Category Archives: coxia central – cinema

“Aquele Querido Mês de Agosto”, presença de um povo e de paisagens que Portugal não conhece ou faz por esquecer

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Publicado no Diário de Coimbra de 30 de Setembro de 2008

.As imagens estavam a decorrer, as primeiras canções já tinham soado com a envolvente rítmico-erótica que lhe é típica e os desfiles de motards e procissões de fiéis em romaria não enganavam ninguém quanto ao pano de fundo da película. No entanto o realizador, com voz envergonhada, escusava-se perante o produtor (e porque é que tudo o que vem de Lisboa há-se ser sempre assim, fatalmente severo?) dizendo que o dinheiro não tinha sido enviado para nada do que estava combinado e que as imagens tinham começado a rodar assim mesmo. Assim mesmo, tirando partido do universo de casualidades de que é feita a esplêndida paisagem, o povo que nela habita e as ritualidades episódicas do Verão mais intenso que traz as visitas do costume envolvidas em dramas e sonhos sempre diferentes, sempre iguais.
Um conjunto mínimo de trabalhadores do cinema, largados aqui perto, mesmo na “nossa” Beira, aquela que se estende por montes e vales que apontamos com a mão aberta para os lados de onde o Sol nasce: Arganil, Góis, Coja, Serra do Açor e cercanias envolventes. A apreciação de um trabalho feito assim não pode ser sujeito ao mesmo rigor com que se apreciam filmes vindos da tal Lisboa dos subsidiados ou de mais longe, de Hollywood e dos seus estúdios que produzem tudo. Como obra de arte tem, contudo, uma responsabilidade equivalente e tem de justificar a atenção que se lhe dá. Não tendo ido ao cinema nestes últimos tempos, não hesitei em ir ver este isolado filme português que concorre com grandes êxitos do omnipresente cinema americano, e não me arrependi.
Toda uma sequência inicial de imagens não foge à categoria de reportagem entregue à espontânea liberdade de quem está ali para filmar o que vê à sua volta, o que resulta numa intensa viagem a zonas remotas de uma sociedade que realmente ignoramos, ou que fazemos intencionalmente por ignorar.
A marca de rudimentarismos atávicos está ali, a mal disfarçada pobreza e os casos limite de miséria mais evidente também, embrulhados no papel celofane do casticismo turístico de efeito cómico, por vezes, e trágico, não poucas. Apesar de não ter havido dinheiro para “castings” os personagens lá vão desfilando numa variedade de perfis que não deixa de ser apetitosamente merecedor de análise.

O músico do conjunto que canta um “playback” quase pasoliniano; o administrador de condomínios que fala das suas chatices de fato e gravata à varanda da paisagem, de costas viradas para a câmara e que acredita no milagre da Senhora das Dores; a senhora idosa que toma parte numa cena espontânea e não hesita em cumprimentar a própria equipa de filmagem; os cantadores no improviso ensaiado que denunciam crimes de envenenamento e incesto por entre gargalhadas e remoques; o pobre homem que se atira todos os carnavais da ponte abaixo e as letras pimba das canções que reeditam o mesmo drama dos antigos livros de cordel.
Um filme que contém todas estas coisas numa paisagem e com pessoas a que a maioria dos portugueses finos continua a virar as costas, não pode deixar de ter interesse. Ao fim ao cabo deve ter chegado algum dinheiro de Lisboa e o realizador lá mete as peripécias dum pretenso melodrama, com amor e ódio, sexo e incesto (o vulgar, em suma…) e quanto a mim fez mal.
O verdadeiro filme era outro, o da realidade íntima de um povo que parece fazer por esquecer aquilo que tem de tragicamente verdadeiro.

Este comentário será também publicado pelo jornal TREVIM, da Lousã, com o seguinte esclarecimento:

Quando o filme referido em título passou pelo Cine-Teatro da Lousã já o tinha visto há tempo, e a crónica que se segue já tinha sido publicada no Diário de Coimbra. A notoriedade que o mesmo granjeou a variadíssimos níveis, com prémios, menções honrosas e uma emocionada apreciação de muita gente da região e fora dela, justificará porventura a sua publicação no “Trevim”, de cujas páginas tenho estado ausente, com pena minha, devido à multiplicação de afazeres.

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Esta imagem é de gente que fez “Aquele Querido Mês de Agosto”. O segundo a contar da esquerda é o realizador Miguel Gomes e ao centro o jóvem Fábio Oliveira, natural de Oliveira do Hospital, protagonista do filme

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“Duas irmãs e um rei”, versão muito aligeirada de um tempo convulsivo e violento

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foi publicado no Diário de Coimbra em Março de 2008

Já perdi a conta às versões oferecidas do reinado de Henrique VIII e da sua dramática sequência matrimonial. Filmes, livros, documentários, artigos publicados aqui e ali referem as duas esposas que foram repudiadas, as outras duas decapitadas, a que morreu por doença e outra que acabou por sobreviver. Nalguns casos uma infinidades de factos históricos complicadíssimos apaga-se perante os ingredientes passionalmente tempestuosos desses seis casamentos reais. Isto para não falar do inumerável cortejo de amantes, parte dos privilégios banais dos todo-poderosos, cuja conduta estava (e continua a estar…) “naturalmente” isenta das normas aplicáveis às pessoas “vulgares”.
O filme actualmente em cartaz que retoma esse tema ficará, julgo eu, como um superlativo na tendência de isolar a narrativa de toda e qualquer “intromissão” de historicidade. O espectáculo é muito bonitinho e bem configurado, as roupagens são espampanantes e os dentes das actrizes luzidiamente brancos como nunca os houve no sec. XVI. A história é reduzida às peripécias de uma família dirigida por cavalheiros decididamente oportunistas, no intento de usarem as graças de uma filha julgada suficientemente capitosa para seduzir um partido rico, rei de Inglaterra nem mais nem menos, embora sendo este legitimamente casado com Catarina de Aragão, filha dos Reis Católicos. A coisa complica-se devido a certas ocorrências e acaba por ser uma irmã casada, virtuosa e cheia de bom coração, que acaba por ir parar à cama do rei, mau grado o esposo desconsolado de que nunca mais se ouviu falar.
A primeira irmã candidata ao real concubinato não desiste e evidencia uma tenacidade fora do comum e um não menos elaborado sentido estratégico. O rei, de cabeça perdida, não pensa noutra coisa senão em conquistar os seus favores íntimos. Isto sem a mais leve alusão aos debates teológico-diplomáticos, à destruição de monumentos, às sublevações esmagadas, às torturas e a tantas outras violências que atribuem ao reinado de Henrique VIII mais de setenta mil condenações à morte, entre os quais a de Sir Thomas More, “A Man for All Seasons”!…
A realização é anglo-americana e, no dizer de um crítico inglês, parece destinada a adolescentes americanos que não sabem sequer em que ponto do mapa fica a Inglaterra. A escolha das protagonistas não foi nada bem aceite na Grã-Bretanha porque nem são, nem parecem inglesas e ainda por cima falam com sotaque estrangeiro.
As melhores actuações referidas e que salvam a nota geralmente medíocre dos protagonistas, são as do pai e da mãe das irmãs Bolena. O papel reservado ao actor que desempenha a figura do rei é completamente insignificante e o elegante actor escolhido não tem nada do volumoso corpanzil de Henrique VIII.
Ao ver este filme vêm à memória uma enorme quantidade de realizações britânicas de excelentes filmes históricos que fazem saudades e, para um filme cujas atenções estão centradas em peripécias de alcova, à parte meia dúzia de alusões “soft core”, está apesar disso muito longe de ser um filme erótico.

“O Amor nos Tempos de Cólera”, convocatória sugestiva para uma leitura inadiável

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publicado no Diário de Coimbra de 03 de Abril de 2008

Num país cujos nativos se matam impulsivamente pelas estradas na mais irracional indisciplina rodoviária e em que o prato do dia é o de uma desconjuntada professora medindo-se às bulhas com uma raparigota em ambiente vagamente idêntico a um combate de box, tenho uma imensa vergonha de vir falar aqui na falta de respeito pelo silêncio que se observa em certas salas de cinema.
Pequenas coisas assim solicitam o desconforto da intervenção cívica de qualquer de nós porque a construção da disciplina não dispensa a atitude responsável dos cidadãos nem pode simplesmente instaurar-se por decreto.
Peço desculpa por ter roubado este espaço ao comentário deste filme de Mike Newell em que é tratado um dos sempre magníficos livros de Gabriel García Márquez, que não fica prejudicado na sua merecida notoriedade de escritor e nas virtudes que tem de bravíssimo cidadão do mundo.

Uma releitura rápida do livro destinada à elucidação deste comentário esclareceu um facto que não é frequente: a realização do filme segue à risca uma enorme quantidade de dados concretos que o livro nos apresenta.
Podemos não gostar daquele Florentino, podemos ficar desiludidos com aquela Fermina, cujo pai afinal não é gordo como no livro e algumas das inúmeras conquistas do protagonista têm mais do gélido perfil de modelos de passerelle do que da espessura confortante e realista de verdadeiras mulheres do caribe. Não chegando este filme ao nível de excelência das melhores adaptações de obras literárias para o cinema, longe de Franco Zefirelli e longíssimo de Visconti ou Pasolini, oferece não obstante na sua opulência cenográfica e na sensualidade pretensamente equatorial, magníficos pretextos quer para a leitura do livro quer para a visitação do filme, ao qual não faltam recursos afins da literatura tais como o amparo expressivo do narrador.
Excepção feita a algumas perspectivas paisagísticas de grande angular, é todo feito em cenários especialmente fabricados para o efeito, atingindo com isso uma opulência quase barroca, cuja autenticidade relativa ao tempo e aos lugares não é possível certificar de modo algum.
Muitos dos que já leram a obra acusarão fatalmente o afastamento que não está entre livro e filme, mas entre linguagens com vocabulários e virtudes de natureza diferente, motivo que não deve perturbar o nosso amor pelas coisas, mas complementá-lo da forma mais adequada.

Ler um livro de Gabo é uma experiência insubstituível e o tempo da leitura é muito mais antigo que o tempo do cinema, tecnologia ficcional que constitui um diferentíssimo processo de construção de imaginários. Além disso o cinema que nos chega de Hollywood evoluiu para ritmos narrativos forçadamente impressionantes e é apoiado por bandas sonoras duma violência desconfortável que chegam a reduzir a percepção consciente das ideias.
A edição portuguesa que possuo de “O Amor nos Tempos de Cólera”, além duma escusada quantidade de gralhas está, porém, enriquecida com um belíssimo comentário crítico de João de Melo, a não perder.

Já agora, um pequeno desafio: acompanhar a leitura da obra pela compaginação com o seu original em castelhano, deliciosa experiência que incondicionalmente se recomenda.

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“Haverá Sangue”, ou a solidão implacável do poder

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publicado no Diário de Coimbra de 2 de Março de 2008

A leitura dos roteiros de filmes em prospectos induz quase sempre em erro, apontando uma história que não é aquela que de facto vamos ver. A descoberta do que procuramos não é, neste caso, um caminho mais curto entre dois pontos e as versões fáceis nem são esclarecidas, nem compensadoras. Há também a mazela das críticas de serviço que, na dúvida, repetem umas coisas já marteladas noutros sítios, dizendo um bocado mal para evitar correr riscos. É por isso aconselhável procurar informação consistente a respeito das obras que frequentamos, nesta como noutras modalidades artísticas.
Num site enciclopédico de cinema é feita uma eloquente narrativa curricular de Paul Thomas Anderson, realizador de “Haverá Sangue”, designando-o como um verdadeiro cineasta, sendo os expoentes comparativos do melhor que inclui a história da 7ª arte. Os cinéfilos antigos, que já viam cinema muito antes dele ter nascido (1970) podem, pois, continuar a ir ao cinema com a esperança renovada de encontrar, já não digo prata ou petróleo, como Daniel Plainview, mas apreensões do mundo e dos homens que dignificam a arte que pratica.
Deve ter passado em branco a muita gente o facto de o empedernido e tenaz Daniel não passar de um explorador autónomo de oiro negro, a largos anos de distância de uma outra e muito mais implacável versão dos acontecimentos, ou seja, das enormes “multinational oil corporations”. Todos recordarão, até, o enternecedor momento inicial em que Daniel toma a seu cargo a protecção da criança órfã que virá a adoptar como filho. É a encarniçada acumulação de fortuna e de poder que o arrasta para o apodrecimento moral completo, para a misantropia e para a violência.
Já depois de ter visto o filme, foram atribuídos em Hollywood os célebres prémios cinematográficos, um dos quais tocou à interpretação de Daniel Day-Lewis, mais outro actor europeu a ser galardoado numa edição dos “óscares” em que apenas foram premiados actores não americanos. “Haverá Sangue”, despropositadamente considerado nalgumas notícias como derrotado, é um filme de enorme qualidade e uma estatueta para o actor principal não deixa de tocar também ao realizador, dada a superior qualidade da direcção de actores. Em detrimento do filme, o ter feito tábua rasa de grande parte do conteúdo político e sindicalista da obra de Upton Sinclair que lhe dá origem (“Oil”, de 1927), apenas aflorado no caso do trabalhador que morre por acidente de trabalho e na menção de outras óbvias malfeitorias de Daniel Plainview. A seu favor a contundente caricaturização do fundamentalismo religioso, que não deixa de ser um acto difícil na América dos nossos dias, conforme bem acentua a crítica internacional.
No “shopping” onde fui ver este filme a imensa maioria das películas exibidas é de origem norte americana. A atribuição dos “Óscares” da sua academia cada vez mais se torna, pela força de tantos acontecimentos, um episódio “cultural” abrangente por excelência, com enviados especiais a Hollywood e tudo.
Os portugueses que recitavam de cor “Lá vem a nau catrineta” e sabiam os reis de Portugal de enfiada, cada vez mais raros, vão ter de se mentalizar de que as mitologias de uso corrente, agora, são outras. Menos mal se dos USA nos forem chegando filmes de qualidade como este. O que não é sempre o caso, infelizmente.

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“Sedução, Conspiração” – ser ou não ser “thriller” erótico, eis a questão

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“Sedução, Conspiração” – ser ou não ser “thriller” erótico, eis a questão
Publicado no Diário de Coimbra no dia 15 Fevº 2008

NOTA: contrariamente ao habitual, e por qualquer acidente de utilização do ficheiro remetido ao DC por e.mail, o texto publicado continha alguns defeitos, nomeadamente a não inserção do último período, abaixo assinalado em bold.

No interesse imediato de quem vende filmes pode ser perfeitamente justificado classificar este “Sedução, Conspiração” como “thriller” ou “melodrama erótico de espionagem”.
O espectador avisado não pode, porém, abandonar-se a tais vulgarizações, devendo separar o trigo raro das realizações consistentes, do joio abundante das contrafacções.
Dizendo a abrir, com clareza, que se trata de um filme para maiores de dezoito anos, convém não perder de ideia aquilo que sempre repito: vulgares, moralmente inóspitas e até lamentavelmente violentas são certas fitas compradas ao quilo pelas televisões e assiduamente emitidas, em sinal aberto, com enormes intervalos de enfadonha publicidade.

Os países que perdem a memória não perdem apenas o passado, perdem também o futuro

“Sedução, Conspiração” é realizado por um cidadão chinês de Taywan, que assume neste filme a mais legítima memória histórica e política que interessa a todos os povos da Ásia, evocando um período de inenarrável e humilhante decadência da China, no contexto de um épico esforço de recuperação da sua dignidade e independência.
Ang Lee oferece-nos uma obra recheada de percepções de forte densidade, humanamente rica e ideologicamente muito estimulante. A escolha dos locais de filmagem, as composições cénicas e a riqueza dos detalhes de produção acrescentam-lhe, aliás, uma inquestionável credibilidade narrativa.
Realizadores e filmes como este fariam (e fazem) bastante falta a países aparentemente alheados do seu devir histórico, esquecendo aqui, falseando acolá.
Quanto ao panorama da crítica de cinema, mesmo a que desfruta da melhor visibilidade, é geralmente muito sumária e quase omissa no que toca a uma fundamentada contextualização político-histórica.

O teatro e o cinema… no cinema

São de salientar as referências ao teatro e ao cinema como linguagens universais de comunicação e sentimento. A peça de teatro como fórmula deliberada de intervenção e as citações de filmes de época com a protagonista em lágrimas perante uma cena com Ingrid Bergman a preto e branco são disso uma clara demonstração.
As cenas de sexo explícito transcendem em muito o seu teor exclusivamente erótico e reflectem uma parte importante das transformações de carácter que vão sofrendo os personagens ao longo do seu drama, face visível do íntimo segredo que os prende à sua humana contingência. Sem elas seria impossível compreender o enredo do filme e a trama de atitudes surpreendentes, quer da parte de Wong, aliás Wei Tang, quer da parte do senhor Yee, aliás Tony Leung − o Clark Gable de Hong Kong.
Um primeiro acto violento, próximo da tortura, desenvolve-se num complexo aprofundamento passional que se aproxima da sublimação no momento em que Wong canta para Yee, fantasiando-se como geisha, e culmina no acto incontido de traição que conduzirá à sua morte e de todos o grupo de revolucionários, para salvar o execrável agente da paixão.
A feição erótica do entrecho, que em língua portuguesa apenas li em análises muito sucintas, daria para alimentar uma outra história – uma boa história, aliás – em que a complexidade afectiva e a violência do desejo pudessem ser parte central.

O implacável poder elimina sempre as meninas Wong e protege cautelosamente os Senhores Yee

“Sedução, conspiração” é, em variados sentidos, um filme plural, muito rico de forma e de conteúdo. Termina, contrariamente ao que é hábito em muitas facilitadas visões da realidade, com penetrante sentido de responsabilidade estético-narrativa: os mais generosos militantes, aqueles que mergulharam na história sem objectivos de poder ou privilégio, tendo como única arma de combate o seu idealismo, são todos implacavelmente eliminados pelas máquinas políticas, à beira dum fosso de negrume e eternidade.
A forma como o realizador nos poupa ao momento exacto da execução sumária do generoso grupo de colegas de escola e antigos activistas de teatro é de uma preciosidade simbólica muito rara, e liberta o seu trabalho de toda e qualquer suspeição melodramática.
Se o sacrifício anónimo de tão imenso número de militantes reais como os da encantadora protagonista atingiu ou não os seus melhores desígnios, não cabe aqui avaliar.
Contudo, embora Ang Lee não deixe de evocar a amarga recordação de um tempo no qual brigadas de funcionários recolhiam em carroças os cadáveres dos esfomeados pelas ruas de Xangai, não tenhamos dúvidas que continua a haver lugar – na China como em tantos outros países – para algumas meninas Wong e, de certeza, para um bom numero de Senhores Yee.
“Sedução, Conspiração” – ser ou não ser “thriller” erótico, eis a questão
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“I am Legend”, mais um filme com título mal aplicado e pior traduzido, que diferença faz?…

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“I am Legend”, mais um filme com título mal aplicado e pior traduzido, que diferença faz?...
Publicado no Diário de Coimbra no dia 08 de Fevereiro de 2008

O poeta, crítico, ensaísta e homem de cinema Dan Schneider oferece-nos uma detalhada apreciação do livro de Richard Matheson, de 1954, cujo título é o mesmo do filme de Francis Lawrence actualmente a ser exibido em Coimbra.
Refere, entre muitas outras coisas, as duas obras cinematográficas de 1964 e de 1971 (“The Last Man on Earth” e “The Omega Man”) que também nele se basearam, sendo muito clara a sua preferência pela primeira, com interpretação do grande actor que foi Vincent Price.
Do livro diz-nos tratar-se de uma das melhores obras escritas a respeito da solidão humana, ultrapassando Robinson Crusoe de Daniel DeFoe, sendo igualmente uma desmontagem do mito dos vampiros em termos de modernidade.
Não hesita em colocá-lo a par de “Moby-Dick” e das “Aventuras de Huckleberry Finn”. Ultrapassa, a seu ver, as contingências de uma categorização na área da ficção científica ou da novela pós-apocalíptica, constituindo-se como alegoria subtil ao MacCarthismo e ao rígido conformismo dos anos 50, factos percursores das esterilizações político-culturais e ideológicas da contemporaneidade.
Conhecidos os rigores e a intolerância da América de Joseph MacCarthy e J. Edgar Hoover poderemos facilmente imaginar a coragem da obra de Matheson que, apesar de tudo, conseguiu impor-se como notabilíssimo autor de criações para o cinema, sendo um dos principais ficcionistas ao serviço da série de culto “Twilight Zone”.

Ignorar as evidências e aceitar qualquer patranha, eis outra forma de ser “feliz”

É muito difícil esclarecer neste breve espaço todo o conjunto de tropelias que Hollywood (um “bosque sagrado” como há poucos…) efectua sobre a obra original de Richard Matheson, bastando assinalar que a vira completamente de cabeça para baixo.
Nem o princípio, nem o meio, nem o fim, nem o cenário, nem a índole do protagonista e, “last but not the least”, nem o carácter dos implacáveis vagantes nocturnos têm nada a ver com os vampiros da sua obra.
Quanto às incongruências ou exageros ficcionais, ninguém parece ralar-se com isso. Numa Nova York apocalíptica e desértica há vários anos, Robert Neville continua abastecido de energia eléctrica, num apartamento de Washington Square onde continua a dispor de abundante água corrente até para dar banho a Samantha, sua cadela e companhia inseparável.
Não só no cinema, mas também na vida real, as pessoas continuam a acreditar piamente em tudo aquilo que querem, sem olhar às realidades mais objectivas, a toda a lógica evidente e até às suas mais elementares necessidades.
Será essa a receita para uma infalível e antidepressiva felicidade?…
No cinema não, quanto mais na vida.

Para salvar a humanidade, um tenente-coronel da US Army, pois claro

Como frequentemente acontece, é no desempenho dos artistas de renome (como Will Smith no papel de Robert Neville, neste caso) e dos especialistas em efeitos especiais que se baseia a enorme probabilidade de sucesso da grande “máquina dos sonhos”, já para não falar no imenso trabalho desenvolvido e nos milhões de dólares de destemido investimento.
Um dos segredos tem nome e chama-se CGI: “Computer Generated Imagery”, ou “grafismos computorizados a 3 dimensões” ou efeitos especiais por via digital, tanto faz. Da abstracção digital surge um leão, um tigre, um fantasma que mete medo como os diabos, ou trinta, ou trezentos, rugindo esqualidamente e trepando por arranha céus acima para matar o herói, entrincheirado e disposto a salvar a humanidade, já completamente aniquilada pela engenharia genética, entretanto muito na berra!…
A indústria do cinema vai alimentando bichas de frequentadores que, para além do mau hábito estereotipado das pipocas e da beberragem castanha, também de lá trazem reservas de curiosa fantasia, sonhos e combustível de ideias para consumo imediato e posterior.
Essa energia expande-se em todas as direcções, todos e cada dia que passa.

Se já estamos a caminho, saberemos para onde vamos?

Elevado número de crianças consome infinidade de imaginários de que muitas pessoas da minha geração não fazem a mínima ideia, por distracção ou desinteresse perante fenómenos que resolvem ignorar.
Uns evoluem não se sabe para onde, afundando-se os outros em saudosismos sem salvação possível.
Na fila à minha frente, sentavam-se duas crianças certamente com menos de treze anos de idade (barreira que nos EUA é acentuadamente recomendada aos pais e responsáveis para visionamento deste filme), que saíram da crispação do “thriller”, placidamente, para a animação consumista do colorido Mega Centro.
Que sementeira de emoções, que reserva de sonhos ou que recurso de energias da mente terá produzido naquelas cabeças de meninos um tão intenso desfilar de impressões?
Quem poderá adivinhar, se ninguém parece desejar saber?
Que normalidade serena será esta?
Para onde é o caminho, se parecemos saber todos tão bem para onde vamos?…

 

“Call Girl” de António-Pedro Vasconcelos, num cinema perto de si…

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Publicado no Diário de Coimbra de 22 de Janeiro de 2008

Envergonhado por uma ausência pela qual alguns devotados leitores me vão zurzindo a tranquila consciência de quem faz, não o que quer, mas tudo aquilo que pode, aqui estou desta vez para vos falar de cinema. Para um cinéfilo que não vai a todas e já não colecciona, como antigamente, os bilhetes e programas dos filmes que vai ver, as mais gratas referências que me ocorrem a respeito da obra de António-Pedro Vasconcelos são os seus magníficos “O lugar do morto” e “Jaime”.
Realizador com obra feita, embora em descontinuidade acentuada, queixa-se do mesmo que muitos se queixam: de não ter condições para prosseguir uma obra assídua e centrada naquilo que de melhor sabe fazer, ou seja: cinema de qualidade. O autor é também uma voz clara na denúncia de muitas artimanhas com que alguns habilidosos vão conseguindo “orientar-se” na confusa selva dos favores institucionais, o que não lhe deve facilitar a vida.

“Call Girl”, título equívoco para o sucesso

A expressão inglesa em si, que o Cambridge Dictionary me diz ser “a female prostitute who arranges her meetings with men over the telephone”, é traduzida pelos brasileiros com a frescura linguística que lhe é reconhecida, por “garota de programa”. Em português europeu (descendente da clássica latinidade), a tradução de “call girl” é… “call girl”. Dá mais pica, tem outro sabor, caraças!
O filme foi apresentado com certo sensacionalismo que me colocou de pé atrás. Se não fosse a persistência que alimento de ver filmes em português (oxalá esse princípio fosse moda), só o esquema temático que envolveu a sua divulgação me daria razões para ignorá-lo. Recordando contudo a riquíssima humanidade de “Jaime”, lá fui, esperançado como sempre, para um pedaço de tarde passado na “sala escura”. E não me arrependo nada.

A televisão portuguesa mostra obras medíocres porque quer, e ponto final

Pela minha parte, não tenho complexos nenhuns em afirmar que “Call Girl” é um belíssimo filme, de narrativa fluente, luzes e sonoridades expressivas, ritmos cuidados por um profissionalismo amadurecido e actualizado. Algumas vozes queixam-se da abundância das “gros mots”, copiosamente usadas pelos personagens e da exibição sem grandes peias da esplendorosa sensualidade de Soraia. Os críticos que tais fantasmas agitam devem usar umas asinhas brancas e andar muito distraídos. Qualquer adolescente novinha das escolas usa e abusa de tais expressões, na fruição plena duma novidade destravada pela contemporaneidade. Julgo até que, para elas, tais palavras já nem significam o que significaram, nem representam o que representaram para outras gerações. Alguns quilómetros mais a Norte, pertenceram sempre ao léxico mais vulgar e até castiçamente familiar.
Quanto ao erotismo, um dos condimentos evidentes em “Call Girl”, não vi nada que ultrapasse os atrevimentos desatados pela própria televisão e muito longe do que a Internet divulga escancaradamente. Tudo o que este filme nos oferece está dentro dum excelente sentido de medida ou seja, nada é mostrado que vá para além do que procura revelar. Aliás, surpreende o facto de ser apoiado por uma cadeia televisiva que produz obras de ficção sem os mínimos princípios de qualidade que abundam nesta realização de António-Pedro de Vasconcelos. Porque não coloca tal cadeia ao seu serviço uma tal estética ficcional, a mesma qualidade dos textos, a direcção de actores e um tão esclarecido sentido de mensagem?

Polícias assim, não sei se os há: mas apetece acreditar que existem!…

“Call Girl”, e só a repetição do título me causa um certo calafrio é, aliás, um magnífico exemplo de como a ficção pode transportar as contingências da realidade vivida e percebida, sem ser por impulsos traumatizantes ou pela receita da violência como aliciante mediático.
Uma palavra para o excelente desempenho dos actores, que demonstram um leque de recursos cheios de sentido criativo, tornando-se irresistível recordar a “criação” preciosa dum ministro “com sotaque”, como aqueles notáveis da toleima que andam a tentar inventar uma forma só sua de falar português, com “letgas tgocadas umas peuas outgas” para convencerem que são chiques. O filme procura demonstrar, como tantas obras do estilo policial, que há polícias humanizados, idealistas e de elevado teor de honestidade, com os quais o “poder-poder” se não dá bem. A última cena do filme, com dois homens cansados de guerra, saindo pela doce manhã para mais uma tarefa rude de perseguição ao crime, é empolgante e poética. Não sei se há muita gente assim, pronta a lutar com coragem pela verdade e pela rectidão. Mas conforta a alma do espectador pensar que sim.
Se esse instante for repartido por todos aqueles que foram ver o filme, daqui mando o meu abraço a António-Pedro, fazendo votos que continue a fazer filmes com polícias voluntariosos e apaixonados, mulheres bonitas que têm o seu ponto fraco e autarcas quase impossíveis, daqueles que acreditam que não se devem abater sobreiros!…

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