “olhar vazio”. Algumas das suas sínteses mais concentradas são, aliás, aquelas que mais emoções nos comunicam. Umas vezes através da alusão poético-simbólica, outras vezes mediante o reforço da plasticidade dos elementos colhidos, por uma concentração de valores significativos de encontro à sua própria saturação.

segredo

No Edifício Chiado, em Coimbra, pintura de J. M. Bustorff (Ícaro espera por vós…)

06004a
Ikarus ou homâge à El Greco, 2009 Têmpera a ovo com pigmentos s/ tela 220 x 220 cm


Não estamos em Creta, mas talvez nos encontremos de certa forma no exílio. O Rei Minos veste-se de mil disfarces e o voo de Ícaro perde sustentação despenhando-se sobre um mar de sombras desconhecidas, fragmentando-se em inúteis penas desirmanadas aquilo que foram asas, derretidas pelo sol impiedoso que condena sem remédio a cobiçosa ânsia de altitude, de fortuna e de domínio ilimitado de horizontes. A visita à exposição de Jochen Maria Bustorff desenrola-se toda dentro da sala iluminada e encanta-nos Mozart, a finura da sua musicalidade, da mesma forma que nos confrangem os alucinantes desastres da guerra, a semi-oculta paixão de Cristo pela carnavalesca contradição da desconcertada violência e nos aquece o sangue a cálida presença de mulatas estendidas ao sol, algures perto dos trópicos. Mas Ícaro está lá, à entrada da exposição, como um aviso solene pelo qual passamos quase distraídos, como se nada fosse o espectáculo de um homem despenhando-se na vertical, complicado pelos remotos mistérios do mito e pela teatralidade do drama barroco. Homenagem a El Greco ali se diz mas pergunto eu se não se tratará com efeito de um outro retrato de todos aqueles que olham muito e confusamente procuram organizar na mente a acumulação de sinais, o coro de gritos, a chinfrineira das campanhas.
Olha, aquele tipo vai de cabeça a fundo, dirão alguns. Os mais tímidos poderão pensar, não sem algum temor, será aquilo o retrato de algum de nós? Jochen Maria Bustorff, cujos cruzamentos com a identidade cultural portuguesa conduziram o seu próprio nome à curiosa assimilação simplificante de José Maria Bustorff apresenta aqui uma pintura de tão genuína autenticidade que dispensa as habituais referenciações estilísticas e a enumeração das dignificantes influências matriciais.
Bustorff evidencia a vitalidade própria das grandes culturas e dos homens cujo destino parece conduzi-los a medir forças com o mundo em geral, numa recusa evidente desse relativismo fácil em que se deixa enlear a maioria. Vários continentes, uma apreciável pluralidade de horizontes e uma multidão de alusões complexas fazem parte do seu campo de pesquisas, vivências e questionamentos de natureza universalista, logo, tendentes a ultrapassar toda e qualquer contingência ou limitação atribuível ao “meio”.

06007a
Via Láctea, 2000-2005 Têmpera a ovo com pigmentos s/ tela 300 x 600 cm


A técnica que exibe em formações de vocação monumental é duma enérgica virilidade, rica de todos os equívocos da visão prospectiva da complexidade do mundo em desdobramento de alusões concretas possíveis de decifrar e de esclarecer (ao que o pintor não se escusa numa aberta franqueza de propósitos) não isentas contudo do confortável recheio de paradoxos que tanto estimulam a mente sequiosa do sagrado fascínio da pintura.
A tecnologia de que lança mão é toda fruto de pesquisa e de fabrico próprio (têmpera de ovo, pigmentos de origem remota, resinas autênticas e outros expedientes oficinais genuínos) e os suportes apresentam-se libertos de todos os complexos de loja de artigos de pintura. Aqui e ali eles próprios fazem parte da “pintura” que se deixa ver, denunciando a visão instantânea e o gesto rápido.
Da exposição fazem ainda parte uma notável galeria de retratos de pessoas anónimas, figuras de sociedades ainda distantes, de culturas recheadas de humanidade de que apenas temos a vaga ideia por noticiários geralmente assustadores de realidades traumáticas. São retratos de gente como nós e ajudam a saturar de humanidade este acontecimento artístico, que tem muito que se lhe diga e para o qual todos os meus leitores estão empenhadamente convocados, caso se deixem impressionar pelo que fica dito.

“Sabina Freire” de Manuel Teixeira-Gomes, pela Companhia de Teatro de Braga e pela Escola da Noite, no Teatro da Cerca de São Bernardo, em Coimbra

sabinafreire61clicar nas imagens para ver em ponto maior

.

Publicado no Diário de Coimbra de 4 de Dezembro de 2009

“Sabina Freire” é uma “comédia” pesada que acaba com um retrato de morte ao som de um achado de Tony de Matos, assim qualquer coisa muito mais saborosa e muito menos terrível que “o nosso fado”…
Ir ver esta peça é o melhor conselho que posso dar a qualquer espectador que tenha interesse por espectáculos construídos com paixão e a melhor cultura teatral. A cenografia é fluida e esteticamente eficaz, a direcção de actores e as respectivas interpretações são intensas, criativas e perfeitamente equilibradas, e não falta à encenação um conjunto de subtilezas que desafiam o sentido de observação do espectador avisado, adereço imprescindível para que uma apresentação cénica seja aquilo que deve ser: uma heróica empresa para quem a faz e um inteligente desafio para quem a desfruta.
Sem desprimor para detalhes mais sérios das profundidades da peça, agrada-me referir uma variedade de tipos que vão aparecendo do princípio ao fim e que se aproximam de forma quase literal de figuras carismáticas da banda desenhada.
Entretanto o espectáculo não se justifica apenas por si próprio, dado que se destina a fazer parte das comemorações do centenário da República e, ainda por cima, lança mão de um texto escrito por um intelectual finíssimo, homem de muitas artes e saberes, que muitos anos depois viria a ser presidente desta mesma República.
A obra, cuja qualidade nos faz pensar que melhor seria ter-se ganho um bom dramaturgo do que perder-se um desenganado presidente de república, traça da sociedade circundante uma análise perspicaz, irónica e quase trágica. Hesito em escrever o “quase” porque, à parte ter o próprio considerado a sua obra uma “comédia”, não lhe falta uma dimensão tão vasta de implicações sociais e psico-analíticas que, mais de cem anos depois (foi escrita em 1905) ainda se oferece como um retrato praticamente impiedoso de circunstâncias e fenómenos que o tempo não lavou e que todas as arquivoltas do devir histórico não têm conseguido senão aprimorar (e oxalá esteja eu bem enganado!…)
O desamor da injustiça social, as convenientes acrobacias da “gente fina”, a organização metódica das negociatas, o salamaleque jeitoso, o poder volúvel, a ambição desmedida que não recua nem perante o crime e (oh, céus!) o crime em que a própria vítima é o agente de ilibação do criminoso são metáforas sim, mas suficientemente realistas para cidadãos cansados disso no palco permanente da vida.
Homenagear uma república não está nada mal mas fazê-lo com uma obra-mestra de um seu presidente que se viu obrigado a renunciar ao cargo às vésperas de uma longuíssima ditadura, auto-exilando-se na Argélia, e que só pôde regressar ao seu país depois de morto e até assim com incómodos da polícia política, já é uma atitude problematizante que baste.

fot_manteigomcoloss1
Manuel Teixeira-Gomes aos 20 anos (1881), visto pelo pintor Marques de Oliveira


Por todas as razões e mais uma, “Sabina Freire”, da autoria de Manuel Teixeira-Gomes e encenação de Rui Madeira, em proveitosa parceria de companhias, no Teatro da Cerca de São Bernardo, em COIMBRA ou em qualquer outro palco, a não perder.

2a1
 

.

Ficha Técnica:

Sabina Freire
de Manoel Teixeira-Gomes

Theatro Circo (Braga)
Teatro da Cerca de São Bernardo (Coimbra)

Encenação: Rui Madeira


Elenco:
Actores da CTB:
Solange Sá (Sabina Freire),
André Laires (Júlio Freire),
Jaime Soares (Dr. Fino),
Carlos Feio (Padre Correia e Procurador Ferreira).


Actores d’A Escola da Noite:
Sílvia Brito (Maria Freire),
António Jorge (Augusto César e Ministro),
Ricardo Kalash (Epifânio),
Miguel Magalhães (Josezinho Soares),
Lina Nóbrega (Josefina).


Cenografia: Rui Anahory
Figurinos: Sílvia Alves
Desenho de Luz: Fred Rompante
Criação de Som e Imagem: Luís Lopes
Criação Gráfica: Carlos Sampaio

.

No Edifício Chiado “ciranda de muitas luas” de Roberto Chichorro

 R Chichorro

Publicado no Diário de Coimbra de 3 de Novembro de 2009

Em mais uma realização em torno da ideia da pintura como visão do mundo oferece-nos presentemente a Galeria de Exposições Temporárias do Museu Municipal da Cidade de Coimbra uma “ciranda de muitas luas” construída com obras de vária natureza da autoria de Roberto Chichorro.
A mostra evidencia uma cuidadosa generosidade expositiva, com reminiscências do trabalho do artista em obras de certa antiguidade, mescladas com outras de mais recente produção e com exemplares de várias modalidades de expressão artística.
Diz-me o dicionário que uma ciranda é uma joeira ou uma espécie de dança popular. Mais me diz que cirandar é “andar de um lado para o outro nas lides da casa”.
Tenho dificuldade em fixar-me em cada uma destas opções, embora o nome por si mesmo, ainda que distante de qualquer significado, já tenha seu movimento garboso e uma graciosidade inexplicável.
As muitas luas coroam a totalidade de sentidos com uma solenidade nocturna que está bem expressa num abundante número de obras de Chichorro que – não obstante – nos oferece uma pintura feliz.
Dizer pintura feliz não é dizer pouco, embora as categorizações habituais não se conformem com uma tão grande simplicidade classificativa e prefiram afirmar coisas mais substanciais de nível “onírico e surreal” ou envolvendo a sugestão do “cubismo pictórico”.
Eu dou-me por satisfeito chamando esta arte pelo nome, dizendo que é feliz, poética, aromática e suavemente nocturna.
Se a chamo nocturna, acrescento que é feérica, vibrante de cores, e as luas – de facto – transportam consigo a carícia morna de noites cálidas de odores acentuados.
As figuras presentes convivem frequentemente com animais até ao ponto de se resolverem em metamorfismos como ressonância de energias secretas e mitologias remotas. Porém, além da sugestão simbólica da música há como que uma gravidade nostálgica em todos os presentes, um silêncio contemplativo de inseguras expectativas.
Abstenho-me quanto à familiaridade anunciada entre esta pintura e a de Chagall, e também não me perco em considerações complexas de africanidade relativa naquilo que toda a pintura pode ter de localmente imagético ou de apelo universalizante.
A pintura de Roberto Chichorro, apesar de fortemente intuitiva, solta, impregnada do gesto livre, construída à base de manchas que entre si travam um diálogo permanente de correspondências e contaminações tonais, parece-me predominantemente cerebral. Cada figura ou cada grupo de figuras se apoia ou é enquadrado “cenograficamente” por elementos estruturantes de raiz geométrica, mesmo que muitas vezes habilmente atenuado o seu efeito mediante a liberdade do tratamento cromático e com o apoio de variado leque de soluções de complemento gráfico.
A variedade de espaços assim dinamicamente modulados é intuitivamente apropriado pelo pintor das mais variadas formas, entregue a uma evidente espontaneidade de execução e ao notório prazer de acrescentar tonalidades contrastantes, gestualismos variados, tracejados, referenciais de registo caligráfico, etc.
Por detrás de algumas figuras ergue-se a estruturação geometrizada de painéis ou tapeçarias numa simpatiquíssima alusão às artes cerâmicas, de que o artista não deixa de dar testemunho em obra feita noutro sector da sua produção, que se alarga em exemplos eloquentes de imaginário escultórico pleno do referencial surrealista.

.
A não perder, obras artísticas de Roberto Chichorro no Museu Municipal de Coimbra, Edifício Chiado, até 21 de Novembro.

.

"Prestígio Real" um filme dos anos 50 que adorava ver de novo, presente aos pedacinhos na internet…

.

.

A Internet reserva-nos as maiores surpresas e as mais inesperadas descobertas.
Das memórias cinematográficas dos primeiros anos da minha adolescência faz parte um filme indiano, produzido e realizado por Mehboob Khan que foi exibido em Portugal aí por 1956, mais coisa menos coisa.


O título Indiano é Aan (que quer dizer “orgulho”) o título inglês é “The savage Princess” e em português era intitulado “Prestígio Real”.
Numa entrevista de Fevereiro de 2007 diz-nos Fonseca e Costa que “…marcou uma geração com a opulência dos seus exóticos décors, o pendor desmesurado pelo melodrama romântico, onde a menina pobre casava sempre com o belo filho do marajá depois de vencidas contrariedades aparentemente intransponíveis, tudo acompanhado por canções e músicas de fazer chorar as pedrinhas da calçada…
(nesta película o caso não era bem esse, mas a diferença era apenas de simetria porque era o rapaz pobre que casava com a filha do marajá!…)
O filme foi um sucesso extraordinário e lembro-me ainda de muitas cenas que agora reencontrei, em toda a sua frescura e musicalidade, no YouTube!…
Recordo com a mais viva emoção uma das muitas canções do filme que, naqueles tempos recuados sem televisão (a rádio tenha apenas meia dúzia de frequências audíveis…), era repetida sem cessar pelos altifalantes da Feira de Março, em Leiria!…
Tinha por título: “Dil Mein Chupake Pyar Ka” e era interpretada por Mohammed Rafi.

Algum tempo depois começariam as desavenças entre Portugal e a União Indiana a respeito das crescentes pressões sobre Goa, Damão e Diu, que acabariam com a reocupação daqueles territórios pelas tropas indianas.
Não cabe aqui descrever uma infinidade de peripécias ligadas com esses factos que culminaram, entre outras coisas, com o fim da importação de filmes da India que viria a ser retomado apenas depois das transformações ocasionadas pelo 25 de Abril.

.

Rei Édipo de Sófocles pela ESAD de Málaga, ou o XI Festival de Teatro de Tema Clássico no Museu Machado de Castro

Museo Gregoriano Etrusco, Edipo e a Esfíngie de Tebas, Kylix, c. 470 AC

.

Publicado no Diário de Coimbra de 15 de Julho de 2009

As imensas diferenças que nos separam da sociedade grega e a funesta erosão da história (as guerras fratricidas e a insensatez tão trágica da humanidade em preservar a paz, a justiça e a concórdia) fazem com que as prodigiosas realizações helénicas nos apareçam sempre como visões de um mundo crivado de complexidades, mas fascinante.
Sabemos que o teatro na Grécia antiga não era um simples divertimento ocasional e representava, outrossim, uma série ordenada de celebrações que tinham tudo a ver com o civismo da polis, a sua religiosidade e toda a vasta gama de padrões morais e sociais do seu tempo. No caso da tragédia conduziam o espectador pelos itinerários da sua emoção profunda até às culminâncias da katharsis, no “alinhamento ético entre as emoções e a razão”, ou na “harmonização das mesmas emoções com as percepções e juízos do mundo”.
Mais perto de nós, e na actualidade, a mesma sociedade que é capaz de reunir em Madrid 85 mil adoradores dum pobre (???) rapaz da Ilha da Madeira, dono duma inteligência muscular de sonho, escutando em apoteoses de delírio inútil o seu próprio espanto de discurso vazio, traz-nos de Málaga um grupo de estudantes de arte dramática encenando o Rei Édipo de Sófocles.
Os espectadores presentes seriam cerca de mil vezes menos mas emocionaram-se muito mais profundamente, tendo desfrutado das vantagens de uma noite mágica e muito mais fresca que a tarde das confusas paixões de Santiago Bernabeu.
O espectáculo decorreu no belíssimo enquadramento do pátio do Museu Machado de Castro, cercado pelo clima quase ateniense de uma colina ornada pelo “horizonte de perros” e de sinos que pela noite entrante vieram dizer-nos a seu modo que a hora e o drama estavam de visita e que nos tocava a nós vivê-los em toda a sua intensidade.
O grupo de estudantes malaguenhos da Escuela Superior de Arte Dramático teve uma prestação notabilíssima pelo seu rigor e, essencialmente, pela paixão de visceral entrega ao labor de representação teatral.
Estiveram presentes um conjunto magnífico de vozes em cuja solidez expressiva não será despropositado reconhecer a pujança genética das grandes tradições do cante andaluz e a intensidade sanguinolenta das celebrações da Paixão, recheando de contradições e complexidades o bem proporcionado recinto e o esplêndido pórtico.
O prólogo desde logo nos confronta com exigências de castigo justo por crimes infamantes, e que motivação mais actual do que essa, mais tremendamente adequada para justificar que nos debrucemos sobre suas causas e efeitos?
Não fugindo a um enquadramento próximo do imaginário clássico, sem interferências de “actualidade” provocante, a impressionante encenação que nos veio de Málaga tão vigorosamente interpretada pelos seus jovens não deixa de rematar com uma silenciosa cena de “apropriação” sorrateira do poder por um personagem que – como todos os políticos de sucesso – consegue sobreviver às tragédias de todos os outros homens e cingir de forma “oportuna” a sua testa com os seus símbolos máximos.
É um apontamento subtil, já fora do texto e depois de consumada toda a tragédia, que nos dá a entender que estes estudantes e seus mestres não são apenas académicos conformados, mas cidadãos preparados para abordar criticamente a essência da realidade, deixando disso um testemunho precioso e eloquente.

Oedipus Rex. 1922. Oil on canvas. 93 x 102 cm. Max Ernst

.

MÁRIO SILVA, obra total em revisão no CAE da Figueira da Foz

 

MS-01Este texto foi publicado na Revista de Informação do SBC de Março/Abril de 2009

No CAE-Centro de Artes e Espectáculos da Figueira da Foz esteve patente a exposição que comemorou a totalidade da carreira artística do conhecidíssimo pintor Mário Silva.
Os mais de oitenta trabalhos expostos pretenderam documentar com eloquência a quanto monta o valor e a importância do seu percurso criativo.
O que mais me impressiona é pensar que, para além do esplêndido conjunto que ali esteve patente, seria possível organizar com outras obras suas, mais uma boa mão cheia de outras exposições do mesmo nível.
Esta revista tem um cunho essencialmente sindical e não fica nada mal, para começar este brevíssimo texto, assinalar um facto cru e singelo de que me tenho apercebido através do convívio de amizade que tenho tido a grata possibilidade de manter com Mário Silva.
Tratando-se de um dos nomes mais referenciados no elenco de criadores de arte do nosso país, e tendo atingido – sobretudo a partir do início deste século – o grau do mais elevado nível de glorificação pública que é possível a um artista português, ele é apesar de tudo – ainda e sempre – um homem que é obrigado a batalhar dia a dia o seu pão, os meios indispensáveis com que se sustenta a si e à sua família.
A minha apreciação artística fica encurtada de algumas linhas e ninguém sabe o quanto me custa devido ao entusiasmo discursivo que desatam em mim os seus trabalhos. Não quero, como faz a crítica em geral, endeusá-lo como artista e esquecê-lo como homem, nas curvas e contra-curvas de uma existência longa e profícua (79 anos de homem e 50 de artista), tendo ainda que se levantar de manhã cedo todos os dias sem ser só para dar milho às rôlas.
Egoísta e hipócrita é esta a democrática sociedade em que vivemos que põe a dureza e as dificuldades da vida ao alcance de qualquer um, mesmo que genialmente criador de raríssimos bens do espírito. Adiante, mas fica dito por ser verdade.
O conjunto dos trabalhos expostos impressionava profundamente pelos mais variados motivos. Constituíam antes de mais uma glorificação da pintura como linguagem expressiva e complexa, para além de serem uma exaltação do espírito das artes no seu todo, como elenco de utensílios do homem para a comunicação, a sensibilidade e o aperfeiçoamento das categorias do olhar e dos sentimentos.
Alguns dos trabalhos expostos eram organizáveis por grupos expressivos dentro daquilo que o artista produziu de mais emblemático e articuladamente estilizado. A quase todos era possível, entretanto, atribuir a categoria de peça única, achado feliz, prodígio da felicidade criativa.
Não é necessário citar fontes de influência ou referenciais estilísticos. A arte de Mário Silva, profundamente centrada no homem, foi-se desenvolvendo com saudáveis e sugestivos desvios de percurso por entre algumas das principais escolas de expressão artística do Século XX. O expressionismo, o abstraccionismo e o surrealismo (entre outros) e coloco-os por esta ordem não sei bem porquê, nem tem grande mistério a razão porque o faço.

Coimbra-oleo-s-tela-130x190

O espaço vazio das cidades e a sua atmosfera saturada de emoções aparecem suspensos e exaltados nas suas paisagens por uma segmentada iridescência, reflexo de vidros coloridos, alinhados ao longo de inumeráveis “linhas de fuga e de força”.
São o reflexo de caleidoscópio que traduzem o intraduzível, que transformam aquilo que não tem corpo em matéria de sensibilidades vivas.
A cor livre, a mancha e o traço desenvolvem-se inúmeras vezes longe da regular ordenação formalista, ao sabor duma liberdade sem canon. A sua vibração, contudo, traz-nos sempre qualquer coisa de misteriosamente expressivo senão deste mundo, dum outro qualquer onde não nos importaria viver, pela beleza, pela frescura, pela elegância.
Os grupos de figuras, de rostos, de gente oriunda de todos os mistérios e sobressaltos são a presença teatral da complexidade do mundo em palpitação de conflitos apocalípticos e razões sem margem.
Centralidade do homem e da palavra celebrada, exaltante e sonhadora. Mito e máscara. Poema e gargalhada. Linguagem universal, pintura sem fim.

“Margens do mundo” de Alcina Almeida na Casa Municipal da Cultura

.

“Margens do mundo” de Alcina Almeida na Casa Municipal da Cultura
Publicado no Diário de Coimbra de 27 de Abril de 2009

Repasso pelas palavras que escrevi em Dezembro de 2005 a respeito da exposição que Alcina Almeida efectuou na mesma Casa Municipal da Cultura onde se inaugurou, no passado dia 17 de Março, uma nova exposição sua. Poderia repetir quase tudo o que disse nessa ocasião não só por ser verdade, mas também por se recolocarem algumas das razões então apresentadas quer quanto à atitude da artista enquanto pessoa, quer no que toca ao conjunto de obras apresentadas.
Uma diferença essencial convém entretanto assinalar: se nessa primeira exposição nos apresentara um significativo conjunto de trabalhos de rara solidez plástica e de invulgar concentração emocional, ousa agora empreender o que não custa designar como uma exposição “de juventude”, ou seja, a apresentação de uma variedade de novos caminhos correspondente à diversidade de explorações entretanto efectuadas, marcadas por equivalente sentido de responsabilidade e amadurecimento estético.
A pintura abstracta, seja qual for o grau de informalismo respectivo ou as possíveis conotações de lirismo que consigo transporte, é agora um território definitivamente assimilado pela generalidade dos frequentadores de museus e galerias. Já ninguém se desconcerta perante linhas, pontos e planos ordenados de forma mais ou menos arbitrária de acordo com as visões e percepções da intuição plástica do artista, cujo olhar está liberto de todos os escolhos e turbulências do universo das coisas nomeáveis.
O suporte vazio acolhe o trabalho criativo da forma mais descomprometidamente livre, o que não significa que entre matéria e entendimento, entre gesto e olhar, não tenha de estabelecer-se uma elaborada teia de compromissos que pressupõem o método, o esforço coerente e a adopção de códigos estáveis.
Esta ordem de razões encontra-se suficientemente exemplificada mediante alguns dos conjuntos de obras que Alcina Almeida nos apresenta, pelo sentido de projecto que os anima e pela coesão plástica que evidenciam.
Sobre as suas telas desenrola-se um desfile incessante de novos seres ou entidades significativas, organicamente dispostas em confrontações dinâmicas, de peso, espessura e densidades variáveis, que desafiam leituras sucessivamente diversas e percepções capazes de se alterarem de acordo com a disponibilidade e a predisposição de quem as observe.
O gesto, o tempo e os acasos da execução encontram-se documentados aqui e ali, por vezes de modo evidente e outras quase imperceptivelmente referenciados. Nalguns casos pode identificar-se uma atitude de quem ousou conduzir o seu trabalho até às últimas consequências, noutros se poderá dizer que a pintora se ficou pelo que era essencial, deixando a cargo do observador a tarefa de adivinhar o que não falta porque se encontra determinadamente subentendido.
No remate das impressões que aqui resumo a respeito do trabalho da artista, tomo a liberdade de citar uma frase que escrevi no já citado texto de há quatro anos: Alcina Almeida é profundamente pessoa ao mesmo tempo que se revela a si mesma como talentosa artista, cujo pensamento flui em cada gesto, exprimindo-se com elegância e gosto em praticamente tudo o que faz.


A respeito dos públicos que continuam a frequentar salas de exposições observar-se uma instabilidade acentuada do olhar, uma pressa – ou uma incapacidade – de mergulhar de forma decidida na espessura significativa das obras expostas.
A elementaridade do “gosto, não gosto” fica sempre aquém duma capacidade de leitura sustentada, da coragem duma decifração mais íntima, pertinente e espiritualmente produtiva de explorações autónomas e criativas.
Quanto à disponibilidade do corpo social para apoiar e estimular a criatividade do espírito cultural e artístico, então, nem é bom falar. O alheamento demissionário é de regra.
As altas dignidades de outros tempos guardaram para nós o espólio de uma atenção que, se não era distintamente intelectualizada, teve a virtude de conservar o território revisitável de requintes de várias épocas e do seu sentimento lúcido.
A desaceleração no interesse pela obra de arte como testemunho de valores produtivos não denuncia uma simples alternância de propósitos culturais, ao que julgo. O que está em causa é uma autêntica perturbação sistemática dos valores da duração espiritual.

.

O ex-edifício dos CTT, os males que nunca vêm só e a cor que é alma de cidades

.

642a


A cor das cidades não é um factor casual e despiciendo do seu carácter e do seu espírito. Os edifícios que nelas existem podem ser mais ou menos opulentos, os locais onde se encontram e por onde circulam os seus habitantes podem ter um cunho mais ou menos notável, e são o seu corpo.
A cor duma cidade, como a sua luz, os seus odores, a música do falar dos que nela habitam são, contudo, a sua alma, a parte mais subtil do seu património sensível.
Uma das formas mais perversas de desacautelar a imagem de qualquer coisa, seja pessoa, casa ou cidade, é deixar que tudo se vá gradualmente desqualificando, vá decaindo até ao ponto em que já não vale a pena pegar em nada porque tudo se encontra sem remédio.
As recentes notícias a respeito do que foi o edifício dos CTT na Avenida Fernão de Magalhães são o pretexto para falar desse aspecto das coisas e para abordar também alguns aspectos anti-estéticos daquela poluidíssima artéria da cidade de Coimbra.
Tenho comigo a gravação de uma conversa que mantive em 2004 com o pintor Eduardo Nery, autor da cor exterior desse edifício traçado nos anos oitenta pelo arquitecto José Oliva Martins de Carvalho, durante a qual abordou com detalhe as suas obras existentes nesta cidade e, bem assim, os critérios subjacentes a essa encomenda que, diga-se de passagem, não lhe foi feita por entidade aqui sediada mas sim pelos serviços centrais dos CTT (tudo ou quase tudo entre nós tem de “passar” por Lisboa, como é sabido).
Possuo também o volumoso catálogo duma importante exposição de Nery realizada em 1997 na Fundação Calouste Gulbenkian que tratou de aspectos da sua arte pública. Na página 207 pode ver-se uma bela foto a cores do referido edifício, cujo triste destino visual tenho acompanhado.
É neste ponto que me ocorre concluir que um mal nunca vem só, dado que as inquietações pelas quais passa um dos mais notáveis edifícios da baixa de Coimbra não se limitam aos problemas intrincados de que falam os jornais. Comparando os diversos aspectos de desvirtuamento que evidencia na actualidade e a fotografia que foi tirada em 1985, por altura da sua construção, mete dó, para dizer o mínimo.
Quem queira observar a baixa desta cidade com um olhar renovado e comece pela Avenida Fernão de Magalhães, terá no ex-edifício dos CTT um lamentável exemplo de como as coisas não devem ser feitas, deixando-se acontecer o pior possível a um edifício que teve uma notável nobreza inicial. A sua fachada principal foi sendo alterada, quebrados e eliminados alguns dos elementos rítmicos de melhor efeito e, da pintura inicial e dos critérios estéticos sob os quais foi idealizada, não restam nem os mais pequenos vestígios.
Para compor o ramalhete de alterações, uma escada metálica exterior de cores militares e conspícuas condutas de ar descaracterizam totalmente a fachada lateral do edifício. O alinhado harmonioso e dinâmico das suas fachadas principais em betão possuía acentuações cromáticas de óptimo efeito, com pontos fortes na torre lateral que confina com o prédio vizinho e na que flanqueia à esquina a entrada principal. O laranja forte era distribuído em camadas horizontais de cima para baixo em tons cada vez mais claros, numa época em que os arquitectos e o próprio gosto dos cidadãos não estava ainda adaptado a cores intensas nas edificações urbanas.
O colorido do edifício suscitou alguma polémica na altura em que foi inaugurado. Penso que a instituição proprietária (sediada em Lisboa…) não terá desenvolvido o esforço necessário ao esclarecimento dum projecto plástico que era inovador, com efeito, mas que tinha por detrás de si uma sólida justificação teórico-crítica e que deveria ter sido mantido no seu melhor para benefício dos seus detentores e da cidade em geral. Não houve coragem, como a própria realidade documenta, para fazer isso.
Cruzar a Avenida Fernão de Magalhães de uma ponta à outra é uma longo trajecto para efectuar com um olhar distraído e ausente, para que não morramos de susto, tentando respirar o mínimo possível para não prejudicar os pulmões. O ex-edifício dos Correios serve para demonstrar que um mal nunca vem só e que também foi derrotado pela insidiosa fumarada dos milhões de automóveis e pelo desleixo negligente de quem deveria ter tomado conta dele.Edif-CTT


“O Leitor”, Eros e Thanatos, a celebração da palavra e o labirinto dos tribunais

.

De read

..

Públicado no Diário de Coimbra de 24 de Fevereiro de 2009

Na abnegada pesquisa que costumo fazer a respeito dos filmes que comento encontro sempre coisas fantásticas. Desta vez foi uma entrevista do próprio Stephen Daldry, realizador do filme, cruzada com um artigo do Los Angeles Times de Setembro de 2008 a respeito das lutas intestinas entre os principais investidores e mandantes da “indústria”, anteriores ao lançamento de “O Leitor” para a competição aos Óscares.
Digamos que essas histórias por detrás do cinema não são menos emocionantes que o próprio conteúdo das ficções, tendo o espectador que reunir coragem para entender a obra como algo derivado do talento criativo de certos artistas envolvidos e não apenas a resultante das catacumbas do negócio e dos seus avatares.
“O Leitor”, como tantos filmes, é baseado num livro, neste caso da autoria de Bernhard Schlink, escritor alemão que analisa factos ligados ao sentimento de culpa derivado das atrocidades cometidas no decurso da segunda guerra mundial. Investigações posteriores identificaram a figura feminina que teria dado lugar ao perfil de Anna Schmitz, protagonista do drama em causa e que seria nem mais nem menos que uma odiosa carcereira do campo de concentração de Buchenwald.
Quer o livro, quer o filme, oferecem-nos contudo uma personagem muito menos forte e determinada de que apenas ficamos a conhecer o lado da sensibilidade vulnerável e da precariedade de recursos de carácter.
Um julgamento casual muito depois do fim da guerra levam-na a depor perante um soleníssimo tribunal e é com aparente facilidade que um grupo de outras carcereiras muito mais astutas conseguem atirar com ela para uma terrível condenação de prisão perpétua.
É condenada por ter escrito de seu próprio punho uma elaborada nota de culpa, ela, que nem sabia ler nem escrever.

O filme é muito complexo, muito bem construído, foca diversos assuntos de mão cheia: o remorso por omissões, a questão do holocausto, a consciência colectiva da culpa, a tenacidade fria dos vencedores endinheirados, o ensino das leis, as trágicas contingências da Justiça e dos seus “funcionamentos”, etc.
É-me impossível por isso abordar aqui tudo o que poderia ser dito a respeito e irei ficar-me por um ponto que me pareceu magistralmente sugestivo.
Num contexto finamente erótico (qual é o filme de bilheteira mundial que poderá esquivar-se a esse primordial argumento de sucesso? …) uma mulher de rosto assustado e perdido encontra um rapaz na fina-flor da sua adolescência, o qual consegue conduzir aos encantos do leito sem nenhuma resistência. Prendado estudante de ensino médio (que na Alemanha não é campo de batalhas inglórias…) domina com finesse e voz bem timbrada textos clássicos, dramas consagrados e outras peças literárias de precioso encantamento.
O principal acessório desse convívio apaixonado organiza-se por conseguinte em torno da celebração da palavra sentimental e dramática, sentida, ouvida e sonhada.
Por razões que o enredo não clarifica totalmente a protagonista suicida-se ao fim da história. E é intelectualmente cruel e teatralmente alemão que tenha escolhido uma pilha desses livros clássicos como alçapão do seu cadafalso.

Num filme que não resolve nenhuma das suas contradições maiores mas é farto de sugestões problemáticas, este é mais um enigma com que Hollywood responsabiliza a consciência crítica do espectador. E não é pouca coisa nem elogio de somenos a cento e vinte e três minutos de cinema sem pacote de pipocas e com tampões bem postos nos ouvidos por causa do barulho infernal das projecções fílmicas dos dias de hoje.

.

Tintim na Lousã

acrílico sobre tela de 0,75 x 0,85, copiado de HERGÉ, L'Affaire Tournesol, prancha 25, por Costa Brites, 1981

acrílico sobre tela de 0,75 x 0,85, copiado de HERGÉ, L’Affaire Tournesol, prancha 25, por Costa Brites, 1981


É perfeitamente dispensável, quando se fala de Tintim, referir atitudes cheias de selecta paixão, como o fez Hergé por suas próprias palavras, a respeito de algumas qualidades do seu herói: “… o heroísmo, a coragem, a sinceridade, a malícia e o desembaraço”.
Tintim não usa porta-moedas, não preenche declarações de IRS, não tem horário de trabalho e, se sai de casa, não deixa atrás de si preocupações ou compromissos de pais, irmãos ou avós. Não é adepto de nenhum clube de futebol, não tem religião e, como se tudo isto fosse pouco, também não é casado nem sequer tem namorada.
Por tudo isso, Tintim entra no domínio da abstracção, do encantamento distanciado de quem se dá ao luxo de ignorar toda a realidade e arredores. Por arredores quero eu dizer: o amor, o compromisso, a dor, o sacrifício e todas as outras coisas que – diz-se – fazem da vida uma coisa que merece ser vivida. E no entanto… quem não tenha mergulhado numa aventura de Tintim com toda a alegria desprendida deste mundo que atire a Hergé a primeira pedra.
Na minha família mais chegada já vamos na terceira geração de tintinófilos e, atendendo à idade de oitenta anos a que chegou o herói, não é possível pedir mais à tintinófilia familiar. Com uma grande diferença: quando eu era miúdo esperava uma semana longamente ansiosa por mais uma magnífica prancha de saborosas aventuras. Os meus filhos já se regalavam com um álbum inteiro de cada vez, Natais, aniversários, etc. Quanto ao Senhor meu neto, recebeu de uma vez todos os álbuns que havia disponíveis na livraria, com encomenda feita dos números que faltavam. Depois queixamo-nos que a juventude é consumista, que exagera nas suas reivindicações e que é insolente: nós é que temos a culpa. Sirva-nos como indulgência o facto de ter mergulhado com entusiasmo na leitura real e dedicada dos álbuns da primeira à última página, o que não deixa de ser obra num petiz que apenas agora começa os seus anos de escola e já domina com gosto a arte da leitura. De quem é a virtude? da arte de Hergé, não tenhamos quaisquer dúvidas.
Tintim funciona agora como funcionou no passado em tudo aquilo que tem de mais deliciosamente eficaz. Não faz falta a este breve escrito definir com rigor o que foi e é o fenómeno Tintim. Tomo a liberdade de falar apenas de uma obra que fiz com carinho paternal, isto é, uma tela com 0,75 m x 0,85 que ilustra a meu modo a noção da “linha clara”, a fórmula plástica que terá sido reinventada na Bélgica para as histórias de quadradinhos. Representa vinheta e meia da prancha número 25 do álbum “O caso Girassol”, ofereci-o ao meu filho mais velho, para pôr no seu quarto, em 1981, e está bem guardado na cave das recordações afectivas de toda a família. Digo reinventada porque, nada havendo de novo sob o sol, já muitas artes antigas visitaram com lucidez esse mundo pitoresco que Hergé também nos oferece, como documento vivo e palpitante de coisas, pessoas e paisagens que faz do nosso mundo aquilo que ele é no quem tem de melhor e, às vezes, de menos bom. Limito-me a referir, muito de passagem a arte fabulosa das estampas japonesas e dos desenhos da Pérsia, da Índia, da China e de tantos outros mundos conhecidos e desconhecidos.
“Last but not the least”, não esqueçamos outros atributos inerentes à figura do ladino repórter que não tem que se maçar a escrever notícias. Sendo uma espécie de cavaleiro andante de causas bem intencionadas, está muito longe dos super-heróis que as histórias de quadradinhos produziram às toneladas. É baixito, tem uma fraquíssima figura, as miúdas não lhe ligam bóia e – embora seja praticamente invulnerável a toda a espécie de acidentes sérios – não se livra, de vez em quando, de levar umas boas tareias!… Valha-nos o mito para acreditarmos que há em nós o fermento da divindade e que, se for intenso o talento de sonhar, também podemos um dia ir por uma ribanceira abaixo e levantarmo-nos logo de seguida para lutar por uma causa desinteressada, seja ela a mais acidental. Quem não salva a alma com muito terá de salvá-la com pouco e a alegria infantil é um universo cheio de virtudes que todos deveríamos saber habitar, para proveito e consolo de toda a nossa humanidade.

texto e a ilustração foram publicados na Revista de informação do SBC, no número de Janeiro/Fevereiro de 2009.

A valiosa dedicação de Leonard Griffin e os azares calamitosos do quase extinto Zé povinho

Publicado no Diário de Coimbra de 4 de Fevereiro de 2009

O colapso eventual duma fábrica de produtos artísticos (as Faianças Artísticas Bordalo Pinheiro, de 1922, nas Caldas da Rainha) ocorre num momento conturbado mas, já antes, muitas unidades fabris da mesma área fecharam as suas portas deitando fora o potencial criativo que reuniam. Todos perdemos, todos continuamos a perder. A extinção da fábrica desde já, ou a prazo, atinge o ponto sensível das coisas simbolicamente caras que deveriam estar livres de tal destino e aos interessados activos caberá perguntarem-se qual é o motivo e a quem cabe a responsabilidade de tal derrocada de valores. Saber por exemplo o que tem feito a gestão de tais unidades no que toca ao estudo de novas abordagens da arte, na descoberta de novos produtos, no estudo de mercados e numa divulgação mais esclarecida da sua actividade. Uma certa visão do mundo vai sempre de mão dada com a essência de certos gestos criativos e, se não houver renovação de horizontes e consagração qualificada do que se fez no passado, as coisas morrem. Aqui entra a atitude das instituições mais ou menos académicas, mais ou menos escolares e institucionais no estarem atentas, no apoio dignificante daquilo que a sociedade produz de melhor. É sabido que o espírito conservador da cultura oficial tem preferência pelas coisas antigas e ultra-consagradas.  Cerâmica artística? Sim, mas só até ao século dezoito, se faz favor!… O passado recente é muito chato, o futuro a Deus pertence e o presente… ninguém quer comprometer-se com nada. A sociedade em geral também não está isenta de culpas, os apreciadores, os coleccionadores, os retraídos encomendantes e as demissionárias entidades públicas. Quando as coisas vêm abaixo, no instante em que as fábricas fecham, nota-se um ligeiro estremecimento, uma breve aragem gélida que perpassa. Mas tudo se aquieta logo depois na maior das calmas. As raparigas que foram pintoras de jarrões magníficos vão para a lida doméstica, as mais velhas passajam as calças de filhos e genros e os artistas activos abrem um precário cafézito lá na aldeia. Quais são as faculdades que estimulam os seus alunos a fazerem teses de licenciatura ou de mestrado a respeito de artistas vivos ou de unidades fabris ainda a laborar? Vade retro Satanás que isso é tudo da vida ainda viva e nós somos das coisas mortas, da matéria consagrada pelos séculos!… Termino esta conversa de hoje referindo sumariamente a atitude que considero exemplar do investigador e coleccionador Leonard Griffin, caso exemplar de alguém que abre caminhos na gloriosa tarefa de divulgar o que merece ser divulgado, fazendo-o de uma forma eficaz e duradoura. Não havendo aqui espaço para traçar um perfil adequado de toda a sua personalidade irei referir apenas a dedicação e o trabalho que colocou ao serviço da obra de uma ceramista inglesa, Clarice Cliff, que teve a dita de merecer a atenção estudiosa e militante deste destacado estudioso. Leonard Griffin é um cidadão inglês que veio residir para Portugal, em pleno distrito de Coimbra e que aqui vive encantado com a gente e as artes deste país. Fundou em 1982 o conhecido CCCC (Clarice Cliff Colectors Club), que produziu ao longo dos últimos 27 anos um ressurgir enérgico da imagem e do valor da citada artista, com coleccionadores espalhados por todo o mundo e cotações surpreendentemente elevadas. Se Clarice Cliff fosse portuguesa a sua obra estaria hoje enterrada debaixo do mais indecente anonimato.

Rafael Bordalo Pinheiro


A valiosa dedicação de Leonard Griffin e os azares calamitosos do quase extinto Zé povinho

Rafael Bordalo Pinheiro bem pode dar voltas na tumba do prestígio saudosista que envolve a sua palpitante obra de cidadão lúcido e artista inspirado. É num jazigo de palavras vãs que irá repousar a lembrança duma das suas invenções menores, a castiça figura do Zé povinho, permanentemente acintoso no gesto malcriado com quem ninguém se identifica porque é chato, cheira a bolor e… não vai a lado nenhum. A não ser nas páginas das teses de doutoramentos futuros, quando já não houver a mínima hipótese de ressuscitar o gesto criador de quem faz as coisas agora porque sabe e porque sente, que a sociedade deita para o lixo porque não quis descobrir nisso lucro imediato nem dar valor à dignidade cultural que de facto lhes corresponde.

Raf pen

.

O Cabaré da Santa do Teatrão, ou os melting pots que falam português na Casa Municipal do Teatro

foi publicado no Diário de Coimbra


Estamos de facto num tempo de prodígios nem todos funestos, felizmente. Estive agora mesmo de visita ao blogspot.com do Teatrão e, imagine-se, tenho ao meu alcance trailers alojados no YouTube de algumas das suas realizações teatrais e acesso à asa brasileira deste enérgico condomínio artístico, o Folias de Arte, de São Paulo. O trailer, que era exclusivo do universo cinematográfico está agora ao serviço do teatro. Os meus sinceros parabéns!
O universo de significados especializados de que o parágrafo anterior é prova evidente é expressão elementar das mutações culturais que a actualidade nos oferece com toda a vastidão de consequências fracturantemente férteis que o fenómeno envolve.
O Cabaré da Santa é um notável trabalho de teatro que também trata, a seu modo, desse estado de coisas e representa para os privilegiados espectadores de teatro de Coimbra uma oportunidade a não perder de passarem um belíssimo serão na companhia de jovens que nos apresentam um espectáculo poderosamente inoculado por uma elaborada teia de ilusões que dá o braço a uma forte componente musicológica em contexto de propícias complexidades linguísticas e interculturais.
Rica de intertexto, vibrante e imprevisível, a peça desestabiliza o espectador mais composto através dum excitante e excitado percurso com variedade de facetas e abordagens culturais e artísticas que podem ser apropriadas ao gosto de cada um.
Este Cabaré poderá, desejavelmente, ser visto e apreciado mais do que uma vez. Não só porque é uma complicada teia de enredos difíceis de descodificar plenamente numa primeira abordagem, mas também porque pode ser apreciado com mimos de chá, vinho do Porto ou bom tinto (eu sou testemunha…). Na minha modesta opinião esta última componente devia estar mais assiduamente presente em certo número de eventos culturais, et pour cause…
Se esta terra ainda vai cumprir seu ideal, se o Amazonas desagua de facto no Tejo numa pororoca ou se vamos de ter de rever o nosso perfil são coisas que não me dão muito cuidado. O mundo muda com tal rapidez que vaticínios, neste como noutros casos, é melhor esperar pelo fluir deste jogo que não acaba nunca. Fundamentais serão de facto, além das inevitáveis razões da elaboração intelectual, o humor e o sexo, essas duas artes tão necessárias como difíceis no que envolvem de sensibilidade, subtileza e a sempre indispensável inteligência.
A peça evolui também nesses terrenos, não abusa nem exagera, mas sempre ventila um pouco o clima aparentemente árido da fleuma nacional. Vendo as fotografias da versão brasileira da peça publicadas na internet, ficam comprovadas nesse sentido as vantagens da miscigenação cultural entre Portugal e o Brasil e… a distância enorme que nos separa do “impávido colosso” que é o país do Carnaval.
Depois das inenarráveis negociatas de todas as épocas entre Portugal e Brasil, de que a peça também se faz eco e metáfora, depois da “invenção da mulata” – a atitude dita mais genial dos portugueses além mar – e da telenovela, cabe agora ao vulgar de todos nós descobrir e desbravar já não as veredas do sertão, mas esse privilégio sem fim que representa para nós a desconhecida genuína cultura daquele país. A sua variedade, o seu colorido, os atrevimentos que não conhecem fronteiras de raça e de preconceito, a excitante enormidade do seu espaço físico e dos intermináveis horizontes do seu espírito esperam por todos nós de braços abertos.
A peça acaba com a concepção luminar de um certo Brasil descobridor de um certo Portugal. Certo, não tem problema, meu irmão.
Quanto a mim mais me inspira, para já, um sempre novo e prodigioso oiro do Brasil com pele de todas as cores, revestido de todos os aromas da terra de que podemos e devemos, por todas as razões imagináveis, lançar mão aberta. E fazê-lo decididamente, com toda a magnífica legitimidade de usarmos a mesma língua, recompensa merecida de séculos de labutas dolorosas e viagens arriscadas.
.

 

O “Ensaio sobre a Cegueira” em adaptação cinematográfica de Fernando Meirelles, a não perder

.

cegueira
Publicado no Diário de Coimbra de 31 de Dezembro de 2008 (Feliz Ano Novo!…)

O “Ensaio sobre a Cegueira” de José Saramago é uma portentosa alegoria da condição humana e do mundo tal e qual se encontram, entregues a uma cegueira muito mais que simplesmente metafórica, revelando os humanos uma incapacidade quase natural de encarar problemas colectivos com alguma generosidade, altruísmo ou até o mais elementar bom senso.
O filme “Blindness” do realizador brasileiro Fernando Meirelles é uma versão cinematográfica da obra do escritor português, motivo que tem imenso interesse para todos aqueles que têm seguido o auspicioso devir do seu notável trabalho literário.
O filme é de uma qualidade fora do comum, segue de muito perto o espírito e a letra da obra em que se baseia e enfrentou de forma criativa as não poucas dificuldades que um tal enredo certamente apresenta.

A notável co-produção do Brasil, Japão e Canadá permitiu ao realizador brasileiro a adopção de soluções cenográficas muito avançadas com níveis de extraordinário realismo, grande número de figurantes e contextualização visual impecável.
A história trata da eclosão de uma inexplicável “cegueira branca” que surge como disparador duma situação limite como aquelas que as artes narrativas frequentemente utilizam para desencadear o drama. Coloca em questão a dificuldade que os homens têm de se organizar de forma pacífica e benévola face às situações de crise, que tendem a ser constantes por essa mesma razão. Demonstra também a extrema vulnerabilidade da espécie humana face a catástrofes gerais, de que a cegueira aqui é um mero exemplo simbólico.
Ao que parece, não basta ao Homem estar por natureza condenado à morte, não bastam todas as suas limitações e relativismos: fora do seu núcleo pessoal mais estreito, e logo que tenha de repartir o seu destino, acorda em si o impulso egoísta e a lamentável incompreensão.
Na refrega de todas essas contradições surgem sempre os actos de heroísmo isolado, as demonstrações de corajosa lucidez e de comovente generosidade que tão importante lugar conquistam na literatura, no teatro e nos outros testemunhos que o homem está condenado a escrever com sangue e lágrimas. Pena é que nem todas essas histórias estejam destinadas a um fim feliz.

15-pUma grande virtude do filme de Meirelles é a de estimular a revisitação da notável obra que lhe dá origem, efectuando o espectador interessado a ponte entre ambas, no pleno usufruto do melhor de cada uma.
É com essa a coabitação de valores positivos que as artes presenteiam os homens, numa clara demonstração de que todos ganhariam se nos comportássemos como irmãos solidários. E para que não fosse tão frequente termos de repetir, com amargura atravessada na garganta que “estamos cegos porque estamos mortos” ou que “estamos mortos porque estamos cegos”, envolvidos pela teia de um dilema sem resolução por não passarmos, muitas vezes, de “cegos que vendo, não vêem”.

O bom hábito de ficar ao fim do filme lendo a lista de todos as pessoas e organizações que colaboraram na sua produção tem o mérito de revelar que o cinema, como muitas outras formas de intervenção artística, resulta da sobreposição de esforços inteligentes entre pessoas e organismos distintos.
O genérico de “Blindness”, dada a sua extensão, é um caso superlativo e exemplo positivo de colaborações que podem contrabalançar o cepticismo que a mensagem do livro e do filme podem semear no nosso espírito.
Nem tudo está perdido e a paz construtiva é possível sempre que os homens quiserem.

.

Fernão Mendes Pinto, filho de Montemor-o-Velho, contemporâneo de Camões que trabalhou degredado em obras na Muralha da China

.

Uma nau portuguesa do Sec. XVII em Nagasaki, no Japão.

Uma nau portuguesa do Sec. XVII em Nagasaki, no Japão.

“… o galardão da nação portuguesa mais consiste & mais pende da aderência que do merecimento da pessoa”
pungente denúncia da rainha de Aarú da falta de cumprimento de promessas de auxílio feitas pelos portugueses face ao ataque de inimigos comuns;
Peregrinação, Cap. XXX

A leitura das obras clássicas de todas as épocas é de todo recomendável, garante uma ligação directa à perenidade universalista, além de ser fonte do mais intenso prazer intelectual.
A Peregrinação de Fernão Mendes Pinto, que é um clássico no verdadeiro sentido do termo, é um relato apaixonante da odisseia dos portugueses pelo mundo, muito frequentemente citado, poucas vezes lido até ao fim e raramente analisado nas suas facetas mais importantes.
Obra contemporânea dos Lusíadas de Camões não ganhou para ser apresentada às majestades da época nem sequer editada em vida do seu autor. Este escreveu-a conscientemente despojado da categoria de escritor, num estilo humilde de quem narra coisas sabidas e vividas por ele próprio e por outros seus iguais, fora do tom grandiloquente da epopeia, esclarecendo que o seu único intento era de a deixar como herança de memória aos seus filhos.
Poderá ser lida com simples relato de viagens e tremendas aventuras, sendo lamentavelmente redutor enfatizar as questões ligadas à veracidade ou invenção das peripécias de assombro de que está repleta.
Tendo tido que conviver com os mais graves poderes da época, num cenário em que eram praticamente excluídas quaisquer hipóteses de estabilidade, segurança e conforto, Fernão Mendes Pinto conseguiu produzir uma obra que põe em causa a moralidade das conquistas ultramarinas e que coloca a missão dos portugueses de conquistar e converter ao nível de um ideal falso e corrupto.
A primeira publicação teve lugar apenas 31 anos depois da morte do autor, facto que não é alheio ao temor provocado pela Inquisição, a qual não deixou – bem como os Jesuítas – de terem intervenção censória na integridade do texto.
Dele foram rasurados aspectos menos “convenientes” de conteúdo e todas as alusões feitas por Fernão à citada ordem, de que foi aliás membro e colaborador activo na missão evangelizadora do Japão, na fase da sua vida em que estabeleceu estreito relacionamento de amizade com S. Francisco Xavier, a quem emprestou dinheiro para construir a primeira casa Jesuíta naquele país.
A notoriedade da Peregrinação a nível internacional logo depois de publicada foi imensa, tendo-se efectuado grande número de edições traduzidas em dezanove línguas, dado o seu acentuado universalismo que suscitou estudos e comentários dos mais diversos autores.
Fernão Mendes Pinto é tido como um homem muito à frente do seu tempo num variado leque de assuntos e, nomeadamente, no conceito que apresenta a respeito dos povos distantes, em tudo diferente da perspectiva paternalista e colonizadora que era timbre da atitude dos ocidentais em geral e dos agentes do cristianismo, em particular.
Aliás a sua presença no Oriente não se deve à posição social ou à proximidade de qualquer poder. Ele está ali por acidente da sorte, é um homem que se esforça por sobreviver a um destino frequentemente adverso e não tem, por isso, complexos de conquistador ou missionário.
Há portanto espaço no seu olhar para ver os habitantes longínquos com a tolerância e a compreensão de um seu igual e não se ocupa, como Camões o fez, em narrar a epopeia do grande Gama, herói descobridor, antes descreve em tom humanizado piratarias e acidentes perigosíssimos por que passaram anti-heróis como António de Faria.
Assim se compreende também, como nos diz J. David Pinto-Correia, no Colóquio Letras da FCG de Janeiro de 1984, serem escassas as manifestações que durante o ano de 1983 assinalaram o IV aniversário da morte do grande pícaro aventureiro que na oralidade da sua prosa se designava frequentemente como “o pobre de mim”.
Dado que a leitura directa e desacompanhada do original é susceptível de não abrir para um entendimento abrangente dos seus valores mais profundos, é aconselhável procurar estudos e comentários que os contextualizem.
Tenho aqui a meu lado um interessantíssimo “Fernão Mendes Pinto no Japão” de Wenceslau de Morais (da Imprensa Nacional Casa da Moeda) e recomendo também “Sátira e Anti-Cruzada na Peregrinação”, volume 57 da Biblioteca Breve do Instituto de Cultura e de Língua Portuguesa, de Rebecca Catz, considerada a maior especialista estrangeira em Fernão Mendes Pinto e que é possível descarregar na íntegra da internet.

Nanb
Um grupo de portugueses no Japão, no sec. XVII, ou “Nanban” (“bárbaros do Sul”, como eram chamados)

.

Este texto foi publicado na Revista de Informação de Novº/Dezº de 2008 do SBC

“A Turma” – uma batalha difícil entre rebeldes intuitivos e seus únicos aliados possíveis

.ATur

Foi publicado no Diário de Coimbra de 17 de Dezembro de 2008

É pena que este filme, com argumento escrito por um professor que se interpreta a si próprio (François Bégaudeau), não seja constituído como tema intensivo de trabalho para todos aqueles que estão implicados no ensino e, ao dizê-lo, estou a pensar literalmente em toda a gente. Principalmente os pais de filhos que frequentam o ensino secundário, aparentemente o único dono de todas as problemáticas e controvérsias, como se os outros níveis de ensino não fossem, também eles, território de complicadas contradições.
“A Turma”, de Laurent Cantet, é um pedaço de cinema duma raríssima qualidade comunicativa. Oferece-nos uma peça de ficção tão meticulosamente construída no seu todo e nas partes que a constituem, que parece um naco de vida arrancado no seu estado puro à experiência vivida algures por professores, alunos e respectivas famílias.
Quem assistir ao filme é transportado para dentro da escola duma tal forma que esquece a sua condição de espectador, tornando-se quase testemunha de factos realmente ocorridos com pessoas que, um dia destes, iriam cruzar-se connosco caso vivêssemos lá, naquele complicado subúrbio de Paris. Não nos iludamos, contudo: a nossa realidade é cada vez mais semelhante àquela, numa sociedade cada vez mais confusa, assimétrica e problematizada.
O espaço exíguo da sala e o recreio igualmente atravancado são os cenários principais que nos são mostrados numa escola francesa onde não falta, apesar de tudo, um conjunto razoável de recursos técnicos e respeitáveis princípios de organização disciplinar.
Os momentos mais intensos do filme são os que documentam a argumentação cerrada entre professor e alunos, em pleno decurso das lições de língua francesa. O exercício da palavra, os seus mistérios, tesouros e artifícios são a reserva de subjectividades sempre candentes que revelam toda a complexidade da natureza humana.
E é aqui que se demonstra que a um professor não basta conhecer todo o conjunto de matérias que lecciona. Tem também que ser pedagogo no sentido mais lato do termo, psicólogo, sociólogo, pastor de almas solitárias, cúmplice de dramas ocultos, advogado de defesa em julgamentos de salomónica transcendência. Isto para além dos horizontes de certo desespero, do cansaço e daquilo que um outro importante filme francês de 1967 de André Cayatte designava como “Les Risques du Métier” ou seja, “Os Ossos do Ofício”.

O professor: o único aliado possível

A dignidade fechada daquela mãe africana que mal saberá, mas não ousa, falar em francês, defende o seu filho com as razões mais concretas da sua experiência particular. Expulso da escola o filho caminha atrás dela, silenciosamente confuso na revolta impotente contra coisas de que apenas intuitivamente se apercebe. O nosso coração comprime-se porque sabemos que o professor que deixou atrás de si poderá ter sido, sem que ele o saiba, o único aliado possível que a sociedade lhe terá oferecido num combate que mal começa e que ninguém imagina como irá terminar. A riqueza expressiva desta notável realização cinematográfica está no vastíssimo leque de questões que levanta e no modo como nos deixa a pensar no assunto.
Infelizmente, como acontece com uma larga quantidade de obras exemplares, também este filme – apesar do seu enorme êxito – acabará por ser visto essencialmente por gente que necessitaria menos de vê-lo que os seus mais legítimos destinatários. Mais do que tudo será um erro considerá-lo um espectáculo “para professores”, dado que para estes – no que tem de mais pungentemente chocante – nada mostra para além daquilo que já abundantemente conhecem, na tempestuosa batalha que travam, dia a dia, por detrás das portas fechadas das aulas que dão aos filhos de toda a gente.

.

Museu do Vinho da Bairrada, em Anadia, visita temática e exposições temporárias, a não perder

.

prospecto do Museu do Vinho da Bairrada

prospecto do Museu do Vinho da Bairrada

Esta notícia foi publicada no Diário de Coimbra de 2 de Dezembro de 2008

.

Se o leitor se interessa por motivos de natureza cultural e não está a pensar deslocar-se em breve a Anadia, acho melhor que mude imediatamente de ideias. O tão conhecido consumismo faz as pessoas viajar muitos quilómetros (se preciso for, de avião) não levando em conta coisas aqui tão perto e de tão grande valor. O Museu do Vinho da Bairrada é um centro cultural de elevado nível, dotado de arquitectura notável, espaços e infra-estruturas muitíssimo respeitáveis alojando, para além das visitas temáticas permanentes que propõe em conceito de modernidade e avanço tecnológico, um programa sustentado de valiosos acontecimentos temporários, três dos quais tenho o prazer de comentar hoje, muito resumidamente. De autoria de artistas originários da região da Bairrada, criativos que a si mesmo se intitulam “os Eugénios” (Fernando Jorge, Luís Gamelas, Luís Santiago, Augusto Formigo e Eugénio Moura Inês) temos as “Eugeniaturas”, 70 caricaturas de individualidades diversas, oriundas quase todas do âmbito nacional lisboeta, onde vivem e prosperam os raros portugueses que fazem e dizem coisas, que “aparecem” na televisão e que são, enfim, mediáticos. O modo como esta exposição está montada constitui uma obra por si só, pela originalidade de contextualização dos diversos grupos de trabalhos, à qual não falta a particularidade de duas caricaturas (oh, céus!…) penduradas num edifício lá fora, longe, as quais têm de ser vistas… de binóculo!… Tal excentricidade não peca por excesso, antes condiz com a inteligência criativa e sentido de humor em evidência, que é o que se procura transmitir.

02-Gustavo-Fernandes

“To play for time”, 117 x 286 cm, óleo s/ tela, de Gustavo Fernandes

Passemos em seguida à exposição de pintura e fotografia que assinala os 25 anos de carreira de Gustavo Fernandes. O conjunto de obras expostas é de uma intensa maturidade técnica, afirmando uma filosofia muito particular do objectivo e do subjectivo. O primor das execuções e o seu encadeamento simbólico configuram uma visão mais que do tecnicista, psicanalítica. A terminologia vulgar ou as categorizações de escola ficam aquém do que é dado a ver. Nem o surrealismo, nem o hiper-realismo, nem a matriz fotográfica resolvem só por si esta problematização do sonho, ou do pesadelo, que nos deixa sós de olhos abertos sobre uma realidade interior, sem tempo. Há silêncios feitos de ausência, horizontes de infinitude, materiais sem alma aparente vistos à lupa, rostos que se nos escapam, o senhor do boné que procura algo que está fora do quadro e a criança que esconde o seu olhar do animal imenso que (não) está lá. Na série dedicada ao vinho, espécie de uma vitalidade mitologicamente meridional ou de velhas ritualidades do sagrado, os símbolos imediatos da sua presença aparecem cruzados com um corpo fraccionado de mulher equivocamente despida/vestida e sem rosto. O pintor sujeita-se ao tema mas não consegue alhear-se da sua visão própria, intensa, violenta (a palavra sai-me, não posso evitá-la).

03RogrioTimteo

“Viajante do tempo”, 130 x 215 cm, mármore s/ metal de Rogério Timóteo

Rogério Timóteo é o artista que protagoniza a terceira das exposições temporárias, constituída por um conjunto de esculturas e desenhos. Nas primeiras apresenta o cruzamento de materiais fortemente contrastantes: o ferro e o mármore; o Norte e o Sul de uma geografia dos sentidos; a vulnerabilidade da carne frente a tudo aquilo que lhe é exterior; o sangue e a técnica; o grito humano de encontro à funcionalidade do mundo. A fragilidade e a audácia do corpo encontram-se metaforicamente em evidência como elos de uma cadeia de tensões, colocados no ponto crucial de expansões energéticas: o desejo do voo, a proa do navio, as soluções de continuidade entre colunas assimétricas, a dor e o sacrifício. Os desenhos distribuem-se por dois ciclos, um mais formalista outro mais tumultuoso, mas ambos bem articulados com as peças restantes. É especialmente bem escolhida a forma de acabamento e cobertura das obras com resina acrílica, o que confere uma vibração lumínica que complementa bem a sóbria austeridade da técnica de registo. Embora cada uma destas três exposições denote uma forte personalidade, é de acentuar que cada uma delas pode coexistir com as restantes, dadas as qualidades arquitectónicas dos espaços onde são inseridas e a forma como este foi administrado pela organização das mesmas.

“Aquele Querido Mês de Agosto”, presença de um povo e de paisagens que Portugal não conhece ou faz por esquecer

.

05agorl4-p

Publicado no Diário de Coimbra de 30 de Setembro de 2008

.As imagens estavam a decorrer, as primeiras canções já tinham soado com a envolvente rítmico-erótica que lhe é típica e os desfiles de motards e procissões de fiéis em romaria não enganavam ninguém quanto ao pano de fundo da película. No entanto o realizador, com voz envergonhada, escusava-se perante o produtor (e porque é que tudo o que vem de Lisboa há-se ser sempre assim, fatalmente severo?) dizendo que o dinheiro não tinha sido enviado para nada do que estava combinado e que as imagens tinham começado a rodar assim mesmo. Assim mesmo, tirando partido do universo de casualidades de que é feita a esplêndida paisagem, o povo que nela habita e as ritualidades episódicas do Verão mais intenso que traz as visitas do costume envolvidas em dramas e sonhos sempre diferentes, sempre iguais.
Um conjunto mínimo de trabalhadores do cinema, largados aqui perto, mesmo na “nossa” Beira, aquela que se estende por montes e vales que apontamos com a mão aberta para os lados de onde o Sol nasce: Arganil, Góis, Coja, Serra do Açor e cercanias envolventes. A apreciação de um trabalho feito assim não pode ser sujeito ao mesmo rigor com que se apreciam filmes vindos da tal Lisboa dos subsidiados ou de mais longe, de Hollywood e dos seus estúdios que produzem tudo. Como obra de arte tem, contudo, uma responsabilidade equivalente e tem de justificar a atenção que se lhe dá. Não tendo ido ao cinema nestes últimos tempos, não hesitei em ir ver este isolado filme português que concorre com grandes êxitos do omnipresente cinema americano, e não me arrependi.
Toda uma sequência inicial de imagens não foge à categoria de reportagem entregue à espontânea liberdade de quem está ali para filmar o que vê à sua volta, o que resulta numa intensa viagem a zonas remotas de uma sociedade que realmente ignoramos, ou que fazemos intencionalmente por ignorar.
A marca de rudimentarismos atávicos está ali, a mal disfarçada pobreza e os casos limite de miséria mais evidente também, embrulhados no papel celofane do casticismo turístico de efeito cómico, por vezes, e trágico, não poucas. Apesar de não ter havido dinheiro para “castings” os personagens lá vão desfilando numa variedade de perfis que não deixa de ser apetitosamente merecedor de análise.

O músico do conjunto que canta um “playback” quase pasoliniano; o administrador de condomínios que fala das suas chatices de fato e gravata à varanda da paisagem, de costas viradas para a câmara e que acredita no milagre da Senhora das Dores; a senhora idosa que toma parte numa cena espontânea e não hesita em cumprimentar a própria equipa de filmagem; os cantadores no improviso ensaiado que denunciam crimes de envenenamento e incesto por entre gargalhadas e remoques; o pobre homem que se atira todos os carnavais da ponte abaixo e as letras pimba das canções que reeditam o mesmo drama dos antigos livros de cordel.
Um filme que contém todas estas coisas numa paisagem e com pessoas a que a maioria dos portugueses finos continua a virar as costas, não pode deixar de ter interesse. Ao fim ao cabo deve ter chegado algum dinheiro de Lisboa e o realizador lá mete as peripécias dum pretenso melodrama, com amor e ódio, sexo e incesto (o vulgar, em suma…) e quanto a mim fez mal.
O verdadeiro filme era outro, o da realidade íntima de um povo que parece fazer por esquecer aquilo que tem de tragicamente verdadeiro.

Este comentário será também publicado pelo jornal TREVIM, da Lousã, com o seguinte esclarecimento:

Quando o filme referido em título passou pelo Cine-Teatro da Lousã já o tinha visto há tempo, e a crónica que se segue já tinha sido publicada no Diário de Coimbra. A notoriedade que o mesmo granjeou a variadíssimos níveis, com prémios, menções honrosas e uma emocionada apreciação de muita gente da região e fora dela, justificará porventura a sua publicação no “Trevim”, de cujas páginas tenho estado ausente, com pena minha, devido à multiplicação de afazeres.

Image Hosted by ImageShack.us
Esta imagem é de gente que fez “Aquele Querido Mês de Agosto”. O segundo a contar da esquerda é o realizador Miguel Gomes e ao centro o jóvem Fábio Oliveira, natural de Oliveira do Hospital, protagonista do filme

.

Mário Branco expõe em Coimbra, no Museu Municipal, Edifício Chiado

.

442 M Branco

Este comentário foi publicado no Diário de Coimbra de 30 de Setembro de 2008

Esteja atento o cidadão interessado e não desista de ver. Os mesmos artistas que desde há milénios procuram comunicar com o presente futuro das sensibilidades vivas permanecem activos, mau grado a fome aparente de verdade e de paixões autênticas. O fantasma das culturas burocráticas permanece e alimenta-se de espectáculo, mas aqueles que teimam encontrar, sempre acharão. Mário Branco mostra um belíssimo conjunto de obras de pintura na galeria de exposições temporárias do Museu Municipal, no Edifício Chiado, outrora centralidade única de centralidades agora repartidas e é uma presença que vem deliberadamente ao nosso encontro. Os trabalhos que nos mostra evidenciam bem uma metamorfose positiva das linguagens da contemporaneidade, neste caso coerentemente associada à corrente das artes próximas do homem e da sua essência comunicativa.
Nada de chapadas de tinta aleatoriamente garatujadas por cima de enormes telas, ou exercícios de neo-qualquer-coisa confiantes na perplexidade de contemplantes anulados pelo acetinado de “meios” que dispensam completamente a “mensagem”.
Mário Branco, pelo contrário, aborda sem complexos uma ampla diversidade de condimentos expressivos não fugindo à variedade de formatos que oscilam entre o delicadamente intimista e a alargada dimensão de alguns dos seus vórtices de impressionante efeito. As variadas caligrafias que põe em prática vão desde a administração mecanicista da matéria da pintura em escorrências, sobreposições e arrastamentos, etc., até à execução a pincel de “mimos” de expressão cuidada, sem receio de evidenciar amor e preceitos técnicos. As suas composições abrangem uma variedade de formatos sugestivos do “retrato” e da “paisagem” mas, na maioria dos casos, revelam estruturações impossíveis de designar por palavras. Como qualquer artista em liberdade não foge à diversidade. Se evidencia coerência plástica, porém, não nos reduz à monotonia de estar a ver sempre “o mesmo quadro”, apelando à decifração das fases construtivas e desafiando-nos a adivinhar o itinerário de gestos felizmente complementares. As suas massas cromáticas tanto se afirmam por empastamentos convictos ou cores firmes, como em lavados e transparências subtis, aqui e ali acentuados por tracejamentos a pastel ou carvão e projecções de tinta diluída que surgem onde é oportuno e não apenas “onde calha”. A paleta de cores assenta numa semântica serenamente nostálgica, embora sejam abundantes os pontos de exclamação, as acentuações e – em casos precisos – a surpresa de uma excepção. Visite exposições de pintura, caro leitor. Vale bem a pena e ensina os olhos a ver. Mas não vire o rosto para o lado à primeira impressão. Persista um pouco e tente mergulhar lentamente na arquitectura dos sinais. Assim se aprende a ler o pensamento e se lava a mente da pressa confusa das imagens sem alma.

Nota de remate:

Consequência das restrições cumulativas a cujo cerco o cidadão se vai habituando (e que pesam fatalmente pela negativa) o pequeno catálogo anteriormente oferecido equivale agora aproximadamente ao preço de quatro litros de gasolina. Sinal dos tempos em que o espavento das derrapagens dos biliões se tornou uma praga “paulatinamente” ignorada por motivos de “conformação”.
Mário Branco no Edifício Chiado, até 25 de Outubro de 2008.

O “Jardim da Água” nas Caldas da Rainha e a obra artística de Ferreira da Silva

.

FS 01
painel de azulejos, IPO/Coimbra
.

Quem primeiro me falou, já há alguns anos, acerca do artista Ferreira da Silva, foram os profissionais de azulejaria da região de Alcobaça, Porto de Mós e Caldas da Rainha. Trata-se de uma figura por todos conhecida, rodeando o seu nome uma aura de elevado respeito e consideração pela sua obra.
Um dia, o meu amigo Alcino Vala, do Juncal de Porto de Mós, que exerce o mesmo ofício que os azulejadores de fins do sec. XVIII que ali produziram, entre muitos outros, os painéis de azulejos que estão na sala dos Reis no Mosteiro de Alcobaça, levou-me propositadamente até ao Hotel da Quinta do Pinheiro, no Valado dos Frades, onde há um significativo conjunto de trabalhos de autoria de Ferreira da Silva, às quais novas encomendas se vieram juntar recentemente, numa louvável atitude de enriquecimento patrimonial daquela instituição.
Tive mais tarde a ocasião de publicar no Diário de Coimbra um comentário detalhado a respeito do notável conjunto de painéis seus que se encontram no IPO em Coimbra, quer à entrada, quer no seu interior.
Fora entretanto às Caldas da Rainha, para me encontrar com o Mestre, o que me deu a grata oportunidade de conhecer, além de outras intervenções suas de valiosa importância, o empreendimento público que ali desenvolve, com arrastadas intermitências, por iniciativa do Centro Hospitalar da cidade e que tem a designação de “Jardim da Água”.
É muito ingrato para mim falar num espaço tão reduzido a respeito do labor deste notabilíssimo artista detentor, além do mais, de uma personalidade forte e distanciada de toda a trivialidade, do exibicionismo fácil e da reverência conveniente.
O artista Ferreira da Silva é conhecido por um grande número de intelectuais e artistas do grande mundo, com os quais ombreou em talento e representação cultural. A personalidade que o caracteriza, contudo, fez dele um homem enraizado no labor oficinal que sempre tem desenvolvido com a maior eficácia criativa e infatigável persistência experimental. Detentor de uma cultura universalista, ecológica e poética, de grande independência, aprecia os espaços livres, o mundo das origens, os princípios e a liberdade inicial em clima que gosta de designar como “saudade do arqueo-sítio”.
São numerosas as obras que foi produzindo no domínio das artes do fogo, estando espalhadas pelo mundo uma grande quantidade delas, na posse de notáveis coleccionadores.

FS 02
O “Jardim da Água”, Caldas da Rainha

O Jardim da Água é um espaço cénico e um percurso pedonal que tira partido de um conjunto de materiais pré-existentes e de estruturas de encaminhamento de águas termais, aos quais se acrescentam multifacetados recursos de originalidade e um sentimento criativo sem peias.
É uma obra dominada por um empolgante sentimento de utopia, destinada a fornecer um permanente espectáculo de águas rumorejantes, circulando através de planos diversificados, animado dos mais diversos efeitos de cor e luz.
A estrutura geral de suporte associa à solidez do betão uma libérrima multiplicidade de planos com intenso dinamismo escultórico, sobre os quais a cerâmica, o vidro, o ferro e outros materiais ganham significados novos, amplificantes do seu usual valor.
Faço os mais sinceros votos para que as contradições que se adivinham por detrás da hesitante marcha dos acontecimentos não demorem a conclusão de uma iniciativa sem qualquer paralelo em meio urbano e de invulgar expressão estética, que tanto tem a ver com o legado histórico e cultural da cidade em que se encontra.

Este texto foi publicado na Revista de Informação do SBC, de Janeiro/Fevereiro de 2008

.

Augusto Mota, o olhar do pensamento e a novidade do que é eterno

Desenho da autoria de Augusto Mota, de fim dos anos 60, para uma das muito conhecidas capas da Livraria Martins, de Leiria

Desenho da autoria de Augusto Mota, de fim dos anos 60, para uma das muito conhecidas capas da Livraria Martins, de Leiria

Este texto foi publicados na Revista de Informação do SBC, de Março/Abril de 2008


Um dos perfis que mais se destaca nas memórias que tenho da minha Leiria dos anos 50 e 60 é o do artista e cidadão Augusto Mota, pelo modelo de pensamento e pelo exemplo construtor de energias criativas que colocou ao meu alcance e de tantas outras pessoas da mesma geração. Licenciado em Filologia Germânica ensinava artes visuais na chamada Escola Industrial e Comercial. Essa aparente contradição sinalizava a abrangência de culturas e de capacidades diversas, numa síntese produtora de entusiasmo criativo e na concepção do maravilhoso da vida como contingência possível. Tive o privilégio de ler muito cedo o notabilíssimo trabalho de tese que fez sobre a obra de Aldous Huxley, numa idade em que o interesse pelo mundo e pela vida tinha consigo a tal crença inicial que acelera a chegada do futuro sem que o facilite, envolvendo-o – não obstante – pelo arco-íris de expectativas plenas de convicção. Desde a utopia franca duma obra como “A Ilha” às perspectivas impiedosas de um “Admirável Mundo Novo”, agora muito mais próximo de todos nós, senti-me impulsionado em direcção a um entendimento da vida e do mundo cujos limites não se esgotaram jamais. Tal como William Blake, cuja obra teve inicialmente como projecto de tese, também Augusto Mota evidencia uma abrangência de criatividades distintas, ao jeito das grandes fi guras do humanismo renascentista. Como criador plástico trouxe ao meio em que vive uma grande variedade de sugestões completamente novas, a partir do próprio conceito da condição social do artista como agente de transformações essenciais.

“O futuro não precisa de quadros: precisa de Cidades que os Homens possam habitar humanamente”, disse desde os seus começos, na propensão assumida de rejeitar as atitudes mais formalmente académicas, em benefício de oportunidades abertas ao alcance da maioria. A arte nos objectos e atitudes do quotidiano e na pesquisa sensata e elegante das melhores soluções para todos os problemas da sociedade. Figuras como Augusto Mota deveriam ser utilizadas mais amplamente pela nossa sociedade em seu próprio benefício. O poder e os seus interesses imediatistas têm dificuldade em entender tais valores, o que configura uma das piores tendências da sociedade em que vivemos: a exaltação da trivialidade e a legitimação do que é medíocre.

No último período da sua actividade como professor do ensino secundário (aparentemente, no nosso país só há professores no ensino secundário!…) provou os amargos frutos dum já antigo e hipocritamente escamoteado apodrecimento dos ambientes lectivos. Reformou-se dessa actividade em tempo próprio, mas não abandonou a procura de valores e o cultivo de formas específicas de intervenção cultural, de que continuo, felizmente, como espectador privilegiado. Sempre que olho a frescura de inspiração de tantas das suas obras invade-me um entusiasmo poético tão intenso como aquele em que as vi pela primeira vez. Inesquecível é, contudo, o políptico das “Tentações de Dona Urraca”, desenho a traço simples que perfeitamente sugere o universo da cor, pleno de ironia teatral e truculência ingénua que não assustam, antes inspiram quem as vê. Revelação de entidades misteriosamente familiares oriundas dum sonho sem idade, águas impolutas e frescas de um rio sereno sem margens.

“Duas irmãs e um rei”, versão muito aligeirada de um tempo convulsivo e violento

.

02IR-R.

foi publicado no Diário de Coimbra em Março de 2008

Já perdi a conta às versões oferecidas do reinado de Henrique VIII e da sua dramática sequência matrimonial. Filmes, livros, documentários, artigos publicados aqui e ali referem as duas esposas que foram repudiadas, as outras duas decapitadas, a que morreu por doença e outra que acabou por sobreviver. Nalguns casos uma infinidades de factos históricos complicadíssimos apaga-se perante os ingredientes passionalmente tempestuosos desses seis casamentos reais. Isto para não falar do inumerável cortejo de amantes, parte dos privilégios banais dos todo-poderosos, cuja conduta estava (e continua a estar…) “naturalmente” isenta das normas aplicáveis às pessoas “vulgares”.
O filme actualmente em cartaz que retoma esse tema ficará, julgo eu, como um superlativo na tendência de isolar a narrativa de toda e qualquer “intromissão” de historicidade. O espectáculo é muito bonitinho e bem configurado, as roupagens são espampanantes e os dentes das actrizes luzidiamente brancos como nunca os houve no sec. XVI. A história é reduzida às peripécias de uma família dirigida por cavalheiros decididamente oportunistas, no intento de usarem as graças de uma filha julgada suficientemente capitosa para seduzir um partido rico, rei de Inglaterra nem mais nem menos, embora sendo este legitimamente casado com Catarina de Aragão, filha dos Reis Católicos. A coisa complica-se devido a certas ocorrências e acaba por ser uma irmã casada, virtuosa e cheia de bom coração, que acaba por ir parar à cama do rei, mau grado o esposo desconsolado de que nunca mais se ouviu falar.
A primeira irmã candidata ao real concubinato não desiste e evidencia uma tenacidade fora do comum e um não menos elaborado sentido estratégico. O rei, de cabeça perdida, não pensa noutra coisa senão em conquistar os seus favores íntimos. Isto sem a mais leve alusão aos debates teológico-diplomáticos, à destruição de monumentos, às sublevações esmagadas, às torturas e a tantas outras violências que atribuem ao reinado de Henrique VIII mais de setenta mil condenações à morte, entre os quais a de Sir Thomas More, “A Man for All Seasons”!…
A realização é anglo-americana e, no dizer de um crítico inglês, parece destinada a adolescentes americanos que não sabem sequer em que ponto do mapa fica a Inglaterra. A escolha das protagonistas não foi nada bem aceite na Grã-Bretanha porque nem são, nem parecem inglesas e ainda por cima falam com sotaque estrangeiro.
As melhores actuações referidas e que salvam a nota geralmente medíocre dos protagonistas, são as do pai e da mãe das irmãs Bolena. O papel reservado ao actor que desempenha a figura do rei é completamente insignificante e o elegante actor escolhido não tem nada do volumoso corpanzil de Henrique VIII.
Ao ver este filme vêm à memória uma enorme quantidade de realizações britânicas de excelentes filmes históricos que fazem saudades e, para um filme cujas atenções estão centradas em peripécias de alcova, à parte meia dúzia de alusões “soft core”, está apesar disso muito longe de ser um filme erótico.

“O Amor nos Tempos de Cólera”, convocatória sugestiva para uma leitura inadiável

.

AmTcol .

publicado no Diário de Coimbra de 03 de Abril de 2008

Num país cujos nativos se matam impulsivamente pelas estradas na mais irracional indisciplina rodoviária e em que o prato do dia é o de uma desconjuntada professora medindo-se às bulhas com uma raparigota em ambiente vagamente idêntico a um combate de box, tenho uma imensa vergonha de vir falar aqui na falta de respeito pelo silêncio que se observa em certas salas de cinema.
Pequenas coisas assim solicitam o desconforto da intervenção cívica de qualquer de nós porque a construção da disciplina não dispensa a atitude responsável dos cidadãos nem pode simplesmente instaurar-se por decreto.
Peço desculpa por ter roubado este espaço ao comentário deste filme de Mike Newell em que é tratado um dos sempre magníficos livros de Gabriel García Márquez, que não fica prejudicado na sua merecida notoriedade de escritor e nas virtudes que tem de bravíssimo cidadão do mundo.

Uma releitura rápida do livro destinada à elucidação deste comentário esclareceu um facto que não é frequente: a realização do filme segue à risca uma enorme quantidade de dados concretos que o livro nos apresenta.
Podemos não gostar daquele Florentino, podemos ficar desiludidos com aquela Fermina, cujo pai afinal não é gordo como no livro e algumas das inúmeras conquistas do protagonista têm mais do gélido perfil de modelos de passerelle do que da espessura confortante e realista de verdadeiras mulheres do caribe. Não chegando este filme ao nível de excelência das melhores adaptações de obras literárias para o cinema, longe de Franco Zefirelli e longíssimo de Visconti ou Pasolini, oferece não obstante na sua opulência cenográfica e na sensualidade pretensamente equatorial, magníficos pretextos quer para a leitura do livro quer para a visitação do filme, ao qual não faltam recursos afins da literatura tais como o amparo expressivo do narrador.
Excepção feita a algumas perspectivas paisagísticas de grande angular, é todo feito em cenários especialmente fabricados para o efeito, atingindo com isso uma opulência quase barroca, cuja autenticidade relativa ao tempo e aos lugares não é possível certificar de modo algum.
Muitos dos que já leram a obra acusarão fatalmente o afastamento que não está entre livro e filme, mas entre linguagens com vocabulários e virtudes de natureza diferente, motivo que não deve perturbar o nosso amor pelas coisas, mas complementá-lo da forma mais adequada.

Ler um livro de Gabo é uma experiência insubstituível e o tempo da leitura é muito mais antigo que o tempo do cinema, tecnologia ficcional que constitui um diferentíssimo processo de construção de imaginários. Além disso o cinema que nos chega de Hollywood evoluiu para ritmos narrativos forçadamente impressionantes e é apoiado por bandas sonoras duma violência desconfortável que chegam a reduzir a percepção consciente das ideias.
A edição portuguesa que possuo de “O Amor nos Tempos de Cólera”, além duma escusada quantidade de gralhas está, porém, enriquecida com um belíssimo comentário crítico de João de Melo, a não perder.

Já agora, um pequeno desafio: acompanhar a leitura da obra pela compaginação com o seu original em castelhano, deliciosa experiência que incondicionalmente se recomenda.

ELam enLtdelC

 

.

Exposição Bibliográfica e Documental Luiz Pacheco, na Biblioteca Geral da UC, a não perder

 

LP 02

publicado no Diário de Coimbra de 16 de Março de 2008

.
Da fachada da Biblioteca Geral pende uma faixa comprida, com a assinatura de Luiz Pacheco. “Eu não tenho imaginação”, é nela declarado pelo escritor, figura tornada fascinante devido à sua desordenada bizarria a que a sociedade conformada e silenciosa que todos nós construímos não tem deixado de prestar um significativo preito de atenção.
Valha-nos o facto saudável desta exposição não ser uma homenagem como tantas, tão pleonásticas, tão fatigantes. É, adequadamente para uma Biblioteca Geral universitária, um registo de presença de um autor problematizante e oblíquo ao conformismo. A presença na Internet e nos meios de comunicação a respeito do escritor, a que é inteiramente supérfluo chamar “polémico”, é muito abundante e elucidativa, embora os seus livros sejam raros nos escaparates.
A visita à BGUC recomenda-se, e que o visitante não vá com pressa. Que leve tempo para entrar pelas vitrinas com vagar de ler palavras sentidas, testemunhos directos e pungentes da vontade indómita e da palpitação acelerada dum coração inquieto.
Os intervenientes no colóquio que ali teve lugar para inauguração da mesma eram, além de estudiosos, pessoas estreitamente ligadas à pessoa e à obra do artista. Um deles, seu filho, falou não omitindo nem iludindo essa qualidade, mas declarando-se primordialmente como seu leitor e admirador. Todas as participações foram abundantemente elucidativas, mas a respeito de um outro Luiz Pacheco, diferente do que nos é apresentado como caricatura dele mesmo, ao arrepio da sua verdade essencial de escritor, crítico, editor e semeador de inquietações.
Afirmou o artista, portanto, que não tinha imaginação. Um dos participantes explicou, ao abordar a diferença essencial entre os “escritores da memória” e os “escritores da imaginação”, que isso se deveria ao facto de que a própria vida por ele vivida já era o bastante para satisfazer a sua vontade de intervir, o seu sentido de missão e de projecto, o seu peculiar sentido de liberdade.
“A imaginação é a minha vida”, dizia Pacheco, acrescentando noutra altura a respeito de si mesmo que “a minha escrita é o meu real”. Outra coisa disse também: “Não há escritores malditos, há é escritores mal escritos”. Os seus mais próximos conhecedores consideram-no não um marginal, mas um praticante de “uma escrita de estrutura eminentemente clássica, com delicadas subversões”.
No exercício da sua actividade de editor revelou sempre um cuidado meticuloso em todas as tarefas levadas a cabo, integralmente exigente na escolha das obras para publicação, todas elas dentro do critério da criação artística e nunca no da escrita de largo consumo.
Raul Leal, Natália Correia, António Maria Lisboa, Herberto Hélder, Vergílio Ferreira, Mário Cesariny, entre outros, foram autores que publicou. Se o leitor tomar a decisão de visitar esta exposição, e acho muito bem que o faça, pode consultar antes a elucidativa documentação publicado sobre este acontecimento no site da BGUC, em: http://www.uc.pt/bguc/luizpacheco.

malditos_capa

 

A Galeria Sete, Ases & Trunfos em exposição e equipamento cultural em projecto

.


Publicado no Diário de Coimbra

Foi publicada recentemente a emocionante notícia de que a Galeria Sete irá meter ombros à construção de um espaço cultural numa zona adjacente à Avenida Elísio de Moura, situada ao lado direito de quem sobe, no vale verdejante ainda com antigas terras de cultivo. Muito emocionante para mim, dado que resido nas imediações, e naturalmente emocionante para todos os que se interessam pela arte e pela cultura, onde quer que se encontrem. O facto de ser visitante regular da galeria, acompanhando por gosto o que ali se fez desde o seu início, permite-me concluir que o projecto já aprovado vai ser um passo em frente em termos gerais de cultura, não admirando que as artes plásticas ali venham a beneficiar de particular incidência.

Sem ser apreciador do cerimonial das inaugurações, deixo-me tentar por visitas mais tranquilas e contemplativas, sendo a exposição que ali se encontra neste momento – Ases & Trunfos – uma revisão abrangente de opções e personalidades estéticas especificamente interessantes, caso a caso. Passando pela montra somos literalmente “arrastados” para dentro da galeria pela tela de Francisco Relógio, artista já desaparecido que foi expoente dum talento raro, fortemente ligado às sensibilidades dum tempo e de uma cultura muito específicos.
Para além da frontalidade simbólica com que nos confronta, amadurece com os anos. Merece, por isso, um olhar lavado de preconceitos datados, devido às suas qualidades de expressão plástica que servirão noutros contextos, e sempre, como eco de um apelo intenso e luminoso, entre rosto e alma, entre terra e sol.
Ao lado, João Vieira está presente com uma das suas pesquisas de consagrado valor intelectual, massas complexas de cor arrastadas por compressão que configuram, mais do que ideogramas, fantasmagorias de teor semi-caligráfico, quase-máscaras ou quase-rostos monumentais.
De outros artistas representados permito-me referir, de memória, José de Guimarães, Pedro Poença e os trabalhos ainda presentes duma recente exposição individual de Noronha da Costa que a Galeria Sete organizou, como importante testemunho da sua evolução recente. José de Guimarães representa-se com um trabalho demonstrativo da sua prática de construir os elementos de suporte das obras que executa, muitas vezes situadas entre a pintura e a escultura, e que associam o mistério distante da complexidade ancestral às sínteses mais intensas da modernidade.
Pedro Proença, duma geração mais nova, evidencia em tudo o que faz uma prolífica veia criativa, quer do ponto de vista da construção imagética, sempre duma invenção caudalosa, quer mediante o uso da palavra escrita que, no caso presente, se encontra em evidência sobre o próprio corpo da pintura. Estão ainda presentes um número significativo de peças, todas claramente referenciáveis aos respectivos autores pelas suas qualidades expressivas, como um desenho de Vieira da Silva de 1945, particularmente intenso na simbologia do transe conflitual de que é testemunha; um guache de 1980 com a marca peculiar do gesto de Manuel Cargaleiro, cujo trajecto assinala uma forte presença na área da azulejaria; obras de Cruzeiro Seixas, Mário Botas, Mário Cesariny, entre outros.
A par destes exemplos, vários outros seria de acrescentar, de diferentes gerações de criadores e de diversas escolas de expressão, não havendo aqui possibilidade para isso, nem sendo meu propósito substituir-me à visita mais abrangente que o leitor irá procurar fazer, caso não o tenha feito já.

Caminhando pela baixa de Coimbra, com exposição de fotografias de Edgar Martins, no CAV

.



Publicado no Diário de Coimbra de 27 de Fevereiro de 2008


A única coisa que a baixa de Coimbra não precisa é de que venha acrescentar-me ao número daqueles que tão lamentosamente debatem a sua decadência.
Só me ocorre dizer que, para além de todos os problemas que são ventilados por muitas outras pessoas muito melhor do que eu, a baixa também é uma questão de opção e de cidadania. Se quiser ir à baixa, vou.
Se a oferta de serviços, se os locais de convivência e de cultura, se os estabelecimentos com rosto humano me convierem, porque não na baixa? E é isso que faço, em dia de Sábado à tarde, a pé e levando comigo (além da melhor companhia…) aquele vagar que também inclui olhos para ver as coisas como se fosse pela primeira vez.
Depois de sair de Montarroio entramos no “Pátio”, damos a volta a um taipal de obras − das muitas que há por todo o lado ¬− e entramos no espaço do CAV, Centro de Artes Visuais.
A exposição que se mostra ao entrar é de fotografias de Edgar Martins, acontecimento que requer uma atenção e um vagar muito específicos, e proporciona um intenso prazer desde o primeiro instante.

numa tarde de luz tão ternamente atlântica

Compro o catálogo bilingue e cedo por momentos à tentação de mergulhar alternadamente na versão portuguesa e na inglesa, parecendo-me especialmente interessante o trabalho de tradução, facto que nem sempre ocorre em tais edições. A visita, contudo, obriga-me a deixar a leitura para depois. O modo como é feita a colocação dos títulos, embora não sendo de ignorar, é rapidamente abandonada, dada a evidente relação que os diversos ciclos de imagens mantêm entre si, quer por efeito de semelhança, quer por efeito de contraste.
Nesse sentido a organização da exposição é muitíssimo estimulante, porque permite ao visitante aperceber-se da coesão que as diversas séries sustentam em si mesmas, sem deixar de oferecer momentos de contraste e tensão, valendo a visita dos espaços não somente pelas peças isoladas como pelas confrontações respectivas.
Esta estratégia expositiva tem as suas excepções, das quais me atrevo a salientar o caso da última sala, em que a obra apresentada nos colhe com emocionada surpresa, dado o grau de familiaridade subjectiva (ou contraste plástico-simbólico), existente entre a matéria que nos dá a ver e a própria estrutura construtiva do espaço envolvente.
Para além do esplêndido apuro formal das obras apresentadas, que em certos casos restringe ao mínimo o conjunto de dados que são oferecidos à observação, existe como uma espécie de equívoco ou mistério na organização da paisagem que suscita uma análise dos mínimos sinais disponíveis, contendo cada um uma intensidade particular que reforça a coerência do todo.

uma multidão de gaivotas descansa sobre o artificial Mondego

A entrada surpreendida numa exposição de tão elevado teor de qualidade não é facilmente compatível com a apreensão imediata de todas as razões e conceitos que animam o labor do artista, para mais tão longamente fundamentados. Mas configuram uma oportunidade a não perder e, já agora, analisamos mais um pouco um dos fenómenos visuais em evidência. Largas superfícies de cor densa apresentam a espessura que nenhum fenómeno natural em si contém, a não ser no conceito abstracto da própria ausência. Um negrume tão intenso que, revelando aqui e ali sinais imprecisos, ou misteriosos, ou intensamente solitários, é essencialmente uma acentuação de tudo o mais que a vista alcança. Nuns casos apreciamos uma noite que não é, noutros um regato que se mostra como se fosse uma nuvem, noutros uma superfície líquida que se transforma noutro céu sobre o qual flutua a enorme massa de um iceberg escultórico, citação das tumultuosas paisagens glaciares de Caspar David Friedrich. As breves observações que aqui deixo a respeito da exposição de Edgar Martins não esgotam o muito que dela poderia dizer-se.
Durante a visita valeu a boa companhia que me levava para aquecer as salas arrefecidas de gente. E para entender melhor aquelas pequenas e grandes coisas que um olhar amigo vê mais esclarecidamente do que todas as palavras ditas.

caminhar é preciso

O espaço mais densamente frequentado que atravessámos no doce fim de tarde, foi o do parque da cidade. Chusma de automóveis no parque de estacionamento. Os mesmos que vão desandar dali para as grandes superfícies, poluindo tanto ao Sábado e ao Domingo como nos outros cinco dias. Os meus compatriotas têm uma grande dificuldade em andar a pé, e os transportes públicos ao Sábado e ao Domingo são ainda muito menos amigos que durante a semana. Vir a pé à baixa, Sábado à tarde, pode muito bem ser um sonho frustrante ou uma cansativa peregrinação. Mas temos a intenção de persistir nesse hábito. Embora nem tenhamos o colesterol alto.

“Haverá Sangue”, ou a solidão implacável do poder

01ilust

publicado no Diário de Coimbra de 2 de Março de 2008

A leitura dos roteiros de filmes em prospectos induz quase sempre em erro, apontando uma história que não é aquela que de facto vamos ver. A descoberta do que procuramos não é, neste caso, um caminho mais curto entre dois pontos e as versões fáceis nem são esclarecidas, nem compensadoras. Há também a mazela das críticas de serviço que, na dúvida, repetem umas coisas já marteladas noutros sítios, dizendo um bocado mal para evitar correr riscos. É por isso aconselhável procurar informação consistente a respeito das obras que frequentamos, nesta como noutras modalidades artísticas.
Num site enciclopédico de cinema é feita uma eloquente narrativa curricular de Paul Thomas Anderson, realizador de “Haverá Sangue”, designando-o como um verdadeiro cineasta, sendo os expoentes comparativos do melhor que inclui a história da 7ª arte. Os cinéfilos antigos, que já viam cinema muito antes dele ter nascido (1970) podem, pois, continuar a ir ao cinema com a esperança renovada de encontrar, já não digo prata ou petróleo, como Daniel Plainview, mas apreensões do mundo e dos homens que dignificam a arte que pratica.
Deve ter passado em branco a muita gente o facto de o empedernido e tenaz Daniel não passar de um explorador autónomo de oiro negro, a largos anos de distância de uma outra e muito mais implacável versão dos acontecimentos, ou seja, das enormes “multinational oil corporations”. Todos recordarão, até, o enternecedor momento inicial em que Daniel toma a seu cargo a protecção da criança órfã que virá a adoptar como filho. É a encarniçada acumulação de fortuna e de poder que o arrasta para o apodrecimento moral completo, para a misantropia e para a violência.
Já depois de ter visto o filme, foram atribuídos em Hollywood os célebres prémios cinematográficos, um dos quais tocou à interpretação de Daniel Day-Lewis, mais outro actor europeu a ser galardoado numa edição dos “óscares” em que apenas foram premiados actores não americanos. “Haverá Sangue”, despropositadamente considerado nalgumas notícias como derrotado, é um filme de enorme qualidade e uma estatueta para o actor principal não deixa de tocar também ao realizador, dada a superior qualidade da direcção de actores. Em detrimento do filme, o ter feito tábua rasa de grande parte do conteúdo político e sindicalista da obra de Upton Sinclair que lhe dá origem (“Oil”, de 1927), apenas aflorado no caso do trabalhador que morre por acidente de trabalho e na menção de outras óbvias malfeitorias de Daniel Plainview. A seu favor a contundente caricaturização do fundamentalismo religioso, que não deixa de ser um acto difícil na América dos nossos dias, conforme bem acentua a crítica internacional.
No “shopping” onde fui ver este filme a imensa maioria das películas exibidas é de origem norte americana. A atribuição dos “Óscares” da sua academia cada vez mais se torna, pela força de tantos acontecimentos, um episódio “cultural” abrangente por excelência, com enviados especiais a Hollywood e tudo.
Os portugueses que recitavam de cor “Lá vem a nau catrineta” e sabiam os reis de Portugal de enfiada, cada vez mais raros, vão ter de se mentalizar de que as mitologias de uso corrente, agora, são outras. Menos mal se dos USA nos forem chegando filmes de qualidade como este. O que não é sempre o caso, infelizmente.

mosaico003

“Sedução, Conspiração” – ser ou não ser “thriller” erótico, eis a questão

.

“Sedução, Conspiração” – ser ou não ser “thriller” erótico, eis a questão
Publicado no Diário de Coimbra no dia 15 Fevº 2008

NOTA: contrariamente ao habitual, e por qualquer acidente de utilização do ficheiro remetido ao DC por e.mail, o texto publicado continha alguns defeitos, nomeadamente a não inserção do último período, abaixo assinalado em bold.

No interesse imediato de quem vende filmes pode ser perfeitamente justificado classificar este “Sedução, Conspiração” como “thriller” ou “melodrama erótico de espionagem”.
O espectador avisado não pode, porém, abandonar-se a tais vulgarizações, devendo separar o trigo raro das realizações consistentes, do joio abundante das contrafacções.
Dizendo a abrir, com clareza, que se trata de um filme para maiores de dezoito anos, convém não perder de ideia aquilo que sempre repito: vulgares, moralmente inóspitas e até lamentavelmente violentas são certas fitas compradas ao quilo pelas televisões e assiduamente emitidas, em sinal aberto, com enormes intervalos de enfadonha publicidade.

Os países que perdem a memória não perdem apenas o passado, perdem também o futuro

“Sedução, Conspiração” é realizado por um cidadão chinês de Taywan, que assume neste filme a mais legítima memória histórica e política que interessa a todos os povos da Ásia, evocando um período de inenarrável e humilhante decadência da China, no contexto de um épico esforço de recuperação da sua dignidade e independência.
Ang Lee oferece-nos uma obra recheada de percepções de forte densidade, humanamente rica e ideologicamente muito estimulante. A escolha dos locais de filmagem, as composições cénicas e a riqueza dos detalhes de produção acrescentam-lhe, aliás, uma inquestionável credibilidade narrativa.
Realizadores e filmes como este fariam (e fazem) bastante falta a países aparentemente alheados do seu devir histórico, esquecendo aqui, falseando acolá.
Quanto ao panorama da crítica de cinema, mesmo a que desfruta da melhor visibilidade, é geralmente muito sumária e quase omissa no que toca a uma fundamentada contextualização político-histórica.

O teatro e o cinema… no cinema

São de salientar as referências ao teatro e ao cinema como linguagens universais de comunicação e sentimento. A peça de teatro como fórmula deliberada de intervenção e as citações de filmes de época com a protagonista em lágrimas perante uma cena com Ingrid Bergman a preto e branco são disso uma clara demonstração.
As cenas de sexo explícito transcendem em muito o seu teor exclusivamente erótico e reflectem uma parte importante das transformações de carácter que vão sofrendo os personagens ao longo do seu drama, face visível do íntimo segredo que os prende à sua humana contingência. Sem elas seria impossível compreender o enredo do filme e a trama de atitudes surpreendentes, quer da parte de Wong, aliás Wei Tang, quer da parte do senhor Yee, aliás Tony Leung − o Clark Gable de Hong Kong.
Um primeiro acto violento, próximo da tortura, desenvolve-se num complexo aprofundamento passional que se aproxima da sublimação no momento em que Wong canta para Yee, fantasiando-se como geisha, e culmina no acto incontido de traição que conduzirá à sua morte e de todos o grupo de revolucionários, para salvar o execrável agente da paixão.
A feição erótica do entrecho, que em língua portuguesa apenas li em análises muito sucintas, daria para alimentar uma outra história – uma boa história, aliás – em que a complexidade afectiva e a violência do desejo pudessem ser parte central.

O implacável poder elimina sempre as meninas Wong e protege cautelosamente os Senhores Yee

“Sedução, conspiração” é, em variados sentidos, um filme plural, muito rico de forma e de conteúdo. Termina, contrariamente ao que é hábito em muitas facilitadas visões da realidade, com penetrante sentido de responsabilidade estético-narrativa: os mais generosos militantes, aqueles que mergulharam na história sem objectivos de poder ou privilégio, tendo como única arma de combate o seu idealismo, são todos implacavelmente eliminados pelas máquinas políticas, à beira dum fosso de negrume e eternidade.
A forma como o realizador nos poupa ao momento exacto da execução sumária do generoso grupo de colegas de escola e antigos activistas de teatro é de uma preciosidade simbólica muito rara, e liberta o seu trabalho de toda e qualquer suspeição melodramática.
Se o sacrifício anónimo de tão imenso número de militantes reais como os da encantadora protagonista atingiu ou não os seus melhores desígnios, não cabe aqui avaliar.
Contudo, embora Ang Lee não deixe de evocar a amarga recordação de um tempo no qual brigadas de funcionários recolhiam em carroças os cadáveres dos esfomeados pelas ruas de Xangai, não tenhamos dúvidas que continua a haver lugar – na China como em tantos outros países – para algumas meninas Wong e, de certeza, para um bom numero de Senhores Yee.
“Sedução, Conspiração” – ser ou não ser “thriller” erótico, eis a questão
.