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Um reencontro, passagem para diante

Pintura, acrílicas s/ tela, 100 cm x 89 cm, Holly Wood 2008, Costa Brites

Pintura, acrílicas s/ tela, 100 cm x 89 cm, Holly Wood 2008, Costa Brites

Por artimanhas da contemporaneidade digital fiquei sem página pessoal, o que – numa certa ordem menor das ideias – é uma condenação à insignificância e ao silêncio, isto é, à morte.
No seio da minha cultura antiga (quer dizer, presente e actual) a morte não é o fim. Antes pelo contrário. Primeiro porque todo o saber frutificará, toda a semente germinará, todos os gestos serão reencontrados.
A primeira transcrição verídica deste facto está no seguinte: ao realizar uma viagem de regresso a imensos sinais do meu labor, encontro tudo. Passagens, saltos, atrevimentos, desejos e nem é preciso avançar para esse outro território que os poetas atravancaram de gente confusa e perdida: o sonho.
Nunca me encontrei a gosto ali. Não tive tempo nem paciência. Muito talento ocioso e sem destino.
O sonho para mim é um lugar que sempre se menciona, mas um chão que se pisa sempre de passagem.
Amar, o que se diz amar, não se pode realizar em sonhos. Fazer filhos é um sonho, isso sim que é um sonho. Contudo os filhos não são “chão nosso”. O chão assim sonhado, é deles. Essa é a única modalidade valiosa de sonhar: Construir, dar vida, passar adiante.

Este lugar digital é, pois, uma tentativa de ser. Um reencontro com coisas que, se não forem ditas a tempo, não terão existido. Para os outros, claro. Para mim, não só tornarão a ser, como sempre se renovarão e transformarão infinitamente.
Ao reencontrar os gestos, os passos dados; ao revisitar as visões elas são sempre uma metamorfose de outra coisa mais simples e imediata. Uma visão revisitada oferece mais e melhor. Mais completo, mais significativo e sempre diferente.
Isso confirma plenamente aquilo que disse no começo: toda a semente germinará, todo o saber frutificará. E os gestos reencontrados terão um desenho mais aberto. O riso ecoará pelas paredes do tempo em harmónicos mais complexos; As palavras terão descoberto novos significados.
E mesmo que ninguém venha de visita, o que aqui fica não é do sonho. São factos vividos, passagens para diante.

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Um artista pode ser muitos

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Ah, não ter sido Madame de harem!.../desenho s/ Steinbach-Malmedy c/ aguada de acrílico/ Costa Brites 1995

Ah, não ter sido Madame de harem!…/desenho s/ Steinbach-Malmedy c/ aguada de acrílico/ Costa Brites 1995

Há artistas cuja obra é como um grande continente, com suas estendidas paisagens, suas colinas, vales e todo o género de variados horizontes. Se desfrutam dessa “condição continental” é porque apresentam consigo um nexo entendível de continuidades, podendo passar-se daqui para ali tendo a impressão de que se estar a pisar “terreno vizinho” em coerência de entidades legíveis. Haverá outros artistas cuja produção é como um arquipélago de ilhas bem diferentes, cada uma com o seu clima, a sua atmosfera particular, tendo entre si a vastidão de intervalos diferenciadores de atitudes correspondentes não apenas ao teor do instante ou da circunstância. Cada ilha decorre de uma continuidade diferente, como se não fosse apenas o corpo, mas a cabeça, o coração e a vontade que as diferencia entre si. É deste género de pluralismo que se alimentam certas vontades e, se me for permitido assumir uma destas configurações, é a segunda que melhor diz respeito ao tipo de viagens que tenho empreendido através do “largo mar do silêncio”.
A cada uma dessas independências corresponderá o que se poderá chamar um heterónimo, porque se trata de uma entidade própria, específica, com gestos, argumentos e toda uma autonomia significativa e expressiva. São como autorias diferentes, ficando à argúcia de quem contempla confiada a tarefa de adivinhar ou decifrar laboriosamente qual é o profundo leito de convergências que liga entre si tal espécie de diversidades. Este endereço vai procurar apresentar de forma tanto quanto possível organizada essa variedade, talvez só aparentemente descontinua, de formas de ver coisas através do olhar da imaginação. O meu arquipélago de continuidades distintas que entre si partilham segredos comuns, cuja travessia pode efectuar-se com uma animada agitação da brisa e das vagas, sem o risco de naufrágios, na companhia de monstros amáveis e de aves de plumagem variada cujas garras não ferem ninguém, e cujo grito apenas clama por quem queira atravessar também a frescura espaçosa do mar da curiosa confidência.

Costa Brites

Ah, não ter sido Madame de harem!.../grafite e acrílico s/ tela/ Costa Brites 1996

Ah, não ter sido Madame de harem!…/grafite e acrílico s/ tela/ Costa Brites 1996

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Museu do Vinho da Bairrada, em Anadia, visita temática e exposições temporárias, a não perder

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prospecto do Museu do Vinho da Bairrada

prospecto do Museu do Vinho da Bairrada

Esta notícia foi publicada no Diário de Coimbra de 2 de Dezembro de 2008

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Se o leitor se interessa por motivos de natureza cultural e não está a pensar deslocar-se em breve a Anadia, acho melhor que mude imediatamente de ideias. O tão conhecido consumismo faz as pessoas viajar muitos quilómetros (se preciso for, de avião) não levando em conta coisas aqui tão perto e de tão grande valor. O Museu do Vinho da Bairrada é um centro cultural de elevado nível, dotado de arquitectura notável, espaços e infra-estruturas muitíssimo respeitáveis alojando, para além das visitas temáticas permanentes que propõe em conceito de modernidade e avanço tecnológico, um programa sustentado de valiosos acontecimentos temporários, três dos quais tenho o prazer de comentar hoje, muito resumidamente. De autoria de artistas originários da região da Bairrada, criativos que a si mesmo se intitulam “os Eugénios” (Fernando Jorge, Luís Gamelas, Luís Santiago, Augusto Formigo e Eugénio Moura Inês) temos as “Eugeniaturas”, 70 caricaturas de individualidades diversas, oriundas quase todas do âmbito nacional lisboeta, onde vivem e prosperam os raros portugueses que fazem e dizem coisas, que “aparecem” na televisão e que são, enfim, mediáticos. O modo como esta exposição está montada constitui uma obra por si só, pela originalidade de contextualização dos diversos grupos de trabalhos, à qual não falta a particularidade de duas caricaturas (oh, céus!…) penduradas num edifício lá fora, longe, as quais têm de ser vistas… de binóculo!… Tal excentricidade não peca por excesso, antes condiz com a inteligência criativa e sentido de humor em evidência, que é o que se procura transmitir.

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“To play for time”, 117 x 286 cm, óleo s/ tela, de Gustavo Fernandes

Passemos em seguida à exposição de pintura e fotografia que assinala os 25 anos de carreira de Gustavo Fernandes. O conjunto de obras expostas é de uma intensa maturidade técnica, afirmando uma filosofia muito particular do objectivo e do subjectivo. O primor das execuções e o seu encadeamento simbólico configuram uma visão mais que do tecnicista, psicanalítica. A terminologia vulgar ou as categorizações de escola ficam aquém do que é dado a ver. Nem o surrealismo, nem o hiper-realismo, nem a matriz fotográfica resolvem só por si esta problematização do sonho, ou do pesadelo, que nos deixa sós de olhos abertos sobre uma realidade interior, sem tempo. Há silêncios feitos de ausência, horizontes de infinitude, materiais sem alma aparente vistos à lupa, rostos que se nos escapam, o senhor do boné que procura algo que está fora do quadro e a criança que esconde o seu olhar do animal imenso que (não) está lá. Na série dedicada ao vinho, espécie de uma vitalidade mitologicamente meridional ou de velhas ritualidades do sagrado, os símbolos imediatos da sua presença aparecem cruzados com um corpo fraccionado de mulher equivocamente despida/vestida e sem rosto. O pintor sujeita-se ao tema mas não consegue alhear-se da sua visão própria, intensa, violenta (a palavra sai-me, não posso evitá-la).

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“Viajante do tempo”, 130 x 215 cm, mármore s/ metal de Rogério Timóteo

Rogério Timóteo é o artista que protagoniza a terceira das exposições temporárias, constituída por um conjunto de esculturas e desenhos. Nas primeiras apresenta o cruzamento de materiais fortemente contrastantes: o ferro e o mármore; o Norte e o Sul de uma geografia dos sentidos; a vulnerabilidade da carne frente a tudo aquilo que lhe é exterior; o sangue e a técnica; o grito humano de encontro à funcionalidade do mundo. A fragilidade e a audácia do corpo encontram-se metaforicamente em evidência como elos de uma cadeia de tensões, colocados no ponto crucial de expansões energéticas: o desejo do voo, a proa do navio, as soluções de continuidade entre colunas assimétricas, a dor e o sacrifício. Os desenhos distribuem-se por dois ciclos, um mais formalista outro mais tumultuoso, mas ambos bem articulados com as peças restantes. É especialmente bem escolhida a forma de acabamento e cobertura das obras com resina acrílica, o que confere uma vibração lumínica que complementa bem a sóbria austeridade da técnica de registo. Embora cada uma destas três exposições denote uma forte personalidade, é de acentuar que cada uma delas pode coexistir com as restantes, dadas as qualidades arquitectónicas dos espaços onde são inseridas e a forma como este foi administrado pela organização das mesmas.