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O GLACIAL – Setembro a Dezembro de 1968

Fonte: O GLACIAL – Setembro a Dezembro de 1968

O GLACIAL – Maio a Julho de 1968

Fonte: O GLACIAL – Maio a Julho de 1968

Glacial – 1967, os primeiros quatro números

Fonte: Glacial – 1967, os primeiros quatro números

Onésimo Teotónio de Almeida / 2006 – sobre Rogério Silva no Jornal de Letras

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foto Sara Augusto

Ao Rogério Silva encontrei-o eu pela primeira vez na Horta num mural. Já ouvira falar, mas o conhecimento não dava ainda para descobri-lo ali naquela parede da Insulana numa estilização de baleias, baleeiros e Pico. Quedei-me na contemplação dos traços dinâmicos fora do tradicional e não sei já o que lá fora fazer. Depois, percebi as semelhanças entre aquelas cores e motivos e as capas da revista Gávea que pela mão do Rogério, Almeida Firmino e Emanuel Félix, nos anos cinquenta (criança nessa altura, eu só a conheci passados anos) tentou acordar Angra de uma letargia antiga. Mas quem sobre o pintor mais me badalou ao ouvido em letra de forma foi o Carlos Faria, que nos porões dos navios trazia de Lisboa medicamentos de mistura com telas e poemas. Dos medicamentos, as farmácias saberão. Os poemas, esses via-os plantados no suplemento “Glacial”, de A União, onde o Karlos Faria com K fazia leitores jovens como era eu vibrar de espanto. Volta e meia, o Karlos clamava no deserto anunciando o Rogério e a nova arte que ele desbravava no arquipélago.O Karlos trazia quadros e mais quadros. Ele e o Rogério não se cansavam de organizar exposições em Angra e ilhas adjacentes. O Rogério, pedagogo pacientemente didáctico, acompanhava visitas guiadas para adultos, jovens e crianças de escola. Foi assim que em Angra tivemos acesso a trabalhos do António Palolo, Bartolomeu Cid, Artur Bual, Nadir Afonso, Costa Brites, e do próprio Rogério Silva, que beneditino se fizera apóstolo das novas formas estéticas pintando quadros com os Açores em movimento a procurar vencer o marasmo secular ilhéu – moinhos de vento de velas enfunadas, baleias astutas domadas por ainda mais astutos baleeiros, nuvens agitadas descobrindo céus e anunciando azul para um futuro breve. Entretanto, perdi-me uns anos por Lisboa e noutros livros.

Nos alvores da década de setenta, já com os costados na Nova Inglaterra, descobri-me de súbito novamente vizinho do Rogério. Aconteceu numa festa num parque em New Bedford onde os também hoje saudosos Manuel Bettencourt Silveira e Heldo Braga reataram entre nós o laço que os mares haviam desatado.O Rogério fervilhava de ideias. Fui a sua casa onde pintava uma New Bedford que, insistia o Heldo em livro de poemas (nunca publicado), um dia veria crescer rosas em Novembro.

O Rogério acreditava e pintava. A escola do seu bairro, ali à Coggeshall St, os arranha-céus de azul límpido por detrás da wasteland de ferro-velho, imigrantes divididos e distraídos no jogo em tardes de tasca-sem-fim. Mas sempre as cores luminosas e os traços firmes apontando para futuros optimistas a emergirem do caos, ordem e tranquilidade a renascer de caixotes opressivos evocando fábricas escuras e tristes – onde ele aliás suou copiosamente. Vieram planos. A editora Gávea-Chama, lugar da primeira edição do meu Ah! Mònim dum Corisco!, depois a ideia da revista Gávea-Brown que ele quis muito fosse continuação do antigo projecto Gávea.

Integradas em eventos gerados pelo entusiasmo dos meus verdes anos, surgiram exposições da sua obra por aqui e por ali, causando admiração porque um greenhorn supostamente não pintaria assim – Brown, Cambridge, Boston e outros lugares que não recordo com exactidão porque escrevo de cor, em férias, surpreendido pela notícia da morte do Rogério e sem poder recorrer a nada a não ser o que a memória guarda na caixa do pronto-a-lembrar.

Espantoso de ver era a minúcia com que o Rogério preparava cada exposição até ao pormenor da maquete com reproduções em miniatura dos quadros, a caixa que ele construia para cada pintura que ele próprio emoldurava, tudo num primor de perfeição chinesa.

Entretanto, os anos foram passando. Era preciso que o Rogério deixasse de ser de um mundo que já não existia – o dos Açores que o moldaram – e palmilhasse Américas despudoradas para se fazer presente, convencer galerias a exporem os seus quadros, conhecer os meandros das bolsas ou investir dinheiro que não tinha para que a sua arte fosse (re)conhecida. O Rogério chocava-se porque “a arte é arte e não se suja”. Pelo menos a arte do Rogério, ou tal como ele a concebia. Esquecia-se de que mesmo Miguel Ângelo, Rafael e Leonardo nada teriam feito se não fossem os mecenas – papas, cardeias e duques com a grana que paga as tintas e mata a fome ao artista. O Rogério não acreditava. Nos Açores do seu tempo, tudo fluía sem massa, embora não se esquecesse nunca do facto crucial de ter sido por um mal-entendido nessa matéria que fora ele próprio bater com os ossos nos States, quando um Instituto lhe pediu um trabalho como devia ser e ele despendeu a soma que achava necessária por exigências da arte em si. Chegada, porém, a conta, minguou o dinheiro porque ninguém alguma vez supusera que as coisas da arte custassem assim tanto, e o Rogério deu de repente consigo numa fábrica de New Bedford para poder pagar a prestações. E, todavia, ele sonhou sempre com o regresso porque, nos seus idílicos Açores, a Cultura, e sobretudo a Arte, escreviam-se com maiúscula, em letra pura, quase sobrenatural. Se nos Açores o asceta Rogério vivia nas nuvens, em New Bedford viveu das nuvens.

A última vez que me cruzei com ele aconteceu em Vila do Porto, Santa Maria. Tinha realizado o sonho do regresso a casa (nascido no Faial – em 1929, creio eu – , era à sua adoptiva Angra que chamava pátria) e viajava de ilha em ilha, de novo apóstolo da arte ensinando nas escolas o que ela é e como se faz. Mas a desilusão estava-lhe plantada nos olhos.

Os tempos haviam mudado e também ele não reencontrara a ilha de onde em tempos partira. A seu ver, a arte estava bastante conspurcada, vendia-se e comprava-se por alto preço. Por todo o lado encontrava banha de cobra a valer fortunas, e as gentes estonteadas com a pimenta das Índias europeias, chegada de Bruxelas em chorudos pacotes, construiam casas de paredes amplas a exigirem pinturas a metro. Qualquer Chico Esperto agarrava de um pincel e, logo ali, com a mão direita rabiscava umas patranhas, enquanto contava cifrões na algibeira com a esquerda.

Para culminar o desaire, a sua ideia de arte como missão esvaíra-se com os tempos, a linguagem artística era outra, os rostos idem, e o Rogério sentiu-se peixe fora das suas águas familiares. O Rogério também não se sentia mais da sua terra. New Bedford estava definitivamente longe, e a Lusa, seu arrimo sólido, incondicional apoiante e dedicadíssima companheira, escondia uma doença que a levou.

Nos anos que se seguiram, o Rogério deixou de existir para o exterior, e porventura para si próprio. Enconchou e fez-se lapa na pedra da sua memória, sem nunca mais abrir para ninguém. Agora chegou de Angra, via João Afonso – talvez o seu mais perene amigo – a notícia de que partiu para um outro mundo.

Partiu nada! O Rogério nunca viveu neste. Se partiu, foi para onde sempre esteve. Quem, como eu, teve a sorte de o ver, foi apenas contemplado pelas suas aparições. Que ficaram indeléveis. Ajudadas, naturalmente pelos seus quadros, memória viva dele a lembrá-lo diariamente lá em casa. Ou em qualquer lugar. Como aqui mesmo, neste mar algarvio, sem baleias.

Onésimo Teotónio Almeida – Alvor, 27 de Junho de 2006

carta aberta a Rogério Silva

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Caríssimo Rogério Silva,

O trabalho que fizemos nestas páginas com a melhor memória que guardo do vivido e  com tudo o que me deixaste de real e de imaginário está finalmente à vista de toda a gente, isto é, de todos os que tenham a virtude e a vontade de o encontrar e de o contemplar com a mesma vontade e com o mesmo carinho com que foi feito.

Abro esta carta estreitando-te sem mais delongas no mesmo abraço fraterno de quando nos encontrámos e de quando nos encontramos agora. Nós, e nada há a esclarecer a esse respeito, somos daqueles que muito conversam, que muito se encontram e que continuarão a encontrar-se sempre. O meu abraço, tu já o sabes mas é necessário dizer claramente aos nossos visitantes aqui, serve para me congratular com o volumoso sucesso do teu trabalho e os frutos abundantes da tua generosidade que, conforme reafirmo mais abaixo, foram plenamente conseguidos.

Tudo o que fizeste foi visto, apreciado e valorizado por todos os que tiveram a capacidade, a vontade e o gosto de estar presentes. A tua missão foi vasta e preciosa e o fruto dela ficou no coração de todos esses que fomos, não eu nem tu, mas “nós”; Um grupo numeroso de gente, terra fértil em que germinou o teu exemplo. Serviu muito e continua a servir. Como digo noutro lado os Rogérios Silvas fazem falta por todo o lado.

Os Rogérios Silvas são semeadores de sensibilidade, são os que empurram a marcha do homem para a frente. Se poucos os imitam, se poucos seguem o seu exemplo de generosidade desprendida, um dia aprenderão, um dia o farão. E tu, nesse dia, estarás com eles na coragem da tarefa e na alegria da realização. Os Rogérios Silvas são aqueles que inventam a coisa mais simples de inventar: a generosidade de fazer na prática o que se transporta no coração. Há muitos corações infelizmente ainda dormentes no vazio, como há outros em que habita apenas a vontade inconsequente. Mas há um belo dia em que aqueles raros corações que transbordam de sonho e de vontade do sonho são assaltados pela coragem de entregar a obra feita, a atitude concreta. E o melhor das coisas acontece, embora às vezes poucos sejam os que dão por isso.

Já há muito tempo que sonhava fazer estes sítios na net, e tinha medo – com o meu olhar um pouco desfocado por todo o tempo que estivemos longe e calados – de dizer o que não tinha interesse, o que não convinha, de te desagradar em suma, ou de te causar desgosto, o que seria ainda pior. Das tuas terras entretanto não me haviam chegado sinais concretos de memórias maduras e bem conservadas a teu respeito. Resolvi por isso perder o receio de fazer mal o que outros não fizeram, pura e simplesmente. Por um conjunto de razões que hoje não vamos abordar aqui, mas que são substanciais – como agora bem sabes – fomo-nos aproximando mais e mais e a tua ajuda foi preciosa na realização do trabalho. E só por isso pude fazê-lo da forma como está feito.

Quando te conheci em 1969 foi como se tivesse chegado junto de uma grande árvore frondosa, daquelas que tanto me impressionavam quando era miúdo e que tanto ainda me impressionam até à mais profunda comoção. Como frondosa árvore já te achei completo, com dramas, cicatrizes, zonas sombrias e tudo. Abriguei-me no lado do sol, das flores e dos frutos, que foi o que mais abertamente me ofereceste, sem me teres escondido que aquelas outras coisas menos prazenteiras também existiam.

Houve uma coisa que não correu tão bem como eu desejaria. Quem me pôs a trabalhar nos Açores mandou-me para Ponta Delgada, longe de ti. Foi preciso que um outro amigo, o Carlos Faria, tivesse andado por lá de um lado para o outro e servisse de pombo-correio da nossa bela amizade. Acabou tudo por resultar bem, Rogério. Acabei por conhecer-te e acabei por me dar-te a conhecer. Outra coisa que também não correu perfeitamente bem foi teres-te calado tanto, quando regressaste da América. Estavas cansado e triste, eu compreendo. Nem vou alongar-me na consideração de tantas coisas que poderiam ter sido diferentes. O momento a que chegámos é um momento de plena alegria e de celebração dos resultados que atingiste.

Nas recordações que tenho das coisas que me deixaste na tua última visita, estão fotografias de tarefas tuas que julgavas prova de idoneidade na realização de acontecimentos artísticos e outras duas fotos de acontecimentos na tua galeria. Nas costas de uma dessas fotografias está, com pequenos traços a lápis já diluídos pelo tempo, um esquisso que fizeste pelas tuas próprias mãos – ao longo da revisitação da memória – de uma planta da Galeria de Arte Gávea. Lá está a entrada da rua, o apontamento das escadas que subiam para aquele primeiro andar do nº 6 da Rua Pero Anes do Canto e a disposição singela das três salas de exposições com ordenação numérica inscrita por ti: 1, 2 e 3. Nunca fui a Angra do Heroísmo e só agora, com os milagres da internet, tenho a noção exata do local e até uma boa sucessão de imagens daquela rua onde estava a pequena casa com as suas três salas de exposições. A porta com o número 6 não consigo vê-la, e até é bom que permaneça assim, como coisa provavelmente desaparecida.

Gal Gav

Um bom número de pessoas tem tido notícia dos entusiasmos da visitação das artes que ocorreram na Galeria Gávea e daí ao mito vai um passo. Nada é igual ao que o sonho pode configurar na sua visão abstrata e impressiona como uma aventura tão contagiante pode ter-se expandido a partir dum lugar tão modesto. Isso deriva, Rogério, de todo o principal dos gestos humanos estar escondido na vontade sonhada, no desejo embalado pela esperança.

Parabéns Rogério, foi isso que fizeste. Nem os milionários centros culturais, nem as formidáveis fundações, nem os poderosos patrocínios conseguem fazer melhor, nem tanto, nem tão bom: perdurar no tempo e na memória de muitas pessoas como algo vivo e contagiante. Nenhum, que eu saiba, consegue ser tão autêntico, tão cabal, tão liberto da arrogância do poder, tão luminosamente desprendido como tu. Não é o dinheiro, não é o poder nem os mecanismos da propaganda organizada que fabricam o mito, que alimentam a esperança e – muito menos – que ajudam o homem a acreditar em si mesmo como alguém que pode mudar para melhor, ajudando outros a acreditar também. Parabéns Rogério, foi isso que conseguiste. O teu trabalho foi o que foi, não há que contá-lo nem mais largo, nem mais alto, nem imaginá-lo diferente do que tinhas dentro de ti mesmo, comandado pela força metódica do teu espírito e pela determinação da tua vontade.

Que nenhum dos teus amigos, fragilmente lamuriando no intervalo no sonho, diga alguma vez que tudo acabou como talvez não devesse ter acabado. A tua tarefa não acabou, os Rogérios Silvas não desistem nunca, o teu trabalho foi plenamente conseguido e os objetivos que alcançaste formidáveis!… É isso que eu tenho ouvido a muita gente e, mesmo que não tenha sido verdade tudo, ou que tenha sido verdade de outra maneira, foi enorme.

Nós, pelo canal que bem conheces, não precisamos de nos despedir. Até já, Rogério.

José

um desenho original, a negro, de Rogério Silva (“esquecendo tempestades”), resultante de uma colaboração entre nós ambos (ver, por favor, Rogério Silva visto pelos meus olhos).

um desenho original, a negro, de Rogério Silva (“esquecendo tempestades”), resultante de uma colaboração entre nós ambos (ver, por favor, Rogério Silva visto pelos meus olhos).

 

Um reencontro, passagem para diante

Pintura, acrílicas s/ tela, 100 cm x 89 cm, Holly Wood 2008, Costa Brites

Pintura, acrílicas s/ tela, 100 cm x 89 cm, Holly Wood 2008, Costa Brites

Por artimanhas da contemporaneidade digital fiquei sem página pessoal, o que – numa certa ordem menor das ideias – é uma condenação à insignificância e ao silêncio, isto é, à morte.
No seio da minha cultura antiga (quer dizer, presente e actual) a morte não é o fim. Antes pelo contrário. Primeiro porque todo o saber frutificará, toda a semente germinará, todos os gestos serão reencontrados.
A primeira transcrição verídica deste facto está no seguinte: ao realizar uma viagem de regresso a imensos sinais do meu labor, encontro tudo. Passagens, saltos, atrevimentos, desejos e nem é preciso avançar para esse outro território que os poetas atravancaram de gente confusa e perdida: o sonho.
Nunca me encontrei a gosto ali. Não tive tempo nem paciência. Muito talento ocioso e sem destino.
O sonho para mim é um lugar que sempre se menciona, mas um chão que se pisa sempre de passagem.
Amar, o que se diz amar, não se pode realizar em sonhos. Fazer filhos é um sonho, isso sim que é um sonho. Contudo os filhos não são “chão nosso”. O chão assim sonhado, é deles. Essa é a única modalidade valiosa de sonhar: Construir, dar vida, passar adiante.

Este lugar digital é, pois, uma tentativa de ser. Um reencontro com coisas que, se não forem ditas a tempo, não terão existido. Para os outros, claro. Para mim, não só tornarão a ser, como sempre se renovarão e transformarão infinitamente.
Ao reencontrar os gestos, os passos dados; ao revisitar as visões elas são sempre uma metamorfose de outra coisa mais simples e imediata. Uma visão revisitada oferece mais e melhor. Mais completo, mais significativo e sempre diferente.
Isso confirma plenamente aquilo que disse no começo: toda a semente germinará, todo o saber frutificará. E os gestos reencontrados terão um desenho mais aberto. O riso ecoará pelas paredes do tempo em harmónicos mais complexos; As palavras terão descoberto novos significados.
E mesmo que ninguém venha de visita, o que aqui fica não é do sonho. São factos vividos, passagens para diante.

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Um artista pode ser muitos

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Ah, não ter sido Madame de harem!.../desenho s/ Steinbach-Malmedy c/ aguada de acrílico/ Costa Brites 1995

Ah, não ter sido Madame de harem!…/desenho s/ Steinbach-Malmedy c/ aguada de acrílico/ Costa Brites 1995

Há artistas cuja obra é como um grande continente, com suas estendidas paisagens, suas colinas, vales e todo o género de variados horizontes. Se desfrutam dessa “condição continental” é porque apresentam consigo um nexo entendível de continuidades, podendo passar-se daqui para ali tendo a impressão de que se estar a pisar “terreno vizinho” em coerência de entidades legíveis. Haverá outros artistas cuja produção é como um arquipélago de ilhas bem diferentes, cada uma com o seu clima, a sua atmosfera particular, tendo entre si a vastidão de intervalos diferenciadores de atitudes correspondentes não apenas ao teor do instante ou da circunstância. Cada ilha decorre de uma continuidade diferente, como se não fosse apenas o corpo, mas a cabeça, o coração e a vontade que as diferencia entre si. É deste género de pluralismo que se alimentam certas vontades e, se me for permitido assumir uma destas configurações, é a segunda que melhor diz respeito ao tipo de viagens que tenho empreendido através do “largo mar do silêncio”.
A cada uma dessas independências corresponderá o que se poderá chamar um heterónimo, porque se trata de uma entidade própria, específica, com gestos, argumentos e toda uma autonomia significativa e expressiva. São como autorias diferentes, ficando à argúcia de quem contempla confiada a tarefa de adivinhar ou decifrar laboriosamente qual é o profundo leito de convergências que liga entre si tal espécie de diversidades. Este endereço vai procurar apresentar de forma tanto quanto possível organizada essa variedade, talvez só aparentemente descontinua, de formas de ver coisas através do olhar da imaginação. O meu arquipélago de continuidades distintas que entre si partilham segredos comuns, cuja travessia pode efectuar-se com uma animada agitação da brisa e das vagas, sem o risco de naufrágios, na companhia de monstros amáveis e de aves de plumagem variada cujas garras não ferem ninguém, e cujo grito apenas clama por quem queira atravessar também a frescura espaçosa do mar da curiosa confidência.

Costa Brites

Ah, não ter sido Madame de harem!.../grafite e acrílico s/ tela/ Costa Brites 1996

Ah, não ter sido Madame de harem!…/grafite e acrílico s/ tela/ Costa Brites 1996

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Meninos e desenhos de Montemor-o-Velho

– Palavras para uma mão cheia de bonecos feitos  em 2012 que poderão ser vistos nas paredes do agrupamento de escolas em Montemor-o-Velho.

Três painéis pintados a acrílico s/ linhagem de algodão 2,72 m x 1,70 m, aprox.

Embora me considere genericamente impreparado para os tipos de actividade que solicitam uma interactividade criativa, colecciono na memória várias atitudes que abrem para o desejável e sugestivo espaço de encontro entre pessoas com sensibilidades e graus de experiência muito diferenciados.

Entre elas coloco a experiência de pai e avô, pacientemente habituado a envolver filhos e netos no prazer das tintas e dos desenhos, com histórias, invenções e todo o tipo de achados que esse exercício prodigaliza e de que consegui dar provas em mais de quarenta anos de paternidades, vidé o capítulo dedicado, aqui ao lado, à colaboração com o meu neto Flávio.

O convite dos jovens do grupo Olarte, composto por alunos do agrupamento de escolas de Montemor-o-Velho em trabalho de fim-de-curso, chegou-me numa altura algo conturbada de mudança de local de residência. Além disso já me sentia fora do período em que a aceitação dum tal convite parecia possível, no âmbito dos meus préstimos artísticos. Estando para mudar de casa já tinha deitado fora uma numerosa colecção de godés de vidro e de louça de que me servia no exercício da pintura, entre outros objectos e materiais.
Aceitei, contudo, em nome de um voluntarismo inseguro, baseado no tipo de argumentos apresentados pelo grupo candidato (A Carla, o Gonçalo, a Joana e a Vanessa) e não menos pela já antiga consideração pessoal pela sua professora, Senhora Dr.ª Fátima Almeida.

Carla, Gonçalo, Joana, Vanessa

Carla, Gonçalo, Joana, Vanessa

Construí na minha mente, a partir do momento inicial da minha disponibilidade, uma variedade de cenários de acção ou processos de fazer que, longe de me tranquilizarem, aumentaram o sentimento de insegurança.
Durante a primeira visita que realizei ao agrupamento de escolas de Montemor-o-Velho houve um momento providencial: o encontro com meninos criadores de uma turma dos primeiros anos em plena aula de educação visual e bem assim a descoberta de um considerável conjunto de obras – para mim a vários títulos impressionante – que iam alimentando gavetas de desenhos, de nítido pendor lúdico, candidatos a uma limpeza geral de fim de ano e quase fatalmente destinados a desaparecer por efeito do sentido prático das arrumações, esse trágico algoz de tantas preciosidades raras oriundas do gesto despreocupado e simples das crianças.
O testemunho dos desenhos “infantis”, visto pelos meus olhos, resulta numa leitura implacável e eloquente de uma quantidade enorme de sinais e situações bem dentro da lógica dos sistemas de que somos mais objecto que sujeito e cuja decifração ou ultrapassagem raramente se faz nos termos de franqueza perceptiva que esses mesmos desenhos tornam clara.
O trabalho que se seguia era simples: matéria-prima não faltava e estava construída uma ponte formidavelmente eficaz entre o deslocado universo das solicitações artístico-intelectuais e o palpitante presente das emoções juvenis.
Algo de novo ou descoberta surpreendente? Não, as coisas não são assim tão simples.
Entre o delírio de ritmos alucinantes que a televisão impõe a certas sequências e o velho sedimento de narrativas que a antiguidade clássica transformou em mitos universais há uma infinidade de linhas misteriosamente ocultas, um nexo de fábulas, impulsos e requisitos da sobrevivência e frescura da mente que são perfeitamente equivalentes. Nada que assuste os artistas, tenham eles a idade que tiverem, sejam eles do tempo dos avós ou dos netos; se falarem a mesma linguagem e estiverem habituados a decifrar os mesmos sinais, tudo é claro como água.
Depois de alguns passos dados na fabricação dos objectos a realizar e discutidos quais os temas a desenvolver foi preciso dar ao artista convidado algum tempo para concluir as conclusões entendidas como adequadas.
Só me ocorre dizer uma coisa, no esclarecimento do que acho mais importante:
O material que me foi apresentado era naturalmente singelo e espontâneo na sua confecção e estava caligraficamente traçado a lápis sobre folhas simples de papel branco. Num ou noutro caso raro, para atingir maior espaço narrativo, algumas folhas haviam sido anexadas a outras, com fita-cola.

mosaico desenhos crianças a lápis

Mosaico composto com desenhos simples sobre folhas A-4, a lápis de pau, dos meninos de Montemor-o Velho

A expressão dos desenhos dos meninos de Montemor-o-Velho, além de eloquentíssimos na explicitação de universos de densa complexidade, constituía uma captação viril, intensa até ao dramatismo, de tais sinais e de tais argumentos narrativos.

Só não vê quem não quiser olhar, quem vire o rosto para o lado e decida ignorar esses impressionantes ecos da realidade e das circunstâncias.
Na tradução e na síntese que fui levado a fazer de tal aglomerado de sinais, fui irresistivelmente conduzido a imprimir o meu próprio sentimento das coisas, à maneira das mesmíssimas atitudes que me fazem levar pela mão os meus netos através das veredas do sonho e da fantasia. (“Tradutore, traditore” e é bem certo dizê-lo neste como noutros casos em que uma mensagem muda de lábios…)

Transfigurei por isso os mais alarmantes sinais do espanto, da violência e do medo (porque é substancialmente disso que se fala nas “ingénuas” séries televisivas e revistas de super-heróis que maciçamente são prodigalizadas dia a dia às crianças deste e doutros países) e coloquei no rosto dos bonecos adoptados como interlocutores privilegiados do sonho uma fisionomia leve, um sorriso aberto, entremeados aqui e ali por aberturas problemáticas para um pitoresco de combates sem mortos nem feridos, demónios de dentuça arreganhada que empunham impiedosas armas de corte (é assim que se diz nos jogos de guerra com que risonhamente brinco com o meu neto) e uma ou outra alusão do meu próprio universo de razões, que involuntariamente se me escapou…

Tenho pois que pedir perdão aos meus queridos e novos amigos de Montemor-o-Velho, por ter despromovido o combustível de pavores de que é feita a gentil bonecada com que se encantam.

Como poderia fazer de outro modo se são tão jovens e belos, desejando-lhes – como desejo aos meus próprios netos – um futuro de risonha liberdade e um passeio pela vida que lhes sirva a paz, a confiança e a mais segura felicidade.

Agora vamos ao fruto desta tarefa (colhido depois de meses de trabalhos e encontros) :

OS ALEGRES MAGOS E PARADOX

os alegres magos e PARADOX

os alegres magos e PARADOX

SKAI DRAGON E OS ARTISTAS AUTORES

SkyDragon e os artistas autores

SkyDragon e os artistas autores

A PARÁBOLA DO ASTRONAUTA

a parábola do astronauta

a parábola do astronauta

António Pedro Pita – Um lápis enquanto sonho / Setembro de 1993

Alta-Quebra Costas, acrílico s/ tela s/ platex, Costa Brites

Alta-Quebra Costas, acrílico s/ tela s/ platex, Costa Brites

1. Ao inaugurar mais uma exposição, Costa Brites apresenta o seu primeiro livro, Visualidades.

A ele pertencem estas palavras: “as minhas opções são assumidamente alheias à necessidade – que não quer dizer indiferença – da determinação “moderno/não moderno”. Gostaria de sugerir que tal alheamento tem sido responsável por uma leitura superficial deste universo pictórico ao incluí-lo imediatamente num desses polos (o não moderno) e demasiado rápida para aperceber-se das subtilezas de que se alimenta este filho longínquo, mas não tardio, da constelação surrealista, cuja peculiar figuração muito deve às lições da pop-art, à importância do enquadramento cinematográfico, à fotografia e à utilidade expressiva da colagem. Que a reconstituição deste trajecto – desde as primícias de 1968, no meio culturalmente vivo que o arquipélago dos Açores (já) era, até às soluções estéticas actuais – seja difícil, insólita ou paradoxal, consoante o observador, não me custa admitir. Mas não me é menos claro que uma tal reconstituição – possível, unicamente, através de uma retrospectiva que, além da pintura, exponha também o desenho e o trabalho gráfico – evidenciaria alguns possíveis modos de apropriação de tendências fundamentais das artes plásticas do nosso século. Pela frontalidade com que interpela o espectador esclarecido, pela radicalidade com que elabora a fascinação fotográfica e pelo território frágil em que obriga a estabelecer critérios e desenvolver argumentos, a pintura de Costa Brites exige uma pausa reflexiva quase pelas mesmas razões em que, à primeira vista, parece dispensá-la. E é no ligeiro movimento implicado neste quase que tudo se joga. Não é a pintura, todavia, que em primeiro lugar deveria referir. Mas este livro, o primeiro livro de Costa Brites, intitulado Visualidades.

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 2.“A obra dum artista é indesculpável, seja qual for a roupagem de que se cinja” (Costa Brites).

O que é este livro? Uma autobiografia oficinal? Uma reflexão teórica sobre o fazer-se da pintura e as suas condições, estéticas e históricas? Uma colectânea de poemas? Uma espécie de diário pessoal e de trabalho? Serão estas, contudo, as perguntas justas, quero dizer, ajustadas ao livro a que se reportam? Suponho, de facto, que só de um outro modo é possível adequarmo-nos a este dispositivo textual, ver e saber o que o livro nos propõe: porque não sendo em rigor uma autobiografia oficinal nem uma reflexão teórica nem um diário, nem um ciclo poético, e não sendo também nem paráfrase nem explicitação do que o pintor já exprimira em tela, Visualidades fala de um momento anterior à pintura mas sem o qual a pintura não existiria, sua condição razoavelmente obscura. Será possível, porventura, traçar o gráfico desta obscuridade pelo carácter “poético” ou “racional” da escrita de Costa Brites. Que as aspas nos ajudem a aludir a um problema que não pode agora ser desenvolvido. Notemos, de passagem, este aspecto curioso: a segunda parte, “poética”, intitula-se “Ecos da cidade e outras coisas“; como se o sujeito da escrita fosse o local de ressonância de um som e de uma voz que vêm de longe, de uma origem porventura inacessível ou indeterminável, e que por isso mesmo precisa dessa ressonância para determinar-se, precisa de uma escuta que, ao mesmo tempo, seja acolhimento, interpretação e significação. Na primeira parte, “teórica”, “Falas do pintor“, o artista desenha os limites da sua perspectiva, refere momentos de um processo de tomada de consciência teórica. Subiste o problema fundamental da articulação destes dois níveis: o facto de Costa Brites nos propor, como totalidade, um Livro Primeiro (“Falas do pintor“) e um Livro Segundo (“Ecos da cidade e outras coisas“) sugere a ligação, que deve ser meditada, entre 1) o Objecto que se dá em eco, 2) a subjectividade que interpreta o eco, 3) a mão que exprime pictoricamente.

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3. O Objecto que se dá em eco é a Cidade. Mas a Cidade é uma realidade contraditória: comunhão e isolamento, silêncio, ruído e morte, júbilo de existir, “experiência alucinante de viver”. Leia-se: “Eu sou uma dor que caminha ausente/ Estou aqui à espera e ninguém me encontra”. Mais do que um desencontro pessoal, de expectativa frustrada, é aquele descentramento de uma dor que, ao ser subjectivada, radicaliza um essencial mecanismo de alienação, que nos fornece um traço forte da Cidade que já não é “lugar de encontro e de diálogo”. Não sejamos iludidos pelas palavras: há em vários destes textos e em especial no sentido gerado pelo conjunto uma raiz que excede o humanismo balofo das boas intenções. Escrever: “Já não existe espaço na minha carne/ para o sentido da força/ para a coragem do prazer”, é reivindicar um espaço próprio de afirmação do desejo; mas fazê-lo é rasgar os próprios limites do humanismo, como mostra a difícil recuperação humanista de Espinosa e Nietzsche, que fizeram desta afirmação um eixo fulcral.

Espaço, pois: “espaço na minha carne” 1) traduz, na terminologia de Costa Brites, a condição primeira para superar a indeterminação, para ir além da facticidade. Como se fosse necessário, para o advento de um (do) sentido, uma espécie de dilaceração íntima, um rasgo na compacticidade do ser, uma descontinuidade – a inscrição, na própria imanência, de um ponto de fuga , mistério, mar (“Eco distante de encontrar meu mistério/ minha fuga/ meu mar interior”). Neste sentido, a alusão à “cidade sem espaço” é particularmente significativa. A Cidade não é só uma concretização do espaço: a Cidade é uma concretização convivial do espaço (“a civilização do espaço é um acto cultural”): deverá permitir falar de janela para janela e da janela para a rua, ser generosa para velhos e crianças, ser possibilidade de silêncio e paz. O espaço na cidade, para existir, necessita da “aragem de mistério, inspirador e fecundo, que invoca em cada objecto a presença transitória, mas eficaz, de cada ser e de cada ideia”. Isto é: para existir como tal, a Cidade não pode extinguir o mistério, a marca individual, a voz solitária.

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4. Submetida a um rápido processo de crescimento desregulado e especulador, a Cidade desenvolve até ao paroxismo uma contradição: é preciso reduzir o espaço para acolher mais gente que precisa de mais espaço para viver. Em rigor, o Objecto que se dá em eco neste livro de Costa Brites é a Cidade assim dilacerada, ou melhor, é a própria contradição que dilacera. Compreende-se, deste modo, que à Cidade-real, desfigurada e pobre, triste e sem alma, seja contraposta não propriamente uma Cidade-ideal, que seria o positivo da outra, mas uma Cidade-mito, fundamento íntimo da própria ideia de Cidade. Mais demorada reflexão sobre este ponto permitiria desfazer um duplo equívoco: o de considerar a pintura de Costa Brites subordinada ao fascínio da fotografia e o de a ligar imediatamente à representação de algumas cidades (Coimbra, Leiria, etc.). Pelo contrário: a verosimilhança, nesta pintura, é o campo (arriscado, subtil, irónico) de um jogo que o pintor iniciou há muito com os leitores da sua pintura. Porque, em verdade, nenhuma cidade real é o referente desta pintura. Na tarefa de representar a Cidade-mito, Costa Brites realiza, com a maior coerência, uma pintura, como se diz, “sem pessoas”, uma vez que o mito é uma estrutura pré e trans individual que, precisamente, ordena e dá inteligibilidade à vida das pessoas. Fica reservado ao rigor geométrico do traço, ao diálogo das cores, à harmonia das superfícies, à obsessão pelo detalhe o trabalho de nos representar possibilidades de um espaço aprazível, comum, feliz, misterioso, percorrido de “verdades assombrosas” e de “sonhos de aventuras”.
5. “O artista escolhe tal assunto porque ele lhe é consubstancial, porque este assunto desperta nele uma certa emoção, sustenta uma certa interrogação; não se trata de copiar mas de dar através dele um equivalente sensível tanto da significação afectiva como intelectual que este assunto tem para ele: Rouault não pintou um Cristo mas através do Cristo um equivalente pictórico do que o Cristo significa para ele. O objecto é representado na sua verdade, pelo menos na verdade que dele o artista conhece, e não na sua realidade lisa e insignificante”. 2)

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6. Ao reconhecimento, “Olha a Rua das Flores!”, deverá substituir-se uma interrogação: “Qual é a cor da felicidade?”

7. Recordemos o debate entre os desenhistas e os coloristas: “O desenho imita todas as coisas reais, enquanto a cor só representa o que é acidental” (Le Brun). Compreende-se pois que os racionalistas privilegiassem o desenho, em nome de uma “transcrição” fiel da realidade.

Mas o lápis de Costa Brites (“Pego num lápis enquanto sonho”), exacto, rigoroso como uma navalha, está no limiar de uma aventura. Imita. Mas não imita o que se vê, “coisas reais”. Desenha serpentes, estrelas. Primeiro, o lápis, como uma navalha. Todo o trabalho de reconstrução (que é também adivinhação 3) ) do mundo, que a pintura é, começa aí. Porém, o facto de Costa Brites relacionar o lápis e o sonho (o exercício da razão e o seu adormecimento) é muito significativo, e a própria estrutura da frase enigmaticamente sugestiva. Pegar no lápis enquanto sonha para pintar (quer dizer, reconstruir) a Cidade, mais do que subordinar o rigor da mão que desenha ao adormecimento da consciência, significa inscrever aquele rigor neste adormecimento. Ou ainda, para retomar considerações iniciais, significa que toda a consciencialização (“pego no lápis”) nasce da obscuridade (“enquanto sonho”). Mas há na formulação do pintor uma outra possibilidade: pegar no lápis enquanto sonho poderia ser um modo de designar a matéria de que o lápis é feito. Hipótese não desprezível, à luz da doutrina do referido debate e da importância do desenho na estruturação da Cidade-mito de Costa Brites. Como se, afinal, o lápis – este lápis: “o lápis enquanto sonho” – resolvesse a contradição entre a consciencialização e a obscuridade. Como se, a mais de saber os contornos exactos de serpentes e estrelas – este lápis, antes de reconstruí-las, adivinhasse a cor da solidão e da melancolia.

ANTÓNIO PEDRO PITA

Figueira da Foz, 1 de Setembro de 1993

1) – O que se escreve agora, quanto a este ponto, poderá ser lido como eco da conhecida tese de Maurice Merleau-Ponty: “Mon corps est de la même chair que le monde”.

2) – Mikel Dufrenne, Phénoménologie de l’expérience esthétique – I, PUF, Paris, 3ª ed, 1992, p. 393-394.

3) – Costa Brites: “Se pinto, adivinho e reconstruo o mundo”.

Pedro Dias – Exposição Museu Machado de Castro, 1989

Texto de catálogo da Exposição que teve lugar em Coimbra no Museu Nacional de Machado de Castro em Novembro de 1986, organizada pelo então director Professor Pedro Dias, e de autoria do mesmo.

O mesmo texto, com algumas alterações de carácter curricular foi publicado pelo Departamento de Cultura do Concello de Vigo, por altura da exposição naquela cidade de trabalhos integrados no Encontro Vigo Coimbra, em Maio de 1989

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Quase todas as cidades de características peculiares ou fecunda história tive­ram os seus pintores, artistas que as compreenderam, que as amaram e souberam captar aquilo que as individualizava e tornava distintas das restantes. Poderá dizer-se que, até hoje, tal não aconteceu com Coimbra, pese embora que os seus recantos mais típicos ou a larga mancha do seu casario modesto em anfiteatro cubra centenas de telas, a maioria das quais executadas já neste século.

Parecerá isto uma contradição, mas não é a mesma coisa ser um pintor da cidade ou alguém que pinta a cidade. O primeiro é o que a ela se dedica de alma e coração, exclusivamente, permitindo-se, quando muito, uma escapadela a um tema marginal, para logo regressar. O segundo usa a cidade como motivo, de quando em vez, como mais um dos do seu reportório. Foi isto o que se passou com Cristino, ainda no final de Novecentos e sobretudo com Fausto Gonçalves e José Contente, mais recentemente, só para citar alguns dos que já nos deixaram, há várias décadas.

Alta - Bota Abaixo; acrílico s/ tela s/ platex, Costa Brites, 1984-86

Alta – Bota Abaixo; acrílico s/ tela s/ platex, Costa Brites, 1984-86

Coimbra não teve até hoje, como Lisboa teve Carlos Botelho e o Porto António Cruz, quem a elegesse como motivo primeiro e permanente da sua arte. Por isto, se outras razões não houvesse, a pintura de Costa Brites teria já de ser tomada em conta.

Mas a representação da cidade na pintura ocidental não foi sempre a mesma. Entrando pêlos séculos dentro, vamos encontrar a urbe como mero marco de refe­rência de passos da História Sagrada ou da crónica dos feitos dos grandes deste Mundo, seja na iluminura ou nas tábuas e murais que, na Idade Média, decoravam as casas das instituições religiosas. Como entidade autónoma, merecedora do primeiro ou exclusivo plano, apenas temos Jerusalém, a terrestre ou a celeste, consoante os casos, mas, sempre, uma construção ideal.

Na Renascença e no Barroco a cidade é o cenário, é apenas o espaço onde o homem desenvolve a sua actividade ou o marco que evoca o lugar de martírio ou de milagre das hagiografias ou da Vida de Cristo.

Santa Clara-a-Nova, acrílico s/ tela s/ platex, Costa Brites, Costa Brites, 1987

Santa Clara-a-Nova, acrílico s/ tela s/ platex, Costa Brites, Costa Brites, 1987

Seria necessário esperar por Canaletto e Guardi, para que a cidade se tornasse digna de ocupar o trono das Musas, fundindo-se assim a fonte de inspiração com o próprio objecto. Mas foi breve a vida deste realismo urbano.

Estes dois pintores, e esquecemos necessariamente outros menores, dedica­ram-se a Veneza com paixão, souberam vê-la e, mais que isso, transcrevê-la. A sua identificação com as águas da laguna, as fachadas das igrejas e palácios e com os corsos foi tal que, nas suas telas, Veneza não só se vê, como se ouve, se cheira e se sente.

O Romantismo e a viagem, esse primeiro turismo, provocou o incremento das pinturas de cidades, mas agora só interessavam as recordações, os trechos mais pito­rescos, os apontamentos monumentais.

O caso de Costa Brites está, indiscutivelmente, mais próximo dos de Canaletto e Guardi que de qualquer outro pintor que antes referimos. Para ele Coimbra é o objecto exclusivo da sua arte, que estuda, descobre, entende, vive e representa. Porém, este artista não é o fotógrafo da cidade, o pintor-fotógrafo melhor dizendo, que hoje, aliás há já um século, não tem razão de existir. A Coimbra de Costa Brites não é a real, como à primeira vista parece. Nem todos aqueles telhados lá estão, nem todas as cores são aquelas, nem todas as ruas têm aquela inclinação. Mas é Coimbra, indiscutivelmente, que todos vemos nas suas telas, que todos reconhecemos e, mais que tudo, profundamente sentimos.

Chiado, Praça Velha / acrílico s/ tela s/ platex, Costa Brites, 1986

Chiado, Praça Velha / acrílico s/ tela s/ platex, Costa Brites, 1986

Como é então isto possível. Como explicar que tomemos, de novo, a nuvem por Juno, que aceitemos a ilusão por realidade, sem um protesto. É aqui que reside o grande mérito do artista. É por isto que é artista e não artífice.

Ele capta o que há de essencial, enfatizando-o, desprende o acessório ou relega-o para um plano secundário, de quase adorno. Não se limita a olhar e reprodu­zir, antes interpreta as formas, as cores, os espaços e recria-os, balançando entre a verdade e a miragem.

Este processo não é fácil, não é imediato, e Costa Brites tem vindo a aperfeiçoá-lo. Pouco a pouco as pessoas foram varridas das telas, saíram das ruas, os meios de transporte volatilizaram-se e apenas ficou a paisagem urbana — paredes, vias, árvores, etc. Mas a Coimbra de Costa Brites nem por isto é uma cidade fan­tasma. Não notamos a falta das gentes nas ruas. Pelo menos nós, os que aqui nasce­mos ou que aqui vivemos já há muito tempo. Porque, afinal, como o amante ciu­mento, todos queremos a cidade apenas e só para nós. Por isso aceitamos a ausência dos outros, mais, aplaudimo-la, para, no silêncio daquela luz fria e uniforme a pos­suirmos ou sermos por ela possuídos, numa cumplicidade em que o secretismo é parte fundamental.

Rua dos Bazares, acrílico s/ tela s/ platex, Costa Brites, 1992

Rua dos Bazares, acrílico s/ tela s/ platex, Costa Brites, 1992

Em toda esta pintura, há o mérito de a ela aderirmos de imediato, somente quando amamos o objecto há muito e não à primeira vista.

Percorrer a obra de Costa Brites não é apenas um passeio turístico por mais uma cidade, pitoresca aqui, monumental acolá. Percorrer a obra de Costa Brites é penetrar fundo na essência de um espaço vivido e construído por gerações, de onde o artista previamente arrancou tudo o que podia distrair a atenção, desviar o olhar e perturbar os sentimentos.

Trabalhos morosamente elaborados, eles estão longe de ser frios, calculistas e pretensamente rigorosos. Apenas que nem todos amam da mesma maneira. À fugaz paixão, violenta até, dos impressionistas, opõe-se aqui a constância de quem saboreia cada momento, longa, longamente.

 

Pedro Dias

Armando Martinez – Conjunto escultórico megalítico Mealhada

Sete blocos de pedra com formas petroglíficas formam um círculo mágico com seu portal virado a nascente. Na face exterior, o lado terreno, definido por elementos esculpidos em alto relevo, são a ligação do homem à mãe Terra, iluminada pelo Sol.
Na face interior, o misticismo, representado por figuras de deuses em baixo relevo que caminham na Terra sob o obscuro mistério da Lua. O círculo mágico encerra dentro de si uma mesa… Mesa mágica de agradecimento pelas dádivas ao universo e à vida…

Mealhada 21 – 06 – 2010 (placa identificativa da C.M. da Mealhada)

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NOTA:Este projecto, de autoria de Armando Martinez, foi executado por ele próprio, com a colaboração de três escultores seus amigos: Fernando Martins, Santos Carvalho e Xico Lucena.

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Do druidismo e da cultura céltica, do coração antiquíssimo da idade da pedra, vem visitar-nos a sugestão de um espaço diferente de todos os outros, mescla inventada por um escultor habituado a calcorrear serras em busca de fósseis de todos os animais desaparecidos há milhões de anos, pedras ornamentais, blocos maciços de pedras duras ou duríssimas de todas as cores e consistências, picadas à mão com esforço doloroso ou cortadas à máquina, conforme a altura, a espessura e a tonelagem.
Espaço diferente de todos quer dizer: espaço igual apenas a si próprio, inventado pela sugestão de tempos apenas imaginariamente concebíveis, feitos por homens que apanhavam animais ferozes à mão, que se protegiam do frio com as peles curtidas desses animais e que acabavam por desenhá-los um dia na pedra, como desenhavam o sol ou a lua, a vulva materna fundamental, o guerreiro, o caçador, o gamo, os peixes e todas as coisas principais, com perfil de antemão concebido para enfrentar milénios.
Tais homens existiram e deixaram sinal de si como talvez muito poucos agora consigam fazê-lo, emaranhados no novelo da multidão confusa de tudo o que não pára na cabeça, porque não descansa no olhar tempo suficiente e não ganha direito ao silêncio merecido pela contemplação íntima.
É preciso talento sentimental de humanidade para sonhar vidas como essas, diferentes de tudo que podemos imaginar no precipitado quotidiano destes dias. É preciso uma enorme ternura de solidariedade, um poética energia da memória, e a vontade de viajar no tempo quem sabe, para nos lembrarmos lucidamente do que fomos nós mesmos nessa remota fúria original.

Armando Martinez - Conjunto escultórico megalítico Mealhada

Costa Brites e Armando Martinez


Os meus parabéns aos cidadãos da Mealhada

As minhas felicitações ao povo da Mealhada são a resultante da visão apreciativa que me mereceu uma obra do património monumental doravante entregue à utilização de todos que ali vivem.
O monumento está ali, desafia o olhar de quem observa e responsabiliza também o cidadão que passa. Se é notável na sua concepção, se está bem enquadrado na natureza organizada pela mão do homem, deve ser estimado e, mais do que isso, deve merecer um comentário. A indiferença dos cidadãos pelas obras públicas que favorecem a sociedade de forma objectiva, contribuem para a desmoralização de quem as imaginou, realizou e promoveu à condição de objectos reais.
Tendo buscado na internet (que é onde está tudo) não consegui saber a respeito dessa certa obra monumental nada mais do que o trivial das declarações de inauguração política, em fraca notícia mínima. Esta pobre documentação de uma peça monumental é aliada muito útil da indiferença dos cidadãos. Se a obra tem valor, se foi erigida com consciência e determinação, o esclarecimento deve estar presente de forma explícita e o recado da sua importância deve ser redigido antes − de modo que, passando por ela um grupo de crianças e de professoras, não a tomem como imprestável ou ausente.

A porta aberta para o nascer do Sol

A porta aberta para o nascer do Sol

Parabéns pois aos cidadãos da Mealhada porque dispõem, num sítio espaçoso e muito belo, de um lugar óptimo para fazer congressos, ou convénios, ou festivais, ou qualquer outra coisa destinada a amantes da visão retrospectiva da longuíssima aventura dos homens sobre a terra.
Fiz o meu juizo, tirei as fotografias, mostro-me com gosto ao lado do artista, cumpri o meu dever de cidadania da sensibilidade. Espero agora que todos os cidadãos da Mealhada cumpram a sua parte. Apreciando o que deve ser apreciado, vivendo a vida com gosto, tomando o Sol ou uns pingos de chuva que também faz falta, passeando com os amigos ou com a família, ou solitariamente se assim for desejável e propício à temperatura da alma, deixando o coração bater ao ritmo que puder com a serena consciência do prazer de estar e de ser.

Tintim na Lousã

acrílico sobre tela de 0,75 x 0,85, copiado de HERGÉ, L'Affaire Tournesol, prancha 25, por Costa Brites, 1981

acrílico sobre tela de 0,75 x 0,85, copiado de HERGÉ, L’Affaire Tournesol, prancha 25, por Costa Brites, 1981


É perfeitamente dispensável, quando se fala de Tintim, referir atitudes cheias de selecta paixão, como o fez Hergé por suas próprias palavras, a respeito de algumas qualidades do seu herói: “… o heroísmo, a coragem, a sinceridade, a malícia e o desembaraço”.
Tintim não usa porta-moedas, não preenche declarações de IRS, não tem horário de trabalho e, se sai de casa, não deixa atrás de si preocupações ou compromissos de pais, irmãos ou avós. Não é adepto de nenhum clube de futebol, não tem religião e, como se tudo isto fosse pouco, também não é casado nem sequer tem namorada.
Por tudo isso, Tintim entra no domínio da abstracção, do encantamento distanciado de quem se dá ao luxo de ignorar toda a realidade e arredores. Por arredores quero eu dizer: o amor, o compromisso, a dor, o sacrifício e todas as outras coisas que – diz-se – fazem da vida uma coisa que merece ser vivida. E no entanto… quem não tenha mergulhado numa aventura de Tintim com toda a alegria desprendida deste mundo que atire a Hergé a primeira pedra.
Na minha família mais chegada já vamos na terceira geração de tintinófilos e, atendendo à idade de oitenta anos a que chegou o herói, não é possível pedir mais à tintinófilia familiar. Com uma grande diferença: quando eu era miúdo esperava uma semana longamente ansiosa por mais uma magnífica prancha de saborosas aventuras. Os meus filhos já se regalavam com um álbum inteiro de cada vez, Natais, aniversários, etc. Quanto ao Senhor meu neto, recebeu de uma vez todos os álbuns que havia disponíveis na livraria, com encomenda feita dos números que faltavam. Depois queixamo-nos que a juventude é consumista, que exagera nas suas reivindicações e que é insolente: nós é que temos a culpa. Sirva-nos como indulgência o facto de ter mergulhado com entusiasmo na leitura real e dedicada dos álbuns da primeira à última página, o que não deixa de ser obra num petiz que apenas agora começa os seus anos de escola e já domina com gosto a arte da leitura. De quem é a virtude? da arte de Hergé, não tenhamos quaisquer dúvidas.
Tintim funciona agora como funcionou no passado em tudo aquilo que tem de mais deliciosamente eficaz. Não faz falta a este breve escrito definir com rigor o que foi e é o fenómeno Tintim. Tomo a liberdade de falar apenas de uma obra que fiz com carinho paternal, isto é, uma tela com 0,75 m x 0,85 que ilustra a meu modo a noção da “linha clara”, a fórmula plástica que terá sido reinventada na Bélgica para as histórias de quadradinhos. Representa vinheta e meia da prancha número 25 do álbum “O caso Girassol”, ofereci-o ao meu filho mais velho, para pôr no seu quarto, em 1981, e está bem guardado na cave das recordações afectivas de toda a família. Digo reinventada porque, nada havendo de novo sob o sol, já muitas artes antigas visitaram com lucidez esse mundo pitoresco que Hergé também nos oferece, como documento vivo e palpitante de coisas, pessoas e paisagens que faz do nosso mundo aquilo que ele é no quem tem de melhor e, às vezes, de menos bom. Limito-me a referir, muito de passagem a arte fabulosa das estampas japonesas e dos desenhos da Pérsia, da Índia, da China e de tantos outros mundos conhecidos e desconhecidos.
“Last but not the least”, não esqueçamos outros atributos inerentes à figura do ladino repórter que não tem que se maçar a escrever notícias. Sendo uma espécie de cavaleiro andante de causas bem intencionadas, está muito longe dos super-heróis que as histórias de quadradinhos produziram às toneladas. É baixito, tem uma fraquíssima figura, as miúdas não lhe ligam bóia e – embora seja praticamente invulnerável a toda a espécie de acidentes sérios – não se livra, de vez em quando, de levar umas boas tareias!… Valha-nos o mito para acreditarmos que há em nós o fermento da divindade e que, se for intenso o talento de sonhar, também podemos um dia ir por uma ribanceira abaixo e levantarmo-nos logo de seguida para lutar por uma causa desinteressada, seja ela a mais acidental. Quem não salva a alma com muito terá de salvá-la com pouco e a alegria infantil é um universo cheio de virtudes que todos deveríamos saber habitar, para proveito e consolo de toda a nossa humanidade.

texto e a ilustração foram publicados na Revista de informação do SBC, no número de Janeiro/Fevereiro de 2009.