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Eugène Green, Soror Mariana e os azulejos

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Publicado no Diário de Coimbra de 12 de Maio de 2010

Interessei-me desde há pouco pela figura de Eugène Green, o realizador de “A Religiosa Portuguesa”, e já li a seu respeito uma quantidade de coisas invulgares.
Por exemplo, os seus filmes incluem sempre cenas filmadas à luz de velas: projectores barrocos, assim chamados por terem detrás um espelho que ajuda a luz a comunicar às cenas uma suave luminosidade nocturna. E esclarece Raphaël O’Byrne, director de fotografia: “Deve ser o único realizador no mundo que filma sem luz eléctrica”.
Outra excentricidade, não menos surpreendente, é tratar-se de um nova-iorquino que não afina pelo diapasão “normal” pró-hollywoodesco. Antes pelo contrário, Eugène considera o seu país como “a barbárie”, abomina a produção fílmica norte-americana, adoptou há longos anos a França como local de residência e, imagine-se, tem uma acentuada fixação simpática pelos portugueses, por Lisboa e pelos mais sensíveis avatares da nossa cultura. Se eu fosse realizador cinematográfico e me encomendassem um filme sobre as qualidades emblemáticas de Portugal e dos portugueses, teria pudor em ser tão sentimentalmente frontal na exaltação da nossa personalidade simbólica.
Uma sequência de “A Religiosa Portuguesa” oferece-nos uma simples viagem de eléctrico e o olhar da câmara extasia-se e detêm-se em cada rosto, revelando a fisionomia meridional, o curioso olhar mourisco e o sorriso suspenso daqueles viajantes sem pressas. Numa cidade tão empedernida pelo cansaço, Eugène avalia os lisboetas com a imagem que deles retém e faz questão em nos mostrar o velho amparado nas canadianas a quem uma rapariga nova, tão solícita, oferece imediatamente o seu lugar. As escadinhas e calçadas tranquilas, os pátios escondidos, as portas antigas com pequenas janelitas, o sol forte por entre as ramagens, as paredes velhas com garatujas, as mais abertas perspectivas sobre a cidade enorme, os seus miradouros e jardins antigos, o dorso das colinas, os fontanários e bancos de pedra: Eugène vê tudo à lupa, explica, regala-se, ostenta como ornamento precioso aquilo que nós porventura desistimos já de ver ou simplesmente confundimos com velhice de alma decadente. Há muitos anos que não via um filme com fados inteiros e gente conhecida sentada, tornando explícita a morena estirpe lusitana de magriços e mouras encantadas.
E os azulejos, meu Deus, os azulejos!… Por todo o lado, detrás de cada vulto, de dia ou de noite, reforçando a solenidade da talha dourada e a convicção dos santos nas igrejas, em palacetes graves ou velhas dependências de casas modestas. Aparece por fim D. Sebastião, como se outra coisa faltasse para retratar o sentimento do inexplicável narrado num tom que explicitamente evoca a linguagem fílmica de Manoel de Oliveira, tão declaradamente presente que a própria protagonista e outras figuras são transferidas dos elencos favoritos do consagradíssimo realizador. Nada de tão fortemente emblemático poderia levar o filme tão longe como tem ido, a festivais e encontros com prémios e referências honrosas. A sua produção foi maioritariamente portuguesa e obteve subsídio do ICA (Instituto do Cinema e do Audiovisual), o que gerou certa polémica. Não impediu no entanto que tenha sido considerado por certas opiniões como “mais português do que muitos filmes portugueses”, tendo sido rodado em Lisboa por uma equipa técnica maioritariamente portuguesa, com base na que fez outra película de sucesso: “Aquele Querido Mês de Agosto”. “O Som e a Fúria”, entidade produtora do filme, foi criada em Setembro de 1998 e dedica-se em exclusivo à produção cinematográfica, procurando estabelecer um vínculo com o cinema de autor e independente. Já produziu 2 documentários, 23 curtas e 4 longas-metragens. No seu conjunto, estes filmes arrecadaram 53 prémios e 14 menções especiais em Festivais de Cinema. Também participa na distribuição das obras que produz, pelo que convém aos cinéfilos amigos mantê-la sob observação atenta.

As telenovelas, o plano fechado e o campo-contracampo

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Esta crónica foi publicada este mês no Diário de Coimbra

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Já falei aqui a respeito da insanidade ficcional da telenovela, das disputas e da má educação que é sua vocação propagandear.
Um dia destes, na paz do lar, fui de novo surpreendido pela cena de uma das telenovelas portuguesas mais em evidência na actualidade: uma mãe e uma filha travavam um combate do mais aceso ódio em que o sorriso nervoso e crispado de uma e as lágrimas da outra eram a fronteira mais longínqua de um país escarninho de danação e amargura.
Depois disso já houve novos “rounds” desse combate de azedumes recalcados como se tal exercício necessitasse de treino ou fosse indispensável renovar em nós a lástima da aversão sem tréguas.
Cabe hoje falar aqui a respeito de alguns dos esquemas técnicos mais frequentes na confecção desse produto televisivo que é, antes de mais, uma indústria que movimenta recursos elevados e custos de produção caríssimos, o que demonstra o seu interesse na fixação de públicos dóceis, receptivos ao contexto publicitário abundantemente envolvente.
A colheita de imagens de uma telenovela é geralmente feita em cenários integralmente construídos para o efeito, com som directo, seguida de uma técnica de montagem que obedece a regras muito estritas, caracterizadas por uma trivialidade estética facilmente observável.

Termos chave são o “plano fechado” e a técnica do “campo-contracampo”

Quanto ao “plano fechado” basta dizer que ele é, como metáfora, a própria essência do processo narrativo da telenovela por insistir em concentrar a imagem num ângulo de visão sem espaço livre para a libertação do olhar, da curiosidade e da imaginação.
Para além de algumas imagens de abertura e de fecho que nos dão a conhecer o ambiente em que se desenrolam os episódios (com muito poucos exteriores e escassas cenas de acção) os diálogos (geralmente muito despojados, sintéticos e até rudimentares) são filmados por duas câmaras que revelam alternadamente o rosto de cada um dos intervenientes, não permitindo muito mais do que a articulação da fala, sem grande espaço concedido para a caracterização dramática. É o “campo-contracampo”.
Numa telenovela o vazio do discurso não convida a pensar e o realizador brinca com o espectador dando-lhe continuadamente pistas duvidosas para que com isso alimente a única curiosidade possível: saber quem foi o culpado da trama de confusos equívocos e esperar que tudo se resolva da forma mais previsível.
Os comportamentos são pouco edificantes, a inveja e a disputa não obedecem a regras e o desmascarar dos criminosos e dos oportunistas é quase tão difícil como na vida real, o que leva certos espíritos complacentes a julgar que a telenovela é “realista” porque se limita a reproduzir aquilo que se passa na realidade.
O encadeamento das cenas processa-se sem pausas ou acentuações que concedam ao espectador a faculdade de olhar e o privilégio de ver, pensando naquilo que está a acontecer, distanciando-se o suficiente para formular juízos críticos.
Na leitura de um livro podemos fazer uma pausa, voltar atrás para ler de novo e pensar no assunto. Na telenovela pode perder-se um episódio inteiro, os dados estão lançados desde o início e não há espaço algum para o imprevisto, o fenomenal e a excepção edificante.
Se houver duas telenovelas simultâneas em dois canais diferentes, temos uma vantagem: podem dar-se dez minutos a cada uma alternadamente, e nada se perderá com isso. Ou dormir uma soneca lá pelo meio. Deixa de ver-se uma cena de ódio, ganha-se uma de inveja ou de má criação e ao fim, casam todos na mesma uns com os outros.

Na Galeria Sete, pinturas de Miguel Telles da Gama e Pedro Pascoinho

Publicado no Diário de Coimbra no dia 17 de Abril de 2010

Recomendo a todos os interessados pela pintura uma visita à exposição “Permanências” que se encontra na Galeria Sete, ao fundo da Avenida Elísio de Moura, desde o dia 10 de Abril, com obras de Miguel Telles da Gama e Pedro Pascoinho. Os dois artistas evidenciam personalidades artísticas bem caracterizadas e as obras respectivas encontram-se devidamente apresentadas no espaço disponível de modo a não confluírem no mesmo horizonte contemplativo.
Os dois núcleos de obras são completamente diferentes, mas, a oportunidade de ver um conjunto primeiro e o outro logo depois, oferece um desafio mais ao visitante: o de poder viajar entre dois pólos de uma mesma fidelidade a princípios de observação e caracterização do universo das coisas sensíveis, podendo aproveitar a oportunidade para elaborar na mente um conjunto estimulante de relacionações não forçosamente comparativas, mas de valorização mútua de entidades contrastantes.
Entidades contrastantes, poderia ser esse porventura um outro título para a mesma realização conjunta, dado que é o que se nos depara ali: uma dualidade de confrontações, cada uma com a sua temperatura específica, o seu clima visual e a sua intensidade própria.

Na Galeria Sete, pinturas de Miguel Telles da Gama e Pedro Pascoinho


Miguel Telles da Gama apresenta-nos uma galeria de seres anónimos, fragmentários, oclusos, reduzidos a uma teoria de cores neutras, evidenciando a categoria de objectos escultóricos que oferecem pose em silêncio distanciado, página de modelos recortada pela tesoura criteriosa dum esvaziamento premeditado, sistemático, sem piedade.
Essas captações sintéticas afirmam o temperamento fotográfico de cada fragmento, materializado mediante o exercício cuidadoso de uma pintura meticulosa, obediente à focagem, à solidez, ao claro-escuro, ao capricho volumétrico dos tecidos, reminiscência da presença inapagável dos panejamentos da grande pintura.
A força do contraste, neste caso, é-nos revelada pela contraposição de tais elementos com planos de cores fortes, tornados objecto visível por intermédio de um expediente vocabular, título ou legenda de uma circunstância anexa ao sentido gráfico que envolve a totalidade das composições.


Pedro Pascoinho desenvolve perante o nosso olhar um teatro de confrontações de forte poder sugestivo, apoiado numa sistemática exploração de recursos gráficos do universo das revistas vindas do outro lado do Atlântico e de além Mancha, os “magazines” repassados pelo tipismo das gerações de entre guerras, dos seus trajes, adereços, apetrechos e ambientes de trabalho.
Essas figurações desenvolvem entre si uma dose de nonsense e de indeterminação que abrem para o mistério insolúvel amparadas muitas vezes por um manto de espesso negrume que marca a sua presença com uma plasticidade viscosa sem apelo.
O sistema de contrastes é acentuado (também) mediante as diferenças de escala de elementos contrapostos, expediente narrativo que por vezes assume o carácter de uma verdadeira abordagem psicanalítica, queira ou não queira a opção inicial que os colocou sobre a tela.
A execução plástica é fluente, intuitiva, as cores oscilam todas em torno de uma gama abatida na área de tons terrosos aquecidos pela maturidade das coisas antigas, alma residual de papéis deixados a amadurecer nas prateleiras de verão dum sótão de irrecuperável memória.

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Os suportes de Pedro Pascoinho acusam, em coerência com o clima plástico que os anima, uma tendência para a originalidade, para o suavemente inacabado, para a margem difusa, para o uso sofisticado de processos simples mas cheios de requinte.

As telenovelas, companheiras das tardes sem fim e das vésperas do cansaço

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Sónia Braga

Quando no dia 16 de Maio de 1977 foi apresentado o primeiro episódio da telenovela “Gabriela Cravo e Canela” os portugueses estavam bem longe de poder imaginar que esse iria ser, durante muitos anos, o horizonte mais duradouro dos seus passatempos televisivos, companhia de almas solitárias por tardes sem fim e testemunha das fadigas do fim do dia de tanta gente sequiosa de um momento diferente de escape, evasão e alguma curiosidade insatisfeita.
Das crianças aos adolescentes, das donas de casa aos elementos mais velhos das famílias, pessoas enfim de todas as qualidades e feitios carentes de melhor alternativa de utilização do tempo vazio antes do sono, todos procuram na fonte de águas pouco minerais dos episódios das telenovelas matar alguma sede de vidas novas e diferentes, noutro cenário e noutras companhias.
Que coisas levam tais pessoas consigo para o sono reparador? Que coisas aprendem esses jovens? Que imagem da vida compõem? Que sonhos sonham? Que desejos acalentam?
Alguma coisa fica, certamente, nos espíritos de quem vê e ouve. A linguagem, por exemplo. Mas não só isso. Há nas telenovelas uma escola de atitudes, uma ideologia para a disputa do quotidiano, uma lógica de moralidades e uma justificação de necessidades que não podem deixar de imprimir as suas marcas.
Os nossos avós antigos aprenderam a construir seus usos no rigor da família, na austeridade do trabalho e no temor das igrejas. Algumas gerações mais recentes conseguiram acesso a um universo mais aberto de horizontes mais largos, em locais de trabalho, escolas e instituições de todo o tipo.
Hoje é também o mercado de consumos que dita as suas leis e conforma as consciências. E o mercado das imagens, aquele que nos entra pela casa dentro com a nossa complacência e até um indisfarçável entusiasmo consumista. Não é a telenovela que vem até às pessoas. As pessoas é que lhe abrem as portas aceitando o universo de valores que lhes propõe.
Será bom que tenhamos consciência desses factos e que aprendamos a organizar em torno de nós próprios um círculo de defesas naturais. Ideal será estabelecer um processo de conviver com realidades mais positivas, se possível com gente dentro e valores humanos à mistura. Entre-se no site de uma das telenovelas portuguesas mais “badaladas” dos últimos tempos e consulte-se uma sinopse do enredo:
“…fulano e beltrano são dois irmãos gémeos, ambiciosos e sem escrúpulos que competiram entre si durante toda a vida. Em miúdos disputavam os brinquedos, em adolescentes as namoradas e em adultos a própria vida numa luta pela ascensão social”.
Melhor mesmo do que isto só o critério abertamente enunciado que sustenta a historieta:
“Uma novela é tão boa quanto o seu vilão. Nesta telenovela o vilão é servido em dose dupla: fulano e beltrano são dois irmãos gémeos. Mas esta não é a história clássica do gémeo bom versus o gémeo mau. Ambos são a maldade em pessoa. Nestes gémeos o laço que os une é o ódio…”
Um universo ficcional destes não o reservo nem para o meu pior inimigo.
Quantos milhões de olhos e quantas cabeças predispostas terá inundado de curiosidade absorta? Em quantas consciências terá ficado a morar essa indesejável galeria de fantasmas?
Eu não a vi. E o leitor (ou leitora), lembra-se da história?

Alice no país das maravilhas, o livro de tantos filmes

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DrawAlFoi publicado dia 26 de Março de 2010 no Diário de Coimbra

The Hatter opened his eyes very wide on hearing this; but all he said was ‘Why is a raven like a writing – desk?’

Lewis Carrol, de seu nome Charles Lutwidge Dodgson, foi um clérigo anglicano de muito respeitável família, precoce, sensível, gago, canhoto, cultíssimo, tendo ingressado em 1851 na mesma faculdade onde estudara seu pai, a Christ Church da Universidade de Oxford, onde veio a leccionar matemática. Dele pode dizer-se igualmente que, além de cientista dotado de promissora carreira, também era apreciador das novas tecnologias de então. Dedicou-se à fotografia com particular afinco, produziu em estúdio próprio milhares de originais que documentou de forma exaustiva, facto que – entre outros – justifica a sua inserção no mais elevado estrato cultural e artístico da sociedade inglesa da época victoriana. A sua obra literária deu origem a uma galeria de figuras e de situações de uma originalidade sem par, servidas por uma imensa subtileza de linguagem e um enorme sentido de análise psicológica, tudo envolvido por um halo de irrealidade que em inglês costuma designar-se por “nonsense”, um “não-sentido cheio de conteúdos latentes” de elegante complexidade.
As suas duas obras mais conhecidas “Alice no país das maravilhas” e “Alice do outro lado do espelho” têm fornecido matéria a um sem número de referências analíticas e inúmeras criações artísticas, de que o cinema se tem servido abundantemente. São agora aproveitadas para fazer um filme que, com algumas afinações de enredo “made in Hollywood”, conta a história conjunta mais uma vez, aproveitando o pano de fundo de enorme notoriedade que a obra do sofisticado inglês conseguiu granjear praticamente por todo o mundo.
A novidade essencial desta milionária realização é a de nos trazer a história contada a três dimensões, facto que se arrisca a ser cada vez mais frequente em filmes de grande notoriedade e movimento, de proveniência norte americana já se vê, por ser – fatalmente – a única origem de praticamente todo o cinema visto entre nós, em salas ou mesmo na televisão.
Além do acréscimo das percepções visuais, os animais são todos assustadores e aquele “Jabberwocky” tem qualquer coisa de familiar dos monstros das guerras das estrelas, figuras medonhas que matam tudo que lhes aparece à frente e que têm um rugido que até faz abanar as cadeiras.
Sendo o imaginário de Lewis Carrol uma ferramenta de profundo interesse na interpretação metafórica de uma quantidade de estranhezas e complexidades do nosso espírito e da natureza das coisas, seria talvez proveitoso que da ida a este filme alguma coisa ficasse na mente do espectador médio para além do ruído e dos efeitos especiais que comandam o espectáculo.
Mas receio bem que para isso seja fundamental um mergulho silencioso e delicado na leitura dos seus livros, o que cada um de nós poderá fazer em qualquer altura com o apoio garantido da nossa capacidade imaginativa que entende capazmente as “falas do Inconsciente” e que também fornece, estou seguro, imagens a três dimensões.

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Reflexão em torno do monólogo “coisa pública”

Reflexão em torno do monólogo “coisa pública”

Custódia Gallego em “Vulcão” de Abel Neves.

Diário de Coimbra de 9 de Março de 2010

A especialização do teatro conduz a diversíssimas variantes que fazem parte integrante da sua imensa riqueza. Algumas chegam a constituir modalidades suficientemente caracterizadas, com públicos certos e determinados para serem vistos em lugares próprios e dependem da riqueza de patrimónios colectivos sedimentados, consoante o caso, ao longo de gerações. Entre elas as que se estruturam em torno da ideia do monólogo.
Tudo de novo, pois, sob o sol, tendo este tipo de aberturas sempre um interesse muito legítimo, no caso da sociedade portuguesa, face à consolidação de públicos e à valorização que este sector da cultura tem vindo a registar, com a vantagem acrescida de afirmar uma saudável tendência descentralizante. A XII semana cultural da Universidade de Coimbra integrou, no âmbito do teatro, um conjunto de realizações sob o tema do monólogo “coisa pública”, que agregou, além de vários acontecimentos de reflexão e estudo, um conjunto de espectáculos de teatro concebidos sob o signo dessa modalidade específica. Os acontecimentos mais especializados desta iniciativa foram – como é habitual – dirigidos a sectores estrategicamente situados, sendo de acesso mais geral os que foram levados à cena no Teatro Académico de Gil Vicente e no Teatro da Cerca de São Bernardo. Poucas pessoas terão podido acompanhar todos os espectáculos do ciclo, tendo-me tocado a mim ver, no TCSB, dois dos cinco que foram apresentados: “Vulcão” de Abel Neves, com Custódia Gallego (encenação de João Grosso, ACE Teatro do Bulhão) e “Calendário da Pedra”, texto, encenação e interpretação da brasileira Denise Stoklos.
Ambos os espectáculos são notabilíssimos devido desde logo à presença de artistas que – sozinhas em palco – têm a capacidade hercúlea de concentrar numa só voz e num só corpo todo os conteúdos expressivos de uma construção narrativa, por mais específica que ela seja.
Custódia Gallego faz um trabalho mais próximo do teatro habitual, com uma história com diversos figurantes, um drama, em suma com suporte essencial no texto de que decorre e Denise Stoklos assume a pose de um “performer essencial” mais centrada na mímica, na coreografia, no exercício vocal, viajando em torno de si própria e do íntimo colectivo.
“…A estratégia aqui do performer é não ter estratégia. Diferente do ficcionista que segue uma linha pré-desenhada, ele busca o tónus da cena no seu ego, no seu âmago. Melhor dizendo o seu próprio tónus é a cena…” afirma Denise no texto em que apresenta, mais que a sua actuação particular, o contexto programático da sua forma de estar em palco.
Sem poder trazer aqui uma análise detalhada de ambos os espectáculos, de elevada qualidade e muitíssimo diferentes na sua génese e desenvolvimento cénico, terei que afirmar que ambos dependem de uma coisa que me parece um pouco contingente no teatro como veículo de transmissão de ideias, sentimentos e percepções do mundo: a vitalidade essencial e a resistência psíquica e física dos intérpretes respectivos, para além do seu talento genuíno. Apetece-me dizer que o espectador deixa de poder ver o tema, de atender apenas à palavra e ao gesto como produtores de uma certa ideia das pessoas e dos sentimentos que as animam, para passar a assistir a uma espécie de competição extremada do artista consigo mesmo. O espectáculo, de construção dramática, passa de certo modo à categoria de ultrapassagem emocional na qual o espectador sai esmagadoramente vencido pela extenuante energia posta em marcha pela actuação do solista.
Devastado pelo talento evidente, o espectador rende-se. Mas será que fica convencido ao nível do exercício quotidiano do pensamento sensível?
Será que da imensa energia dispendida e do elenco de recursos histriónicos, da ciência do dizer e da capacidade da construção gestual sobra alguma coisa para seu próprio consumo íntimo?
Esperemos que sim, dada a dinâmica de pluralismos de que o teatro é capaz e do merecido incremento de interesse que tem vindo a registar entre nós.

Reflexão em torno do monólogo “coisa pública”
Denise Stoklos, “performer essencial” de “Calendário da Pedra”
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Os painéis de azulejos da Rua Olímpio Nicolau Rui Fernandes

Os painéis de azulejos da Rua Olímpio Nicolau Rui Fernandes

A seguir às grandes movimentações sociais do 25 de Abril surgiu na longa parede que se estende à frente do Mercado D. Pedro V uma espécie de mural revolucionário de que deve haver escassas memórias em escondidos arquivos fotográficos.
Eu mesmo guardei alguns slides que documentam esse vestígio do entusiasmo popular e que comprovam esclarecidamente que o acto de requalificar esses muros, entre 1984 e 1986, não foi um grande acto de coragem: foi apenas um acto de lucidez mínima, conforme documenta a imagem acima.
Quanto aos azulejos de substituição houve certamente pressa demais em fazer obra e não houve coragem de consultar alguém que estivesse à altura do restante património edificado na cidade. O local, pela sua extensão e configurações seria sempre problemático, não ajudando o facto de ser um espaço que se atravessa geralmente sem olhar para o lado.
Conheci o seu executante como brioso profissional de artes gráficas, o Senhor Amílcar Matias, do qual conservo a melhor recordação pela sua paciente e laboriosa cordialidade. A encomenda que lhe fizeram era coxa, o conceito da obra proposta não se insere nem na tradição monumental da cidade nem na memória que o país (julga que) tem do que são os azulejos como técnica artística de revestimento.
A obra configura-se como uma simples “passagem de slides”, citações tal e qual de ângulos monumentais da cidade de fotogenia elementar. As figuras escolhidas de “postal turístico” são envolvidas por um halo de brancura que produz com a parede envolvente um contacto duma frieza extrema em tudo distanciado de qualquer dos opulentos capítulos da gramática expressiva da azulejaria portuguesa. Uma obra de arte que cobrisse todo o enorme espaço em questão teria que ter sido concebida como um todo organicamente estruturado, com diferenciações no tipo de cobertura e vectores criativos bem orientados quanto ao seu conteúdo plástico e referencial.
Consideremos apenas dois casos concretos de murais cerâmicos que se tornaram emblemáticas dos locais onde se situam: o conjunto de sete painéis de azulejos para a AAC, “A Evolução do Traje Académico” de 1958, de João Abel-Manta, situado em Coimbra apenas algumas centenas de metros mais acima, e o painel da Ribeira Negra de Júlio Resende, à saída do tabuleiro inferior da Ponte de D. Luís I, no Porto, de 1985, exactamente contemporâneo daquele que estou a referir.
Os primeiros estão perfeitamente enquadrados na estrutura arquitectónica de que fazem parte, representam uma pesquisa rica de alusões significativas relativamente ao tema proposto e alternam de forma ideal com materiais de cobertura criteriosamente escolhidos e plasticamente orientados. O segundo é uma obra de estética muito austera e forte sinalização humanista, em suportes de grés vidrado de 30×30, que se cinge à curva ascendente de forma escalonada num aproveitamento ideal da altura a que se encontra, para se tornar visível e atingir força monumental. Infelizmente a obra em apreço não tem nenhuma destas características, não possui potencial simbólico nem expressão emblemática que lhe valha e irá doer enquanto durar, pela insignificância burocrática da concepção que lhe deu vida.
Ao fim de uma geração lá segue desempenhando o seu papel de zona de passagem que não empolga ninguém, de que quase nada se tem falado nem ensina a ver aquilo que a cidade tem de mais valioso.

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Amilcar Matias: Era natural de Casais do Campo, estudou na Escola Avelar Brotero e exerceu ao longo de toda a sua vida a actividade de artista gráfico com extensa obra feita, que complementou com actividades criativas diversas no domínio da cerâmica, da ilustração e do cartaz. Também se dedicava com gosto à pintura que expôs por diversas ocasiões, nomeadamente na galeria do Primeiro de Janeiro, em Coimbra.

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